Daniel
5 5 . Susto
Notas iniciais
Acordei às 6h30min da manhã seguinte com a ajuda do despertador. Eu tinha tempo suficiente para me arrumar com calma e da melhor maneira possível.
Em Richmond, eu não era só mais uma garota da escola. Em Richmond, Emily Meyer era popular, adorada por uns e invejada por outros. As meninas me queriam como amiga e a maioria dos garotos do time de futebol me queriam como namorada, mais em geral eu nunca me importava com o que os outros achavam, eu era eu mesma, me vestia como eu queria e agia com naturalidade, embora, eu sempre abusasse de elegância nos dois quesitos. Sim, eu gostava de ser popular, gostava de quando todos sabiam quem eu era, e ainda por cima, eu tinha mais do que isso, eu tinha Leonardo e Jacob sempre ao meu lado, a dupla de jogadores mais aplaudida do colégio, o que me fazia ainda mais admirada pelas garotas, do que o meu bom gosto na escolha de roupas.
Mais agora eu estava em outra realidade. As escolas no Brasil, ou pelo menos em Macapá, não prezavam tanto a prática de esportes e nem os alunos ligavam para a escola e a qualidade de ensino que estavam tendo. Nos Estados Unidos as escolas públicas eram muito melhores do que as particulares no Brasil, dizia minha mãe. Imagina se eu tentasse comparar a minha nova escola pública à minha antiga...
Hoje eu não iria simplesmente vestir as roupas mais simples para não ser notada nem observada naquele colégio. Eu nunca fui assim, de me esconder de ninguém, uma das qualidades mais prezadas por minha mãe e Carla. Ser ignorada pelo garoto mais bonito do colégio até agora, e que por coincidência morava no outro corredor da casa da minha família brasileira, só me fez odiar o anonimato e sentir ainda mais saudades de casa.
Regata azul marinho, jaqueta jens escura (por sorte, hoje amanhecera chovendo) e calça jens skini, segundo Carla, ressaltava minha silhueta, combinava com a minha cor e passava um ar de mulher confiante e poderosa a quem me visse. Apenas um dos sapatos que eu trouxe poderia me ajudar no quesito altura, o meu salto alto preto tinha um trançado feito com um cadarço a frente, o que o deixava volumoso e chique, não combinava mesmo era com a escola, fiquei tentada a usá-lo, mais preferi manter os meus 1,66, usando uma sapatilha azul marinho menos chamativa. A mochila de bolinhas hoje estava fora de cogitação, no seu lugar, escolhi uma bolsinha bege com a alça trançada em argolas douradas que combinaria com a pulseirinha de ouro que eu colocara no meu braço esquerdo, e onde um lápis, uma caneta, corretivo e borracha cabiam muito bem com um batom rosinha e gloss, o caderno iria nas mãos mesmo.
- Está linda, Emily – Foi ótimo receber um elogio de Jorge – Não sei se o Tiradentes está pronto para uma aluna tão bonita.
- Obrigada, tio Jorge!
Segui direto para a cozinha esperando que apenas Christina estivesse presente nela. Eu estava certa, Christina estava sozinha, segurando uma xícara de café e mordendo um pão.
- Bom dia – ela me cumprimento – Não está atrasada hoje, então pode comer um pedaço de pão e conversar um pouco.
- Na verdade, tia – eu me servi de café e peguei um pão já com manteiga – quero chegar cedo, não deu tempo de conhecer a escola ontem, então quero andar com mais calma por ela hoje.
- Tudo bem, querida – ela não quis me atrapalhar – Mais quero que jante conosco essa noite – ontem eu não havia descido para jantar com medo de encontrar Daniel — Precisamos falar sobre o que os seus pais lhe deixaram no banco.
- Ok, tia – eu já havia terminado o pão e tomei o ultimo gole de café – hoje eu venho sem falta jantar.
Na sala, Jorge me perguntou se eu queria ir de carro, mais recusei, pensei em andar sozinha até lá, observar essa pequena parte de Macapá que eu agora morava, então peguei um guarda chuva de Christina e sai em direção a rua.
Mesmo chovendo, o sol aparecia glorioso lá no alto, o que me fez duvidar o sobre o tempo que eu usaria a jaqueta. Havia poucas pessoas na rua e poucos carros passando. Avistei vários alunos quando cheguei no muro da escola, muitos desciam de ônibus na parada grudada a parede e na parada do outro lado da rua. Observei que várias lojinhas povoavam a avenida conforme eu andava. Fiquei imaginando como seriam os locais que os amapaenses costumavam frequentar, seus shoppings, fastfoods, lojas de roupas, de sapatos, praças, restaurantes e quando eu poderia conhecê-los. Porém outro pensamento me veio à mente: eu teria dois anos para isso.
Foi frustrante abessa ter de esperar até abrirem o portão da escola. Ninguém havia me dito que 7h e 15 era o horário em que os alunos estariam liberados para entrar. Porém, enquanto eu esperava, Arthur me viu de relance e veio falar comigo.
- Você está ainda mais bonita do que ontem – ele me lançou um sorriso fascinante, e eu tive que lutar para não perder o foco.
- Ah – eu sorri boba, tentando me lembrar o que dizer – Obrigada.
- Deve estar achando esse lugar tedioso e quente. Todos que vem de fora acham...
- Hmm. Não tedioso. Quando essa sensação chega, eu ponho meus fones de ouvido e... Espero passar...
- Então a quentura não te afeta tanto?
- Bom – pesei um pouco – Não, gosto do clima daqui.
- Então não gosta de nada frio?
— Não – disse sorrindo e com o meu claro sotaque americano — o frio me agrada, mas prefiro o sol à chuva...
O celular dele tocou. Ele pediu desculpas e foi atender, no mesmo momento que um homem alto e calvo abriu o portão da escola.
Olhei com mais calma a escola. Logo na entrada, havia um mostrador, com troféus de competições e placas de parabenisação que a escola a muito havia ganho. Fiquei feliz ao ver minha paixão ali representada: um troféu de natação e uma placa com o segundo lugar nas olimpíadas escolares no feminino.
Segui até minha sala fingindo não perceber os olhares indiscretos e as conversinhas sobre mim pelo caminho. Parecia que a tática da roupa estava dando certo.
Sentei no mesmo lugar em que fiquei no dia anterior, esperando que Daniel Grigori tivesse a mesma idéia e escolhesse o lugar a minha frente. Porém, foi Silvana que decidiu ficar perto de mim.
- Bom – ela começou após se sentar, virando de frente para mim – Se não for sobre você que estão falando lá na frente, então temos outra gringa nessa escola.
- E o que exatamente estão falando sobre mim? – perguntei rindo e tentando parecer o mais desentereçada possível.
- A loirinha patricinha dos olhos de gato – ela balançou a cabeça e virou os olhos em sinal de deboche – disse que você deve se achar superior que todos nessa escola. Já a do cabelo ondulado falou de Arthur. Disse que ele parece um idiota quando olha para você.
- Que besteira – meu tom era de indgnação – Eu não me acho superior!
- E quanto a Arthur? Acha que ele te olha com outros olhos?
- Ele e um bom colega – não quis dizer que sim – E quem são elas? As que falavam de mim?
- A loura é Fernanda Rodrigues e a outra é Patrícia Souza, são da 217 e do Grêmio Estudantil.
- Parece que uma delas tem ciúmes de Arthur – falei brincando.
- Elas são muito idiotas, isso sim. A patricinha da Fernanda se acha a ultima bolacha do pacote.
Daniel Grigori agora entrara na sala. Seu rosto de querubim me deixara muda na frente de Silvana. Ele largou a mochila preta em uma cadeira na outra extremidade da sala e saiu ao encontro de dois garotos que conversavam na porta.
- Hmm – Silvana observara meu olhar – Daniel...
- O conhece?
- Bom – ela pareceu escolher o que dizer – Ninguém sabe muita coisa sobre ele. Daniel é do tipo Lindo e Nerd. Sem duvida o mais inteligente desta sala e o mais bonito dessa escola. Pelo que eu sei, o único que o conhecia ano passado era Arthur. Ele é muito reservado e não sei se ele é repetente... Alguém me disse que ele tem 17 anos, mais parece ser mais velho. E Grigori... Não conheço ninguém com esse sobrenome...
- Quem sabe, ele também não seja desse país – argumentei – Aposto que não conhece ninguém que tenha o sobrenome Meyer.
- Isso é verdade. Pode ser um sobrenome estrangeiro mesmo – ela deu de ombros – Além disso, tem uma explicação para o corpo atlético... Ele pratica esportes, vôlei, basquete e natação.
- Natação? Onde ele faz natação?
- Se não reparou, há um centro aquático bem na frente da escola. – ela reparou na minha expressão. Fiz cara de “Sério?” – Chamam de Piscina Olímpica. Parece que ele é um nadador muito bom, mais nunca aceita competir pelo estado...
A professora que entrara na sala era nova para mim. Procurei meu papel de assinaturas e levei até ela. Um dos garotos da sala que eu não conhecia assobiou para mim. A professora de cabelos castanhos e lisos sorriu para mim e disse para não ligar.
A aula de geografia parecia mais uma aula de história sobre o Brasil, o que me fez prestar muita atenção. Ela explicou com clareza sobre o período de modernização do país e sobre o processo de industrialização também. Fizemos uma atividade rápida de três questões e a professora saiu de sala antes mesmo de bater a campa para o fim do horário.
- Parece que você gosta mesmo desse país, foi a primeira a terminar essa atividade – Levei um susto quando percebi que Arthur estava sentado atrás de mim, ele sorria, e seu sorriso era lindo e curioso – Foi mais rápida até que o Grigori, o garoto mais... Digamos... Talentoso daqui.
- Era uma atividade relativamente fácil – eu disse.
- Pra quem é brasileiro e estudou sobre o Brasil nas séries anteriores.
- Bom – eu sorri – Ela explicou e eu prestei muita atenção...
- Você tem um sotaque lindo e impossível de ser disfarçado! – Arthur riu, um sorriso lindo e um tanto malicioso.
- Desculpe, mas eu morei toda a minha vida nos Estados Unidos...
- Claro, uma ótima desculpa!
Ele levantou e seguiu para o seu lugar, hora da próxima aula, pensei, ao ver Silvana se sentar e um professor desconhecido entrar na sala. Mais uma vez, fiz o ritual do papelzinho com assinaturas.
Sempre achei química a pior matéria do mundo. Cálculos, formulas e substâncias não me interessavam, e como todas as outras aulas que eu havia tido até ali, exceto geografia, eram sobre coisas que eu já estudara.
Decidi então copiar no meu caderno tudo que estava no quadro e começar a gravar os rostos dos meus colegas de turma. Porém, todas as vezes que eu tentava me concentrar em alguém, Daniel Grigori aparecia em meus pensamentos.
Hora do intervalo, pensei, no momento em que a campa bateu. Hoje, a garota que puxara Silvana para fora da sala parecia mais calma, e apenas a chamou de fora. Silvana me perguntou se eu queria ir com ela, e fiz que não com a cabeça. Fechei o caderno e decidi conhecer a parte de trás do colégio, olhar a quadra de esportes e o refeitório. Na hora em que sai da sala, não havia mais ninguém nela.
Havia um portão que dava acesso à parte de trás do colégio. Do lado direito a ele, ficava o refeitório. Era um lugar pequeno e aberto todo pintado de branco. Três grandes mesas de madeira com várias cadeiras de sala de aula era o lugar em que os alunos se sentavam. Havia bastante gente ali naquela manhã, porém, poucos estavam comendo, a maioria apenas conversava, outros ouviam musicas altas e 3 pessoas estavam rodeadas de gente por conta dos notebooks que usavam. Decidi não perder meu tempo indo tentar a sorte no meio daquele abarrotado de gente, então segui pelo corredor a esquerda, o qual dava acesso a salas fechadas.
Percebi que eram três salas e um quadrado onde ficava o quadro de energia da escola. A primeira sala eu não consegui saber o que tinha, a segunda era o LIED, a sala de informática da escola e a terceira era a sala de musica, onde, pude olhar pela janela, haviam vários instrumentos quebrados. Ao fim do enorme corredor, ficava a entrada da quadra de esportes.
O que deveria ser o ginásio do colégio, era uma quadra bem simples, pude perceber que as paredes foram pintadas recentemente de azul escuro, e no chão, havia marcações também recentes para jogos de futsal, vôlei, handebol e basquete. Só havia duas traves velhas e sem redes para quem quisesse jogar futsal. A quadra era relativamente pequena, sem o devido espaço para quem quisesse assistir a qualquer partida. Reparei para a parte direita de quem adentra o local, era de dois andares, e lá em cima, um garoto branco e de cabelos cor de bronze estava sentado sozinho em uma cadeira em frente a duas mesas de ping-pong. Decidi explorar mais o local e subir até lá.
No pequeno corredor que dava acesso à escada, havia três portas. A da extremidade esquerda estava fechada, a do seu lado direito, era o vestiário masculino e a ultima, era o vestiário feminino. Do lado direito, o que deveria fechar o corredor, era uma enorme tela de ferro que subia até o teto, porém, na parte de baixo, havia um enorme buraco, onde uma pessoa bem maior do que eu passava sem dificuldade nenhuma. Subi a escada rindo do buraco, e o garoto que eu já sabia quem era ainda estava sentado no mesmo local.
- Oi – eu disse, sem ter idéia do que ele diria.
- Oi – ele respondeu me olhando, seus olhos eram lindos, verdes como esmeralda.
- Eu sou... – tentei me aprensetar
- Você é Emily – ele disse ainda sentado, me surpreendendo. Seu rosto pálido era lindo – Sei porque muita gente está falando de você na escola. Quero pedir desculpas por ontem.
- Ok. – respondi, sem esquecer o quanto ele me magoara – Mais, o que faz sozinho aqui?
- Eu – ele parou um instante para responder – Gosto de ficar só.
- Ah – pensei envergonhada me virando para as escadas com o intuito de descer – desculpe.
- Não se preocupe. Não quero que vá.
Daniel me pegara de surpresa. Seus olhos verdes me fitavam com curiosidade. Sem querer, me peguei pensando se ele tinha namorada...
- Você fala de modo diferente e engraçado – ele sorria ainda com um olhar curioso.
- Me desculpe, mais Grigori não é um nome tradicional brasileiro – eu disse brincando, retribuindo seu sorriso – Sou de Richmond, Estados Unidos.
- O lugar com as mais belas e bem preservadas casas vitorianas da Virgínia – seus olhos agora se tornavam tão perturbadores quanto os de Arthur – Porque veio para Macapá? Sua cidade é consideravelmente melhor.
- Conhece Richmond? – perguntei sem tirar os olhos dele, dei passos para trás, sem realmente prestar atenção para onde seguia.
- Conheci a um tempo atrás – ele repentinamente desviou os olhos de mim e parou de sorrir. Ainda com o olhar longe, ele me cobrou uma resposta – Mais isso não importa, não respondeu a minha pergunta.
- Ah – ainda dando passos para trás sem realmente me dar conta disso, respondi pesarosa – Meus pais morreram, e deixaram minha guarda com uma tia brasileira. Minha família nos Estados Unidos não pode fazer nada e eu tive que me mudar para Macapá.
- Deveria parar de andar para trás – me virei repentinamente e, ao perceber que estava a menos de 30 cm da barra de ferro que delimitava as pessoas de uma queda livre, cai no chão, depois de tropeçar nos meus próprios pés.
Meu coração disparou quando encontrou os olhos esmeraldas no incrível rosto de querubim de Daniel. Ele agora estava sentado a minha frente, e eu nem ao menos me dei conta da sua aproximação.
- Lhe assustei? – perguntou ele ao ver minha expressão incrédula, um sorriso malicioso nos lábios.
- Um pouco – respondi pegando ar ao me lembrar de como se respirava.
- Não foi minha intenção – ele desviou o olhar de novo – Você deve tomar mais cuidado quando andar de costas – disse ele com voz pesarosa.
- Fazia tempo que isso não acontecia – respondi me lembrando da ultima vez em que acontecera. Eu estava na sala de casa, pedindo permissão ao meu pai para ir ao baile da escola e estava muito nervosa. Eu tinha 12 anos e ele me respondeu que só deixava se Leonardo fosse comigo – Bastante tempo! – suspirei, me lembrando.
- Está na hora de ir – ele se levantou em um salto e seguiu em direção a escada, sem dizer mais nenhuma palavra.
- Daniel! – chamei ainda sentada, com esperança dele voltar. Levantei-me 10 segundos depois, ao perceber que ele já havia a muito deixado a quadra.
Quando cheguei à sala, estavam todos sentados e em silêncio. A bronca que eu levei do professor por chegar atrasada serviu de sermão para toda a classe, e uma garota de cabelos lisos e negros que eu não sabia o nome, me chamou de gringa abusada e metida, eu preferi evitar confusão, porém Arthur Soltelo pulou em minha defesa, a chamando de oferecida e invejosa. Que ótimo, minha primeira inimiga do colégio, pensei.
Porém, esse incidente não foi o que realmente me deixou triste. Daniel Grigori não estava na sala, havia ido embora.
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