Dangerous
12 Blood
Notas iniciais
Quando Sherlock acordou, procurou o relógio. Dez A.M. Molly já fugira dali há muito tempo. É claro que fugira... Ela tinha Tom para manter as aparências. "Não seja ciumento." Sua consciência espetou-o. Ele não estava sendo ciumento! Sabia que a noite passada fora apenas sexo. Apesar de ambos se soltarem, era só sexo. Eles ficaram íntimos, abraçaram-se, beijaram-se e Sherlock tivera contato físico suficiente para o resto de sua vida... Mas tudo acabou quando o dia amanheceu.
Ela provavelmente pegou a aliança e saiu assim que o detetive dormiu. Ele não tinha motivos para se sentir mal... Afinal, Molly era noiva. Aquilo devia ser uma espécie de "despedida de solteira" e só. Levantou-se da cama, sentindo as dores das chicotadas arderem em seu tronco tanto atrás quanto na frente. Sorriu. Poderia sair e almoçar lado à lado com Molly e Tom, sorriria em paz. Tinha lembranças o suficiente daquele corpo e daquela mente insana. Não precisava de mais. "Você não precisa de mais." Confirmou para si mesmo, em voz alta.
Levantou-se e observou seu corpo marcado de arranhões, chupões e mordidas. Aquilo arrancou-lhe uma gargalhada. A vontade infantil que ele e Molly dividiram na noite passada — de marcar um ao outro para ter certeza de que tudo aconteceu — o fez sorrir de verdade. Já sentia falta daquilo. "Por qual motivo essas pessoas normais sentem a necessidade de se casar?" Se perguntou, sentindo-se frustrado. Molly não precisava se casar. Ela podia ter qualquer coisa no mundo, mas queria se casar com um homem sem graça e idiota. Sherlock apostava que ele não conseguia deduzir se dois mais dois eram quatro...
Saiu do quarto tão rápido quanto se vestiu. Queria logo ir procurar Molly, mesmo se ela estivesse com o Tom. Queria apenas sorrir para ela e deixá-la saber que não havia arrependimento por nenhum dos acontecimentos da noite passada. "Você está enlouquecendo." Sua consciência lembrou-o e ele ignorou-a. Isso não ia incomodá-lo. Não agora.
Mary ria de longe enquanto a figura magra e alta se aproximava. Sentiu-se envergonhado de principio, mas sabia que não tinha motivos pra se envergonhar... Tinha? Não tinha como Molly já ter contado qualquer coisa à ela... E ele não via Molly e Tom em lugar nenhum. Começou a se preocupar cedo. Procurou seu celular nos bolsos da calça e viu três mensagens não lidas. Abriu a primeira: "Você é um idiota lindo enquanto dorme." Gargalhou. A mensagem era de seis da manhã, provavelmente a hora que Molly se levantou. "Demorei meia hora para achar o maldito anel." Dizia a segunda mensagem, de quarenta minutos depois. Antes que pudesse ler a terceira, John tomou seu celular.
— E então? — John soou autoritário. — Vai nos explicar...
— John! — Mary repreendeu o noivo. — Não fale assim com ele! Eles tinham o direito!
— Direito? — John parecia bastante nervoso. — O direito de gritar feito ninfomaníacos até amanhecer o dia com o noivo dormindo no quarto da frente? Eles tinham o direito? Mary?
— Do que vocês estão...
— Vocês não pararam de gritar por um só minuto e você sinceramente acha que ninguém escutou? — Mary deu uma risada.
— Eles não tinham o direito... — John balbuciou, sentindo-se vencido.
— Molly é apaixonada há quantos anos? — Mary sorriu para o noivo. — Desculpe querido, mas não consigo ver o Tom ao lado da Molly... Só não... Parece certo.
O médico apenas suspirou. Adiantava discutir com Mary? Era ainda pior do que discutir com Sherlock.
— Onde ela está? — O detetive perguntou, lutando contra a sua parte interior que não queria perguntar sobre Molly.
— Não saíram do quarto. — John balançou os ombros. — Brigando? Talvez?
— É possível. — Mary sorriu. — Andei conversando com o Tom e ele disse que sentia a Molly bastante distante... Me perguntou se eu sabia de alguma coisa... Se ela pretendia desistir do casamento...
Sherlock tentou ignorar a informação. "Molly não desistiu de nada." Afirmou para si mesmo. Ela teria contado para ele na noite passada, não teria?
— Desculpe-me por ter aberto sua mensagem... Mas acho que pode ter algo errado. — John estendeu o celular para o detetive, que agarrou o aparelho. — Mas ela pode estar brincando.
Sherlock leu as três letras e sentiu seu sangue esfriar dentro das veias. Olhou o horário. Nove da manhã. As três grandes letras gritavam algo muito ruim dentro dele, e antes que ele conseguisse firmar um pensamento, se virou sem dizer uma palavra e saiu correndo. Correu o mais rápido que pôde. Precisava ver se ela estava bem. Sua sanidade mental dependia disso.
— Molly? — Ele gritou enquanto esmurrava a porta do quarto com violência.
O celular ainda estava em sua mão. A mensagem dizia apenas "SOS". Sentia-se mais preocupado à cada minuto que passava. Aproximou-se da porta e não ouviu barulho algum. Nenhum ruído vinha daquele quarto. Aquilo conseguiu preocupá-lo ainda mais. Aquele silêncio não era nada bom.
Fechou os olhos e tentou se acalmar. Talvez não fosse nada. Talvez ela e Tom estivessem bem... Talvez dando uma caminhada por aí. Respirou fundo uma, duas, três vezes. Sua cabeça deu um giro de trezentos e sessenta graus e imediatamente ele soube que havia alguma coisa errada. Molly estava em perigo. Mesmo do outro lado da porta, Sherlock conseguia sentir um cheiro bastante conhecido... Ele sentia cheiro de sangue.
——
Ela se debruçou sobre a cômoda enquanto digitava o segundo SMS. "Demorei meia hora para achar o maldito anel." Gargalhou quando apertou enviar. Escondeu o celular dentro do sutiã e tirou a camisola. Enquanto Tom dormia atrás de si — sob o efeito de remédios — Molly observou as marcas roxas e vermelhas espalhadas sobre o próprio corpo. Como eles foram possessivos na noite passada! Se marcando como se pertencessem um ao outro.
Sentiu-se bem. De uma forma que talvez nunca havia se sentido. Sabia que era só sexo. Apenas sexo. Sexo com o homem que ela amara desde o momento que vira pela primeira vez. Mas ainda assim, era só sexo. Não podia evitar um sorriso bobo sempre que se lembrava de cada pequeno detalhe da noite passada. "Sinta isso." Lembrou-se de seus olhos encarando-a de forma acolhedora. "Você não fez nada errado." Enquanto ele olhava-a daquele jeito, Molly não conseguia não sorrir. "Ele não está acostumado com essa velocidade." E agora ela sorria sozinha, se lembrando de tudo aquilo. Sentir o coração do Holmes acelerado por estar com ela... "Talvez aquilo tenha sido muito para a minha sanidade." Ela pensou, dando um sorriso cúmplice para seu próprio reflexo no espelho.
— Eu coloquei muita fé em você. — Se assustou com a voz grossa de Tom logo atrás de si, mas antes que pudesse se mover, ele já tinha segurado-a na mesma posição.
A sensação de pânico tomou conta da patologista. Lembrou-se de James... Não tinha sido agradável descobrir sobre ele — mesmo já tendo terminado o breve relacionamento. Mas agora Tom segurava-a de forma violenta e parecia outra pessoa no reflexo do espelho. Seus olhos brilhavam de forma esquisita. Molly queria poder fugir. Queria que Sherlock pudesse salvá-la.
— Ele me disse... — Tom sussurrava ao ouvido dela. — Ele disse que você correria para os braços daquele imbecil!
Tom revirou os olhos e deu um sorriso bastante psicótico. Molly já sentia seu corpo tremer. Sentia seu estômago revirar com a possibilidade de ter sido usada e enganada mais uma vez... Como mesmo ela tinha caído nessa?
— Eu não queria acreditar... Mas é verdade: você não vale nada, Hooper. — Depositou um beijo na bochecha de Molly.
Lágrimas já rolavam no rosto dela. Sentia nojo. Nojo dele. Nojo de si mesma. Por ter caído no mesmo velho truque de novo. Quem mesmo se apaixonaria por ela sem segundas intenções? Quem ia querer se aproximar se não fosse para matar ou machucar Sherlock Holmes?
— Achei que fosse resistir. — Deu uma gargalhada. — Mas você supostamente me dopou e correu pros braços dele... Molly Hooper você não presta! E você precisa sofrer... Considere como um bônus. Você morre e ele sofre. Então ele também morre. Obrigada por ser tão tola, Hooper.
Foram as últimas palavras que Molly ouviu, antes de Tom aproximar uma toalha encharcada de éter etílico do rosto dela. Antes que ela pudesse pensar em qualquer coisa, desmaiou.
Ele segurou o corpo pequeno e magro com um sorriso no rosto. Finalmente poderia fazer o que sempre quis. Finalmente poderia parar de ser o idiota compreensivo e apaixonado. Poderia brincar com os sentimentos de Sherlock Holmes... E assim era tão fácil que parecia chato. Puxou a faca de dentro do bolso e aproximou-se da porta — arrastando a patologista desacordada junto de si —, sorriu enquanto fazia um corte superficial na barriga de Molly. Deixou-a sangrar por alguns minutos. Queria sangue escorrendo na porta. Queria sangue no chão. Queria brincar com os sentimentos dele. Queria vê-lo sofrer... "Isso vai ser tão divertido!" Exclamou em voz alta, enquanto arrastava Molly para fora pela porta de trás. "O jogo começou!" Disse mais uma vez, explodindo em gargalhadas enquanto entrava na mata.
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