Dangerous Love
26 Capítulo 26
Notas iniciais

— Já parou para pensar que nós poderíamos ter nos conhecido á mais tempo? — perguntei assim que entramos no carro.
O almoço com Roy e Thea fora... Difícil. Eles estavam discutindo muito e eu decidi fazer uma pequena intervenção ao dizer que queria comer a lasanha de Roy que era a melhor de todas do mundo inteiro. Eu me auto-convidei para o apartamento deles mesmo e as coisas estavam piores do que eu poderia ter imaginado. Eles estavam com dúvidas em relação ao futuro. Então Oliver e eu paramos no Big Belly Burguer para comprar o nosso almoço e fomos até a Verdant que era onde o casal estava fazendo o inventário para o próximo final de semana. Para ajudar eles de algum jeito.
Oliver ficou relutante no começo, mas depois que eu comecei a pontuar os meus argumentos, ele concordou com a pequena intervenção com a condição de sermos sutis com a abordagem. Sutileza nunca foi o meu forté, mas eu concordei também.
As brigas entre Thea e Roy eram difíceis de ignorar, porque Thea não deixava barato e se estivesse incomodada com algo, não escondia. As alfinetadas entre os dois já estavam rolando bem antes da apresentação de Sara na igreja quando vi Thea fumando pela primeira vez depois de um longo tempo. Roy sempre viajando (fugindo) para Central City para resolver pendências da nova filial da Verdant. Thea enfurnada na instituição resolvendo (fugindo) e criando novos problemas para resolver.
— Parece que sim. Thea já tentou várias vezes me jogar para cima das amigas dela, mas eu estava ocupado demais com o trabalho na maioria das vezes. — Oliver respondeu colocando o cinto e ligando o motor.
Eu coloquei o meu cinto e bati em seu ombro.
— O que?
— "Na maioria das vezes"?
— Eu cheguei a sair com algumas, mas nada que você precise se preocupar, Felicity. — ele disse rindo e girando o volante levemente, tirando o carro do meio-fio. — Eu acredito que tudo aconteceu como deveria ter acontecido. O acidente te levou até mim.
— Na verdade, uma moeda me levou á você. — corrigi e vi ele revirar os olhos levemente. — Você acha que conseguimos cumprir a missão?
— Sim. — ele respondeu e paramos em um farol vermelho. Olhei pela minha janela e sorri levemente. O dia estava ensolarado e o trânsito razoável. Era extremamente raro minhas folgas combinarem com as de Oliver, mas hoje estava sendo um dia atípico. Da melhor maneira possível. — Thea ficou com a ruguinha que tem desde pequena quando começa a pensar bastante em uma coisa. Roy também.
Oliver colocou sua mão em minha coxa e eu voltei meu olhar para ele.
— Nós fizemos o nosso melhor, da melhor maneira possível. Eles vão se resolver. — eu disse tentando ser otimista e Oliver apertou minha coxa levemente. — Agora vamos passear um pouco, eu preciso de um tempo de qualidade com meu namorado.
Oliver riu levemente e eu coloquei a minha mão em cima da dele.
Nós fomos para a Mauboussin porque eu estava com uma imensa vontade de tomar sorvete, qualquer sorvete que não fosse de chocolate com pimenta, pistache ou chocolate com menta. Oliver decidiu que iriamos tomar uma banana split então. Claro, uma para cada um. Sorvete era a única coisa que eu e Oliver não dividíamos de jeito nenhum.
Sentamos em uma mesinha dentro da sorveteria que parecia ter sido vitima de uma explosão de tons pastéis criados pela festa do chá das cinco no País das Maravilhas. A decoração era exageradamente fofa, mas o que mais me chamava atenção era o contraste que Oliver tinha com ela.
Ele estava sentado na minha frente em um puff peludo rosa com as pernas esticadas no corredor porque a mesa era pequena demais. Seus braços estavam cruzados, o que fazia seu braço parecer bem maior e quase rasgava a jaqueta de couro preta que estava usando. Um bad boy dentro da casa da Barbie. Deus... A quantidade de piadas que eu poderia fazer agora era ridícula.
— Felicity?
Ergui uma sobrancelha em sua direção e ergui minha caneca de café.
— Esse sou eu notando você me encarar. — ele disse e eu ri e bebi um gole do meu café. — Por que sempre toma café antes do sorvete?
— O sabor fica melhor. É a mesma coisa do que uma degustação de vinhos, só que eu aplico no sorvete. — eu disse abaixando a caneca para a mesa mais uma vez.
Oliver ergueu uma sobrancelha e eu empurrei a caneca para ele.
— Está me desafiando, Felicity?
— Não estamos mais na quarta série, Oliver. Apenas prove. — eu disse e ele ergueu a caneca e tomou um gole bem na hora que nosso pedido chegou na mesa.
Antes mesmo de eu conseguir pegar minha colher, meu bolso vibrou e eu pesquei meu celular do bolso da jaqueta e vi que era uma mensagem de Curtis.
Curtis, H: As crianças chegaram. Zoe e Will perguntaram de você, tentei não me sentir ofendido por isso.
Sorri e comecei a digitar a resposta.
— Okay, você estava certa. Fica mais gostoso mesmo...
Felicity, S: Eu queria estar aí quando eles chegassem :(
A resposta de Curtis veio logo depois.
Curtis, H: Não. Aproveite sua folga. Aproveite o doutor. Eu não vou fazer nada de legal e incrível com eles sem você.
— Felicity?
Ergui o indicador para Oliver e Curtis mandou outra mensagem.
Curtis, H: Temos Minions agora, Felicity!
Ri baixinho e foto chegou em seguida. Cliquei nela. Eram Zoe, William, Anthony e Anna estavam todos vestindo coletes, luvas e óculos de proteção e estavam observando uma demonstração de Cisco. Eu, Curtis, Cisco realmente tínhamos os minions mais fofos do mundo.
Felicity, S: Novo papel de parede em 3, 2, 1...
Meu celular foi tirado de minhas mãos e eu persegui ele até ver a carranca de Oliver.
— Felicity? Seu sorvete está derretendo... — ele disse e eu olhei para baixo. A cereja já havia começado a afundar na bola de sorvete e resgatei ela e joguei para dentro da minha boca. — O que está te fazendo rir e sorrir assim? Está me traindo, Smoak?
— Ha ha ha. Você deveria desistir da medicina e começar a fazer stand-ups, Queen. Ganharia bem mais dinheiro. — eu disse e estiquei a mão em sua direção. Ele devolveu o celular e eu coloquei no bolso novamente. — Prontinho. Você tem a minha atenção completa.
— O que era tão interessante? — perguntou e eu percebi que ele já estava na metade de sua banana split e eu nem havia começado a minha ainda.
— As crianças foram conhecer o laboratório hoje. Curtis e Cisco estão dando o tour e fazendo algumas demonstrações. — eu disse de boca cheia mesmo e Oliver sorriu lindamente. Ele sempre ficava mais sorridente quando falávamos na instituição e no progresso que ela fazia. Era tão fofo. — William e Zoe são os meus minions e estão lá hoje.
— Você conhece a história deles?
— Não. Eu sei que os dois tem treze anos e amam tecnologia e física. — eu disse e tomei mais sorvete entre as pausas. — Talvez eu devesse perguntar para Dinah por precaução. Evitar qualquer tipo de gatilho ou acidente.
Oliver assentiu concordando.
Comecei a comer e Oliver começou seu monólogo de como precisávamos fazer uma viagem pequena para qualquer lugar que não fosse dentro dos limites de Starling City.
Ele estava se sentindo sufocado. Eu conseguia ver isso. Poderíamos ir visitar mamãe e papai em Gotham, talvez? Se estivesse sendo sincera comigo mesma, eu não queria ir para lugar nenhum, eu queria começar a trabalhar com as crianças e iniciar a fase de testes final nos projetos dentro da empresa. Eu gostava da correria. Oliver não, e era isso que fazia ele tão certo para mim. Ele me desacelerava, mas não de um jeito ruim.
Peguei sua mão em cima da mesa quando ele deu a primeira mordida no pedaço de torta de cookie com sorvete que havia pedido como uma segunda sobremesa. Ele olhou para mim, sorriu levemente e fechou sua mão ao redor da minha.
— Eu te amo. — dissemos ao mesmo tempo e rimos depois.
— Então... Gotham? — perguntei lambendo minha colher e eu vi os olhos de Oliver se escurecerem levemente.
Oh, nossa folga conjunta seria interessante.
—-
— William Clayton tem uma história bem conturbada e triste... — disse Dinah abrindo uma pasta em cima de sua mesa. — Ele foi violentado pelo namorado da mãe dele durante um ano inteiro, quando a mãe tentou fugir, o namorado a violentou na frente de William e vice-versa. Eles conseguiram fugir com a ajuda de um amigo dela e vieram até a instituição.
Fechei meus olhos levemente ao sentir uma pontada enorme no meu coração.
— A mãe dele está conseguindo se reerguer aos poucos, mas é difícil. O tal namorado está sendo procurado pela polícia e ambos tem um ordem de restrição contra ele, mas ainda sim é difícil. — Dinah disse suspirando levemente enquanto folheava o que parecia ser o arquivo de William. — O Dr. Malone ficou muito impressionado quando William se inscreveu no novo programa e voltou para a escola. Aquele garoto é muito inteligente.
— Sim, por isso estou aqui hoje Dinah. Quero me preparar para qualquer tipo de cenário quando eles forem nos visitar na empresa, não quero que eles vejam o lugar como um ambiente hostil e que tenham gatilhos... — eu disse cruzando minhas pernas e Dinah assentiu com um sorriso leve.
— Isso já é ótimo, Felicity. Mostra que você se importa e é tudo que essas crianças precisam agora. De alguém que se importe com elas. — ela respondeu e eu assenti. — Quanto á gatilhos, você terá que conversar com o Dr. Malone. Ele é quem trata William desde que ele chegou aqui.
— E a mãe de William? Tem como eu entrar em contato com ela?
— Ela é presente dentro dos limites de William. Ao que parece ela foi conivente com os abusos que o garoto sofreu e ele não a quer por perto. — Dinah disse e eu senti revolta crescer dentro de mim. A própria mãe? — Ele ainda tem a guarda de William e eles moram juntos ainda, mas William passa a maior parte do tempo dele na escola ou aqui e ás vezes dorme aqui em um dos quartos.
Me recostei na cadeira completamente sem palavras.
— Eu sei, mas ela é o único suporte que ele tem e até agora respeitou todas as vontades de William. Ela também está em tratamento com a Dra. Bertinelli. — disse Dinah ao ver meu estado quase que catatônico. — Quanto á Zoe, ela foi abusada pelo avô e recebia surras da avó até o pai dela conseguir a guarda dela de volta. Ele a trouxe aqui para buscar tratamento para a filha. Acho que você até viu ele por aqui, René sempre ajuda no que pode com a nossa manutenção e os voluntários.
— Oh sim, eu acho que o conheço. Ele me chamou de "Hoss"? — perguntei incerta e Dinah riu levemente.
— Sim, é ele mesmo.
Assenti levemente e Dinah suspirou baixinho.
— Zoe e William são tratados pelo Dr. Malone, acho que é por isso que os dois são tão amigos. Você vai conseguir as informações que precisa com ele, e ele deve estar chegando de seu almoço em alguns minutos. — disse ela espiando a tela de seu celular. — Eu sei que é revoltante assistir alguns casos em primeira mão e até mesmo conversar sobre eles, Felicity, mas infelizmente não temos histórias felizes aqui. Pelo menos, não no começo.
Assenti e senti meus olhos pinicarem levemente.
— Eu só quero ajudar eles o máximo que eu puder, eu vejo um enorme potencial nos dois. — disse sendo sincera e Dinah assentiu sorrindo. — Mas não quero atrapalhar o tratamento deles no decorrer do programa.
— Tenho certeza que não vai...
Continuei conversando com Dinah sobre outras crianças na instituição durante a minha hora do almoço inteira até o Dr. Malone chegar da hora de almoço dele. E ele não chegou sozinho. Estava acompanhado. Com Helena.
— Felicity! Que bom te ver! Faz um tempinhos que nós não nos vimos... -exclamou ela assim que me viu na porta do consultório.
Espera. Ela estava feliz em me ver? A recíproca não era verdadeira.
— Oi Helena. — cumprimentei levemente. — Estava te esperando Dr. Malone. Meu nome é Felicity Smoak.
O homem alto com cabelos loiros escuros e sobrancelhas marcadas parecia surpreso com a minha resposta. Tanto que seus olhos castanhos se destacaram quando ele os arregalou levemente e tateou seus bolsos procurando algo.
— Eu não esqueci que tinha consulta pela tarde, esqueci? — perguntou ele e eu ri, negando.
Ele era desajeitado pelo jeito.
— Não. Não. Estou aqui para falar sobre duas das crianças que você atende e que estão iniciando o novo programa de integração juvenil na Queen Consolidated. — eu respondi e ele suspirou aliviado.
— Oh sim, claro claro. Helena nos vemos amanhã, obrigado pela companhia. — ele disse se despedindo de Helena que continuava sorrindo em minha direção.
Ela estava gostando de me deixar desconfortável? Talvez.
Eu não ia dar esse gostinho para ela, então sorri e acenei em despedida.
Segui o Dr. Malone para dentro do consultório dele e me sentei em um das cadeiras em frente a sua mesa. Percebi muitos desenhos infantis pendurados em suas paredes e em qualquer espaço disponível. Eram coloridos e felizes. Dr. Malone parecia ser bem querido por seus pacientes mirins.
— Eu vim aqui falar sobre William Clayton e Zoe Ramirez. Eles estão na pequena turma que eu vou instruir junto com outro funcionário da Queen Consolidated. Nós queremos nos preparar para evitar qualquer acidente. — eu disse e ele se sentou em sua cadeira colocando seu jaleco pendurado nas costas da mesma. — Não quero que vire um ambiente hostil para elas, ou que tenham qualquer tipo de gatilho...
— Entendo, entendo. Bom, eu não posso dividir detalhes com você porque seria anti-ético, Srta. Smoak. — ele disse cruzando os braços em cima da mesa.
— Eu sei, eu sei. Eu só quero o melhor para esses dois, porque ambos são muito inteligentes e possuem um futuro real dentro do programa, mas não quero atrapalhar o tratamento de nenhum dos dois. — repeti minhas palavras e o Dr. Malone assentiu levemente.
— Seria ótimo que você limitasse os objetos cortantes. Zoe e William costumavam se auto-mutilar no começo como todas as outras crianças maiores, isso poderia ser um gatilho. Não os deixe sozinhos por muito tempo, porque isso os deixa inquietos. Não mencione o histórico de abusos, porque isso os deixa agressivos e desconfortáveis... — ele começou a falar e batucar os dedos em cima do tampão da mesa. — Se houver qualquer tipo de acidente ou episódio que a senhorita considerar preocupante, ligue para a instituição e nós iremos buscar os dois.
Passo 1: Tornar a Disney Geek á prova de bebê.
Passo 2: Não perder eles de vista.
Passo 3: Não seja babaca ao ponto de querer conversar sobre os abusos.
Eu conseguia fazer isso. Curtis e Cisco também. Era fichinha para nós.
— Só isso? — perguntei e ele assentiu.
— As crianças não são feitas de cristal, Srta. Smoak. Elas são bem mais fortes do que parecem. Nós só estamos aqui para reforçar isso. — ele disse com um sorriso gentil.
— Eu só não quero estragar essa chance para eles.
— O que já diz muito para mim. Suas intenções são legítimas, eu posso ver isso bem claro, o que me leva a próxima pergunta...
— Sim?
— Á quanto tempo você é mãe?
Oh. Eu realmente não esperava por essa.
— Eu não tenho filhos. — respondi e ele recostou na cadeira com uma sobrancelha erguida.
— Com certeza tem um instinto materno bem forte. Não se ofenda com isso, mas eu já observei você por aqui com Thea. Você gosta de estar aqui com as crianças e ajudar, não gosta? — perguntou e eu assenti.
— Sim, eu adoro crianças. Por isso é importante para mim saber como tratar Zoe e William. Eles são especiais. — eu respondi e Dr. Malone parecia concordar pelo sorriso que deu. — Bom, eu acho que é só isso, então. Muito obrigada, Dr. Eu farei o meu melhor.
Me levantei e trocamos um aperto de mão rápido.
Assim que cheguei na porta, ele me chamou.
— Srta. Smoak?
Me virei.
— Sim?
— Você seria uma mãe muito boa.
Sorri levemente.
— Obrigada, Dr. Malone.
Fechei a porta atrás de mim e respirei fundo. Ser uma mãe boa? Uau. Esse era o tipo de elogio que eu nunca esperaria ganhar de alguém, muito menos de um estranho, mas era bom ouvir do mesmo jeito. Eu também achava que seria uma mãe muito boa.
"Me peça qualquer coisa menos isso, Felicity. Eu não posso, não espere isso de mim. Não vou arriscar com uma criança. Nunca."
As palavras de Oliver eram um lembrete doloroso. Por mais que eu pudesse ser uma mãe muito boa, ter filhos não era uma opção para mim. Eu não quero construir uma família sem Oliver e Oliver não quer filhos. Acho que não se pode ter tudo o que quer na vida, não é mesmo?
Caminhei de volta para Queen Consolidated, estando ligeiramente atrasada, mas não corri de volta para a pilha de trabalho que me esperava em cima da minha mesa. Assim que atravessei a rua, comprei um x-burguer com um copo bem grande de refrigerante e aí sim, eu comecei a correr de volta.
Quando coloquei os pés no saguão da empresa, voltei a respirar novamente. Fui até a Disney Geek e encontrei um bilhete de Curtis grudado em um dos meus monitores. Ele tinha ido até o laboratório de Cisco com as crianças que estavam fazendo a segunda visita hoje e depois as acompanharia de volta para a instituição com o monitor que havia sido designado hoje. Seu nome é Rory e ele era gatinho. Aparentemente, Curtis tinha uma facilidade enorme de esquecer que era casado e isso nos deixava em situações pra lá de embaraçosas. E na maioria das vezes, eu não podia culpar minha língua sem filtro.
Sentei em minha cadeira e mordi meu x-burguer com vontade. O cheddar derretido era um manjar dos deuses na altura do campeonato. Rodei testes no novo software de segurança que introduzido no sistema de segurança da Queen Consolidated inteira e continuei comendo.
Chutei os saltos para o lado e bebi meu refrigerante com o canudo de inox que havia ganhado de Curtis em prol ás tartaruguinhas e comecei a eliminar o trabalho que havia sido acumulado com toda a correria do novo programa.
— Com licença, é aqui que começa o tour, não é?
Girei minha cadeira até a porta de entrada onde William estava. Parecia nervoso pela forma que agarrava a mochila pendurada em um ombro só. Ele estava olhando para o chão com um ar culpado. Deus. Eu odiava ser tão perceptiva ás vezes.
— Sim. Meu nome é Felicity, lembra? Nos conhecemos na feira. — eu disse vestindo meus sapatos de novo e indo até onde ele estava devagar, não queria assustá-lo. — Eu lembro de você William.
Ele ergueu o olhar surpreso, mas sua surpresa não era nada comparada a minha quando vi alguns machucados em seu rosto. Eram recentes. Bem recentes.
— William, o seu rosto... O que aconteceu? — perguntei com a voz calma.
— Nada. Eu só caí de cara no chão e me arranhei todo. — ele disse dando de ombros.
— Sério? — ergui uma sobrancelha e ele assentiu. — Sabe por que eu trabalho aqui, William? Porque eu sou super inteligente e por mais que eu ache que você também seja, mentir para mim é uma coisa bem idiota.
Ele torceu os lábios levemente, não havia gostado.
— Mas como a gente não se conhece ainda, eu deixo essa passar e refaço minha pergunta: Você vai contar o que aconteceu ou eu vou ter que ligar para o Dr. Malone? — perguntei colocando as mãos na cintura e William durou sete segundos inteiros debaixo do meu olhar do mal até soltar um suspiro de derrota.
— Dois garotos na escola me deram uma surra hoje, pronto. Era o que você queria ouvir? — perguntou e deu a volta para ir embora.
— Espere aí, por que?
— Você é super inteligente, descubra! — ele rebateu e eu sorri levemente.
O moleque era inteligente e parecia saber as maravilhas do sarcasmo e distorção de palavras.
— Desculpe. — ele disse logo em seguida.
— Vamos dar um jeito no seu rosto. — eu disse e pareceu confuso até eu ir no banheiro e aparecer com o kit de primeiros socorros nas mãos.
Limpei seus machucados com cuidado e William não mexeu um centímetro fora do lugar. Ele tinha paciência, por mais que seu joelho não parece de mexer.
— Pode ir com mais força... — ele disse e eu olhei para o cotonete cheio de álcool indecisa. — Já tive piores machucados que esse.
A pontada voltou com força total contra meu peito e eu assenti. Limpei tudo rapidamente e ele sentou em uma cadeira ao meu lado, enquanto esperávamos o álcool secar para pormos os band-aids.
— Você perdeu o tour de hoje na área do T.I, mas quer me ajudar com uma coisa? — perguntei e ele assentiu.
Deslizei a cadeira até a minha estação e coloquei Need For Speedy no meu monitor e no vizinho. Os testes ainda não haviam acabado e eu conseguia ver que William estava entediado e procurando um motivo para ir embora, o que eu não iria dar.
— Wow. Podemos fazer isso? — perguntou ele.
— Depende. Você vai contar para alguém se fizermos?
Ele negou e eu sorri.
— Então, faça o seu pior, William. — eu disse me aproximando do teclado, enquanto ele fazia o mesmo.
— Pode me chamar de Will. — ele disse posicionando seus dedos nas teclas certas.
Eu sorri e iniciei a corrida.
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