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Ele voltou para casa pensando no que tinha descoberto. Se é que Mitsuko era confiável — e é claro que não era. Mas agora ele tinha suspeitos. Se Sarah era mesmo como a amiga tinha falado, então provavelmente ela tinha ficado com os chefões, por isso que o pêndulo tinha apontado todo mundo. Talvez ela tivesse feito isso para poder ir embora do hospício.
Daniel suspirou. Estava tudo ficando muito complicado. Amanhã ele iria falar com a psicóloga de Sarah. Mas agora, ele iria lidar com o nervosismo que estava sentindo. Acendeu um cigarro, pegou uma das ampolas e preparou a injeção.
Agora nada mais importava.


***


— Daniel Pryde, o meio-demônio viciado em sangue humano. Deviam escrever sobre você. – Falou Thomas Kennedy, ou como Daniel gostava de chama-lo, Rat, por seus hábitos altamente estranhos e ilegais.
Daniel estava mais uma vez no apartamento de Rat, pedindo por mais ampolas.
— Talvez. – ele permaneceu impassível enquanto guardava os vidros no bolso. Já ia embora quando Rat falou:
— Vieram uns homens aqui procurando por você, ontem.
— Ah é?
— É. Eu falei que você só era um cliente novo, e eles foram embora.
— Pareciam com o quê? – Daniel perguntou, acendendo um cigarro.
— Hum... guarda-costas, ou leões-de-chácara. Não sei.
— Ok. — ele fez que sim com a cabeça. — Obrigado.
No momento em que ele pisou no corredor, o seu celular tocou.
— Oi Eddie.
— Adivinha quem acabou de sair daqui de casa.


O Cadillac preto conversível corria à toda pelas ruas de Londres. Daniel iria para casa, e só então resolveria o que fazer.
Até uma figura ficar parada na frente do carro. Daniel freou, e esperou seja lá o que fosse sair da frente. Mas ao invés disso, duas mãos o agarraram pelo sobretudo e o tiraram do carro, o jogando no chão.
Sem nenhuma surpresa, ele notou que eram os homens que o estavam procurando. Com toda a dignidade possível, Daniel se levantou.
— Ok, rapazes. O que vocês querem?
Mas um deles o chutou no estômago.
— Abandone o caso. – falou uma voz, antes de um outro chute acertar a sua cabeça, e tudo ficar escuro.


Foi bom que não roubaram o carro, Daniel pensou enquanto dirigia para o hospício na manhã seguinte. Ajudaria a provar tudo.
Daniel andou pelos corredores cinzentos com o máximo orgulho, ostentando um olho roxo com orgulho maior ainda. Ignorando os olhares, foi direto para a sala da psicóloga de Sarah Laney. Ali ele encontraria respostas.
Bateu na porta e entrou no consultório da dra Wilhelm. Ela não usava óculos, Daniel notou. Psicólogos sempre usavam óculos. Além disso, ele notou que ela era ruiva.
— Posso ajudar? – ela perguntou.
— Eu estou investigando o caso Sarah Laney. Posso fazer algumas perguntas?
— Claro.
Ele se sentou.
— Como ela era?
— Bem... ela se dava bem com todo mundo, embora alguns se assustassem com a sua personalidade dupla.
— Porquê?
— Uma, a normal, era calma e doce. E a outra...
— Era mais... “extrovertida”?
— Não. A outra achava que era uma profetisa do séc 14.
— Ah é? Então Sarah não costumava andar com muitos companheiros? Especialmente masculinos?
— Não, não. Ela era muito tímida. Ela só andava com Mitsuko Ishii. Aliás – ela abaixou a voz – Mitsuko é quem “anda freqüentemente em companhias masculinas”, se você me entende.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Sim, eu entendo. Obrigado. – e saiu da sala enquanto agradecia mentalmente pela falta de ética nos humanos. Olhou para o lado, e viu ninguém menos que Mitsuko, andando sem rumo. Ele a chamou.
— Olá, detetive Pryde. – ela falou numa voz doce.
— Olá. Nós precisamos conversar.
— Oh. – ela sorriu. Ele não.
— Conversar de verdade. Vamos.



— O caso está encerrado, sr Jarrold. – Daniel falou, sentado numa cadeira, na sala do gerente.
— Ah é? O que aconteceu com a pobre moça?
Daniel olhou para a porta, e uns policiais entraram na sala. Alguns ficaram ao lado de William. O que claramente era o capitão, falou:
— Caso encerrado?
Daniel fez que sim com a cabeça, acendendo um cigarro em seguida. Aí botou uma folha de papel, que continha alguns nomes escritos, na mesa.
— Pode prender esses.
William Jarrold era o primeiro da lista. É implícito que ele não ficou feliz com isso.
— Mas como...
— Calma, eu vou explicar. – Daniel tragou – O mesmo de sempre. Uma conspiração dos gerentes do hospício. Um trato com o demônio Dantalion por fama e fortuna. Foi apenas um sacrifício humano. Nenhuma surpresa até aí.
— Prove. – William Jarrold falou, sua voz carregada pela irritação.
— A magia resolve muitas coisas. Mas acontece que o demônio Dantalion exige um sacrifício da filha virgem do mandante. Que no caso é você, Will.
Mitsuko entrou na sala, olhando maldosamente para o pai.
— Não pensem que isso foi causado por amor paterno. – Daniel continuou. – Foi o problema da virgindade, ou, no caso, da falta dela. Agora, eu não conseguia conectar Sarah à conspiração. Ela poderia ter sido sacrificada por qualquer um dentro do hospício. A única conexão era Mitsuko. Sarah Laney era amiga da filha do mandante da conspiração. Também não é grande coisa. Até que eu fui... – ele tocou não muito discretamente no seu olho roxo – abordado por uns capangas, que me mandaram sair do caso. Tentaram me nocautear no meio da rua, mas acho que pode-se dizer que sou... insistente. Fingi que estava desacordado, até eles irem embora. Então, entrei no meu carro, que eles estupidamente não roubaram, e os segui até um beco.
Daniel sorriu enquanto lembrava das expressões nos rostos dos homens, pedindo misericórdia. Ele não teve nenhuma.
— Com um pouco de... persuasão, o que sobrou de um deles me contou tudo o que eu precisava ouvir. Que eles tinham sido contratados por Jarrold, para matar Sarah Laney, e dar o corpo para os membros da tal conspiração, para eles fazerem o ritual. A gangue também foi mandada por Jarrold para me atacar e me fazer afastar do caso. Eu achei no carro deles um contrato, estou com ele aqui. Caso não seja o suficiente, o homem que eu... entrevistei está no porta malas do meu carro, lá fora. Acho que a senhorita Jarrold poderá falar o resto da história.
— É bem simples. – ela falou, sorrindo inocentemente. "Ela é profissional” Daniel pensou. – Eu não queria morrer. E papai precisava de alguém pura. Eu apenas indiquei Sarah. – Mitsuko estava com a sua melhor cara de doida. Esperta. Conseguiu se livrar do pai, para poder subitamente se “curar”, sem ninguém para questionar o fato, e escapou da prisão.
Enquanto os policiais prendiam Jarrold, Daniel falou a ele:
— Ah é, e o feitiço não deu certo, e não daria certo de qualquer maneira. Dantalion exige que seja a filha, e também não gosta de ser enganado, então espero que você seja convincente quando for se desculpar. – e foi embora.
Ele foi na chuva até o seu carro, para abrir o porta malas e tirar de lá de dentro o homem desmaiado. Sorriu quando pensou nos pesadelos que o capanga teria a partir de agora, mas isso era a sua parte demoníaca se agitando. Depois de entrega-lo ao chefe de policia, foi para casa, dirigindo a 129 km/h no seu Cadillac preto conversível.
***