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Só depois disso que Daniel pôde fazer o seu trabalho. Tinha que examinar a lista, e pesquisar sobre o símbolo. Ele pegou os arquivos, esquentou um café no microondas, acendeu um cigarro e foi para a sua Sala Ritual.

Lá não era grande coisa. Um único armário com alguns livros antigos, um símbolo pintado no chão, uma escrivaninha e um armário que continha as suas provisões mágicas.

Daniel se sentou à escrivaninha e em pouco tempo papéis, fotos, anotações e cinzas de cigarro encheram a mesa. Depois de uma hora de trabalho infrutífero, ele suspirou, olhando para a mesa. Verificar a lista demoraria demais, e quanto mais cedo Daniel descobrisse o que significava aquele símbolo, melhor. Terminou de tomar a sua quinta xícara de café, pegou o telefone e discou.

- Biblioteca de Londres. – uma voz cansada falou do outro lado. Olhando no relógio, Daniel viu que ainda eram 9 da noite.

- O ramal 66, por favor.

- Um instante.

Enquanto esperava, ouvindo aquelas musiquinhas de espera de telefone, ele olhou languidamente para a lista com os nomes. A verdade é que Daniel estava com preguiça. Trabalhar com papelada era horrível, com ou sem magia. Nisso, ele lembrou que estava sem pêndulos.

Uma voz masculina o despertou.

- Setor de Ocultismo.

- Ponha Medley no telefone. – ele falou num tom que poderia ser descrito como rabugento, mas Daniel se defendia falando que era “impassível”, quando alguém reclamava do tom. Logo, uma voz levemente irritada atendeu o telefone.

- Quem fala?

- Olá, Chance. – Daniel falou com um sorriso maldoso.

- Ah, você. O que você quer, Daniel?

Chancey Medley era o simbologista do Setor de Ocultismo da Biblioteca de Londres. Por acaso, também é meio-demônio.

- Eu preciso que você examine um símbolo.

- Certo. – pausa. – A não ser que você tenha um fax, o que eu duvido, eu não posso examinar nada agora nesse momento, a não ser o tamanho da sua burrice.

Daniel estralou os dedos da mão esquerda.

- Estou indo, então.

- E não fume. – Medley falou, mas Daniel já tinha desligado.

***

Quando ele saiu de casa, que ficava no meio de um ferro velho, notou uma figura familiar mancando até ele.

Daniel conhecia e já tinha visto muitas coisas estranhas pela sua vida que fariam humanos normais ficarem no mínimo insanos. Mas se tinha uma coisa que o assustava de verdade, e o seu senhorio (por assim dizer), Charlie. Um velhinho que parecia ser mais velho que a rainha. Careca, faltando a maioria dos dentes, e mancava da perna direita. Ele tinha a pele enrugada como uma uva passa e olhos esbugalhados, o que irritava e assustava Daniel. Geralmente ele só aparecia para cobrar o aluguel.

- Olá, Charlie. – Daniel falou, evitando olhar para a cara do velho.

- Daniel Pryde, seu f.d.p. Olhe só o que chegou ao nosso humilde lar. – ele apontou para um ponto do ferro velho um pouco longe deles. Daniel só conseguiu ver porque ele enxergava muito bem no escuro. E lá estava um Cadillac preto conversível. Um pouco velho, mas nada que uma reforma não resolvesse.

- Um carro. – foi tudo que Daniel falou. Ele até pensou em adicionar “realmente, não se encontra muitos carros num ferro velho.”, mas achou melhor não falar mais nada.

- Sim, algumas pessoas queriam se livrar dele, e me deram. E agora, eu quero me livrar dele. Claro que você vai pagar, junto com o aluguel.

- Tá bom. Obrigado, Charlie. – Daniel falou, pensando no que poderia ser tão errado no carro.

- Obrigado o c*****o. este carro é um problema, que eu só estou passando adiante. As chaves já estão lá.

Daniel não se importava realmente com a origem do carro. Sorriu levemente ao entrar e acendeu outro cigarro.

***

O Cadillac preto conversível que havia corrido como um cavalo agora há pouco pelas ruas londrinas estava agora na frente da Biblioteca de Londres, e o seu mais novo dono estava dentro do grande prédio, falando com a bibliotecária.

- Pra onde você vai? – ela tinha perguntado.

- Setor 66.

- Vá ao elevador e aperte o botão branco.

Mas Daniel já sabia disso. Procedimento padrão, e ele já esteve no Setor de Ocultismo muitas vezes antes. No elevador, ele apertou o grande botão branco que ficava acima dos outros.

Assim que ele entrou na sala ampla, cheia de estantes e livros um homem, mais ou menos da sua idade, com cabelos pretos e ofuscantes olhos cinzentos, mas ainda assim com algumas rugas, foi até Daniel. O homem também tinha dois tocos de chifres (ele os serrava), um pouco maiores que os de Daniel, na testa, dedos mais compridos que o normal, e orelhas de gato.

- Pryde. – ele falou. Usava um terno preto velho.

- Medley. – Daniel falou.

- O que o traz aqui?

- Isso. – ele tirou as fotos do cadáver que continham o símbolo do bolso do sobretudo e as mostrou. Chancey Medley as examinou e olhou para Daniel.

- Você não pode fumar aqui. – falou depois de uns segundos. Mas o outro continuou impassível, com o cigarro na boca. – O que eu tenho que fazer com isso?

- Não se faça de idiota. Me diga que símbolo é esse.

- Um demoníaco. – Medley falou simplesmente.

Daniel deu uma risada discreta, antes de pegar Chancey pelo pescoço e bater a cabeça dele contra a mesa mais próxima com força. O cigarro nunca saiu do lugar.

- Hoje eu não estou com paciência, Chance. Escolha: abrir a boca ou abrir a cabeça.

- Tá bom, tá bom! – o meio-demônio falou, ainda com a cabeça segura contra a mesa pr Daniel. – Pode me soltar?

Ele o soltou por um momento, antes de bater novamente a cabeça do simbologista na mesa, com força.

- Ow! Pra que foi isso? – Chancey perguntou, já em pé, com a mão na cabeça.

- Pra você ficar esperto. – Daniel falou ainda impassível, mas o leve tremor que passou pelos seus lábios indicou que ele estava se divertindo.

Chancey pegou um livro antigo, com uma capa de couro preto, e folheou as páginas amarelas até uma página onde continha o símbolo.

- Este é o símbolo para invocação do demônio Dantalion. Ele é conhecido por aí pelas ruas como Gênio da Lâmpada, porque as pessoas geralmente o invocam para pedir riqueza, e essas coisas. Ele gosta de sacrifícios humanos.

- Como são esses rituais de sacrifício?

- Você sabe, o de sempre. O símbolo desenhado no chão com sangue ou marcado a ferro no corpo do sacrifício, velas de uma certa cor, o sangramento do sacrifício, uma virgem que seja próxima à pessoa que pede. Dantalion é incorpóreo, e aí absorve o sangue da vítima sem deixar nenhuma ferida.

- Quem é que o invoca geralmente?

- Qualquer um que queira dinheiro, sucesso e poder.

- O ritual precisa de quantas pessoas?

- Depende. Geralmente é um grupo.

- Certo. Obrigado. – Daniel falou, indo embora.

- Não volte! – Chancey falou enquanto o outro entrava no elevador.

***

Agora, Daniel corria com o seu carro novo pelas ruas de Londres, e parou na feira. Às 10 da noite ainda tinha movimento.

Ele foi por entre as lojas, até chegar a um espaço que havia entre 2 lojas, onde tinha um cobertor pendurado como se fosse uma cortina. Ele passou pela cortina improvisada e entrou no espaço onde haviam várias estantes, com vários artefatos e outras coisas mágicas. Uma mulher de cabelos e olhos violeta, usando uma blusa preta e saia jeans apareceu. Ela aparentava ter a idade de Daniel.

- Hum... oi Lorelei. – ele tentou um sorriso.

Ela apertou os olhos violeta com raiva e andou até ele. Por um momento, nenhum dos dois falou nada.

E aí ela deu um tapa na cara de Daniel que o fez ver estrelas.

***