Dangerous
7 Pink
Notas iniciais
— Eu trouxe chá.
Molly se aproximou da cama e colocou a bandeja em cima da cômoda, com muito cuidado. Sherlock nem ao menos havia se virado para encará-la.
— Sherlock? — Ela chamou, revirando os olhos.
Com certeza ela já se perguntava se aquilo tudo não teria sido um erro. Mary praticamente obrigou-a a fazer aquilo. Ir até lá. E a porta estava aberta... Então.
— Surpreendente. — Foi o que ele disse.
Ainda deitado na cama. Ainda de olhos fechados.
— Você se lembra.
— É claro que me lembro. — Ela gargalhou, sentindo-se mil vezes mais leve.
— Mas foi só uma vez... — Ele parecia confuso. — Depois do primeiro dia, você continuava dando desculpas. Dizendo que ele era muito difícil de fazer e que ele "realmente" tinha acabado.
— Peço desculpas por isso. — Molly esmagava as próprias mãos. Estava nervosa. Precisava parar com isso. — Mas era bastante difícil conseguir os ingredientes.
— Ingleses? Com dificuldade para achar ingredientes para um chá? Molly Hooper, você sinceramente pensa que eu sou tão—
Ele parou de falar. Quando Molly se deu conta do que estava acontecendo, já estava vermelha. Sherlock tinha simplesmente perdido a fala ao olhar para ela. "Meu Deus, tem algo errado comigo?" Foi o que ela se perguntou, ficando a cada minuto mais nervosa.
— Você está me deixando nervosa. — Ela disse depois de alguns segundos. — Tem algo de errado comigo?
— Todo esse trabalho para...
— Nem comece. — A patologista revirou os olhos. Detestava tanto aquele comportamento.
— Tudo bem. — Ele se sentou, encarando-a. — Você não passou batom dessa vez.
— Sherlock. Mais uma palavra de mal gosto. Eu saio. — Disse decidida. — E levo seu chá.
— Meu chá! — Levantou-se imediatamente. Como um instinto protetor de seu chá favorito.
— Sim. Seu chá!
— Você não faria... — Ele viu um sorriso atrevido surgir no rosto dela. — Você faria. Tudo bem... Trato feito.
— Sem piadas de mal gosto. — Olhou-o de forma interrogativa. — Sem humilhação ou qualquer chateação. Só tente ser... Legal. Você sabe o que significa "legal"?
— Ha. Ha. — Riu sarcasticamente. Molly deu uma gargalhada gostosa de se ouvir.
— Era basicamente essa a resposta que eu esperava. — Revirou os olhos. — Mas você pode ter o seu querido e amado chá.
— Molly Hooper e seu chá cor de rosa. — Agarrou a xícara como se sua vida dependesse daquilo. — Isso é muito bom.
O gosto familiar — e ao mesmo tempo antigo — levou-o aos dias em que fora hóspede da mulher que estava em pé na sua frente.
Flashback*
— John não parecia triste. — Comenta com certa surpresa. — Eu esperava mais.
— John não é de se emocionar na frente de todo mundo... — Molly lembrou-o, sentando-se de frente para ele. — Ele é do tipo que sofre sozinho.
— De repente você sabe qual é o "tipo" de John Watson? — Sherlock revirou os olhos.
— Ele voltará. — Ela disse simplesmente. — Quando estiver vazio. Provavelmente amanhã.
Molly se levantou e deixou-o sozinho. Sua cabeça parecia literalmente estragada. Cheia de problemas e pensamentos vazando por todo lado. O que ele estava fazendo? Se hospedando na casa de Molly Hooper? Aquilo podia dar muito errado. Podia enchê-la de esperanças atoa.
Ao contrário de John, ela sim se emocionara em "seu velório". Se lembrou de vê-la chorar com tanta vontade. Precisava agradecê-la por ser tão convincente.
Molly voltou para a sala com duas xícaras de chá. Cheirava tão bem... Ele não se lembrava de já ter sentido aquele cheiro. Ela entregou-o a xícara e... O chá era rosa. Muito rosa.
— Seu chá é... — Balançou a cabeça. — No que estava pensando?
— Como? Quando fiz o chá?
— Quando chorava copiosamente ao lado do meu caixão.
— Ah... Isso. — Riu. Tomou um pouco do seu chá. — É um pouco difícil de explicar.
— Eu acho que tenho tempo. — Suspirou. — Infelizmente.
Molly deu uma pequena gargalhada e observou-o enquanto provava o chá. Pareceu surpreso. E só.
— Eu fingi que era verdade. Precisava convencê-los. — Balançou os ombros, como se dissesse "não importa".
— Você. A única pessoa ali que sabia que eu estava vivo. — Piscou várias vezes. — Fingiu que eu estava realmente morto. Para que pudesse chorar daquela forma. Então...
— Eu posso ter exagerado um pouco.
O moreno terminou de tomar seu chá — muito rápido — e riu até a barriga doer. Molly não sabia realmente o que se passava pela cabeça dele, mas ver Sherlock Holmes caindo na gargalhada no sofá da sua sala era... Algo que ela realmente apreciava. Então deixou-o rir.
— Você... Parecia em um velório de verdade. — Ria como se houvesse uma piada realmente engraçada. — Você não pode ser emotiva. Você trabalha em um necrotério. Se eu tivesse morrido... E se você fosse obrigada à abrir meu corpo e...
— Não! — Ela praticamente gritou. — Eu me recusaria.
— Não ia cuidar do meu corpo? — Pareceu assustado. — Isso soou bastante errado. E é bom que ninguém ouça isso, mas... Me sinto ofendido.
— Não! — Ela balançava a cabeça, tentando desfazer o erro. — Eu estaria triste. Eu não ia querer... Abrir o seu corpo.
— Isso deve ser bom.
— John fez uma piada com isso. — Ela se livrou da xícara, colocando-a em cima da mesa. Parecia envergonhada. — Ele disse "divertiu-se muito no necrotério essa tarde?" E meio que piscou para mim. Foi aterrorizante. Só consegui chorar mais ainda.
— John... Meu Deus! — O detetive explodiu em gargalhadas escandalosas.
Molly sentia-se nervosa, mas vê-lo rindo como uma criança submetida à cócegas fazia-a esquecer qualquer coisa.
— Eu queria enfiar a cabeça em qualquer buraco no chão. — Ela admitiu. — Foi do tipo "se divertiu com o corpo nu e gelado de Sherlock Holmes?" como se eu fosse uma louca obcecada necrófila. Isso não foi legal da parte dele.
Os dois já gargalhavam juntos enquanto Molly tentava se explicar e só piorava a situação.
— Você é péssima com explicações. — O rosto de Sherlock Holmes estava vermelho de tanto rir. — Mas é ótima com chás. É o melhor que já tomei. E o mais rosa.
Flashback*
— Você ainda é ótima com chás. E também está... Bem. O cabelo e.... — Ele sorriu, parecendo sincero e desarmado de toda ironia e acidez. — Vem, senta aqui. A gente tem muita coisa pra conversar...
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