Dangerous

4 Entre as Garrafas


Notas iniciais
Novamente obrigada pelo carinho e pelas mensagens, espero que continuem gostando. Aqui o quarto capitulo, espero que gostem.

Capitulo 4 – Entre as Garrafas

No dia seguinte o pai contou que sua mãe o ligara chorando duas semanas antes, dizendo que Lira havia sido sequestrada, e que ela o amava e que precisava dele aqui, o pai também contara que não lecionava mais, não tinha outra família, mas tinha algumas mulheres. Lira não se surpreendeu com o detalhe ‘algumas’, afinal, nunca conhecera o lado fiel do pai, por isso não queria depositar muitas esperanças nele, ele podia estar com você em um minuto e no outro bater a porta com uma mala de viagem enorme, ligar o carro e sumir por 13 anos. Disse que só ia ficar aqui até a próxima semana, tinha comprado uma casa realmente grande, pretendia vender essa, e pedir a guarda de Lira, que se recusou a ir morar com ele, faria 18 anos a pouco e compraria um apartamento no subúrbio, pediu que cuidasse de Brendan enquanto ele crescia.

— Não o abandone, dê a ele a presença paterna que você não me deu – Lira sempre colocava as coisas na balança, descobria um ponto fraco na pessoa e jogava a carga pesada nas costas, para que a pessoa se remoesse com seus erros.

Era quinta feira, enfim ela havia descoberto, mesmo seu pai pedindo que ela ficasse em casa Lira não obedeceu, não suportava a ideia de passar tantas horas perto de Janet, e com George, o pai, em casa ela se deu liberdade de ir pra escola sem preocupações e que só voltaria para o jantar. Nada de caminhadas dessa vez, apenas beber largada no sofá com Naomi e seu pessoal.

Andando alguns quarteirões, quando já estava próxima da escola, decidiu mandar uma sms para Vergan.

Surpresa!

Vergan pegou o celular que vibrava em seu bolso traseiro, leu a mensagem e se virou e viu que lá estava Lira, sua amada Lira, que havia desaparecido por semanas, o garoto correu há seu encontro, a abraçou e a suspendeu nos braços, girou duas vezes e deu um beijo na testa.

— Sua maluca! Por onde esteve? – perguntou com as mãos na cintura da menina. Kylie que estava com todos na escada também correu para dar as boas vindas.

— Aqui está nossa Liranda, sentimos sua falta. – Lira sorria amarelo, preferia não acreditar em nada disso, deu um abraço solto em Kylie e andou em direção a Naomi e James, Naomi sorria como sempre que via Lira, James ainda tinha aquele olhar misterioso, reservado, indecifrável e um cigarro na mão.

O sinal bateu e o grupo entrou no colégio, aula de história, sentou-se naquelas cadeiras marrons, desajeitada encostou a cabeça na parede e começou a desenhar em seu caderno. Lira tinha capacidades excepcionalmente boas em desenho, artes e qualquer coisa de gente um pouco avoada e anormal.

Eram dois olhos grades, com grades cílios e com doçura vazando das pupilas, Lira começou a devanear, a sala ficou muda e ela começou a ver aqueles olhos piscarem suavemente algumas vezes, vagarosamente eles iam ganhando cor, um vermelho vivo ao lado da menina dos olhos que eram pretas, ela entrava dentro do olho, estava cercada de fogo, ouvia a gargalhada de sua mãe, sentia-se desconfortável ali no meio daquele calor insuportável, suas roupas começaram a derreter, o fogo começou a cutuca-la, provocando-a, ela se sentia frágil, desprotegida, seus cabelos entraram em contato com o fogo e então ela já não estava cercada de fogo, ela era o fogo, sentiu-se crescendo, uma coragem tomou-a e ela se sentia maior que todos eles, ela podia impor oque quisesse para quem quisesse, mas então ela sentiu a mão gelada de Naomi tocando seu braço.

— Vamos? – perguntou a menina loira, Lira só assentiu.

As outras aulas foram chatas, ela não conseguia concentração para voltar para seu próprio devaneio, no almoço não quis comer nada, viu Vergan se entupir de batatas fritas, mastigando-as e mostrando a língua para Kylie que fazia uma imitação patética de quem está vomitando. Naomi segurava a mão de James, falava incontrolavelmente e enquanto ele fingia ouvi-la e ao mesmo tempo paquerava com o olhar uma menina negra do outro lado do refeitório, a menina era linda e estava dando atenção para James. Tiveram mais duas aulas entediantes e enfim o dia de estudos havia acabado.

— Vamos lá pra casa pessoal – disse Naomi com felicidade na voz enquanto segurava a mão de James.

— Chama aquilo de casa? – perguntou Kylie em tom de brincadeira e riram um pouco, e então James soltou a mão de Naomi dizendo que tinha esquecido seu caderno na aula de geografia, entrou correndo, Lira pode ver a garota negra sorrindo do outro lado da porta de vidro da entrada.

— Ele vai depois – sugeriu Lira — vamos, estou com saudade do frangote – disse sorrindo se referindo ao gato de Naomi, Lira estava acobertando James, mas não por James, por Naomi, oque ela menos queria era ver a menina chorando por aquele traste inútil que ela chamava de namorado, tudo que ela menos precisava era Naomi pra baixo e de coração partido, e isso fazia Lira pensar que era ridículo o jeito que Naomi confiava de olhos fechados em James, ela podia confiar assim em Lira, e não naquele imundo de cabelo sujo.

Lira não aceitava o fato de que lá no fundo sentia atração por Naomi, não queria acreditar nisso, fingia que não sentia nada por ninguém, é estupido, ela não queria admitir para si mesma a verdade, não queria admitir quem ela era. Mas decepções nunca foram novidade na vida de Lira, começando por seu pai, se decepcionava tanto com tanta gente, inclusive com ela mesma. Ela sentia vergonha de si mesma. Lira vivia num mundo de mentiras que ela construía para si mesma, para mantê-la a salvo de tudo, as mentiras eram como uma barreira para seus próprios julgamentos, seus e toda a sociedade.

Chegando ao apartamento de Naomi ela fez carinho no Frangote e se jogou no sofá, Naomi tinha sorte, a mãe morrera durante o parto e o pai que cuidara dela neste mesmo apartamento, a largara com 10 anos, desde então ela se virava sozinha, aos sábados é garçonete no Boebble’s Coff, cafeteria de seu tio de segundo grau, que a ajuda a pagar as contas e tudo mais. Ela vive sozinha, tem todo espaço que precisava, já tem 19 anos, só quando completou 11 anos voltou para escola, as mães de Naomi e Lira se conheceram durante um acidente de carro, elas bateram e ao invés de xingarem uma outra como todo acidente automobilístico, elas começaram a rir do estrago e a conversar, depois marcaram um chá e viraram grandes amigas, até que a mãe dela conheceu o pai de Naomi que era um traficante perigoso, suspeito de assassinato e procurado pela policia, e então a mãe de Lira, tão covarde como a filha, se afastou da amiga, mas guardou seu segredo fielmente até hoje.

Raposa e Tigresa cresceram juntas toda a vida, mesmo que a mãe odiasse o pai de Naomi, sempre que a menina precisava de algo Janet era a primeira a fornecer, em valor de sua antiga amizade.

Naomi entrou na sala com algumas garrafas e uns saquinhos brancos, eles beberam, se drogaram e jogaram conversa fora, Lira contou sua história de como foi parar na casa de uma família perfeita e conhecera Clove.

— Uma menina fascinantemente perfeita – dizia sonhadora largada de ponta cabeça no sofá – com um rosto selvagem e angelical ao mesmo tempo, é de dar inveja, ah... Se eu pode-se revê-la – Naomi franzia cenho, ela desconfiava da amiga molhar o biscoito no café, e não no leite.

— Oque faria se isso acontecesse? – desafiou Naomi, com rosto brincalhão e uma garrafa na mão ela sorria encantadora.

Lira deu de ombros, colocando a garrafa na boca para que não precisasse responder a questão, Vergan olhava desconfiado, com uma das sobrancelhas arqueadas. Kylie estava praticamente dormindo.

— Onde está o James? – perguntou Lira fugindo do assunto, Naomi também se esqueceu, e então ficou com ar duvidoso. Pegou o celular e discou em movimentos rápidos o telefone do namorado.

— Cadê você James?... Perdeu muita coisa na verdade, Lira contou sobre sua fugida, Kylie já está babando no carpete e Vergan está na quarta garrafa.

James era de todo bem orgulhoso, nunca admite erros, não sabe como se comportar direito, certa vez Kylie convidou todos para beber no boteco da esquina e ele não quis, pois segundo ele é muita falta de classe, mas eu você tem que saber beber Chopp no boteco da esquina sentando numa cadeira de plástico pra ver um futebol, e tem que saber vestir um smoking e colocar uma pedra de gelo no whisky sentado no sofá estofado vermelho da empresa do amigo do seu pai, tende saber se portar em todas as situações, isso é ter classe.

Kylie começou a vomitar.

— Mas que merda Sky! – disse Naomi – eu vou ter que limpar essa porra toda depois! James, eu vou desligar, em outro dia a gente se vê, esta bem, beijos, te amo, não eu amo mais – sorrindo desligou o telefone e o jogou no sofá, na barriga de Lira – acho que chegou a hora de alguém ir pra casa.

— Eu levo, tenho que ajudar meu irmão na lanchonete – disse Vergan, os pais de Vergan tinham três lanchonetes e cada um gerenciava uma, três dias por semana e em lanchonetes diferentes Vergan ajudava seus familiares – a casa dela é perto de lá, valeu então meninas – passou a mão pelo ombro de Kylie e saiu pela porta da frente, dava pra ouvir seus passos pela escada caracol de metal.

— Kylie é uma porca – disse Naomi limpando o carpete, com um sorriso se lembrou da pergunta sem resposta – você não me disse, oque faria se revê-se Clove?

—Hm... Não sei – respondeu enfiando a garrafa na boca para se poupar de palavras novamente.

— Eu sei que sabe, só não queria dizer por que Sky e Vergan estavam aqui, aposto o que você quiser – saiu rapidamente para jogar o pano num balde de água na lavanderia – vai, responde ai – disse tentando parecer o menos desinteressada possível.

Uma ideia súbita veio à mente de Lira.

— Ei Naoms, porque a gente não acampa na minha casa da árvore hoje? – disse se sentando tão rapidamente que sua cabeça começou a girar – como nos velhos tempos... Só que ao invés de suco de uva podemos levar – balançou a garrafa em suas mãos sorrindo.

— Não sei, queria ir até a casa do James hoje...

— Ah Naoms, qual é? Só hoje... Por favor – disse com suplica na voz.

— Só se você me prometer uma coisa – disse a menina sorrindo maliciosamente, Lira assentiu com os olhos brilhando que sugeriam ‘qualquer coisa por você’ – você vai responder minha pergunta mais tarde.

Lira balançou a cabeça rindo, e foi procurar o gato, que estava escondido em baixo na cama, pegou o animal no colo, aumentou o som e começou a dançar com o gato por entre todos os cômodos da casa, Naomi riu se perguntando provavelmente quantos pinos faltavam na cabeça de Lira.

Começou a anoitecer, e a mente das meninas começaram a ficar sãs, na mala de Naomi cinco garrafas de pinga das bravas e um pijama. Chegando em casa, Lira abriu a porta e viu seu pai e sua mãe conversando, Brendan dormia com a cabeça no colo do pai de Lira, ao ver a cena Naomi arregalou os olhos, e Lira podia ler em sua expressão: mas que porra esse homem esta fazendo aqui de novo?

— Eu e Naoms vamos acampar na casa da árvore, se precisarem de alguma coisa estaremos lá – disse Lira, sem perguntar nada, apenas impondo sua vontade, não queria dar chance para que eles negassem sua proposta, alias, não era algo que eles podiam fazer, ela nem ao menos considerava aquele homem um membro da família, e sua mãe... bem desde quando a mãe opinava e Lira seguia suas opções.

Lira foi até a cozinha e pegou alguns pacotes de salgadinho, subiu para seu quarto e pegou o seu melhor pijama, oque a deixava com o corpo mais desejável. Não que ela esperasse que Naomi a desejasse, na verdade ela desejava, mas não admitiria isso para si própria.

Correu para casa da arvore onde Naomi já abrira uma garrafa e começava a beber, não tinha colocado seu pijama ainda, assim como Naomi estava com roupas normais. A menina loira sorria boba, se jogou no colchonete e murmurou algo que só ela conseguia ouvir, olhou para Lira, ela estava a fim de perguntar sobre a sexualidade da garota, mas deixaria isso como gran finale da noite, no momento Lira estava com a cabeça muito limpa para dizer a verdade, conseguiria inventar alguma mentirinha convincente. Lira era manipuladora de mentes, conseguia fazer com que as pessoas acreditassem até no seu sorriso mais falso se isso dissesse, mesmo com seus pensamentos sobre palavras sinceras, ela não se sujeitava a sempre fazê-lo.