Ele odiava acordar cedo. Odiava andar. Mas estava fazendo as duas coisas. Às 7 horas da manhã Daniel Pryde, um jovem com os seus 29 anos, estava andando apressado pelas ruas de Londres. Usava um sobretudo preto, fumava um cigarro e andava a pé porque não tinha dinheiro para comprar um carro. Há pouco tempo, ele havia decidido trabalhar. E que trabalho era melhor para um meio-demônio com chifres, presas e cauda em Londres do que de investigador paranormal?

Bem... muitos, mas Daniel gostava de como “investigador paranormal” soava.

Apesar de ser novo no ramo, ele já era conhecido. Tinha sido contratado (um trabalho não-remunerado) pela própria polícia, provavelmente porque eles não resolveram o caso, qualquer que seja ele.

Daniel estava indo para o Kingdom Asylum, um hospício. Uma coincidência no mínimo estranha, sendo que a sua humanidade e a sua daemonidade estavam desequilibradas, e ele estava tendo episódios...

Mas isso não importa. Não agora.

O Kingdom Asylum era um prédio enorme, com altos portões de ferro cercando a propriedade. Assim que Daniel entrou na propriedade e passou pelos jardins, notou uma pequena comoção de jornalistas e policiais. Ele ajeitou a franja, fechou mais o sobretudo e teve cuidado para não mostrar demais os dentes. Não queria que *ele* fosse a nova vítima dos tablóides. Já bastava o que eles tinham feito com o “chupa-cabra”, que na verdade era apenas um demônio Ahharu que gostava de se mostrar.

De qualquer jeito, Daniel tinha um nome em mente. A pessoa que o havia contatado, além da recomendação do chefe de polícia, era Jarrold. Ele foi até a comoção e perguntou quem era o dono do nome.

Acabou que William Jarrold era o dono, o gerente do hospício. Tinha uns 60 anos, e realmente aparentava alguém que comandava um hospício. Ele se apresentou e levou Daniel até uma cripta dentro do prédio, onde havia uma maca.

- É este o corpo? – Daniel perguntou.

- É. Sarah Laney.

- A encontraram aonde?

- Num jardim lá fora. – Jarrold falou, parecendo triste.

- E porquê a moveram? – Daniel perguntou levemente irritado. Era regra: não tocar no corpo até o legista chegar. Sendo o legista paranormal ou não.

- A polícia e os legistas vieram primeiro.

- E o que faz este caso diferente dos demais?

- Bem, você encontrará todas as informações aqui. – o homem entregou uma pasta a Daniel. – Se você quiser examinar o corpo...

- Não, obrigado. – ele tentou ignorar a visão que teve do corpo, dele dilacerado por algum animal selvagem. Piscou, meneou a cabeça e olhou de novo, dessa vez vendo o corpo como realmente estava. Uma garota, 25 anos, cabelos longos castanhos e, segundo a pasta, olhos também castanhos. Ela sofria de depressão e personalidade dupla.

A pasta dizia causa da morte: não especificada. E depois, dizia: “órgãos internos ausentes”. Bem, isso significava que Daniel teria que abrir o corpo, e controlar (ou ignorar) quaisquer eventuais episódios.

- Pensando melhor, eu vou fazer uma segunda autópsia. Poderia se retirar?- pediu a Jarrold. Este, que até então observava atentamente Daniel lendo os arquivos, concordou com a cabeça e foi embora, deixando numa mesa 2 luvas cirúrgicas.

Daniel as colocou e respirou fundo, tentando ignorar as urgências do seu próprio ser.

***

A autópsia não demorou muito. Não tinha muita coisa para examinar, já que os órgãos internos não estavam lá. Isso mesmo. E era isso que Daniel tentava explicar a William Jarrold.

- Os órgãos internos parecem que foram tirados, mas não há sinal de que foi manualmente. Provavelmente por magia. Os olhos dela estão, como você pode ver, bem... brancos. A pupila e o cristalino também não estão aparentes. Eu já chequei, os olhos não estão virados. Provavelmente, magia também. E isso. – ele virou o corpo de costas, expondo uma marca de queimadura nas costas, com um desenho intricado. – é um símbolo demoníaco. A causa da morte? Extração dos órgãos internos, do sangue e da alma. Ei, não me olhe assim. Eu sou um investigador paranormal, e este caso é tudo menos normal. – ele falou ao ver a expressão abismada de Jarrold. – Eu tenho um palpite de que não foi um assassinato comum, você sabe, de algum vampiro ou algum demônio carnívoro. Eu acho que isso foi um ritual.

- Ritual?

- É, por causa da marca. Pode ter sido feito por apenas um homem, como também por vários. Eu vou ter que ver digitais e Essência.

- Essência?

- É, é tipo uma impressão digital mística. Cada um deixa o seu vestígio por onde vai. Eu acho que isso foi um ritual de sacrifício humano para alguma coisa, mas tenho que ver o jardim onde ela foi encontrada.

Jarrold piscou algumas vezes.

- Você é bom, sr Pryde.

- Ah, bem...

- Continue trabalhando. Me informe das novidades.

- Claro, senhor. – ele falou, e William Jarrold foi embora. Daniel voltou a sua atenção para o corpo, mas logo ouviu uma voz feminina atrás de si.

— Ele não te quer aqui, sabe.

Uma garota, de uns 20 e tantos anos, quase da idade de Daniel, oriental, com cabelos loiros pintados cuja tinta já estava saindo (revelando raízes castanhas), igualmente com a chapinha, um olho castanho e outro azul olhava para ele. Ela usava uma camiseta cinza e calças de moletom também cinzas. Obviamente era uma paciente do hospício. Ela estava encostada na porta do necrotério, olhando às vezes para Daniel, às vezes para o chão, ou a janela.

- Não sei se você pode estar aqui... – Ele falou educadamente. Ela foi para perto dele, não parecendo que estava ao lado de um cadáver, porque estava tão tranqüila. Ela não conseguia ficar quieta, estava sempre mexendo no cabelo, ou com os pés, ou brincando com a roupa. Daniel a observava.

- Sou Mitsuko Ishii.

- Daniel Pryde. Você estava dizendo?

- Eles não te querem aqui. Mas talvez você queira. – ela falou com um tom distante, olhando direto nos olhos dele, e então foi embora. Daniel suspirou e voltou a examinar o corpo.

Algo nessa história fedia, e não era só Sarah Laney.

***