Algo em minhas costas estava quente. Muito quente. Não chegava a ser desconfortável, mas não era confortável também. Abri os olhos, grogue. A coisa quente em minhas costas, era o próprio Sol. Raios se infiltravam entre as frestas da cortina e eu cocei os olhos. Alcancei meus óculos no criado mudo e abracei o lençol para tampar minha nudez, olhei ao redor e não encontrei Oliver.

O quarto estava uma verdadeira bagunça, mas eu apenas me enrolei no lençol e levantei da cama. Caminhei até a sala de estar e encontrei Oliver mais a frente, na sacada com uma xícara de café que provavelmente veio junto com o carrinho de café da manhã com um pequeno buquê de rosas amarelas.

Caminhei até ele fazendo um nó seguro no peito e abracei sua barriga e beijei suas costas.

— A dorminhoca decidiu acordar... – ele comentou e eu ri.

— Não é todo dia que temos um dia tão ensolarado em Londres. – eu disse e ele me puxou para sua frente.

— Você dormiu 12 horas seguidas, estava começando a me preocupar. – ele disse franzindo as sobrancelhas e eu ri de seu instinto super-protetor.

— E eu me recuso a te parabenizar por ontem...

— Vamos comer, então.

Nós comemos e fizemos as malas. Enquanto as funcionárias limpavam a nossa bagunça, decidimos ir fazer um passeio pelo único ponto turístico que não tínhamos conseguido ir. O Olho de Londres. A maior e mais famosa roda gigante do mundo. A fila estava pequena quando chegamos.

Tiramos fotos dentro da cabine e apenas aproveitamos a vista privilegiada de toda capital inglesa que era nos oferecida. Eu apenas sentei ali, rodeada pelos braços de Oliver e aproveitando seu calor me aquecendo.

Conseguimos até dar uma passada na Ponte das Torres Gêmeas na hora de voltar para o hotel. Almoçamos no restaurante do próprio hotel e depois despachamos as malas para o aeroporto e fizemos o check-out.

— Você gostou da viagem? – perguntou ele quando nos sentamos nas poltronas da primeira classe. Eu sorri assentindo enquanto me despedia de Londres pela janela do avião.

— Sim! Foi uma viagem tão boa. – exclamei e ele sorriu.

A melhor parte de tudo isso foi ver uma versão mais bem humorada e feliz de Oliver, mas esse fato eu não poderia contar, porque ele ainda tinha seus momentos de inconstância de humores.

Ele estava tentando ao menos, e isso já era um grande movimento de sua parte.

Oliver parecia relaxado, como se estivesse livre depois de muito tempo preso em algum tipo de prisão pessoal. Estava nisso á meses, e ainda não consegui entender nada de Oliver Queen. Isso deveria me frustrar, certo? Mas por que eu não me sentia frustrada?

Porque era a desculpa perfeita para continuar ao seu lado. Nós éramos namorados agora, não precisava ter uma desculpa para ficar ao seu lado. Revirei os olhos para minha própria confusão mental e apenas apertei a mão dele enquanto o avião decolava em direção aos Estados Unidos novamente.

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— Lar, doce lar. – eu disse quando as portas do elevador abriram no meio do hall de entrada. Por mais que a viagem tenha sido curta, foi muito agitada. – Oh...

— O que foi? – perguntou Oliver trazendo nossas malas e parando ao meu lado, tão chocado quanto eu.

O hall inteiro estava forrado de buquês de rosas vermelhas, onde não tinha um buquê tinha pétalas e velas que foram derretidas á um bom tempo. Não tinha nenhum cartão á vista. Oliver colocou as malas no chão e foi até o maior arranjo de flores. Tinha que ter pelo menos umas cem rosas ali, e eram de um vermelho tão escuro e profundo.

— Oliver? – chamei quando ele alcançou algo no meio do arranjo. Ele parecia estar com medo de ser mordido pelas flores. – De quem são?

— De alguém que passou dos limites. – ele respondeu com a voz dura, enquanto amassava um papel que deduzi ser o cartão.

— Me conte o que está acontecendo, por favor... – pedi. – É a mesma pessoa que anda te ligando toda hora, não é?

— Felicity... – a suplica em sua voz me preocupou.

— Hey, temos um relacionamento agora. Você vai ter que começar a confiar em mim e eu em você, mas não iremos conseguir fazer isso se houver segredos entre nós dois. – eu disse alcançando sua mão livre e ficando de frente para ele.

— Você é a última pessoa que eu quero incomodar com coisas que aconteceram no meu passado. Então se não tem importância para mim, não deve ter para você. – ele disse apertando minha mão.

Ele estava sendo sincero... Eu acho.

— Você é mulher, o que faz quando não quer flores de alguém? – perguntou olhando ao redor, perdido. Eu tive que rir de sua pergunta e peguei uma rosa do buquê enorme.

— Elas são lindas, e... Ai. – eu disse me furando com um espinho. Chupei meu dedo quando começou a sangrar. – E eu realmente não sei, as únicas flores que eu ganhei foi em um enterro e do meu namorado.

— Enterro? – ele perguntou pegando as malas do chão novamente.

Ignorei ele, me fingindo distraída com outro buquê, e ele apenas maneou a cabeça e riu.

— Vá tomar banho e eu darei um fim na bagunça. – ele disse e eu apenas assenti entrando no quarto.

Tomei um banho rápido, já estava tarde demais. Nós chegamos 23h:12min e já eram quase meia-noite. Vesti uma camiseta de Oliver e deitei na cama, esperando ele. Eu estava brutalmente cansada, e só consegui mandar uma mensagem para mamãe para avisar que havia chego bem em casa.

Estava ficando cansada de esperar, e cochilei por alguns minutos, até o colchão afundar ao meu lado. Rolei até encontrar com o peito nu e quente com um cheiro mais do que familiar.

— Oliver? – chamei e senti braços me rodearam.

— Shhh. Durma, Smoak. – ele sussurrou e eu o abracei, enquanto sentia o endredon em cima de nós dois.

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Estava cortando uma cenoura em rodelas e ouvindo “Sorry Not Sorry”. Oliver tinha ido em uma adega perto daqui comprar vinho para comermos com o frango xadrez com legumes assados na manteiga que eu estava terminando de fazer. Coloquei as rodelas de batata, cenoura, algumas cebolas pequenas inteiras, brócolis e couve-flor dentro do forno com uma camada de manteiga e boom. Era só esperar pouquinho.

Montei a bancada com os pratos e taças, quando Oliver passou pelas portas de aço do elevador. Ele estava com uma sacola em mãos. O vinho foi direto para o freezer. E Oliver foi direto para o quarto, enquanto eu esperava os legumes assarem. O clima ainda estava estranho entre nós depois das flores, eu não entendia bem o porquê, mas estava e isso já fazia dias.

Amanhã seria dia em que eu irei refazer os exames que Oliver havia marcado para mim. Será que era por isso que ele estava nervoso? Eu também estava nervosa e com medo. Não era bem um segredo para ninguém. Oliver apareceu novamente e me entregou meus remédios.

Eu tomei e sentamos na bancada.

— Me desculpe. – ele disse em voz baixa e eu ergui uma sobrancelha.

— Você está falando comigo ou com o saleiro? – perguntei e ele ergueu a cabeça.

— Eu te afastei, e na noite que encontramos os buquês... Eu te deixei sozinha aqui. – ele disse e eu peguei sua mão.

— Oliver. Você não vai precisar se desculpar se apenas se abrir comigo, mesmo que seja um pouquinho. – eu disse e ele sorriu falsamente. Era o limite rígido dele. – Então...

O interfone começou a tocar me tocando e Oliver alcançou ele na parede. Falou alguns “ahams” e depois desligou. Antes que eu pudesse falar novamente, o elevador se abriu e um homem uniformizado entregou um buquê de rosas brancas para Oliver que sorriu e deu uma gorjeta para o rapaz.

Oliver se virou para mim e me entregou as flores, eu sorri. Peguei o cartão que só dizia “Para Smoak, minha namorada” e ri.

— Obrigada, elas são lindas... – disse indo colocar água no vaso.

— Você vai receber flores todos os dias se depender de mim, Smoak. – ele disse e eu sorri com sua atitude fofa. Coloquei ele no canto da bancada e depois tirei a forma com os legumes do forno.

Servi os pratos e ele serviu o vinho branco gelado. Nós comemos em silêncio, mas nada que fosse desconfortável como antes. Sorríamos um para o outro de tempos em tempos, e ele apenas ficava gemendo de prazer toda vez que mordia uma batata. Elogiava minha comida e eu corava.

— Posso pedir uma coisa? – perguntei depois que terminei o meu prato e ele terminava o segundo dele.

— Depende muito do que a minha namorada quer. Ela quer algo pervertido? – perguntou erguendo uma sobrancelha, e eu ri que nem uma garota boba quando ouvi o “namorada” em sua frase.

— Toque piano para mim? Por favor? – perguntei fazendo um beicinho e ele riu raspando o prato.

Ele terminou de comer e decidiu lavar a louça do modo tradicional hoje, ignorando a lava-louça. Parecia pensativo. Eu o ajudei e guardei o que restou da comida dentro da geladeira. Sentamos no banquinho em frente ao seu piano e ele olhou para mim.

— O que você quer ouvir?

— O que você quiser tocar. – eu disse sorrindo levemente e ele posicionou suas mãos em cima das teclas brancas de mármore.

A música não era triste e nem melancólica. Era pacífica, neutra... Nada triste, porém nada alegre também. Ele tocou ela duas vezes e depois começou uma diferente. Mais suave, e essa eu reconheci.

— “Romance”? – perguntei e ele assentiu.

— Não sei se lembro como tocá-la completamente... – admitiu, tímido.

Era um clássico de Beethoven. E a música que meus pais dançaram em seu casamento depois da cerimônia. Ele errou apenas alguns acordes, nada que tirasse a beleza da música. Parecia determinado. Na segunda vez que a tocou, não errou nenhuma vez.

— Estou com medo do que iremos encontrar nos exames amanhã... – eu contei deitando minha cabeça em seu ombro.

— Por que? Você tomou os remédios e nada aconteceu com você... Ou aconteceu? – ele perguntou ainda tocando.

— Não, mas qual seria o pior caso?

— Eu acredito que você melhorou, mas terá que continuar com os remédios por mais um tempinho... – ele disse e eu revirei os olhos.

Odiava essa mania dele de ignorar minhas perguntas.

— Oliver. Qual é o pior caso? – perguntei me endireitando.

— A formação de um coágulo maior, mas isso é impossível já que está tomando os remédios á risca. – ele disse e eu assenti. – Todas as namoradas são mandonas que nem você?

— Mas eu nem mando em você! Já viu Cait e Tommy? Ou pior... Dig e Lyla? Olha o tamanho dele e ela o faz de gato e sapato quando quer! Até acho que ela é a dominante naquele relacionamento... – eu me defendi fazendo Oliver rir.

— Hm, Dig como submisso? Lyla com um chicotinho na mão? Não sei se queria imaginar isso agora...

Nós rimos e recomeçou “Romance” pela quarta vez e algo veio a minha mente.

— Por que você trocou Mozart por Chopin? – perguntei e senti seu ombro tensionar.

— Acho que era a maneira da qual eu me sentia...

— Por que uma criança ficaria tão triste assim? – voltei a perguntar e ele errou um acorde.

— Tanta coisa triste e dolorosa... Eu não gosto de pensar sobre o passado, não quando o presente está bem aqui na minha frente. – ele disse se virando para mim.

— E como você espera que eu te conheça?

— Você me conhece melhor do que a minha própria mãe, Smoak. – ele revelou e eu arregalei os olhos.

Isso era impossível.

— Por que você não consegue se abrir com as pessoas que te amam? – perguntei e ele apenas traçou minha mandíbula com seu dedo indicador.

— Você me ama?

Oh.

— Você ainda tem alguma dúvida sobre isso?

Qual é... Quem eu estava querendo enganar aqui? É claro que eu amava ele. Oliver ficou parado e me encarou. Seus olhos estavam tristes. Por que alguém ficaria triste depois de ouvir que alguém o ama? Me afastei de seu toque e me virei completamente para ele.

— Você disse que a pessoa que mandou as flores e que estava te ligando não tinha importância para você, mas então por que você fica irritado? Por que fica ainda mais irritado quando eu pergunto sobre isso?

— Acha que é alguém que me interessa, Felicity? Alguém que eu quero e estou escondendo de você? – ele perguntou se levantando e caminhando até o janelão com a vista para Starling.

— Como é que eu vou saber? Você não conversa comigo. Você parece duvidar do que eu sinto. Você não confia em mim. – eu apontei me levantando também.

— Eu confio em você mais do que qualquer outra pessoa, Smoak.

— Não parece.

— Isso tudo não importa! E ela está conseguindo o que sempre quis! Nós estamos brigando, e pelo que mesmo? – ele perguntou se virando e eu cruzei os braços.

Ela? É uma mulher? Nós estamos brigando, porque o meu namorado recebeu inúmeros buquês de flores de outra mulher e saiu no meio do noite, me deixando preocupada? Ah, eu não sei, porque ele não me contou nada sobre. – eu disse gesticulando com as mãos ficando realmente brava agora. – Quer mais, Queen?

— Quero. – ele disse e voltou a se virar para janela. – Quero a paz que tínhamos em Londres. Quero poder ficar dentro de você e saber que tudo está bem.

— Nem tudo se resolve em sexo, Queen. Pare de pensar com a cabeça de baixo. – eu rosnei.

— Fe-li-ci-ty.

Xinguei a mim mesma quando meus braços se arrepiaram com o tom de voz que ele usou. Agora ele estava ficando tão bravo quanto eu estava. Eu só conseguia resposta se houvesse alguma briga entre nós, pois bem.

— Você não me deixa entrar na sua vida. – acusei e vi a verdade em minhas próprias palavras. Ele não deixava eu entrar na sua zona de conforto, durante todo esse tempo, foi ele que entrou na minha.

— Ninguém nunca entrou na minha vida com você, porque você chegou de paraquedas e eu não estava esperando por isso. Ninguém nunca mexeu comigo do jeito que você mexe, Smoak. E eu nunca quis ser outra pessoa tanto quanto eu quero ser para você... – ele sussurrou.

Mesmo em voz baixa, e não aos berros, o Oliver que me deu a carona na noite de Natal estava ali. Ele parecia mais quebrado do que nunca, mas ele estava ali. Sua postura, as mãos fechadas em punhos...

— Eu não quero outra pessoa, eu quero você do jeito que é. Irritante, provocador, com traumas... Tão imperfeito como eu sou. – eu sussurrei de volta.

— Eu não quero te dar isso, Smoak.

Ele se virou e eu vi que ele estava sendo sincero como nunca foi comigo.

— Pare de decidir as coisas por mim. Eu sei o que eu quero. Eu te disse isso no dia em que saí daquele maldito hospital. – minha voz saiu mais dura do que eu queria e isso afetou Oliver mais do que deveria. – Eu quero Oliver Jonas Queen. O filho mais velho. O doutor ranzinza que todos adoram. O homem que eu me apaixonei perdidamente.

— Eu também quero você, Felicity. A filha prodígia. O porto seguro de quase todo mundo que eu conheço... A mulher pelo qual eu me apaixonei perdidamente. – ele disse e tranquei minha respiração. – Mas eu não sou o único com segredos, sou? Quem é Cooper, Felicity? E o que ele tem relacionado ao anel?

Dei um passo para trás, abalada, e ele ergueu uma sobrancelha.

— Eu não sou o único que esconde coisa, não é mesmo?

Ele se aproximou.

— É uma via de mão dupla, Oliver. Se você me contar, eu irei contar também. Se você confiar em mim, eu irei confiar em você. – eu disse quando ele parou na minha frente. – Eu sei que você não tem lá muita experiência nessa coisa de relacionamentos, mas saiba que nem sempre o amor é suficiente para manter duas pessoas juntas.