Dangerous
4 Mind Palace
Notas iniciais
MH
Sento na porta do quarto e encaro o céu por longos minutos. Estrelas, milhares e milhares de estrelas. “Elas me lembram seus olhos” é o que minha própria voz grita dentro de mim. E eu sei a quem ela está se referindo. Encaro a porta de seu quarto – ridicularmente de frente para o meu – e tenho uma surpresa: a porta aberta.
Em um dos meus maiores e mais insanos impulsos, corro até lá. Talvez ele esteja tendo uma noite difícil, insônia. Eu posso apenas me oferecer para conversar. Seria maravilhoso.
– Sherlock? – Chamo quando chego bem perto da porta. – Sherlock, você está aí?
Nenhuma resposta. Meu coração palpita e hesito por alguns segundos. Em seguida empurro a porta, revelando um quarto com todas as luzes acesas e nenhum homem sexy e maravilhoso lá dentro. Suspiro aliviada. Não sei qual seria a reação dele se eu entrasse assim, e sem a presença dele tudo fica extremamente mais fácil.
Caminho lentamente até a cama – onde ele havia passado o dia inteiro – e me deito lá. Aperto seu travesseiro contra o meu rosto, inspirando o cheiro delicioso de Sherlock Holmes. “Molly, você é louca?” Pergunto a mim mesma. “Você está noiva!” Mas e daí? Não há testemunhas, não há crime. Continuo sentindo o cheiro maravilhoso que vem de seus lençóis e de seu travesseiro, desejando que ele estivesse ali e que aquele cheiro estivesse grudado no corpo dele e nos cabelos dele, não nos lençóis e no travesseiro. “Se controle, Hooper.” Ouço a voz de Sherlock – felizmente, dentro de minha cabeça – e me levanto, recuperando o controle e correndo de volta ao meu quarto.
–-
6 horas da manhã. Essa era a hora que o relógio marcava, quando o detetive Sherlock Holmes finalmente voltou ao seu quarto de casal – pouco iluminado e bastante bagunçado – naquela pousada esquisita e acolhedora que Mary escolhera para passarem o fim de semana. Ele passara a madrugada inteira caminhando pelos bosques nos arredores da pousada, vendo árvores idênticas e sentindo o cheiro magnífico da natureza... Mas tudo se resumia ao tédio. Se resumia à vontade de resolver um caso. Queria bater na porta de John e tirá-lo de lá – conversar, fazer qualquer coisa, menos continuar entediado. Poderia até mesmo ligar para Mycroft, mas isso seria imbecil demais da parte dele. “Talvez Gavin Lestrade?” Mas também se sentiu imbecil. Era madrugada e ele não podia simplesmente ligar para as pessoas e perguntar “Ei, você tem um caso?” Ele queria. Queria muito... E no fundo achava totalmente normal, mas infelizmente a voz de John dentro da cabeça dele dizia que ele não podia.
Desistira então de se distrair, precisava voltar para o quarto. Nem pensava muito em dormir – até porque a quantidade de sono da tarde passada fora o suficiente para mantê-lo acordado pelas próximas horas – pensava em só entrar no seu quarto e arrumar uma maneira de se distrair... Ou uma maneira de se decompor em tédio até chegar um horário conveniente para incomodar Mary e John. Mas ao passar pela porta, seus sentidos imediatamente detectaram algo errado. “Essa porta estava aberta.” Ele tinha certeza. Sentiu-se intrigado – como se tivesse um caso – mas logo depois se sentiu idiota. Isso era fácil demais; o menor sinal de vento poderia ter fechado aquela porta em segundos… Estava tão desesperado por um caso que sua mente já lhe pregava peças – isso era o que ele achava.
Depois de se sentir um pouco menos paranoico, respirou fundo: aí sim, soube que havia algo errado. Alguém obviamente estivera ali durante a noite… Alguém com um cheiro estranhamente agradável. O perfume lembrava-o de casa e trazia boas lembranças, mas ele não conseguia se lembrar de onde vinha aquele cheiro… Aproximou-se da cama e se jogou em cima da mesma, sentindo aquele cheiro diferente – mas ao mesmo tempo tão familiar – se misturar com seu próprio cheiro e causar uma sensação deliciosa.
Enfiou a mão no bolso, tirou o celular e rapidamente escreveu “Esteve no meu quarto essa noite?” e procurou o nome “Molly Hooper” na agenda. Nem se preocupou em assinar. “Ora, se você esteve no meu quarto, é melhor que se lembre disso.” Foi o que ele pensou ao enviar o sms sem assinatura. Estava óbvio que era o cheiro de Molly o tempo todo. Ele se sentia ridículo por ter se sentido tão assustado no inicio. Sentiu o cheiro com mais precisão quando afundou a cabeça no travesseiro. “Oh, Deus…” Suspirou. “Molly Hooper se enfiou no meu quarto, na minha cama, entre meus lençóis e meus travesseiros…”
Certo, nada ali era de fato seu, mas era como se fosse. E o pensamento da castanha se esgueirando para dentro do seu quarto e se enrolando em seus lençóis perturbou-o, mas mais do que isso, divertiu-o – por se lembrar por um momento que ela deixara o noivo sozinho apenas para sentir seu cheiro. “Você está ficando doente.” Sussurrou para si mesmo e fechou os olhos, procurando um pouco de paz... Não conseguiu.
O cheiro, de fato, o incomodava. Não de forma pacífica e “oh, que cheiro ruim.” Mas de forma “é como se ela ainda estivesse aqui” e ele sabia que isso o incomodaria muito mais do que um cheiro ruim. Admitir para si próprio, em plena consciência, que o perfume de Molly Hooper era na verdade delicioso, no fundo parecia algo imbecil a se fazer.
Fechou os olhos novamente, dessa vez concentrando-se mais – tentando deixar aquele perfume insuportável fora de sua mente – mas dessa vez ela estava lá, em seu palácio mental. Não era a primeira vez que isso acontecia – nos anos que esteve fora, fingindo sua morte, às vezes via Molly em seu palácio mental – mas ele sentiu-se sinceramente assustado quando notou a patologista. Era um momento íntimo, porém comum. Ela estava sozinha, enquanto anotava algum relatório – se debruçando de forma sedutora em cima do balcão do laboratório – e mordia a tampa de sua caneta.
Ele queria dizer “me deixe em paz, Hooper, eu só quero pensar”, mas as palavras não saíram. Ficou ali, observando-a. Admirando e prestando atenção em seu rabo de cavalo perfeitamente alinhado e em seu momento mais simples e feminino – aos olhos dele, ela parecia bastante encantadora naquele momento. Ele tinha certeza de que já a vira assim. Mas provavelmente ignorou a cena no momento para interrompê-la e dizer algo idiota… Imbecil! Mal sabia ele que tempos depois ia considerar aquilo tão sexy.
“Chega!” O detetive gritou em alto e bom tom, pulando da cama. ”Preciso conversar com alguém de verdade…” Ele precisava ver John. Cedo demais. “Eu preciso…” Murmúrios, pensamentos fora de ordem e algo inesperado. O detetive quase sentiu vergonha de si mesmo quando encarou suas partes íntimas.
Sentiu o sangue se direcionar direto para as bochechas. Corou, mesmo sabendo que estava sozinho. “Isso é hora de ter uma ereção, idiota?” Se perguntou – ou perguntou ao seu próprio pênis – e foi em direção ao banheiro.
“Você precisa de um banho gelado, pervertido!” Xingava a si mesmo, em pensamento. Na verdade, precisava de Molly... Mas ainda não sabia disso.
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