Notas iniciais
Acabou que eu conheci pessoas boas que estudavam com Kyle. Pessoas que não frequentavam a fraternidade e fazia a mesma aula que ele. Quando faltava poucos minutos para meia-noite o som parecia estar mais alto e as pessoas falavam num volume maior pois o álcool já havia subido-lhe as cabeças. O show começaria do lado de fora da fraternidade após a queima de fogos.
Eu e Kyle acompanhamos Chloé e mais um pessoal que estava conversando conosco lá para fora no gramado. A contagem regressiva para meia noite havia começado.
Eu encarava o céu estrelado com a mão entrelaçada na dele.
—Cinquenta... quarenta e nove... quarenta e oito.
Viro-me para olhá-lo.
—Nosso primeiro ano novo juntos.
—Parece que estamos juntos há mais tempo.
Concordo com a cabeça e sorrio. Kyle olha para o céu e eu continuo a olhar seu rosto. Sua barba por fazer cobre-lhe todo o maxilar, seu cabelo vermelho está desgrenhado. Ele é lindo!
—Dez, nove, oito, sete, seis...
Kyle vira de frente para mim e nós sorrimos um para o outro.
—...três, dois, um! FELIZ ANO NOVO!
—Feliz Ano Novo! — eu falo.
—Feliz Ano Novo, boneca. — ele coloca a mão na minha cintura e me puxa para mais perto para me dar um beijo.
Coloco a mão em sua nuca. Nossas línguas se acariciam num ritmo lento. Seu hálito de cerveja se mistura com o meu de Coca-Cola.
—Te amo. — digo quando nos separamos.
Ele sorri para mim. Sua mão pousa na minha barriga e eu olho para ela sorrindo.
—Amo vocês.
Posso jurar que meus olhos se enchem de lágrimas na hora. Mas pisco algumas vezes para mantê-las onde devem estar.
—Tudo bem, pombinhos. Deem um abraço aqui.
Viro-me para olhar para Chloé e dou risada. A abraço enquanto alguns dos amigos de Kyle vem lhe abraçar e trocar apertos de mão.
***
Dentro da fraternidade novamente, o som continua. Já se passou quase uma hora após a meia noite e o show nada de começar. A banda cover está do lado de fora arrumando os equipamentos. A conversa nunca esteve tão calorosa e eu preciso ir ao banheiro pois tomei muitas latas de refrigerante.
Levanto-me do sofá e subo as escadas. Parece não ter ninguém lá em cima. O banheiro está com a porta escancarada e não tem ninguém. Quando vou entrar, ouço uma voz atrás de mim dizer:
—É muita coragem sua você continuar voltando aqui, sabia?
Viro-me para olhar para a cara de Alicia.
—Como é? — pergunto.
—Não basta você fazer um inferno na vida de todos, você ainda tem a coragem de voltar aqui. Não cansa de ser uma vadiazinha chata?
Olho com desdém para ela. Seu vestido preto está tão curto que talvez seria possível ver seu útero.
— Por que não faz um favor a nós duas e me deixa em paz? — pergunto. — Será que você não cansa de ser uma vadia chata?
Alicia me encara com os olhos fervendo de raiva. Dou as costas para ela e vou entrando no banheiro.
—Estou cansada de você no meu caminho, sua vaca.
Quando vou virar para olhá-la, sinto algo ser quebrado em minha cabeça e um som metálico logo em seguida. Caio no chão desorientada sentindo algo quente escorrer por meu cabelo. Antes que possa dizer algo, minha visão vai ficando turva e logo escurece.
O que aconteceu enquanto todos se divertiam no andar debaixo.
—Onde ela está? — Jacob pergunta para mim.
—Eu a tranquei no banheiro e amarrei as mãos dela. — digo. — Anda logo seu idiota. Quero que esses otários se fodam.
Jacob sorri de lado e começa a despejar a gasolina em um dos quartos.
—Anda logo, porra. — digo. — Eu te espero lá embaixo.
K.Y.L.E
Aquele ano novo estava melhor do que eu esperava. Chloé e eu estávamos conversando com um dos colegas dela que haviam vindo de Londres. Tudo estava indo bem até que um cheiro de fumaça começou a subir e alguém gritou:
—FOGO!
Parece que tudo começou a se movimentar rapidamente e depois tudo ficou lento. A gritaria e a euforia tomou conta da casa. Quando olhei para a escada, o fogo, que eu não fazia a mínima ideia de como havia começado, começava a ganhar volume.
—Cadê a Alice? -olho em volta e pergunto para a Chloé.
A gritaria e o empurrar estava pior.
—Chloé onde está a Alice? — grito e sacudo seus ombros.
Ela olha para mim de olhos arregalados.
—Ela deve estar lá fora. — Ash grita. -Vamos sair daqui.
A fumaça começa a tomar conta da sala.
— Vê se ela está lá fora. — berro para Chloé que sai correndo.
—KYLE ONDE VOCÊ VAI? — ouço a voz de Ash gritando quando começo a subir as escadas tentando apagar as chamas com minha blusa que acabo de desabotoar.
—Onde está a Alice? — Matt joga um balde de água na escada.
O fogo da uma diminuída nos degraus e eu subo sem dizer nada.
—Alice! — grito.
Estou apavorado. Os quartos estão pegando fogo. Tento abrir a porta do banheiro. Está trancada.
—Alice! — grito.
—Onde ela está? — Matt está do meu lado e grita.
—Eu não sei, porra! — agarro ele pelo colarinho.
Chuto a porta com força e ela se escancara. Sinto meu corpo tremer quando vejo Alice desmaiada no chão. Há muita fumaça no banheiro.
—Alice! — berro e começo a tossir.
—Foi você! — ouço Matt dizer.
Pego ela no colo e viro-me para sair do banheiro. Vejo Alicia rindo. Seus cabelos pretos estão armados e bagunçados.
—Sua vagabunda! — Matt fecha a mão e dá um soco no rosto dela.
—Vamos logo! — eu berro em meio as chamas para ele.
Alicia está desacordada no chão agora.
—Eu devia deixar essa puta morrer. — ele grita e pega ela no colo.
Desço as escadas com Alice desacordada em meus braços. Meu Deus! Não... não... não!
Saio pela porta com ela em meus braços. O ar gelado atinge meus pulmões, estou com falta de ar. Sinto meus joelhos cederem. Eu caio com ela nos braços.
—Alice! — eu grito e sacudo seu corpo.
Seu cabelo está molhado de... sangue.
Ouço sirenes por todos os lados.
—Kyle! — sinto alguém gritar meu nome e puxar meu ombro com força.
—Ela está grávida! — eu grito. -Ela está grávida!
—Kyle, calma! Se afasta eles precisam colocar a máscara de oxigênio nela.
Nem sei quem está falando comigo. Só consigo olhar para Alice desacordada e sentir-me desesperado.
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