Dangerous Love
37 Capítulo 37
Notas iniciais
Essa não era minha primeira gravidez. Eu tinha tido um susto durante faculdade quando finalmente quis seguir em frente depois da morte de Cooper o que resultou em uma noite de sexo casual que resultou em uma gravidez. Obviamente a gravidez não foi para frente porque eu tive um aborto instantâneo. Não posso dizer que fiquei triste, isso seria hipocrisia, mas eu estava em pânico. Como iria conseguir ter um bebê durante a faculdade vivendo em um dormitório com uma menina que parecia mais uma DST ambulante. Sem falar que todos os estágios e ofertas de trabalho iriam diminuir e muito possivelmente sumir.
Agora, eu não via uma gravidez como um problema ou fardo. Eu tinha minha própria casa e carro, um trabalho estável que me dava mais do que um bom sustento e eu poderia prover tudo que um bebê fosse precisar.
Eu acho que seria uma boa mãe. Se os elogios que eu ganhava fossem alguma indicação. Era algo natural para mim. Estar perto de Sara, William e Zoey era fácil, e eu era fascinada como a forma que eles pensavam mesmo tão jovens. Era mais ou menos um instinto, eu sabia quando William estava ranzinza ou apenas triste, sabia quando Zoey tentava esconder alguma mágoa ou frustração e já estava mais do que familiarizada com as caras e bocas que meu bombonzinho de chocolate fazia.
Balancei o copo de chocolate quente que havia comprado de um carrinho assim que entrei no parque. A volta para casa da nossa lua-de-mel foi feita sob um silêncio mortal entre mim e Oliver. Ele ainda segurou minha mão quando decolamos e pousamos nos dois vôos que tivemos que pegar para voltar para casa, porque não tinha apenas um direto. Então pousamos primeiro em Nove York e depois fomos para Starling City.
No segundo aeroporto, tiveram problema com o transporte de bagagens o que nos fez esperar uma boa uma hora e meia para conseguirmos ver nossas bagagens virem na esteira. Nesse meio tempo eu havia sentado em uma esteira que estava desligada e apenas observado Oliver. Ele não estava completamente distante de mim, ainda pegava na minha mão quando andávamos e abria a porta do carro para mim, levava todas as minhas malas, mas talvez fizesse isso inconscientemente ou por educação mesmo. E sempre perguntava se eu estava bem ou se precisava de algo. Ele estava frio. Quase quando eu o conheci assim que acordei no hospital, mas sem a parte do flerte até então inofensivo.
Durante a espera, Oliver ficou em pé perante a esteira como o resto dos passageiros da primeira classe e ficou mexendo em seu celular, pelo movimento de seu dedo, ele estava jogando um joguinho de raciocínio lógico que havia baixado á algumas semanas atrás para se distrair do stress do casamento, mas acho que o motivo do stress agora era eu e minha gravidez. Tanto que ele nem pareceu notar o flerte descarado de duas mulheres muito bem-vestidas e maquiadas que estavam perto dele.
Fomos direto para casa depois que pegamos nossas malas. O apartamento estava escuro e frio demais, mas dada a situação... Até que combinou. Eu fui direto para o nosso quarto e coloquei meu celular para carregar e me tranquei no banheiro com os outros seis testes de gravidez de diferentes marcas para ter mais do que 100% de certeza. Recebi várias confirmações em diferentes jeitos: Dois tracinhos, um polegar positivo, uma chupeta brilhando e até mesmo um balãozinho que dizia "Oi, mamãe!".
Depois que tomei banho e coloquei roupas quentinhas e confortáveis, fui atrás de algo para comer e encontrei Oliver também de banho tomado sentado em seu piano dedilhando notas melancólicas. É claro que o seu repertório iria mudar também. Eu havia preparado duas embalagens de macarrão com queijo para nós dois e aberto uma garrafa de vinho. Bom, vários artigos online diziam que uma taça só não fazia mal, então... Eu tomaria uma taça bem cheia.
Deixei a embalagem de Oliver dentro do microondas e sentei na sala de estar com meu prato e minha taça. Não liguei a televisão e muito menos mexi no meu celular, apenas comi enquanto ele tocava. Assim que ergui minha taça notei que ele errou uma das notas de uma peça de Beethoven e de rabo de olho vi que ele estava me encarando enquanto voltava a tocar.
Suspirei internamente e abaixei a taça até a mesa de centro e foquei na comida, porque estava morrendo de fome. Eu devorei tudo em questão de minutos. Não havia comida nada além de quatro barrinhas de granola durante os vôos, fiquei estressada e enjoada com toda a situação que estávamos.
Levei a taça intocada para a pia e joguei o vinho fora. Lavei a taça e o garfo que usei e respirei fundo. Estava cansada desse tratamento de silêncio. Eu não tinha feito nada de errado, ou pelo menos feito nada de errado sozinha.
Sequei minhas mãos em um pano de prato e reuni toda minha coragem. Caminhei lentamente até a cauda do piano e me inclinei sob a superfície gelada. Ele continuou tocando sem se importar com a minha presença.
— Oliver?
Ele diminuiu o ritmo da música para eu saber que ele estava escutando.
— Quando nós iremos conversar sobre o elefante na sala? — perguntei e ele fechou os olhos brevemente e depois voltou a focar nas telas na sua frente. — Sobre como tudo isso aconteceu?
— Acho que nós dois sabemos como tudo isso aconteceu, Felicity. — ele disse finalmente. E eu só notei ali o quanto sentia falta dele mesmo ele estando bem ali, quando meu coração teimoso perdeu uma batida ao ouvir a voz dele. — Não existe nenhum método 100% eficaz de contraconcepção. Você tomou sua pílula e injeções, não é sua culpa.
Uma parte de mim ficou aliviado ao ouvir isso, mas a outra ficou receosa.
— O que quer dizer?
— Eu não fiz minha parte. — ele disse e talvez tenha colocado força demais em uma das teclas porque ela saiu fora do tom. — Todas as vezes que transamos sem camisinha, ou as noites que eu dormi dentro de você... Iriam resultar em algo, eventualmente.
Ele não me culpada, mas se culpava?
— Se minhas contas estiverem corretas, você ficou grávida no Natal. E eu lembro que não usamos camisinha e que eu passei a noite inteira dentro de você. — ele disse e parou de tocar. — Então aconteceu o que tinha que acontecer.
Ele se inclinou com as mãos cruzadas em cima do piano e me olhou nos olhos.
Aqui vai então. A pergunta de um milhão de dólares. Ou talvez até mais.
— Devo abortar?
Os olhos de Oliver traíram sua máscara de indiferença. Eu vi flashes de medo, alívio, preocupação e até mesmo decepção ali antes que ele voltasse a mascarar tudo. Eu não sabia qual parte dele estava ganhando, mas sabia que ele estava em conflito. Não o julgava, eu também estava e não tinha nem metade da metade dos motivos que ele tinha.
— Felicity, isso não é algo que eu possa decidir por você. — ele respondeu em voz baixa.
Sua postura inteira ficou rígida e eu assenti levemente.
— Me deixe refazer a pergunta, então. Você quer que eu aborte? — eu inquiri. O aperto no meu peito e o pinicar em meus olhos cresciam, mas eu não iria chorar até que terminássemos essa conversa mesmo que eu não recebesse as respostas que queria.
Oliver ficou em silêncio e desviou o olhar.
— Não.
Uma onda de alívio correu por mim, mas Oliver não tinha terminado ainda.
— Eu nunca diria para ninguém tirar um filho, Felicity. Muito menos você. — ele acrescentou e eu assenti levemente. — Acha que estou feliz com o que está acontecendo? Ou que não estou sentindo a distância entre nós?
Mordi meu lábio, indecisa.
— Eu queria estar feliz por esse bebê. Eu realmente queria, mas não consigo. — ele disse e suspirou. — Sei que você esta com medo do que isso pode significar para nós dois. E mais medo ainda da minha reação do que aceitar que vai ser mãe.
Eu odiava quando ele dizia coisas assim. Parecia que ele sabia ler minha mente.
— Eu não tenho dúvidas que você vai ser uma mãe incrível, Felicity. Todo mundo sabe disso e eu também. Eu vejo como você é perto de Sara ou até de William. O problema nunca foi você. — ele apontou e levantou do piano.
Caminhou até a janela e cruzou os braços seguido por um suspiro.
— Oliver, eu não quero estar nesse cenário sem você. — eu disse e limpei o canto dos meus olhos com a manga do meu suéter.
— Que tipo de pai eu serei? Como eu poderei conviver com ele sem machucá-lo? Eu bati em você porque me tocou quando eu não esperava. Como será com essa criança que é inocente e não tem culpa das merdas em que eu me meti?
Meus medos antigos foram curados e substituídos por novos em segundos.
— Oliver, o homem que eu vejo é o mesmo homem que fez de tudo para me salvar de um acidente que eu nem deveria ter saído com vida. Eu vejo homem que guardou anos de sofrimento para si só para não magoar a família. — eu disse e vi seus ombros tensionarem. — Eu vejo o homem que eu escolhi para ser meu marido e pai deste bebê. Tente se ver pelos meus olhos pelo menos uma vez. Por favor?
Ele virou o rosto de lado e vi que seu perfil estava nublado.
— No dia do nosso casamento você prometeu até o fim dos nossos dias, Oliver. Você não está sozinho. Você tem a mim, a sua família e agora um bebê que vai te amar do mesmo jeito que eu te amo. Com ou sem traumas. — eu disse me aproximando dele e parei ao seu lado.
— Eu tenho que sair daqui á alguns minutos. — ele disse e eu franzi minha sobrancelha.
Ele iria sair? Hoje? Depois de tudo o que aconteceu?
— Eu tenho uma consulta. — ele adicionou e se afastou de mim indo em direção ao nosso quarto.
Ele iria trabalhar ainda por cima? Eu não estava acreditando nisso!
Em menos de cinco minutos, ele reapareceu vestindo uma jaqueta e tênis e estava com seu cordão com seu crachá do hospital e seu molho de chaves em mãos. Ele veio até mim e se inclinou para frente para o que parecia ser um beijo, mas eu virei meu rosto e ele acabou beijando minha têmpora.
— Eu vou voltar em três horas no máximo. — ele disse.
— Eu e o bebê ficaremos aqui. — eu rebati indo até o quarto.
Assim que ouvi o elevador abrir e se fechar, eu me joguei na cama frustrada.
Depois de meia hora eu cansei de ficar frustrada e decidi dar uma volta. Coloquei um casaco e um par de tênis de corrida e caminhei até o Stanley Park onde comprei um copo de chocolate quente e um pretzel com cobertura de chocolate. Eu mereci um agrado porque iria passar os próximos nove meses sem vinho e sem café. Eu merecia até mais do que um agrado.
Fiquei observando famílias e casais aproveitando a tarde no parque e imaginei se algum dia eu faria algo parecido. Toquei minha barriga ainda plana e sorri levemente ao pensar em um bebê com os olhos de Oliver e o seu nariz, seria a coisa mais fofa do mundo. Tomei um gole do meu chocolate quente e decidi mandar uma mensagem para Sara, talvez ela estivesse livre hoje e eu queria comer pizza. Meu segundo agrado de inúmeros que iriam vir.
Pesquei meu celular no bolso do casaco e o rosto de Sara apareceu na tela.
Timing perfeito.
Atendi sua ligação com um sorriso.
— Hey!
— Você está em casa? — perguntou ela cortando minha saudação.
Sua voz estava preocupada e meu couro cabeludo se arrepiou.
— Não, por que? Está tudo bem?
— Consegue vir para o hospital rápido?
— Sim, estou no Stanley Park. Sara, o que está acontecendo?
— William foi atacado pelo namorado bastardo da mãe. O cara foi preso, mas o garoto não está bem Lis... — ela disse e eu me levantei e joguei o copo fora.
— Estarei ai em três minutos. — disse e desliguei.
Disparei no caminho mais rápido que conhecia até o hospital e no meio de toda a correria, quase fui atropelada por um ciclista, trombei em uma senhora que tomava café e meu casaco foi atingido por uma mancha de café quente e por fim, eu tive que parar no farol da avenida que separava o hospital do parque.
Respirei fundo várias vezes e assim que a luz verde ascendeu, voltei a correr.
Fui pelo estacionamento que era o acesso mais rápido á ala de emergência e uma ambulância estava meio que descarregando dois pacientes ensanguentados. A bile subiu á minha garganta e eu quase vomitei. Cuspi um pouco do gosto horrível que ficou em minha boca no chão e assim que os paramédicos entraram, eu entrei logo atrás.
Estava um inferno. Não sabia o que as pessoas poderiam estar fazendo de tão perigoso em uma quinta-feira á noite, mas todos os leitos estavam ocupados e tinham pelo menos um funcionário em cada um deles. A minha raiva por Oliver diminuiu um pouco, ele era necessário aqui. O procurei das salas de trauma, mas não o achei, muito menos Sara.
— Merda... — eu xinguei e marchei até o posto de enfermeiras que estava vazio.
Eu disse que todos estavam ocupados, certo? Meus dedos martelaram o teclado e eu descobri onde William estava, mas o crachá de Oliver não foi usado em momento alguns nos últimos dias. Então ele também não estava em cirurgia e talvez nem estivesse aqui. Onde infernos meu marido estava então?
— Não é hora para isso. — eu disse á mim mesma saindo do sistema e indo até o quarto andar onde ficavam os quartos de paciente de clínica geral.
Billy estava no corredor enquanto algo acontecia no quarto na sua frente.
— Felicity! Você chegou rápido! — disse ele e nos abraçamos levemente.
As janelas de vidro me permitiam ver que William estava sendo posto na cama, a equipe que o rondava com jalecos amarelos descartáveis era liderada por Sara que conversava com ele e ele respondia com acenos. Uma de suas maçãs do rosto estava com um hematoma que ficava escuro á cada minuto e seus braços e mãos estavam arranhados e inflamados.
— O que aconteceu com ele?
— Ao que parece a mãe dele foi trabalhar e o deixou em casa sozinho. O namorado dela chegou e começou a gritar com ele, quando William tentou fugir a agressão começou, ele tentou ligar para a polícia, mas não conseguiu. — disse Billy em voz baixa e eu senti minha garganta se fechar. — Sara ligou para a mãe e para você e eu, mas chegamos primeiro ao que parece.
— Nós poderemos entrar? — perguntei com um fio de voz.
— Se ele quiser, claro. — concedeu Billy e eu assenti.
Me aproximei da janela e apoiei a minha mão no vidro. Sara virou a cabeça de William delicadamente para limpar alguns arranhões que ele tinha no rosto e ele me viu ali. Acenei levemente com um sorriso trêmulo e ele conseguiu balançar dois dedos em resposta, mas seus olhos refletiam tanta dor que eu quis entrar ali e o abraçar até que o mundo acabasse.
Meu celular começou a vibrar e o apertei dolorosamente no bolso. Assim que William desviou o olhar de mim, eu o peguei e vi que Oliver era quem estava ligando. Me afastei levemente, mas ainda fiquei no campo de visão de William e o atendi.
— Felicity?
— Oi. — eu disse chorosa.
— Onde você está? Está tudo bem?
— Estou no hospital. — eu disse limpando meu nariz. As lágrimas começaram a descer por minhas bochechas e eu não liguei. — William foi atacado pelo namorado da mãe e está aqui, Sara está atendendo ele.
— O que?! Estarei aí em alguns minutos, okay? Fique perto dele e não deixe a mãe ou qualquer outro parente entrar no quarto. — ele disse e eu me despedi e ele desligou.
A equipe de Sara saiu do quarto junto com ele e William voltou a olhar para mim.
Apontei para a porta e ele assentiu levemente.
Entrei lentamente no quarto e Billy ficou na porta de guarda junto com Sara.
— Hey... — eu disse baixinho e me aproximei da cama, mas não muito perto como queria. — Nós vamos ter que falar de novo sobre aquela plástica, garoto.
Ele sorriu um pouquinho e depois estremeceu de dor.
— Como foi sua lua-de-mel? — perguntou em meio a sussurros.
— Eu comi bastante, tive uma intoxicação alimentar e descobri que dois livros de culinária são lançados na França á cada dia. Você acredita nisso? A cada dia, Will. — eu disse fazendo um tom de voz ultrajada e ele voltou a sorri e depois fechou os olhos estremecendo mais uma vez. — Okay, entendi. Sem piadas.
— Eu senti sua falta, Lis.
— Eu também, garoto. — eu disse e me aproximei mais um pouquinho e toquei as proteções de sua cama.
— Eu estava em casa pegando meus livros para o projeto de biologia quando ele chegou. Estava bêbado e drogado. Derrubou a porta do quarto da minha mãe e depois a minha. — ele disse baixinho e eu fechei os olhos. — Não precisa ficar triste, Felicity.
— Mas eu estou, William. Esse tipo de coisa não deveria acontecer. — eu disse e ele assentiu como se concordasse e entendesse a gravidade de tudo que estava acontecendo.
— Oliver?
— Em uma consulta. — respondi e funguei levemente.
Um silêncio desconfortável pairou sobre nós. Isso nunca aconteceu antes.
— Eles vão me tirar da minha mãe, não vão?
— Eu realmente não sei, mas é uma possibilidade se a polícia for envolvida. — eu disse limpando minhas bochechas e cruzando os braços. Olhei para os meus pés, enquanto fungava um pouco.
— Felicity?
Levantei meu olhar e vi William completamente sereno. Parecia resignado.
Eu odiava isso.
— Pode me segurar minha mão por um tempo? — perguntou e eu voltei a chorar.
Assenti. Peguei um banquinho que estava ali de lado e sentei ao seu lado na cama, depois de algumas tentativas consegui abaixar as barras laterais de proteção e envolvi minha mão na sua desviando dos fios e acessos que estavam ligados á ele.
Continuei contando alguns fatos banais que havia aprendido na viagem com Oliver e eventualmente Sara se juntou á nós e Billy também. Eles trouxeram água para mim e lenços, porque eu estava uma bagunça emocional e não exatamente um segredo de estado. Sara contou algumas histórias engraçadas do hospital e depois deixamos Will conversando com Billy um pouquinho.
— Você está bem? Parece um pouco verde. — disse Sara se apoiando no balcão do posto de enfermagem.
— Eu me sinto um pouco verde. — eu respondi esfregando minha testa. — Eu quero matar aquele cara e a mãe dele.
— Somos duas. O garoto é gente boa, não merece passar por isso. Ninguém merece. — ela concordou e me abraçou de lado.
— O que está fazendo nesse andar afinal de contas? — perguntei.
— Bom, Oliver estava de férias junto com Robert, eu não iria ficar sozinha na neurologia com Damien Darkh, então pedi para Helen me colocar com Isabel. Ás vezes eu passeio pelo pediatria também. — ela disse com um sorriso pequeno e eu maneei a cabeça. — Isso se chama lealdade, Smoak.
— Mas eu não disse nada. — me defendi virando o copo de água.
— A sua cara já disse tudo. — ela rebateu e começou a fazer anotações em prontuários que tinha ali por perto.
Billy saiu para atender uma ligação e nos avisou que era a mãe de William e que ela tinha chegado, mas havia se perdido no primeiro andar. Ele foi buscá-la e eu marchei para dentro do quarto de William. Ele não ficaria sozinho com ela, nem aqui e nem na fodida China.
Olhei para meu celular e não tinha mensagens de Oliver. Fazia uns quinze minutos desde que ele ligou e ele não havia chegado ainda. Voltei para o meu posto ao lado de William e agarrei sua mão e sorri.
— Sua mãe chegou. — eu disse e senti seus dedos tensionarem contra os meus levemente para depois relaxar. — Eu não entendo muito sobre o processo legal da coisa toda, mas saiba que eu estarei aqui se precisar de mim e se me querer por perto, okay? Eu não vou á lugar algum. Eu vou até o inferno se você precisar.
Ele assentiu e eu apertei levemente seus dedos.
— William?! William! — uma mulher começou a gritar no corredor e nos achou dentro do quarto certo.
Eu conseguia ver algumas semelhanças entre ela e William como o formato do nariz, o olhos e até mesmo as maçãs do rosto por baixo de uma camada pesada de maquiagem que estava sendo destruída por suas lágrimas. Ela se jogou contra William que gemeu de dor e desconforto. Olhei para Billy que se aproximou e tocou nos braços dela.
— Samantha? Ele ainda está com dor, não podemos cansá-lo. — disse Billy usando um tom de voz calmo e claro.
Samantha se ergueu de cima de William e notou seu desconforto.
— Me perdoe querido, eu sinto muito... — ela disse e o rosto de William ficou completamente inexpressivo.
Isso me assustou, mas eu não me mexi.
— Eu não quero... Você tão perto assim. — respondeu William hesitante.
Apertei seus dedos de novo para ele lembrar que não estava sozinho.
— Okay, querido. Me desculpe! Eu não tinha ideia que ele iria em casa! — ela disse chorando e eu fiquei com pena dela. Talvez ela fosse uma vítima também e precisasse de ajuda. — Não era para ele ter ido lá.
William acenou minimamente.
— Quem é você?
Levantei meu olhar para Samantha que estava finalmente me notando ali do lado de seu filho e acenei levemente com a cabeça, mas não sorri. Não estava no clima para cortesias além da primeira base de educação.
— Eu sou Felicity Smoak, sou tutora de física do Will. — eu me apresentei.
— Eu sou a mãe dele, Samantha Clayton. — ela disse e eu voltei a acenar e depois me virei completamente para William. — Me desculpe, mas o que faz aqui?
— Ela é meu contato de emergência. — respondeu William seguido por um suspiro.
Samantha não gostou disso, é claro.
Notei a forma com que fechou os punhos com força e também notei que ela usava um uniforme curto de garçonete do Hooters. Uma famosa franquia de bares que era conhecia pela variedade de serviços. Uma vasta variedade. Meu pré-julgamento se formulou rapidamente em minha mente mesmo sem eu querer. Eu não gostava dela.
— Ahm, será que eu posso conversar com minha mãe á sós? — pediu William olhando para mim e para Billy.
Não!
— Você não pode ficar sozinho com alguém relacionado ao seu ofensor, William. Se não se importa, eu ficarei aqui e talvez Felicity consiga um dos remédios bons para a sua dor, pode ser? — ofereceu Billy e William assentiu.
Ele apertou meus dedos e eu me levantei.
— Eu vou estar ali fora, qualquer coisa grite, okay? — ele sorriu um pouco em resposta á mim e eu saí do quarto querendo arrastar Samantha junto comigo, mas ela só tomou meu lugar e sentou ao lado de William.
Voltei para o posto das enfermeiras e Sara estava lá digitando em um dos computadores e mantendo o olho em nós ao mesmo tempo. Assim que me aproximei ela revirou os olhos em direção á Samantha e eu assenti fazendo o mesmo. Sendo mãe de Will ou não, nós não gostávamos dela.
— Oliver acabou de me ligar e disse que está vindo, mas um dos pneus furou no caminho. Ele conseguiu trocar e está á vinte minutos de distância. — ela disse apertando alguns comando no computador e logo fechando o sistema inteiro. — Quer ir comer alguma coisa? Eu ainda não tive minha pausa.
Aceitei a oferta e depois de um rápido olhar para William, percebi que ele estava tentando argumentar algo com sua mãe que parecia confusa e magoada. Billy pairava sob os dois como um bote salva-vidas, mas não sabia quem iria salvar no final de tudo.
Mandei uma mensagem para Billy e disse que iria no refeitório e já voltaria.
Caminhei com Sara enquanto ela perguntava sobre a lua-de-mel e tudo que fizemos durante, e eu dei respostas vagas. Ela notou, mas não pressionou e eu fiquei grata por isso. Ela pediu café e eu mais um chocolate quente com extra marshmallows e combinamos de dividir um sanduíche natural.
Sentamos em uma mesa com uma bandeja e Sara atacou o lanche.
— Estou com fome, talvez a gente possa dividir o segundo lanche? — perguntou examinando a metade do lanche em suas mãos e eu assenti sorrindo levemente. — Hey, ele vai ficar bem. William é bem forte.
— Eu sei.
— Então por que ainda está com essa cara? — perguntou de boa cheia após dar uma mordida bem grande.
— Estou grávida. — eu respondi em voz baixa.
Sara não arregalou os olhos comicamente ou deixou seu sanduíche cair no prato com um baque, seus olhos não encheram de lágrimas e muito menos seus lábios se tornaram naquele "O" redondo. Aparentemente estávamos tendo um padrão que nenhuma comédia romântica mostrou nas telas.
— Oliver sabe? — perguntou ela voltando a comer depois de alguns segundos em silêncio. Eu assenti em resposta. — E como foi a reação dele?
— Igual á sua. Ele não ficou feliz á ponto de soltar fogos de artificio. — eu disse soando amarga antes de tomar meu chocolate quente e pescar alguns marshmallows no topo da xícara. Ela assentiu e terminei de comer a primeira metade do sanduíche e bebeu um pouco de seu café.
— Bom, eu estou feliz por vocês Lis, esse vai o ser o mini ser-humano mais lindo deste planeta. — ela disse alcançando minha mão e apertando-a. Eu sorri mais um pouco e apertei a mão dela de volta. — Mas me preocupo com Ollie, desde que o conheço, ele nunca quis ter filhos.
— Ele ainda não quer. Isso não mudou. — eu disse comendo mais marshmallows. — Ao meu ver ninguém que sabe desta gravidez está muito contente ou até mesmo feliz.
— Ele pediu para você abortar? Aquele filho de um... — ela exclamou ainda em voz baixa mesmo que só tivéssemos nós duas no refeitório e o balcão estava bem longe.
— Não. Ele não quer que eu aborte, mas também não quer o bebê. Nós começamos a meio que discutir sobre tudo e ele precisou ir sair para uma consulta. Pensei que seria aqui, mas acho que estava enganada. — disse soando amarga novamente e Sara parecia contemplativa sobre o que eu havia dito.
Contei á ela o que aconteceu no último dia de lua-de-mel e ela revirou os olhos para mim quando contei sobre os testes de gravidez e discursou sobre o falsos positivos serem uma coisa até que eu falei que fiz mais testes assim que cheguei em casa. Ela terminou de comer e beber seu café do qual eu estava salivando para arrancar de suas mãos. Eu terminei meu chocolate quente e me deixei convencer sobre fazer um exame de sangue para descargo de consciência.
— Eu vou mandar isso para a análise, deve ficar pronto em uma meia-hora no máximo e depois podemos ir conversar com a Dra. Hall. Ela é obstetra e pediatra noturna aqui e nunca dormiu com Oliver, então eu acho que ela é uma boa escolha. — disse Sara balançando o tubinho com meu sangue e eu assenti.
Ela envolveu meu braço em um curativo seguido por uma fina camada de atadura só para segurar o curativo no lugar e me liberou indo pedir o exame. Eu voltei para o andar de William e vi que ele estava dormindo. Billy e Samantha estavam conversando no quarto ao lado que estava vazio.
Olhei meu celular e vi algumas mensagens de Oliver.
"Oliver, Q: Pneu estourou, vou demorar um pouco. William está bem?"
"Oliver, Q: Preso no trânsito. Você já comeu alguma coisa?"
Suspirei levemente e respondi.
"Felicity, S-Q: William está bem, ele está descansando. A mãe dele chegou e está conversando com Billy. Dra. Rochev está fazendo o atendimento dele junto com a Dra. Talia."
Ponderei sobre responder a segunda mensagem. Agora ele parecia se importar comigo? Revirei os olhos para mim mesma. Não era justo. Ele sempre se importou. Até demais. Sentei em uma das cadeiras confortáveis do corredor e digitei uma segunda resposta.
"Felicity, S-Q: Comi um sanduíche com Sara. Você está chegando?"
Sua resposta veio de imediato.
"Oliver, Q; Cinco minutos."
Não lutei contra a onda de alívio que me inundou. Ele estava praticamente aqui do lado e estava vindo. Oliver viria. Isso era tudo que me importava. William não parecia desconfortável perto de Billy, será que ele teria uma reação negativa com Oliver? Pensei em perguntar isso para um dos dois antes que algo ruim acontecesse e piorasse o caso de William.
Dei mais uma espiada em Will que estava dormindo ainda. Agradeci aos céus e quem quer que esteja lá em cima por fazer ele conseguir este descanso mais do que merecido. Eu não tinha ideia do que era passar por isso, mas Oliver sim. A minha mão descansou em minha barriga e eu suspirei. Eu não tinha ideia como iríamos lidar com isso, mas sabia que não iria desistir de nenhum deles, e se fosse preciso iria amar nosso filho por nós dois.
Só por cima do meu cadáver que algo coisa assim vai acontecer com meu filho.
Olhei pela janela do corredor e vi que havia começado a chover. O cheiro da chuva e o ar úmido foram muito bem-vindos por mim, a calmaria foi uma dádiva no meio da tempestade. Figurativamente e literalmente falando.
— Felicity?
Me virei e dei de cara com Oliver caminhando do elevador até mim, notei que estava com as mãos sujas de graxa e sua jaqueta estava molhada. A chuva pegou ele do lado de fora. Ele me embalou em seus braços e eu quis chorar de novo. A parte dos hormônios em fúria deveria vir bem depois do primeiro mês, não? Ele beijou minha testa e nos separamos um pouco.
Oliver observou William da janela e seu olhar me quebrou ainda mais.
Ele sabia o que era estar ali do outro lado daquela janela. Sozinho. E com medo.
— Como ele está? — ele perguntou indo até o balcão e pegou o prontuário de Will.
— Ele não estranhou minha proximidade e nem a de Billy ou até mesmo Sara, mas ficou arisco perto da mãe dele. — eu disse esfregando meus olhos que eu sentia começar a inchar por causa do choro recente. — O que diz aí?
— Ele tem contusões nas costelas e nas costas, arranhões superficiais no rosto e nas mãos, e... — ele disse e virou a página. Seu rosto endureceu completamente e eu sabia o que viria depois de tudo isso. — Evidências de violência sexual.
Apertei meus olhos e tirei o prontuário de suas mãos e o devolvi ao seu lugar.
— Você sabe o que aconteceu com quem fez isso? — perguntou com um tom frio.
— Aparentemente Will foi para casa pegar algumas coisas suas para fazer um trabalho de escola a noite na casa de Zoey quando o namorado da mãe chegou bêbado e drogado, derrubou a porta do quarto dela e depois a dele. A mãe estava trabalhando quando aconteceu, alguém chamou a polícia no meio tempo e prenderam ele. — eu contei em voz baixa e voltei para o meio dos braços dele.
Ele me recebeu de bom grado e eu quis voltar a chorar. Merda.
— Felicity? Samantha quer discutir algo com você...
Nos viramos na direção onde Billy havia me chamado e ao lado dele estava Samantha com os olhos ainda mais vermelhos de chorar e com a postura resignada. Senti o aperto de Oliver se intensificar ao meu redor de um modo que seus braços quase que me sufocaram em seu aperto mais do que doloroso.
— Hey, o que...? — eu comecei estremecendo de dor me virando para Oliver e o encontrei encarando Samantha em nossa frente.
Eu olhei entre os dois e um Billy alheio até que os pontos se conectaram.
Não...
Não podia ser, podia?
Essa Samantha?
— Oi Oliver, quanto tempo, não? — saudou a mãe de William.
Não foi surpresa para mim quando eu desmaiei em seguida.
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