Dança com Demônios.
1 O garoto e a serpente.
Notas iniciais
Tá, eu sei que é um pouco longo para um só capítulo.A revisão não está lá aquelas coisas e talvez existam algumas irregularidades dentro da história de acordo com o próprio mundo onde ela se passa, mas estou escrevendo aos poucos e com todo o carinho do mundo.
Era fim de Outono e uma forte tempestade caia incessantemente, castigando as folhas das poucas árvores que cresciam em uma extensa pradaria que se estendia pelo horizonte. Cortando essa pradaria, uma sutil estrada de terra crescia em linha reta, onde um homem andava vagarosamente, paciente em meio ao caos da tormenta.
Do céu cinzento e coberto de nuvens, as grossas gotas de chuva caíam e escorriam pelo manto que lhe cobria dos pés à cabeça, onde um capuz escondia a cor que deveria ter em seu rosto, com uma escuridão incólume. O manto, por sua vez, era negro como a noite, como o mar antes do alvorecer, sem resquícios de manchas ou sujeira, sem resquícios mundanos. Tal manto que tornava o seu protegido nada além de uma sombra andarilha.O homem atravessava a pradaria como se tivesse todo o tempo do mundo ao seu dispor, sem parecer preocupado com o tempo ruim acima de sua cabeça ou com os raios que cruzavam os céus como serpentes pálidas em meio às nuvens. O homem não tinha medo dos raios, dos trovões, do vento forte que soprava do sul e por que haveria de ter? O medo de tormentas é comum em pessoas ignorantes. É o medo das coisas que não se pode controlar, coisa que o homem que ali caminhava em passos lentos, não sentia de forma alguma, pois conhecia as tempestades, conhecia do que elas eram feitas e como eram formadas e, até certo ponto, que estragos poderiam fazer. As conhecia como se conhece uma antiga namorada. O ser humano teme o desconhecido, não as coisas que lhe são claras; e aquele homem conhecia muitas coisas, coisas naturais ou não, velhas ou novas, simples ou complexas. Conhecia tudo como se tudo fizesse parte dele mesmo.É verdade, era um alvo fácil para qualquer raio que decidisse cair ali, sobre a pradaria, e isso não podia negar. Mas era um homem acostumado a ser perseguido pela morte, era um homem que vivia sentindo o frio hálito dela em sua nuca, pois ela o seguia, quase como sua própria sombra, desse modo, que medo haveria de ter dela? Viveria para sempre com medo, se assim fosse. Estaria trancado, em um porão, enclausurado com dezenas de cadeados, como qualquer homem sensato faria se estivesse em seu lugar. Mas ele o amava, amava o perigo que cobria cada esquina que pudesse virar, amava a sensação de poder morrer a qualquer instante e, sobre isso, pouco se pode dizer, a não ser que é assim que foi obrigado a se acostumar a viver, até parar de pensar na morte. Na própria morte, pelo menos, como é comum se pensar.Após muito tempo caminhando, como um fantasma errante na estrada, avistou em meio aos relâmpagos e o fim de tarde que cobria o céu escuro, construções do que poderia ser a cidade que estava procurando há tanto tempo. Continuou vagarosamente, silenciosamente, até chegar próximo às redondezas do local. Sim, era a cidade, ou pelo menos algo próximo do que pode se chamar de cidade. Assemelhava-se mais a uma pequena vila, com não mais do que um punhado de habitantes, mas isso não o preocupou. Não se importava com isso, contanto que pagassem o combinado.A vila era minúscula e, com um rápido passar de olhos, era fácil contar o número de casas e estabelecimentos, todos erguidos com madeira tosca e de aparência nada confiável para uma estrutura, além de estarem, com toda a certeza, infestadas de cupins. Não havia muralha de qualquer tipo em torno do local, tampouco guardas, por isso, o homem de negro entrou na cidade sem quaisquer problemas. Caminhou entre as primeiras casas da rua principal, que era apenas uma continuação da estrada lamacenta, observando o lugar. Estava vazio, ou pelo menos parecia, até ver de canto de olho, uma movimentação brusca em uma janela. Um homem o observava lá de dentro, com um rosto retorcido e desconfiado. Isso era de se suspeitar, claro, um homem vestido totalmente de negro andando em meio à chuva é algo que não passa despercebido, ainda mais em uma cidadezinha como aquela, onde forasteiros são incomuns.Se for pensar realmente, faz todo o sentido do mundo o homem estar desconfiado. Geralmente, as cidades pequenas tendem a abrigar pessoas muito supersticiosas, pessoas que nunca leriam um livro em toda a sua vida, se não fosse A Sinfonia.E dessa forma, pela primeira vez em anos, o homem sentiu que um ignorante, seguindo o seu instinto, poderia encontrar a verdade onde um sábio não se daria ao menos o trabalho de procurar, pois ele não era um sujeito comum, tampouco um simples forasteiro.Então, finalmente deu-se conta de um homem protegendo-se da chuva, sentado em um caixote sob a varanda de madeira do que parecia ser o maior edifício da cidade. Ele era um sujeito forte, de braços grossos, musculosos e bronzeados. Seu rosto era coberto por uma barba curta e castanha, assim como seus cabelos, que rareavam no topo da cabeça. Vale a pena dizer que seus olhos eram ferozes, como os de um animal selvagem encurralado, mas mesmo assim, ao contemplar o homem de negro à sua frente, pareciam cobertos por um pequeno temor, em seu íntimo. Talvez tão íntimo, que estivesse escondido até mesmo dele próprio, mas não podia esconder do sujeito na sua frente.
— Olá. – disse ele, em um tom de voz grave, que combinava com o seu porte físico, enquanto levantava-se, tentando demonstrar que sua musculatura deveria assustar o homem que encarava. – está perdido?O homem de negro suspirou. Era claro que não o reconheceriam, o haviam chamado a mais de um mês, provavelmente já nem se lembravam do visitante que esperavam.— Não, eu não estou perdido, pelo menos se aqui for mesmo Meadoway. – a voz do homem era calma como o seu caminhar, digna do homem paciente que ele era. Parecia um sussurro em meio à tempestade que caia, mas mesmo assim, o sujeito pareceu ouvi-la. Porém, antes que ele pudesse responder, o homem continuou. – Sou Khain, enviado da Cinere Arcanorum.Ao citar a Cinere Arcanorum, a máscara do homem ruiu, como se tivesse visto um fantasma ou então percebido que o homem pudesse realmente ser algum tipo de fantasma ou coisa parecida. O fato é que seus músculos nada adiantariam ali, por isso, ele pareceu entorpecido ao reconhecer isso. Khain continuou quieto, em meio à chuva, sem responder.— Ah, claro... sim, a Cinere Arcanorum. Prazer, eu sou Jonathan, Jonathan Lough. – disse o sujeito, enquanto escondia a leve tensão que rodeou o ar entre os dois. – O Doyle disse que você chegaria em breve.— E aqui estou eu. – respondeu, sem floreios. Estava irritado até os ossos por vários motivos, entre eles, a cansativa viagem que teve para chegar até esse, como pensava em sua cabeça, fim de mundo. – Me leve até esse Doyle.— Não prefere esperar a chuva parar antes? – disse, enquanto se afastava um passo para trás, dando espaço para que Khain adentrasse na parte coberta e assim ele o fez, enquanto tirava o capuz.Jonathan pareceu desconcertado ao ver que, sob aquele capuz, escondido em meio a sombras, havia apenas um rosto branco e jovial, emoldurado por lisos cabelos negros que desciam até seus ombros e adornados por olhos escuros e frios.Essa seria a descrição que um cidadão comum de um pequeno vilarejo faria, pois ele não teria a perspicácia de ver através do que havia para ser visto ali. O fato é que, um sujeito mais curioso, mais inteligente e, em alguns casos, mais atento, perceberia que aquele não era um rosto comum. Perceberia que a palidez em seu rosto era diferente, quase doentia, sem sinais de sangue por dentro da carne, como o de um homem morto que passou muito tempo debaixo d’água.Já seus olhos, eram negros e puros, não refletiam brilho algum, nem a luz dos raios que cintilavam no céu. Olhos cansado, repletos de sutilezas em seus movimentos, como se tivessem visto tudo o que existe para ser visto e nada mais lhe fosse novidade. Tudo isso sem levar em consideração a dificuldade que era para discernir o sexo dele. Vale lembrar que, mesmo em meio a densa chuva que havia tomado, seu rosto e cabelo estavam completamente secos.— O que foi? – perguntou Khain, ao perceber que o homem estava perplexo enquanto o encarava. – Não sou exatamente o que você esperava?— Nada, desculpe-me se o incomodei. – respondeu Jonathan, suspirando baixinho. Pareceu aliviado por Khaain não se tratar de nada anormal a primeira vista.Khain ficou quieto por alguns segundos, então se virou de costas para o homem e olhou para o céu, encarando as nuvens gigantescas lá em cima.— Não quer esperar a chuva passar? –perguntou Jonathan enquanto o vento aumentava de intensidade lentamente. – sabe, é do outro lado da cidade.— Tudo bem. – respondeu Khain, enquanto erguia o braço e afastava a manga do manto, deixando sua mão livre.A mão estava coberta com algum tipo de placa de metal escuro, que se dobrava em seus dedos, encaixando-se perfeitamente nas falanges, como se fosse parte de uma armadura. Na parte de cima, porém, cintilavam cinco pedras pequenas, incrustadas no metal. Uma delas era prateada, como o brilho da lua. Outra, azulada como o céu do meio dia. A outra, vermelho-escuro, como uma gota de sangue. A quarta era esverdeada como a folha viva de uma árvore majestosa. E a quinta, era dourada como ouro puro. Seus dedos, cobertos pelo metal, saíram da área protegida da chuva, assim, as gotas caíram sobre eles e escorreram, pingando sobre o chão.Jonathan sentou-se novamente no caixote, a julgar pelo barulho da madeira rangendo. Ficou algum tempo quieto, refletindo, então finalmente comentou.— Achei que vocês fossem mais velhos, sabe?— A maioria de nós realmente é, sou o mais novo do qual já ouvi falar. – respondeu Khain, ainda observando a chuva. – Conhecimento não vem com idade e sim com o tempo que você dedica a aprender.Jonathan riu baixinho, não de forma zombeteira, mas como se achasse aquilo divertido.— Você fala como um velho.Khain virou-se para o homem e encarou-o com seus olhos frios.— Todos dizem isso. – retrucou, dando de ombros, enquanto levantava o braço esquerdo, afastando a manga comprida, revelando uma mão comum, e coçava o olho de forma desatenta.Logo percebeu que estava sendo muito duro com o homem. A viagem foi longa e difícil, mas ele não era o culpado, por isso Khain, apesar de toda a sua irritação, deu a si próprio um pouco de descanso e sentou-se no chão, com as pernas cruzadas. Vendo que Jonathan estava pouco à vontade, sentiu-se na obrigação de ser um pouco mais gentil. Tratava-se de gente simples, é verdade, ignorantes e quase selvagens, mas ainda assim, achou que seria melhor tentar conversar sobre algo simples.— Chove assim sempre por aqui? – perguntou, com a primeira coisa que lhe veio à cabeça. A velha história de falar sobreo tempo. Patético.— Não sempre, mas quando chove, é chuva desse tipo pra pior. – respondeu Jonathan. – Mas estamos todos acostumados por aqui. Todos menos os Hughes, que são donos das fazendas nas redondezas. Ficam irados com essas chuvas, perdem tudo o que plantaram recentemente. Nesse momento devem estar amaldiçoando deus e o mundo. – terminou, deixando escapar um riso seco entre os dentes.Khain passou a mão de metal sobre a parte da terra que ainda estava seca e desenhou um rosto simples.— Imagino... – comentou para não deixar o vazio silencioso preencher o espaço entre os dois, em seguida, rabiscou o que poderia ser um cabelo naquele rosto marrom no chão. Na verdade, não imaginava. Não imaginava como alguém poderia querer uma vida como aquela, de dono de fazenda, e nem como um desgosto como a chuva estragar a plantação poderia ser pior do que continuar vivendo daquela forma. – E você, o que faz? – perguntou, apesar de já saber a resposta.O homem estufou o peito, respirando fundo.— Eu sou o ferreiro da cidade. Faço de tudo um pouco, quando se trata de trabalhar com metais. – respondeu ele, enquanto passava a mão na barba. Então pareceu que algo lhe veio à cabeça de repente. — A propósito, o que aquilo na sua mão? Parece trabalho de primeira linha!— Ah, não é nada importante, só uma luva de aço-negro. Na Cinere Arcanorum, chamam de Punho De Ferro, apesar de eu achar o nome um tanto quanto inapropriado. Soa meio clichê, dramático demais. – Respondeu Khain, enquanto esticava a manga do manto e erguia a mão de aço-negro no alto, mostrando-a. O ferreiro inclinou-se para frente, interessando.— É forjado com magia? – perguntou. Seus olhos cintilaram.Khain deixou o braço cair e a manga escondeu a mão, deslizando por cima do aço. Depois, olhou para trás e viu que as gotas haviam diminuído sua frequência e caiam em número muito menor.— Acho que está parando de chover. Vamos? – disse, interrompendo o assunto bruscamente, enquanto se levantava lentamente. Seu manto continuou completamente limpo, sem qualquer mancha de terra, do chão sobre o qual havia se sentado.Jonathan achou melhor não insistir no assunto da mão, por isso resolveu que seria melhor ir. Apesar de tudo, não queria perder tempo além do necessário, estava fascinado com a possibilidade de ver um aluno da Escola em ação.— Vamos, é por aqui. – respondeu, enquanto se levantava do caixote e andava em direção à parte onde a varanda não mais o protegia das gotas que ainda caiam.Khain colocou o capuz e o seguiu.Eles caminharam pela cidade vazia, atravessaram as ruas de terra e as casas mal construídas, sem dizer palavra alguma. Khain percebeu algumas pessoas nas janelas, escondidas atrás das cortinas, observando-o, como se fosse algum animal raro do qual tivessem medo.Quando a lua surgiu no céu e os últimos raios de sol desapareceram no horizonte, Jonathan parou de frente a um sobrado, o que não quer dizer que fosse uma casa grande.
O homem bateu na porta com força e olhou para trás, repousando os olhos sobre Khain.— Acho melhor você tirar o capuz, pode assusta-lo. Ele é meio velho, se é que me entende.Khain jogou o capuz para trás e passou a mãos nos cabelos compridos, ainda completamente secos, afastando-os dos olhos. Então, um pequeno pedaço de madeira moveu-se na porta, abrindo um pequeno vão, onde dois grandes olhos encararam os dois homens do lado de fora. Em seguida, a porta foi aberta, com um rangido, mostrando um homem parado junto à soleira. Era um homem não muito velho, devia ter seus quarenta anos no máximo, mas era bastante alto, com olhos pequenos desenhados em um rosto cansado. O pouco cabelo que tinha sobre a cabeça estava despenteado, com algumas partes amassadas e outras arrepiadas, como se tivesse acabado de acordar.— Jonathan, que surpresa agradável... – disse, com uma voz mansa, como se falasse com uma criança. Em seguida, pousou os olhos sobre Khain e voltou-os para Jonathan quase que em seguida.— Olá, Doyle, é um prazer ver que está bem. Espero não ter chegado em uma hora ruim. – disse o ferreiro, ao ver que o homem estava vestindo roupas de dormir e tinha os olhos cansados de sono.Doyle pigarreou e sorriu com os poucos dentes que permaneceram em sua boca.— Claro que não, toda hora é hora de encontrar os amigos. – respondeu, mostrando uma gentileza sutil. – E quem é esse seu amigo ai atrás?Jonathan virou-se e estendeu a mão em direção a Khain, como se mostrasse um objeto que pretendia vender.— Esse é o Khain, ele é enviado da Cinere Arcanorum. – disse Jonathan, tentando demonstrar mostrar-se mais alegre do que parecia estar, abrindo um sorriso amarelo.Doyle passou os olhos dos pés à cabeça de Khain.— Ah sim... – começou ele, enquanto piscava os olhos e encarava o garoto, olhando-o com curiosidade. – Achei que vocês fossem mais velhos. Mas agora entrem, por favor. Acabou de anoitecer e não se sabe o que espreita por ai. – completou, antes que Khain pudesse responder.O garoto olhou para Jonathan, que deu de ombros, e então, ambos entraram enquanto Doyle se afastava e abria a porta.A sala era pequena e mal iluminada, simples como uma casa do interior tem o direito de ser. Os móveis eram poucos; uma mesa de madeira preenchia metade do espaço entre uma parede e outra, rodeada de pequenas cadeiras e banquinhos. Em um pequeno móvel em um dos cantos, três velas queimavam em um candelabro de cobre, trazendo uma tímida e amarelada luz para o local. No outro canto, um pequeno armário mostrava as louças da casa: meia dúzia de pratos e copos.Doyle circulou a mesa e foi até o armário, onde abriu uma pequena porta na parte de baixo e tirou uma garrafa de vidro, então passou a mão sobre ela carinhosamente e a assoprou, tentando tirar o pó.— Por favor, sentem-se. – disse, enquanto colocava a garrafa sobre a mesa e pegava três copos.Khain olhou para o lado e viu que Jonathan já estava sentado, com o pé apoiado em outro banquinho. O garoto ficou aliviado por saber que Jonathan estava à vontade. Não que aquele homem pudesse fazer qualquer mal a ele. Longe disso. Mas por algum motivo, sentia-se um pouco inquieto quando se tratava de pessoas que não conhecia. Puxou um banquinho e também se sentou.Doyle encheu os três copos com o que parecia ser vinho e empurrou um para Jonathan e um para Khain.— Então garoto, como foi de viagem? – perguntou, depois de bebericar o vinho.Khain relaxou e se aconchegou no banquinho, depois levou a taça à boca e deu um grande gole. Fazia tempo que não bebia algo tão bom. A viagem tinha sido horrível; suas provisões haviam acabado no meio da viagem, pois, segundo as informações que tinha, encontraria a cidade em poucos dias. Graças a esse pequeno imprevisto, passou a viver de lebres mal cozidas, lagartos assados e outros animais silvestres que encontrou pelo caminho. Isso, fora as tempestades, que chegavam de repente, como golpes de chicote.— Foi ótima. – respondeu prontamente, não querendo demonstrar que teve alguns problemas.Jonathan olhou para Khain, de forma desconfiada.— Tem certeza? Geralmente, os forasteiros tem dificuldade pra chegar aqui por causa da localização. Dizem que é uma cidadezinha afastada do mundo. – disse, soltando um riso abafado.— Isso é verdade, aqui é mesmo um lugar um pouco distante de... qualquer outro lugar.Doyle riu junto com o amigo. Em seguida deu um grande gole em seu copo e encarou Khain com seus olhos caídos, de forma interessada.— Distantes das outras? É assim que preferidos, sabe? Sem muito contato com o mundo exterior. Os homens das grandes cidades tendem a complicar muito as coisas, dar nomes estranhos às coisas, usar engrenagens e correntes para tudo. – disse, com sua voz calma. Depois de uma pequena pausa, continuou. – vivendo aqui, pagamos muito menos impostos, temos espaço para fazermos o que quisermos e as nossas crianças não precisam ter medo de brincar fora de casa.Khain sabia a verdade. Sabia que o homem estava mentindo. Bastardos. Na Cinere Arcanorum, havia recebido a informação de que ali, naquela pequena cidadezinha, funcionava uma pequena rede que ajudava no comércio de pessoas para Ikhar’e. Era quase um posto de descanso para os traficantes de escravos, pois a estrada que ali passava, dava direto em Greedbay. Os homens ali, se aproveitavam disso e davam comida e estadia para os traficantes e suas caravanas. Aquilo irritava Khain profundamente, mas não era aquilo que havia ido tratar, então não havia motivos para criar problemas.— Ah, entendo. – disse, enquanto dava o último gole em seu copo e o colocava sobre a mesa, vazio.Doyle o encheu novamente, depois voltou os olhos para o garoto.— Você pode ficar aqui em casa, se quiser. Até terminar o trabalho. – disse, depois apontou para as escadas no fundo do aposento. – Só eu e a minha filha moramos aqui, então temos um quarto vago para hóspedes.Khain sabia que tipo de hóspedes Doyle alojava, mas recusar a oferta seria demasiado grosseiro, por isso, sorriu abertamente.— Claro. Seria um prazer.Um silêncio irrompeu no local durante os segundos seguintes. O garoto tinha certeza que os dois homens queriam abordar o trabalho que ele faria, de uma maneira que não parecesse tola, por isso, deviam estar pensando muito em como começar a falar sobre isso. Por isso, achou melhor ele próprio começar.— Vocês tem alguma informação sobre a criatura? – Disse, indo direto ao ponto.Doyle e Jonathan ficaram parados, sem fazer movimento algum. Parecia que, falar sobre aquele assunto, não os agradava, pois em seguida, seus olhos correram pelo aposento rapidamente.— Fale disso baixo, menino! – irrompeu Doyle, sussurrando de forma ríspida, inclinando-se sobre a mesa. – Não sabe como essas coisas são?Khain passou a mão em seus cabelos, afastando-os do rosto. Sabia exatamente como essas coisas eram. Estava claro que aqueles sujeitos supersticiosos teriam medo da própria sombra em uma noite sem lua.— Não se preocupem, já protegi a casa contra malefícios. – disse, de forma branda. Claro que era mentira, mas não havia forma de explicar para os dois sujeitos ignorantes do interior, que não havia problemas em falar em sua casa, seu local sagrado, do que para eles, podia ser qualquer coisa parecida com um demônio.Doyle encarou Khain, com os olhos semicerrados.— Tem certeza? Eu não vi nada disso e muito menos lhe dei permissão pra fazer essas coisas na minha casa.Khain bufou. Estava ficando cansado daquele joguinho. Provavelmente, os dois sujeitos temiam qualquer tipo de menção a magia ou qualquer coisa que desconhecessem a essência. Apesar disso, deviam achar que ele é como os magos de meia tigela que deviam ter passado pela cidade e ajudado a consertar objetos quebrados ou vendido anéis com falsas propriedades, por isso, resolveu fazer uma demonstração.— A magia trabalha de formas sutis. Vocês não podem vê-la, ouvi-la, mas isso não quer dizer que ela não está aqui.Doyle parecia ainda não acreditar e, apesar de estar certo, Khain não queria deixar transparecer que queria falar livremente sobre criaturas da noite dentro da casa do homem sem ter jogado qualquer feitiço de proteção. Precisava dar um jeito de engana-los, faze-los acreditar que podiam falar sobre o que quisessem ali dentro, mesmo que já fosse noite, pois havia alguém ali que eles não haviam notado. Alguém que os protegeria de qualquer coisa ruim que pudesse acontecer e, pensando melhor, talvez esse alguém tivesse realmente lançado qualquer proteção. Mas na dúvida, Khain resolveu que seria melhor aplicar algo ali.— Vejam bem. – disse Khain, enquanto enfiava a mão no bolso dentro de seu manto. – Tenho a sua permissão? – perguntou, encarando o homem, sem esboçar qualquer emoção.Doyle assentiu com a cabeça, curioso.Khain tirou de dentro do manto, um pequeno pedaço de giz branco e ali, sobre a mesa, desenhou um pequeno círculo. Dentro dele, um pequeno retângulo, com setas saindo das quatro extremidades, apontando para os quatro cantos da sala. Em volta do círculo, desenhou as letras A S D S E T, de forma muito simétrica. Novamente dentro do círculo, desenhou algumas inscrições que se assemelhavam com uma meia lua, duas lâminas de foices e uma calda com a ponta de seta.Jonathan afastou um pouco o corpo, inclinando-o para trás, com os olhos bem abertos pousados sobre o círculo.— O que é isso? – perguntou.— Isso, Jonathan, é o segredo do sucesso de um mago. – respondeu Khain, enquanto pegava o próprio copo e o virava, deixando cair duas gotas de vinho exatamente no centro do retângulo. Em seguida, colocou os dedos indicadores nas duas extremidades do círculo e fechou os olhos. Então, murmurou.— Circa effusus vinum, flamma crescant. Jurat in occulta atque fulgentem luna, pro anguis Reptantesque. Flamma crescant.Flamma crescant.Em poucos segundos, da minúscula poça cor de sangue ali feita pelas gotas da bebida, uma pequena luz acendeu. Logo, a pequena luz cresceu, sob a forma de uma chama avermelhada, que dançou perante os olhos dos dois indivíduos. Em seguida, apagou-se por completo, sem prévio aviso, enquanto Khain abria os olhos.Doyle e Jonathan observavam o garoto, de boa aberta, como se ele fosse magia em carne e osso.Ainda incrédulo com o que acabou de presenciar, Doyle passou a mãos nos olhos, esfregando-os vigorosamente.— Isso... isso foi magia de verdade? – perguntou estupefato, como se lhe faltassem palavras.Khain riu baixinho, tampando a boca com as costas da mão. Adorava ver como as pessoas comuns reagiam ao presenciar tal experiência. Era como contar mil vezes a mesma piada e continuar a achar graça.— Na Escola, não chamamos de magia. Temos vários nomes e termos técnicos, por exemplo, aqui, eu apliquei uma série de runas simples, depois igualei o nível térmico do vinho usando a minha própria energia... – começou Khain, mas parou no meio da frase, ao perceber que os sujeitos o olhavam como se ele falasse outra língua, por isso, resolveu exemplificar. – Apesar de tudo isso, pra vocês, isso foi magia e isso que importa.Jonathan pareceu mais interessado do que assustado. Parecia à beira de um milhão de perguntas, mas as engoliu. Em vez de fazê-las, percebeu que seria melhor ir direto ao assunto, pois ali estava provado que o garoto a sua frente não era pura e simplesmente um garoto comum que veio da cidade. Havia percebido isso ao encontra-lo no meio da chuva e agora, essa demonstração havia reforçado seu pensamento.— Acho que isso resolve a questão, não Doyle?O velho assentiu, agora encarando o garoto com outros olhos. Seu olhar, antes cansado e pouco desperto, parecia envolto de curiosidade.— Bom, já que estamos resolvidos, me falem sobre essa criatura. – disse Khain, enquanto empurrava o copo da direção de Doyle, para que ele o enchesse.— Bom, não sabemos muito dela, pra falar a verdade. Eu mesmo não a vi. – começou, enquanto derramava o líquido dentro do copo lentamente. Parecia estar falando mais baixo do que o normal, apesar de tudo, como se temesse que, seja lá o que fosse a coisa da qual queriam se livrar, estivesse lá fora, tentando ouvir a conversa. – Os cidadãos dizem que se parece com uma mulher alta, de pele branca e cabelos escuros, que anda nua pelas ruas da cidade quando a noite cai. Ela invade as casas sem arrombar as portas, sem quebrar as janelas, como se o fizesse com magia, e estrangula as garotas mais novas. Tudo sem qualquer barulho, como se nem os seus passos nos pisos de madeira emitissem qualquer som... – continuou, enquanto colocava a garrafa, agora vazia, sobre a mesa e empurrava o copo de volta.Khain ficou quieto durante algum tempo, refletindo. Levou a mão à testa, o cotovelo à mesa e ficou apoiado, de olhos fechados.
— Conte-me mais. Quantas garotas ela já levou? Quais as idades delas? Eram virgens?— Levou quatro das nossas garotas, eram jovens moças, com não mais do que dezesseis anos cada uma. Imagino eu que algumas delas fossem virgens sim, por quê?Khain voltou a calar-se. Permaneceu assim por vários minutos, em seus panoramas mentais, refletindo.— É um capricho deles... – disse Khain, ainda de olhos fechados. As informações eram muito poucas para se chegar a uma conclusão final. As criaturas da noite eram de centenas de tipos e muitas agiam de formas parecidas.— E o que ela é? – perguntou Jonathan, falando a frente de Doyle.— Não sei, talvez uma Ladra De Fôlego, que é como chamamos na Cinere Arcanorum. – começou Khain, afastando os cabelos do rosto e jogando-os para trás. – Ela aparece exatamente nessa forma, faz exatamente essas coisas. Asfixia, sabe? – ambos assentiram com a cabeça. – o problema é que ela geralmente tende a ser um espírito ligado à vingança e eu não sei o que ela pode estar querendo vingar. Acho que vou ter que mata-la sem saber.Doyle finalmente pareceu animado com a conversa. Abriu um pequeno sorriso e seus olhos se estreitaram, empurrado pelas bochechas flácidas.— Você pode mata-la? Jura? – perguntou ansioso.— Claro, se pode matar, pode morrer. – respondeu Khain, de forma ríspida.—-----------O quarto estava escuro e as únicas fontes de luz, eram a lua cheia, que cintilava prateada na grande janela de vidro e uma pequena vela, com não mais do que alguns poucos centímetros de altura, repousada em um prato de porcelana sobre a cômoda. O aposento não era nada grande, mas parecia cheio por conta dos móveis. Uma cadeira de madeira, a já citada cômoda ao lado da cama, a própria cama e um pequeno armário próximo da porta.Khain estava apenas com sua calça, sentado sobre a pequena cama com colchão de palha, virado de costas para a janela. A lua iluminava várias cicatrizes prateadas que cruzavam a sua pele em vários formatos diferentes. Além das cicatrizes, lá havia algumas marcas diferentes, escuras, com os mais diversos símbolos desenhados, como que em tinta preta.Mas não, não havia apenas isso naquele quarto. Lá, estava repousando algo que poucos perceberiam a presença. Algo maravilhoso e belo, que não pertencia, de forma alguma ao lugar em que se encontrava. Algo que estava além da compreensão dos dois grosseirões que Khain acabou de conhecer.— Aquela conversa demorou demais, meu querido. – disse uma voz baixa e feminina, vindo da escuridão onde, tanto a luz da lua quanto a luz da vela não conseguiam, ou temiam, iluminar. Era uma voz sedutora, leve como uma folha carregada pelo vento.Khain sorriu ao perceber quem estava ali com ele.— Nem percebi que já tinha voltado. – disse, enquanto encolhia os pés para cima da cama e massageava a sua sola. – meus pés estão doendo horrores, acho que vou ter que amputa-los. — brincou.— Eu os amputo, se me fizer massagem nas costas e um chá quente de ervas. – respondeu a voz, em tom ainda mais brincalhão. Em seguida, deu uma risadinha doce e singela, como de uma criança. – Eu devia te estrangular. Fazer com que eu fique naquela forma por tanto tempo, te protegendo da chuva, é cansativo demais!Logo, a dona da voz adentrou na parte iluminada. Tratava-se de uma mulher, uma bela mulher, mais bela do que poderia ser descrita com palavras de qualquer língua mortal. Sua pele era muito alva, iluminada pela luz prateada do luar. Alvos também eram seus cabelos, brancos e pálidos, porém lisos e compridos, descendo-lhe na altura de seus seios muito fartos. Seu corpo era escultural, digno de ser pintado em quadros, como os deuses esquecidos de antigamente, pois era magro e bem torneado, perfeitamente simétrico e imaculado, coberto parcialmente por um curto vestido, branco como seus cabelos, que lhe desciam na altura das coxas. Já seu rosto, era perfeitamente anguloso, fino e liso, límpido e sem marcas, adornado por uma pequena máscara que cobria seu nariz até a sobrancelha. Uma máscara preta e simples, com as extremidades levemente repuxadas. Não era uma mulher comum, sua beleza não era como a beleza de um mortal, era muito mais profunda, muito mais pura, como a própria beleza haveria de ser se tivesse uma forma física.— Desculpe! – riu-se Khain, enquanto esticava a perna na direção da mulher. – primeiro você. – disse, com um sorriso no rosto. Pela primeira vez, desde que chegou à cidade, sorriu de forma sincera. Feliz.A mulher abaixou-se, encarando o garoto com um olhar que misturava frustração e diversão ao mesmo tempo. Então segurou o pé esticado à sua frente, pelo calcanhar e começou a fazer cócegas. Khain começou a rir, primeiro baixinho, depois cada vez mais alto, enquanto seu corpo parecia à beira de espasmos. Ele tentava, durante isso, puxar o pé e livrar-se das mãos da mulher, mas seus esforços eram fracassados.— Eu, Lilith, Dama Da Noite e Serpente-Rainha, estou banindo em nome dos... – Khain tentou puxar com mais força e riu ainda mais alto. – Dá pra parar de gritar? Estou tentando banir esse encosto folgado que te persegue!O garoto, desesperado, atirou-se na direção da mulher, saltando de cima da cama. Ambos rolaram pelo quarto, embolados um ao outro, aos risos. Afinal, conseguiu livrar o calcanhar dos dedos de Lilith, claro, ela havia deixado. É impossível que ele tivesse força para se soltar se ela não quisesse fazê-lo.— Sua bruxa malvada! – disse Khain em tom brincalhão, enquanto tentava recuperar o fôlego e se afastava da mulher, ficando ajoelhado sobre o chão de madeira. – Sabe que eu odeio cócegas.— E eu odeio passar o dia todo na forma de um casaco, querido. – respondeu ela, prontamente, imitando a posição do garoto de forma irônica e apontando o dedo indicador para o garoto. – Nunca mais vou vesti-lo, não importa se estiver chovendo ácido ou fogo!Khain inclinou-se para frente e encarou Lilith nos olhos, com uma expressão maliciosa no olhar. Os doces olhos esverdeados dela cintilaram na escuridão.— Prefere tirar a minha roupa? – perguntou, tentando afastar a vontade de rir que subia pela sua garganta.Antes que Lilith pudesse responder qualquer coisa, ouviu-se o som de alguém batendo na porta do quarto. Uma batida leve e delicada, então Khain logo suspeitou que não se tratava de Doyle.— Você selou o quarto contra sons? – perguntou Khain, aos sussurros, assustado.— É claro que selei, meu querido. – respondeu Lilith, tocando o rosto do garoto com a ponta dos dedos. Então sua voz saiu um pouco mais sedutora do que de costume. – Acha que eu quero mesmo que aquele velho rabugento escute os seus gemidos no meio da noite?Khain virou o rosto.— Se esconde, faz alguma coisa. E, por Eltharys, nada incomum! – disse, enquanto se levantava vagarosamente do chão e ia em direção à porta. Confiando em Lilith, nem se virou para olha-la antes de abrir a porta.Khain se assustou ao perceber que, do lado de fora do quarto, uma garota estava parada. Era um pouco mais nova que Khain. A julgar pela sua aparência, não passando dos catorze anos. Era baixa e bonita, seus cabelos eram louros e lisos, dourados como trigo, enrolados em algumas trancinhas, contornando seu rosto branco, com algumas sardas de sol. Ela vestia uma roupa comum de dormir, com uma calça e uma blusa leves e confortáveis, de lã barata.— Você é o Khain? – perguntou ela em voz baixa, com uma doce voz que só uma garota de cidadezinha podia possuir.— Sou sim. Você é a filha do Doyle, não? – respondeu Khain, imitando a voz baixa dela.Ela assentiu com a cabeça. Apesar de todas as marcas e desenhos à tinta pelo corpo sem camisa do garoto, seus olhos repousaram na mão direita dele, onde o Punho De Ferro fechava-se em torno de sua pele.— Ah, isso aqui? – perguntou Khain, esticando o braço em direção a ela. – Ele em vários significados e várias utilidades para nós. Pena que depois que a colocam, não dá mais para tirar. — Ao perceber que a garota pareceu meio um pouco chocada, completou fazendo uma careta. – Dói horrores colocar isso aqui.A garota sorriu timidamente e voltou os olhos aos do garoto à sua frente. Pausou alguns segundos, provavelmente pensando nas palavras que iria usar, mas então fez a pergunta que tanto queria.— Você é mesmo um mago? Um bruxo?Khain não queria assustar a garota, por isso, resolveu contornar a situação. Geralmente, faria alguma coisa queimar ou estalar, algum clarão de luz, e isso resolveria a questão. Mas ali não, não queria afugenta-la.— Não sou bem um mago, não como os que você está costumada ouvir nas histórias. Nós só falamos que somos para assustar as pessoas sensatas. E, bem, você não deve ser muito sensata, vindo ao quarto de um homem, a essa hora da noite, com a probabilidade dele ser um mago ou bruxo.Ela riu baixinho, levando a mão à boca, para abafar. Em seguida, olhou ao redor, preocupada com o som que acabou de fazer.— Então, o que você é se faz magia e não é um mago?Khain olhou para ela, procurando uma resposta à altura da pergunta. Nunca tinha pensado realmente em como responder esse tipo de pergunta.— Veja bem... Como é mesmo o seu nome? – perguntou.— Sofia.— Veja bem, Sofia. Magia é o nome que as pessoas dão aos fenômenos que desconhece... por exemplo. – fez uma pausa e levou a mão à boca, pensativo. – por exemplo... pegue uma pessoa que nunca teve contato com o álcool. Depois, pegue um copo e encha de álcool e jogue um fósforo aceso. O que ele vai pensar ter visto é alguém colocando fogo no que ele imagina ser água, logo vai ligar isso à magia, entende o raciocínio?— Sim. Acho que sim.— Pois bem, é isso.Sofia olhava Khain fixamente, como se ele fosse um animal exótico. Claro que ela não devia estar acostumada àquele tipo de gente em sua casa, ou talvez àquele tipo de conversa, por isso era totalmente compreensível.— O que foi? Tem certeza que entendeu?— Não, não é isso. – respondeu a garota enquanto sorria de canto de boca. Ambos ficaram se olhando durante algum tempo.Khain parou então para pensar. O que teria dado na cabeça daquela garota de ir ao encontro de um mago no meio da noite? Isso não era insensatez, era burrice! Com isso na cabeça, decidiu ler a garota.Concentrou-se durante alguns segundos, fazendo força para não fechar os olhos. Conectou-se lentamente com o íntimo de Sofia, ligando as ramificações de suas emoções às dele próprio e então finalmente percebeu. Havia uma grande angústia nela.— Tem algo que a está incomodando? – perguntou, fingindo ainda ter dúvidas sobre isso, enquanto abaixava e a olhava nos olhos. – Pode me contar, não tenha medo. Não vou lhe fazer mal algum.Ela hesitou. Olhou para baixo e encarou os dedos dos pés descalços sobre o assoalho. Khain sabia que ela precisava de tempo para responder, então não insistiu.— Se não quiser falar, tudo bem, Sofia.Ela demorou, ficou calada durante algum tempo, mas finalmente falou.— Tenho medo de que ela venha atrás de mim. Sinto pavor de dormir, todas as noites, acho que ela está entrando na minha casa, subindo as escadas...Khain esticou o braço e tocou o rosto dela com a mão esquerda, roçando a ponta dos dedos em sua bochecha, assim como Lilith fazia com ele.— Não se preocupe. Pelo menos essa noite, você pode dormir sossegada. Eu estou aqui e selei essa casa com magia poderosa.- frisou a palavra ‘magia’- Mesmo assim, se ela conseguir entrar aqui, apesar de todas as proteções que coloquei, eu ficarei sabendo rapidinho e, juro pelo brilho dos meus olhos, que não deixarei que toque em você. — Então, com o dedo indicador, tocou o queixo de Sofia e puxou-o para cima, levantando o seu rosto delicadamente. – entendido?Ela o fitou e Khain sentiu que uma pequena fagulha iluminou o interior dela. Não era muito, mas era alguma coisa.— Mas os seus olhos... eles não brilham... – disse ela, fitando-o.Khain fez uma cara desconcertada e em seguida, uma careta. Não imaginou que ela repararia nisso tão rapidamente.— Então eu juro pela cor do meu sangue. – disse ele. Mal sabia ela que também não podia jurar por isso também. – agora, vá dormir, antes que o seu pai acorde e ache que estamos fazendo algo errado. – completou, enquanto movimentava a mão como se espantasse um cachorro.— Tudo bem. Obrigado. – sorriu ela, enquanto virava o rosto e andava lentamente pelo corredor escuro lá fora, tentando não fazer barulho quando pisava no chão de madeira.Khain fechou a porta e apoiou a mão nela, em seguida, respirou fundo e bufou.— Achei que ia beija-la. – disse Lilith às suas costas, fingindo uma voz brava.Khain virou-se para ela, seus olhos escuros estavam agora avermelhados, em sua parte branca e brilhavam. Não o brilho comum dos olhos. Brilhavam repletos de lágrimas.Lilith caminhou em sua direção e colocou seus braços em volta dos ombros do garoto, confortando-o com o calor de seu toque sutil e repleto de magia. Logo, Khain soluçava pesadamente, com as mãos à frente do rosto.— Está tudo bem, meu querido. Pode chorar, faz bem e limpa a alma. – sussurrava ela em seu ouvido, enquanto passava a mão em seus cabelos. – Eu te amo, está tudo bem. Está tudo bem. Calma.Khain chorou como não chorava há tempos. Ali, acolhido nos braços da criatura mais linda a pisar sobre a terra, deixou as lágrimas rolarem pelo seu rosto pálido como a morte. Rolarem de seus olhos escuros e cansados, repletos da mais profunda melancolia.—-----------O céu amanheceu limpo e claro, como se a tempestade do dia anterior tivesse sido apenas um sonho distante. Pequenas nuvens espalhadas contornavam lentamente a imensidão azul, como flocos de algodão, por vezes tampando a forte luz do sol que irrompia pela janela do quarto, inundando-o com seu fulgor. Lá dentro, deitado com a cabeça sobre o colo de Lilith, Khain repousava em silêncio, com os olhos fechados, inchados da noite em claro. Lilith, por sua vez, permanecia incólume como se tivesse dormido em uma cama de plumas. Seus dedos roçavam o couro cabeludo do garoto, acariciando-o de leve.— Quanto tempo faz que você não dorme, meu querido? – perguntou ela, finalmente. Esteve esperando uma oportunidade para essa pergunta e, como não conseguiu nenhuma abertura, resolveu que ali seria o melhor momento.— Porque faz perguntas que já sabe a resposta?- retrucou Khain, com a voz arrastada.Lilith bagunçou os cabelos de Khain, mexendo sua mão de um lado para o outro, fingindo uma leve irritação. Khain abriu os olhos e a encarou.— Desculpe, não queria ter sido grosso.Ela sorriu com o canto da boca e voltou a acariciar o cabelo do garoto, dessa vez, penteando-o para trás com a ponta de seus dedos.— Você não dorme direito, como gente, tem três dias, meu querido. E antes que pergunte, sim, eu estive contando. – começou, em tom de reprovação. – Você não se preocupa consigo mesmo e, por isso, eu tenho que me preocupar em dobro. Se não digo para comer, você não come. Se não digo para dormir, você não dorme.Khain fechou os olhos e virou-se de lado, ainda com a cabeça sobre as coxas de Lilith.— Vocês sabe... por anos eu tentei arrumar as coisas, mas não consigo! Tudo se foi e eu não sou capaz de voltar atrás. Não dá e você sabe. Tudo que eu perdi... se foi pra sempre. – dizia Khain, baixando o tom de voz a cada palavra, até no final, sobrar apenas um sussurro. – Só ficou o vazio, o eco de todas as coisas.— Amor... – começou Lilith, mas calou-se no mesmo instante. Não havia nada que pudesse dizer para que o garoto melhorasse e ela sabia disso melhor do que ninguém. Sabia o que ele havia passado.— As coisas que eu disse e que fiz, o que me tornei... eu não tenho ninguém por perto, não tenho nada pra chamar de meu. Tudo isso por um milhão de escolhas erradas. – Khain dizia, enquanto passava a mão por baixo da perna de Lilith, como se a abraçasse. – eu só tenho você... mas até quando? Quando vou destruir tudo o que temos? Quanto tempo temos juntos até que você desista de mim e se vá?Lilith tocou os lábios dele com a ponta de seu dedo indicador, fechando-os, para que não falasse mais nada. O garoto respirou fundo, acalmando-se, enquanto uma lágrima escorria de seu olho e tocava a coxa que tanto abraçava.—Eu estarei sempre aqui, meu querido. Até a sua morte e depois.Khain virou-se novamente e olhou Lilith nos olhos. Aquele belo par de olhos esverdeados, tão puros e sinceros, brilhantes como pedras preciosas. Ela era a única que continuou com ele, mesmo depois de tudo o que fizera. Ela era tudo o que havia em sua vida, tudo o que importava no gigantesco vazio de sua vida. Ela estava ali mesmo depois do colapso, mesmo depois de Khain ter matado todos os seus amigos.Um som oco irrompeu, cortando o silêncio moribundo que se seguiu. Mais um. Khain levantou-se lentamente, sentindo seus ossos estralarem, enquanto gemia baixinho espreguiçando-se. Virou-se e lançou um olhar desanimado para Lilith, que bocejou e mexeu a cabeça, mostrando que entendeu o recado.O garoto abriu a porta vagarosamente, fazendo propositalmente com que as dobradiças grunhissem implorando óleo. Doyle estava parado do outro lado do batente, com um pequeno e singelo sorriso adornando sua boca com poucos dentes. Estava com roupas de sair, o que significava uma camisa para dentro de uma calça encardida e botas.
— Olá, Khain, como foi a noite? – perguntou, em tom alegre, fazendo Khain começar finalmente a refletir em que horas eram. Ninguém pode ser tão animado assim durante a manhã.— Maravilhosa. – mentiu.—Fico feliz que tenha gostado. E o travesseiro? Pena de ganso e de ganso novo! Comprei de um viajante... – Doyle foi perdendo seu entusiasmo enquanto falava, até perceber finalmente que, estampado no rosto do garoto a sua frente, estavam pouquíssimas horas de sono ou talvez nenhuma. – só vim avisar que eu e a minha filha, Sofia, vamos até a avenida fazer umas comprinhas e voltamos apenas mais tarde.— Uhum. – murmurou Khain, desviando o olhar para a cama, onde Lilith permaneceu sentada, com um sorriso brincalhão no rosto. Para a sua sorte, Doyle estava em um ângulo em que não conseguia ter visão daquela área.— Bem... tem pão e queijo na mesa da sala, deixamos um pouco para você. Espero que goste.O garoto bocejou alto, colocando o dorso da mão direita na frente da boca, mostrando as fileiras que metal escuro que a cobriam. Em seu íntimo, resmungava, perguntando-se os motivos do sujeito não ir direto ao ponto.— Eu não estou com fome, não se preocupe. Quanto ao assunto que vim tratar... – começou, querendo terminar logo aquela conversa que o entediava. – talvez essa noite mesmo eu resolva tudo e depois acertamos o pagamento, tudo bem?Doyle pareceu pego de surpresa com o modo tão repentino de falar de Khain, mas assentiu com a cabeça e sorriu um sorriso amarelo.— Tenho certeza de que você o fará da melhor forma possível.Khain tirou os cabelos da frente do rosto, jogando sua franja para trás.— Prepare o dinheiro, pois amanhã cedo, tudo isso estará terminado.— Claro, perfeitamente. – disse Doyle, virando-se de lado, ao encontrar uma abertura na conversa para partir. – bom, tenho que ir. Até mais tarde.— Até. – disse Khain, com um sorriso forçado no rosto e, em seguida, fechou a porta.Lilith permaneceu sentada sobre a cama, encarando Khain com um olhar brincalhão, que lhe devolveu um olhar reprovador.— Céus, você é maluca?Ela tapou a boca com a mão enquanto soltava um riso agradável, fazendo as maçãs de seu rosto subirem levemente.— Eu sabia que você ia falar assim! Khain, você é tão previsível! – disse, enquanto voltava a rir baixinho. – onde está o seu senso de aventura?O garoto sentou-se sobre o assoalho, com as pernas cruzadas, sem tocar o chão com as mãos. Em seguida bufou alto, enquanto se jogava para trás, deitando.A verdade é que Khain sempre temeu que alguém visse Lilith com ele por uma série de fatores muito simples e todas elas podem ser resumidas em apenas uma frase: ela era linda demais para ser uma mortal. Ele ainda se lembra de quando Elliot a viu, da expressão em seu olhar, uma confusa mistura de desejo e repulsa acontecendo ao mesmo tempo. Ela não era algo para um mortal comum contemplar, pois algo terreno não deveria possuir tanta beleza. E vale constar que Khain era muito ciumento.— O meu espírito de aventura sumiu quando aqueles bandidos rasgaram minha camisa nova enquanto vínhamos pra esse fim de mundo. – resmungou.— Mas você ficava horrível com aquela camisa. – Disse Lilith, levantando-se da cama lentamente enquanto tocava o chão com a ponta de seus pés. – Toda vez que eu o via usando ela, tinha vontade de tirá-la com minhas próprias mãos. – Khain sorriu.—------------------Lilith e Khain deram início aos preparativos para a caçada. Essa era a parte mais entediante do trabalho, pois se resumia a preparar runas e círculos pela casa, desenhando-os com giz branco por todos os lugares onde a criatura poderia vir a se aproximar. O método que estavam utilizando, claro, não era totalmente eficaz, levando em consideração que eles são sabiam com que tipo de ser estavam se metendo, por isso, os encantos que prepararam eram simples e abrangentes. Estavam dependendo muito da sorte.Pela velocidade com que faziam, pareciam acostumados a enfrentar esse tipo de situação, o que não era totalmente verdade. Khain possuía uma boa base teórica, que adquiriu na Cinere Arcanorum, mas quanto a caçadas, era apenas a terceira que fazia sem um supervisor. Já quanto a Lilith, bom, ela era quem era.A luz do sol desvanecia enquanto as horas iam passando vagarosamente. Doyle e Sofia chegaram ao final da tarde e agiram normalmente, como se não estranhassem os desenhos, pentagramas e escritas em letras incomuns pelo chão e parede da casa. Como Khain solicitou, os dois apanharam um pouco de comida e se trancaram em um quartoKhain sentou-se do lado de fora da casa, enquanto abocanhava uma maçã que apanhara de um cesto da cozinha, esperando a noite crescer sobre sua cabeça. Não estava nervoso, mas também não estava totalmente seguro. Nenhuma caçada era como outra e, de qualquer forma, essa lhe parecia um pouco mais perigosa... e não era pelo fato de ele não fazer ideia do que iria enfrentar. Era uma sensação estranha.— Você também? – sussurrou a voz de Lilith, em um flauteio.Khain balançou a cabeça.—-------------------------A escuridão cobriu o céu em um manto sombrio de trevas. A lua recusou-se a aparecer naquela fatídica noite, como se não quisesse presenciar os acontecimentos que se seguiriam.Khain jazia na sala, vestido com seu sobretudo negro, em uma penumbra ofuscante e total, em total silêncio. As horas pareciam uma eternidade, passando lentamente, enquanto a espera continuava. O garoto era como um predador em meio aos arbustos, esperando o mínimo movemento de sua presa.Em sua mão esquerda, uma taça de vinho era erguida em intervalos regulares, ajudando a preencher o tempo com seu sabor adocicado. O garoto já ia fechando seus olhos, cansado, quando ouviu um grito agudo, de horror, vindo do quarto.Levantou-se rapidamente e deixou a taça cair no chão, enquanto disparava em direção as escadas da casa, subindo-as o mais rápido que podia. Ao chegar a porta do quarto, de onde o grito havia emergido, colocou a mão no bolso e tirou uma pedra marrom, semelhante a barro, e segurou-a com firmeza. Em seguida, chutou a porta com toda sua força, abrindo-a com um estrondo.O quarto estava totalmente escuro, mas aquilo não era o escuro comum, da ausência de luz. Era uma escuridão sólida e palpável, densa como névoa. Antes de entrar no aposento, murmurou algumas palavras rapidamente e soprou a pedra que tinha em sua mão e, em seguida, atirou-a no meio do quarto.Uma chama avermelhada irrompeu, com meio metro de altura, afastando as trevas do local. O fogo dançava intenso, iluminando totalmente o local. O mesmo grito de alguns segundos atrás cresceu. Era Sofia, que estava encolhida na outra extremidade do quarto, abaixada, abraçada pelo pai. Ao lado deles, uma mulher completamente nua estava de pé, olhando para o fogo. Ela era pálida, como se estivesse morta há algum tempo, com o rosto pontudo e lábios pálidos, contornados por um cabelo louro, liso e fosco. Em seus olhos, não havia glóbulos oculares de cor alguma, apenas o reflexo da chama dançando em um branco profundo.Khain entrou no quarto com passos cautelosos, ainda imaginando o motivo de nenhum de seus feitiços terem o avisado da entrada da criatura na casa. O que teria feito de errado? Será que a culpa foi realmente dele? Ou será que estava lidando com algo que não conhecia?Porém, antes que pudesse pensar em qualquer resposta para suas dúvidas, algo despencou sobre ele, fazendo-o cair sobre o chão, estatelado. Havia outra, ela estava escondida em alguma parte do teto onde o garoto não pôde vê-la e agora, ela o segurava pelos pulsos, forçando-o contra o chão. Ela era idêntica à mulher perto de Sofia e Doyle.— Moleque... já passou da hora de estar na cama. – disse ela, com seu rosto extremamente próximo do de Khain, com um enorme sorriso crescendo em seus lábios sem cor. Os dentes eram pontudos e entre eles, saia um ar pútrido, de carne morta.Uma risada sombria e engasgada tomou o quarto.— Ah... nós conhecemos você. O protegido de Lilith. — comentou, após encarar Khain durante algum tempo. Um sorriso maléfico se abriu em seus lábios pútridos. — Isso é bom. Adoraria te torturar pelo que fez ao Belial Khain hesitou. A criatura o conhecia e isso era um problema dos grandes, pois assim sendo, ela poderia saber até onde iam suas habilidades e fraquezas. Aquilo estava ficando cada vez mais perigoso. Ele precisava saber mais sobre ela.— De onde vocês me conhecem? — perguntou, procurando ganhar tempo para pensar em um plano.— Você não sabe? — Riu a mulher. — você é muito conhecido no abismo... Muitos te procuram, inclusive Ele. Dizem que o seu sangue é delicioso.Ele. Baal. De quem Khain vinha fugindo há muito tempo. O garoto estremeceu.— Ah, que sem graça! — riu o garoto, ainda preso ao chão. — você veio só pra me chupar? Achei que ia me pagar uma bebida antes...A criatura permaneceu quieta, observando o Khain com seus olhos maliciosos, em um desejo hostil. Após algum tempo, virou-se para Sofia e Doyle, que ainda estava encolhidos, amedrontados.— Você está aqui para proteger esses mortais infelizes? Você sabe o que esse homem faz para viver? — começou ela, enquanto virava-se de costas para Khain e abaixava, encarando o pai e a filha. — Sabe o que os senhores de escravos fazem com a filha dele por algumas moedas?— Se você tocar neles, eu te mato. — disse Khain, sem expressão em sua voz. Percebeu que a perna de Doyle estava dilacerada, em carne viva, como se tivesse sido rasgada com um puxão. Sofia não me mexia.A mulher hesitou por alguns instantes e levou o dedo ao queixo, como se refletisse por algum tempo.— Velho. Mate o garoto e eu deixo a sua filha ir. – disse ela, sem floreios.Antes que qualquer coisa acontecesse, Khain, que estava preso pela mulher, soltou um riso seco.— O que foi, moleque? Não teme a morte? – sibilou a mulher sobre ele, deixando escorrer sua saliva no rosto do garoto.Quando a gota tocou a alva pele de Khain, o sobretudo se moveu depressa, soltando-se do garoto sem qualquer motivo aparente e dançou, subindo pelo braço da mulher que o segurava, como uma sombra disforme, como se estivesse sendo controlada por cordas invisíveis. Enquanto isso, a mulher que o segurava, largou-o e se levantou em uma velocidade sobrenatural, soltando um grito agudo quando a manga da blusa se enrolou em volta de seu pescoço. Em meio a claridade da chama, que ainda iluminava o local, a escura manga da blusa se juntou com as poucas sombras do local. Em alguns segundos, as sombras se moldaram a uma forma esguia, na frente de todos e então, aos poucos, a sombra revelou-se uma serpente vinda das trevas. Onde outrora a blusa estava enrolada ao pescoço da mulher, agora era o corpo de uma cobra sombria.Khain levantou-se lentamente, enquanto seus ossos estalavam, sorrindo. Tirou o cabelo do rosto, jogando-o para trás e encarou a mulher ao lado de Sofia.— Tu, criatura da noite, diga-me seu nome e eu te levarei de volta ao abismo sem lhe causar muita dor! – irrompeu, apontando o dedo em direção a ela. Lilith, em seu íntimo, sentiu uma pequena alegria. Adorava ver como Khain sabia ser dramático quando fazia esse tipo de coisa. Isso o ajudava a se manter vivo.— Ah... a serpente finalmente mostrou sua forma.A mulher, ainda abaixada, olhou para Khain, com desdém e em seguida, agarrou Doyle pelo braço. O homem não se esforçou ou lutou contra isso. Pelo contrário, apenas gemeu de dor. enquanto ela o erguia com sua força sobre-humana.— Já que quer tanto saber... eu sou a morte. – disse ela, enquanto abria a boca, mostrando uma fileira de dentes pontiagudos, negros e podres. Em seguida, mordeu o pescoço do homem, que gritou alto de dor. Sangue emergiu entre seus lábios, escorrendo pela roupa do homem.Khain, como em um movimento puramente instintivo, puxou de seu bolso um pequeno giz branco e se abaixou, desenhando em uma velocidade descomunal, um círculo mágico.— Você acha que o seu nome é morte? – disse, enquanto jogava o cabelo para longe dos olhos novamente, abaixado sobre o círculo, sorrindo. – Comparada a mim, você é só uma garotinha assustada querendo brincar. — murmurou algumas palavras, de olhos fechados, como se rezasse. A mulher jogou Doyle para o lado, fazendo o homem chocar-se contra a parede.— Acha que a sua magia negra mundana vai te salvar? Eu sou feita de magia, tolo.O garoto parou suas palavras, interrompido pelos seus próprios pensamentos. Em seguida, puxou uma adaga de seu cinto, uma adaga simples, de lâmina curva e prateada, e a deslizou pelo seu antebraço esquerdo, por cima das marcas negras que o cobriam. Um sangue rubro e fosco borbulhou, escorrendo pela sua pele e caindo no centro do círculo.— Obrigado por me lembrar. — riu, enquanto voltava a sussurrar suas palavras em voz baixa. — Ora seu... — urrou a criatura, enquanto avançava na direção de Khain, em uma fúria cega e doentia. Ela avançou pelo quarto como um felino, atravessando-o em poucos instantes. — Você é meu! — gritou, quando estava apenas há dois passos de distância do garoto.Khain levantou-se, tirando as mãos do círculo. Enquanto as puxava do chão, um frio incomum cresceu no local, sombrio como o vento de inverno que vem sem prévio aviso. — Tetrica frigidus! — Disse, enquanto erguia os braços em direção a criatura na sua frente. Ela parou, estagnada, como se tivesse sido literalmente congelada. — Solte-a! Você não tem esse direito, mortal! – grunhiu a mulher que Lilith, em sua forma de serpente, segurava, em um tom desesperado. – Você vai sofrer, moleque. O abismo te espera!— Mundi Creatura, ex quo vadat. Curabitur vitae rationem, excluso. Monstrum mori, non est de hoc mundo. – sussurrou Khain, apenas com o movimento dos lábios, com um minúsculo sopro entre os dentes, com sua mão de aço negro esticada sobre o círculo e em seguida, apontando para a mulher, cuja apenas os olhos se moviam, desesperadamente, em várias direções. – Você está expulsa deste plano, em nome de Eltarys e de todos os seus senhores.A mulher, que permanecia imóvel até então, moveu um pouco o ombro e em seguida, alguns dedos. Khain deu um passo para trás, enquanto os leves movimentos que ela fazia anteriormente se tornavam, aos poucos, alguns espasmos. Logo, ela caiu sobre o chão de madeira, estatelada, contorcendo-se cada vez mais.O braço de Khain sangrava descomunalmente. Nos poucos segundos que observava a mulher convulsionando, seu sangue já havia pintado completamente o chão aos seus pés. Sua pele, que já era pálida, agora parecia de um cadáver. Estava cansado e era possível ver isso com facilidade. A mulher parou de se mexer.— O seu nome é morta.Khain, pela primeira vez desde que entrou no quarto, voltou seus olhos para Sofia. Ela ainda estava encolhida em seu canto, em um estado semiconsciente. O garoto sorriu com o canto da boca. Estava feliz. Desde o começo, desde que encontrou Sofia pela primeira vez, durante a madrugada, e viu como ela era doce e linda, teve medo de vê-la sofrer. Ela despertou um instinto em Khain que dificilmente emergiu durante toda a sua vida, o de protetor.Talvez ela nunca devesse saber que foi usada como isca, que Khain desenhou várias runas que atrairiam a criatura para o quarto onde ela estava.Em seguida, virou-se para a outra mulher.— O meu pulso ainda está doendo, vadia. – disse, enquanto estralava o mesmo. — Acho que vou cortar os seus pulsos pra você ver como dói. – dizia, enquanto caminhava, trazendo consigo um rastro escarlate. – Vamos ver se dói tanto em você quanto dói em um humano.Lilith, em sua forma de serpente, permaneceu quieta. Sua voz era selada na presença de mortais desde um acontecimento antigo, mas Khain sabia que ela estava se divertindo, ele percebia isso em seu olhar selvagem. Ela adorava vê-lo em ação, era como um fascínio único, exuberante. Ela podia sentir que Khain ainda estava vivo, podia farejar a chama da vida que surgia quando o garoto caçava e isso a completava. Como a sombra precisa da luz para ter forma, Lilith precisava de Khain para sentir-se completa.
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