Danganronpa Carpe diem - Interativa
4 Capítulo 03 – Royal Flush
Notas iniciais

Estava sentindo frio. Meus pelos se arrepiavam, meus ossos estremeciam, era como se meu corpo se afundasse na gélida água sob a superfície congelada de um lago. A sensação era agoniante, queria me mover para sair daquele lugar, mas aonde eu estava? Eu estava em algum lugar? Ou tudo isto, acontecia na minha mente?
Não sei por quanto tempo tudo aquilo durou, mas em algum estante meu corpo parou. Já não o sentia mais, era como se ele fosse uma concha vazia e sem vida.
Foi então, quando já perdera minhas esperanças, enxerguei uma luz. Pequena, mas vivida. Usei todas as minhas forças para esticar a minha mão e tentar alcançá-la.
Por fim, eu abri meus olhos.
Sua cabeça estava apoiada em algo, seu pescoço doía, como se estivesse naquela posição a um longo tempo. Ao fazer força para levantar, seus olhos verdes mostravam uma redonda mesa de Poker. A garota estava sentada em uma caideira ao redor dela. Sentia formigamento pelo corpo inteiro, como se estivesse acordando de um longo sono.
Com sua mão direita, segurou as pontas de seu curto cabelo vermelho e começou a enrolá-las, costume que fazia quando estava nervosa.
Mais uma vez, olhou para mesa a sua frente e viu mais quatro pessoas dormindo, na mesma posição que ela estivera. Sua memória estava confusa, ela não sabia o que fazia ali, ou quem eram aqueles que ela olhava.
Sem muitas escolhas, resolveu acordar os outros quatro. Todos levaram algum tempo para despertar e conseguirem falar. Com os cinco acordados, a sensação que podiam sentir era de estranheza e confusão.
— Vocês sabem o porquê estão aqui? – indagou a garota ruiva.
— Eu que me pergunto. O que está acontecendo? – questionou um garoto de cabelos negros.
Sua aparência era um pouco assustadora, vestia um capuz que quase cobria toda sua face, mas isto não era suficiente para esconder seus olhos heterocromáticos.
— Se soubéssemos não estaríamos nesta situação. – respondeu uma garota loira. – Só eu estou sentindo dor de cabeça?
Ela segurava sua testa, como se estivesse tentando diminuir a dor. Vestia um uniforme preto de policial e possuía grandes olhos azuis que refletiam como a água do mar.
— Minha cabeça também dói um pouco, mas estou mais preocupado em entender o que ocorreu. – contou o outro garoto.
Passava uma de suas mão em seus cabelos cor de areia, enquanto ajeitava seu óculos, que escondia os olhos rosados, com a outra.
— Quer dizer que nenhum de nós, sabe o onde, porquê ou como estamos aqui? – desacreditou a ruiva.
Nenhum deles se conheciam, ou pelo menos, não lembravam um dos outros, aquilo lhes causavam uma sensação de desconfiança, principalmente na situação que estavam.
— Antes de tudo, qual é a última coisa que vocês se lembram? – Uma pequena garota levantava a mão nervosamente. Ela era a última das cinco pessoas. Possui cabelos castanhos claros e curtos, olhos cor de avelã escondidos atrás de óculos vermelhos um tanto grandes demais para seu rosto.
— Se eu me esforçar um pouco, só consigo me lembrar de estar entrando em um avião. – contou o garoto de óculos.
— Eu também me lembro de entrar num avião! – exclamou a loira. – Se não me engano, ele estava indo para Somnium!
— É isso. – A ruiva enrolava seus cabelos. – Eu também estava indo para lá.
— Estou a ver. – comentou a pequena garota baixinho.
— Então, todos estávamos no mesmo avião? – questionou o garoto dos olhos heterocromáticos.
— Não posso afirmar isto, mas parece que todos tínhamos o mesmo destino, Somnium. – respondeu a ruiva.
— Espera ai! – Ele começou a movimentar suas mãos como se estivesse arrumando os arquivos de sua mente. – Vocês também são Ultimates?
A palavra “Ultimate” ativou algo na mente de todos, como se tivesse sido ligado um interruptor.
— Com “também”, você quer dizer que é um Ultimate? – indagou a loira.
— Calma. – pediu o garoto de óculos. – Tudo está muito confuso.
— Concordo. – assentiu a ruiva. – Acho melhor que antes de continuarmos, nos apresentarmos. Afinal, se somos todos Ultimates, conheceríamos uns aos outros de qualquer forma.
Os outros quatro estavam de acordo com a ideia. A ruiva, então, se levantou e resolveu se apresentar:
— Eu me chamo Emily Valentine e sou a Esgrimista de Nível Super Colegial.
— Esgrimista? Isto pode explicar a roupa. – debochou o garoto dos olhos heterocromáticos.
Emily vestia uma vermelha roupa que remetia as que os nobres vestiam na idade média.
— Agora que você falou, isto com você é uma espada? – indagou a loira ao fitar o objeto preso na cintura de Emily.
— Não é uma espada, é um sabre. – corrigiu Emily. – Eu poderia explicar a diferença, mas no momento, vamos continuar nossas apresentações.
O garoto de olhos heterocromáticos resolveu se levantar, revelando sua elevada altura, devia possuir algo próximo de dois metros. Foi então que ele se pós a falar:
— Eu sou o Caçador de Nível Super Colegial, Kevin Wansky.
— Caçador? Como assim? – perguntou a loira com um olhar de preocupação.
— Exatamente o que você deve estar pensando. Sou o melhor caçador de animais da minha geração.
A loira se levantou com o comentário do rapaz, que parecia orgulhoso.
— Isto não deveria ser uma habilidade para se ter orgulho.
— O que você está querendo dizer? Se eu sou bom em algo, não devo ter vergonha. – argumentou Kevin.
— Não quando você está matando animais por pura diversão! – reclamou a loira.
— Diversão? Você nem me conheci para fazer estas suposições. – retrucou Kevin. – Está achando que só porque é gostosa pode falar o que quiser dos outros?
— Você me chamou de que? – Ela cerrou os punhos.
A garota parecia estar disposta a socar Kevin, mas antes que pudesse, o outro garoto se intrometeu na conversa:
— Gente, tenham calma. Ainda nem sabemos o que estamos fazendo aqui, então é melhor não brigarmos.
A loira cedeu as palavras do garoto e voltou-se a sentar, mas não antes de fitar Kevin com desgosto.
— Está bem, vamos continuar. – suspirou ela. – Lisa Hampbell é meu nome e eu sou a Policial de Nível Super Colegial.
— Não precisava ter dito, isto estava obvio. – debochou Kevin ao se referir ao uniforme dela.
Lisa não precisou dizer nada para que Kevin calasse sua boca, apenas um olhar de desprezo foi o suficiente.
— Acho que agora é minha vez. – comentou o garoto, de cabelos cor de areia. – Eu sou Anthony Blankenheim e meu Nível Super Colegial é o de Compositor.
Ele expressava um sorriso gentil enquanto falava, e diferente de Kevin parecia baixo, principalmente pela sua estatura magra.
— Eu já ouvi este nome! – exclamou Lisa. – Por acaso, foi você o garoto que ganhou o prêmio de melhor compositor por três anos seguidos?
— Está falando com o próprio – sorriu Anthony.
— Eu adoro as suas músicas! Elas realmente me dão forças em momentos que eu preciso! – contava Lisa animada.
— Obrigado, fico feliz em ouvir isto.
Por fim, a pequena garota se levantou. Parecia estar um pouco nervosa, mas exibiu um leve e aconchegante sorriso.
— Podem me chamar de Mei Hakuryuu. Eu sou a Psicologa de Nível Super Colegial.
— Colegial? Desculpe comentar, mas você parece ser mais nova. – contou Emily.
— Não se preocupe, isto é algo normal. – disse Mei. – Com todos apresentados, o que acham que devemos fazer?
— Isto é algo a se pensar? Vocês tem alguma ideia? – indagou Emily.
— Se todos somos Ultimates e entrarmos em um avião para a cidade Somnium, isto não quer dizer que estamos em algum tipo de teste? – sugeriu Anthony.
— É uma possibilidade, afinal o local está lotado de câmeras. – contou Lisa.
— Câmeras? – repetiu Kevin surpreso ao olhar o seu arredor em busca das mesmas.
— Vocês não perceberam? – questionou Emily.
— Acho que eu esteva mais preocupado com quem eu estava do que onde eu estava. – explicou Kevin.
— Também não há janelas. – comentou Mei, após fitar o seu arredor.
— Já sei, estamos em um Casino! – falou Kevin. – Para ser mais específico devemos estar na área VIP.
— Área VIP? Por que você diz isto? – questionou Mei.
— Está é uma área bem pequena para o normal de um casino que costumam ser grandes e parecerem um labirinto.
— Você parece conhecer muito sobre eles.
— Eu gosto deles, apesar que não me dou bem com os jogos.
— Isto não é contra a lei? – indagou Lisa.
— Eu tenho 20 anos, então dependeria do lugar. – respondeu Kevin.
— Você diz que não se dá bem com os jogos? Por quê? – perguntou Mei.
— Meu pai era viciado em casinos, e isto não lhe fazia nenhum bem. Acho que puxei o azar dele. – revelou Kevin pesaroso.
— Estou a ver. – comentou Mei baixinho.
Finalmente Kevin se tocou que estava se abrindo demais.
— Esqueçam tudo que eu falei! – quase que berrou ele. – Nem sei o porquê de eu estar falando estas bobagens.
O clima ficou pesado e o silêncio tomou conta do lugar, até que Emily resolveu quebrá-lo:
— Acho que não adianta ficarmos sentados aqui e tentar entender o que está acontecendo. Sendo um teste do projeto Somnium ou não, temos que sair daqui.
— Você está certa. É melhor procurarmos uma saída. – concordou Anthony.
— Se estamos na área VIP, deve ter alguma porta que nós leva a área principal. – supos Lisa.
— Na verdade, está mais para escada. – comentou Kevin.
— Por que acha isto? – perguntou Mei.
— Pelo som. – Kevin apontou para seu ouvido. – Em um casino, as máquinas caça-níqueis normalmente fazem bastante barulho, e eu estou ouvindo elas debaixo da gente.
Os outros não conseguiam ouvir nada. Lisa querendo uma resposta melhor, encostou seu ouvido no chão e se esforçou para tentar ouvir nem que seja um pequeno som.
— É verdade, tem algo lá embaixo. – contou Lisa ao se levantar e fitar Kevin. – Como foi que você ouviu?
— Você pode não gostar da minha resposta, “gostosinha”. – Kevin usou a palavra de propósito para aborrecer Lisa. – Mas isto, é por causa do meu talento de caçador. Para ouvir os menores movimentos em uma floresta, minha audição ficou superaguçada.
Lisa cerrou os seus punhos e disse com um sorriso ameaçador:
— Engraçadinho você, mais como estou com presa para sair daqui, vou deixar esta passar.
Foi então que algo chamou a atenção de Mei.
— Anthony, você não conseguiu escutar nada?
O garoto sorriu com a pergunta.
— Você deve estar achando que como sou um compositor tenho uma audição com um grande alcance. Sobre isto, minha audição realmente é melhor do que a maioria, mas isto na habilidade de reconhecer tons e notas.
— Então você possui o ouvido absoluto?
— Não, eu tenho uma audição normal. – negou Anthony.
— Estou a ver.
Lisa ao ouvir a conversa se interessou.
— O que seria um ouvido absoluto?
— É um fenômeno auditivo, que se caracteriza pela habilidade de uma pessoa identificar ou recriar uma dada nota musical, mesmo sem ter um tom de referência. – respondeu Emily no lugar dos outros dois. – Na verdade, é algo um pouco mais complexo que isto, mas como você disse anteriormente, eu também estou com presa para sair deste lugar.
Os outros assentiram e assim os cinco jovens começaram a procurar pela área VIP algo que pudesses os ajudar a sair, ou entender o porquê estavam ali. No fim não encontraram nada além das escadas que levavam ao andar inferior.
— Por aqui. – chamou Anthony ao guiar os outros até a escada. – Vamos! A saída, só pode estar lá embaixo.
Todos os seguiram e foram em direção ao andar inferior, onde se localiza a área principal do casino.
Como já dava para imaginar pelo comentário de Kevin, o lugar era enorme, realmente parecia um labirinto. Diversas máquinas caça-níqueis espalhadas por todo o lugar, mesas de poker e muitos outros jogos de azar.
— Nossa! – exclamou Kevin eufórico. – Alguém ai tem dinheiro para eu jogar um pouco nessas máquinas?
— Não é hora pra isso. – reprendeu Emily.
— Kevin, você não acha que é melhor procurarmos uma saída primeiro? – questionou Mei,
Ele abaixou a cabeça inconformado.
— Vocês tem razão.
Quando levantou sua cabeça novamente, seus olhos se encontram com o grande bar ao lado das máquinas e a absurda quantidade de bebida alcoílicas nele.
— Tudo bem não poder jogar, mas uma bebida não fará mal. – comentou Kevin ao correr em direção ao bar, mas foi interrompido por Lisa que segurou seu braço.
— Você não pode beber, não até sabemos onde estamos.
— E isto faz diferença? – perguntou ele nervoso.
— Você mesmo disse. Assim como os casinos, há lugares que bebidas são proibidas para menores de 21 anos. Então até sabermos onde estamos não deixarei você beber, afinal é o trabalho de um policial se assegurar que a lei seja cumprida. – disse Lisa com uma feição tão séria que parecia outra pessoa.
Devagorosamente, ela soltou o braço do caçador.
— Okay, mas esta baboseira não me importa. Só não vou beber, pois quero encontrar uma saída logo para me ver longe de você.
Lisa cruzou os braços e desviou o olhar.
— Faça como quiser.
Depois da pequena discussão, todos voltaram a procurar alguma saída ou qualquer coisa que os ajudassem a entender aquela situação. Como o casino era praticamente um labirinto, passaram se minutos, horas, demorou muito até que a bela voz de Anthony ecoou por todo o lugar:
— Pessoal! Eu encontrei algo!
Os outros, que já estavam cansados, foram em direção a voz sem nem pensar, estavam agoniados para sair daquele lugar. Quando chegaram ao jovem compositor puderam perceber duas coisas.
— Que estátua mais estranha. – comentou Lisa
— É um urso? – indagou Kevin que mesmo com seu conhecimento da área estava confuso.
— GoldenKuma… – Emily leu a placa embaixo da estátua.
Era um enorme urso, parecendo de pelúcia, só que completamente dourado, como se fosse feito de ouro. Os tons de dourados variavam para cada lado da estátua, um era mais claro e outro mais forte e vivido. Além disso, em um dos lados de sua boca, um grande sorriso era mostrado em contraste com seu olho esquerdo que parecia uma cicatriz em formato de um raio deitado.
— Não sei o porquê, mas este urso está me dando arrepios. – contou Kevin.
Ele então parou de fitar a estátua dourada e se virou para Anthony:
— Você nos chamou para nós mostrar está bizarrice?
— Não! – negou Anthony. – Eu queria mostrar aquilo para vocês.
O compositor apontou para seu lado, onde uma porta de uns quatro metros os encarava. Ela era feita de metal, não tinha maçaneta nem fechadura.
— É saída? – Emily quis conferir e foi até ela, mas quando tentou empurrá-la não conseguiu.
— Ela não abre, pelo menos não dessa forma. – contou Anthony.
Ele andou foi até a porta e andou uns 3 metros de distância dela, quando revelou um símbolo de uma chave na parede e logo abaixo dele uma cavidade retangular.
— Eu não sei o que isto quer dizer, mas acho que se colocarmos algo aqui, a porta pode se abrir. – teorizou Anthony. – Talvez funcione como uma fechadura.
— Eu entendo o que diz, mas o que seria a chave? – indagou Emily.
— Não sei. – disse Anthony com um pesar na voz. Mas logo ela recobrou forças e continuou. – Mas se procurarmos mais podemos achar.
Kevin que já estava impaciente, explodiu naquele momento.
— Procurar mais? Nos já estamos aqui faz horas e nada de achar a desgraça de uma saída! – berrou ele. – Eu já não aguento mais isto. Está completamente no escuro, sem nem saber a merda do motivo de estarmos aqui.
— Não concordamos que isto era parte de Projeto Somnium? – lembrou Anthony.
— Aquilo foi só uma teoria! – reclamou Kevin. – E mesmo se ela está certa, que droga de projeto é este? Eles me prometeram tudo, e agora eu estou preso num casino com quatro estranhos.
— Talvez seja só um teste. – Anthony tentou acalmar Kevin. – Se for, o máximo que pode acontecer é falharmos e termos que voltar para nossas casas.
Kevin respirou profundamente, como se estivesse tentando pegar forças do ar.
— Se eu soubesse disso, teria ficado em casa. – O olhar dele estava bem cansado, como se fosse bem mais velho do que realmente era.
Com as coisas mais calmas, Lisa chamou atenção dos outros para si.
— Eu não queria interrompê-los, mas eu também achei algo. – Os olhos de todos se encheram de brilho e esperança, foi então que Lisa percebeu seu erro nas escolhas de palavras. – Ou melhor, o que eu não achei.
— Não achou? O que você quer dizer com isto? – questionou Mei.
— Procurando pelo casino, eu percebi que não há nenhum lugar para os empregados. – respondeu Lisa. – É mais estranho ainda não ter uma sala de vigilância, principalmente pela quantidade de câmeras.
— Agora que você falou é verdade. – confirmou Emily. – Mas, talvez, a sala fique em outro lugar.
— Como assim?
— Pensem comigo, se entramos no avião para Somnium e realmente chagamos lá. Talvez o casino, em que estamos, esteja dentro da cidade e a sala de vigilância dele, na verdade seja a de toda a cidade e por isso está em outro lugar. – explicou Emily.
— Se estamos realmente em Somnium não faz sentindo todas estas câmeras. – comentou Kevin. – Afinal, apenas os Ultimates teriam o luxo de viver nesta cidade, então me pergunto o motivo para ter tantas câmeras em uma cidade onde poucas pessoas viveriam. Ainda mais, com todo que eles prometeram, principalmente a liberdade que nos dariam.
Naquele momento, ninguém sabia o que falar, afinal eles não tinha respostas, apenas perguntas e mais teorias.
— Eu vou continuar procurando para ver se eu encontro algo. – informou Anthony com um leve sorriso em seu rosto.
— Boa sorte! – ironizou Kevin. – Já eu, vou dar uma passada naquele bar.
Os dois se distanciaram, logo após foi Lisa, que seguiu Kevin para não deixá-lo beber.
Ao lado da porta e da estátua sobraram apenas Mei e Emily, que fitava o GoldenKuma com estranheza e curiosidade.
— O que foi Emily? Por acaso você gosta de ursos? – indagou Mei com um leve sorriso.
— Não. – Emily mexia as mãos em negação. – Apenas achei esta estátua bizarra demais para não significar nada.
— Significar? Acha que ela tem alguma coisa em relação com a porta?
— Talvez. – suspirou Emily antes de continuar. – Ou talvez o dono só goste muito de ursos.
— Ursos bizarros. – corrigiu Mei sorrindo.
— Certamente “bizarros” – riu Emily.
Ela olhou para o seu próprio corpo e fitou sua mão cerrada como se estivesse segurando algo.
— Mas o que eu realmente queria dizer, é que eu acho que tudo tem um significado, só cabe a nós descobri-los. – sorriu Emily. – Foi por isso que decidi participar do projeto Somnium, para encontrar o meu significado.
— O seu significado? O que quer dizer com isto?
Emily riu um pouco.
— Mei, você gosta de fazer perguntas.
— É parte do meu trabalho. – sorriu ela.
— Verdade, mas agora eu gostaria de saber mais um pouco sobre você. – revelou Emily.
— Não acho que isto seja necessário, além disso precisamos achar a possível “chave” primeiro. – tentou desviar do assunto.
Foi então que a voz de Kevin e Lisa ecoaram pelo casino, chamando os outros.
Os três restantes atenderam ao chamado e foram até o bar, que era onde os dois estavam.
— Encontramos isto perto das bebidas. – anunciou Lisa mostrando um velho jornal aos outros.
Algumas partes estavam rasgadas, outras rabiscadas em bolinhas, mas era possível ver sua manchete principal “Royal Flush de John Jackson é um sucesso!”.
— Um jornal, tem algo de relevante nele? – perguntou Emily.
— Não muito, mas esta manchete me chamou atenção. – contou Lisa. – Eu sempre fui uma grande fã de John Jackson, ouço todas as músicas do, mas eu nunca ouvi falar desta música.
Enquanto Lisa revelava suas incertezas, Anthony encarava o nome “Royal Flush” como se estivesse vendo um fantasma.
— Anthony, aconteceu algo? – indagou Mei.
— Esta música, “Royal Flush”, Caroline falou sobre ela para mim. Jonh Jackson deveria lançá-la em dois meses. – respondeu Anthony perplexo.
— Dois meses? Como assim? Em que mês estamos? – perguntou Lisa preocupada.
— Novembro. – respondeu Emily.
— Novembro? Tenho certeza que já estamos em Dezembro. – contestou Kevin.
— O que? Mas… mas… não era Outubro? Não nem tinha passado o Halloween ainda quando entrei no avião. – contou Lisa começando a ficar nervosa. – Mei? Anthony? Estamos em outubro não é mesmo?
— Eu… eu… não me lembro. – gaguejou Anthony.
— Como não lembra? – exclamou Lisa.
— Eu não sei, minha memória está confusa.
Lisa estava nervosa, sentindo medo, e como um pedido de socorro se virou para Mei e disse:
— Por favor.
Mei, apesar de não demonstrar, estava tão nervosa quanto os outros. Ela engoliu seco e respondeu:
— Janeiro.
Kevin estava assustado com aquilo tudo, sua sanidade já estava se esgotando.
— Vocês estão de sacanagem comigo! Como podemos ter a última lembrança em uma diferença de até quatro meses! – berrou Kevin. – Que merda é essa! Quanto tempo se passou desde que entramos na droga do avião?
— A data! Lisa, olhe a data do jornal! – pediu Emily.
A policial começou a olhar por todo o canto do jornal procurando algo que nunca encontraria.
— Não adianta, qualquer lugar que pudesse ter uma data está rasgado ou riscado.
O caçador foi até a prateleira de bebidas ao lado do bar e pegou uma.
— Você não vai beber agora, não é? – questionou Lisa com raiva.
Ele abriu a garrafa e antes de virá-la na sua boca respondeu:
— Eu não estou entendendo merda nenhum do que está acontecendo, por isso eu só quero me sentir melhor.
Kevin bebeu a garrafa todo só em um gole, e logo foi pegar outra.
— Quer saber? Eu estou pouco me importando pra isso tudo. Não importa quando ou aonde estamos. Afinal vamos morrer neste casino.
— Por favor, pare. – pediu Mei tão baixo que ninguém ouviu.
— Kevin, você está ficando bêbado. É melhor parar. – alertou Lisa.
— E daí? Se é para morremos aqui, o melhor quanto antes! Talvez seria melhor nos matarmos para acabar logo com isto.
— Eu pedi pra parar! – berrou Mei. Ela parecia sentir dor e segurava sua cabeça com força.
— Parar? Eu ainda nem comecei. – Kevin a olhou com desprezo.
Aquele olhar, aquela situação, fez Mei lembrar de algo que não queria, mas que a assombrava a muito tempo. Foi então, como um surto ela começou a gaguejar e gritar apavorada ao apertar sua cabeça. Assim que sua voz cansou, ela correu para o andar de cima, como se estivesse fugindo de algo. Sem nem pensar duas vezes, preocupado com o que acabara de acontecer, Anthony resolveu segui-la.
Ao presenciar tudo aquilo, enfurecida Lisa socou o rosto de Kevin o fazendo cair no chão.
— Olha a droga que você fez! Já estamos nervosos suficiente com toda esta situação e você só fica piorando tudo! – gritou ela e logo após resolveu subir para a área VIP.
O caçador segurava o seu rosto, onde Lisa batera, mas não porque ele doía, mas sim porque algo doía. A espadachim que ainda estava no andar inferior, se aproximou de Kevin e estendeu a mão para ajudá-lo a levantar.
…
No andar de cima, Anthony havia acabado de subir e procurava Mei com certa preocupação. Por sorte, ele logo a viu e foi em sua direção. A psicóloga estava encolhida em um dos cantos do lugar, segurando suas pernas com as mãos. Sua feição estava vazia, como se estivesse em choque. Ela respirava profundamente para tentar relaxar.
— Mei, você está bem? – indagou Anthony ao se agachar e fitá-la da mesa altura.
A resposta não veio. O compositor percebeu o nervosismo da pequena garota e resolveu cantar uma melodia. A sua voz era bela e suave, a melodia trazia um sentimento de calma e serenidade. Lisa teve sorte e chegou no andar de cima a tempo de ouvir a voz de Anthony que dificilmente cantava para os outros. Com o tempo Mei foi se acalmando.
— Eu canto está melodia para minha irmã quando ela tem medo de algo. Ajuda a deixá-la mais calma. – contou Anthony. – Está se sentindo melhor?
— Eu não sou uma criança, mas obrigada. – sorriu Mei que se levantou com ajuda de Anthony.
Lisa que observou tudo comentou:
— Anthony, sua voz é muito boa, você devia cantar também.
O compositor, que percebera Lisa apenas naquele momento, se assustou:
— Não, não e não. Eu não me dou bem com uma plateia.
— É uma pena. – confessou Lisa. – Mas eu gostaria que você cantasse algo pra mim quando sairmos daqui.
Anthony passou a mão em seus cabelos e desviou o olhar.
— Acho que você está colocando muitas expectativas em mim, espero não decepcioná-la.
Foi então que Mei terminou a conversa fazendo um som com a garganta parecendo uma tosse para lembrar aos dois a situação que eles se encontravam.
— De qualquer forma, ainda temos que sair daqui. – lembrou Lisa. – Sei que estamos confusos, mas só saindo para descobrirmos o que está acontecendo.
— Você tem razão. Com certeza vamos conseguir sair se continuarmos procurando pela saída ou pela chave. – sorriu Anthony.
— Tudo bem continuarmos a procurar por algo, mas eu não quero olhar para o Kevin enquanto ele estiver daquele jeito. – confessou Mei.
— Bem, vou voltar a procurar algo, se encontrar algo lhes aviso. – Lisa desceu as escadas novamente.
Sobraram apenas Mei e Anthony no andar VIP.
— Acho melhor também irmos. – disse Anthony ao seguir em direção as escadas, mas foi parado na metade do caminho por Mei que segurava o seu suéter rosa.
— Você está nervoso, não está? – indagou ela.
— Como assim? Acho que todos estamos, afinal está situação não é nem um pouco reconfortante. – respondeu ele.
— Quando eu disse nevoso, eu quis dizer realmente nervoso, com medo, tendo o pessimismo tomado conta de seu corpo, achar que nada vai dar certo. – explicou Mei. – Por isso, eu repito a minha pergunta. Você está nervoso?
— Você não está sendo nada sutil, Mei. – comentou Anthony ao sorrir.
— Sinto muito, normalmente sou melhor no meu trabalho. – sorriu ela.
Os dois sorriam, mas sabiam que aquela expressão era falsa, ela não revela com eles realmente se sentiam.
— Eu realmente estou com medo, mas acho que transbordá-lo para outras pessoas, não vai ajudar. – desabafou Anthony.
— Entendo. – comentou Mei.
O compositor se distancia da pequena garota e chegou nas escadas. Ele olhou para atrás e fitou Mei.
— Vamos descer?
Mei assentiu com a cabeça e o seguiu.
…
Com ajuda de Emily, Kevin se levantou após toma o soco de Lisa.
— Por que não subiu também? – indagou ele.
— Se eu subisse, não teria ninguém para te impedir de beber mais. – respondeu ela.
— Eu só quero ver você conseguir. – Kevin se aproximou de outra garrafa.
Como um veloz raio, o sabre de Emily foi posto em frente dele, o separando das bebidas.
— Quer tentar a sorte? – peguntou a esgrimista enquanto segurava a sua lâmina.
Kevin começou a rir, mas não caçoando a garota. Foi uma risada, um pouco alegre.
— Gostei da atitude, senhorita Valentine. – encorajou Kevin.
— Pode me chamar de Emily. – pediu a garota que estranhou como o outro lhe chamara.
— Achei que você não gostasse que lhe chamassem pelo nome.
— Por que achou isto?
— Suas roupas são muito chiques e extravagantes, então fiquei com a impressão que você devesse ser de alguma realeza ou nobreza de algum lugar.
— Eu nasci numa família nobre, mas não gosto de títulos. – contou Emily.
— Pelo menos eu acertei. – disse Kevin. – Um bom consolo para quem vai morrer enfiado dentro de um casino.
— Você só está agindo assim porque está com medo.
— E com muito. – admitiu Kevin. – Eu não quero morrer, principalmente dentro de um casino.
O caçador fez uma pausa e suspirou:
— Sim, principalmente dentro da droga de um casino.
— Não é bom deixar o medo tomar conta de você. – aconselhou Emily. – Quando isto acontece podemos fazer muita besteira.
— Você está certa, mas é difícil me controlar.
— Principalmente bêbado. – brincou Emily, apesar do fundo de verdade.
Kevin riu um pouco.
— Acho que agora você deveria pedi desculpas a todos, principalmente a Mei. – sugeriu Emily.
— Você está certa, mas eu sou orgulhoso demais para fazer isto.
— Eu lhe entendo, eu também sou. Mas há momentos na vida que o orgulho não vale de nada.
A esgrimista finalmente guardou seu sabre novamente a sua cintura e ao fazer isto fitou para o chão onde estava o jornal. Ela se agachou e resolveu olhá-lo mais uma vez, foi então que percebeu algo.
— Kevin, eu acho que já sei como vamos sair daqui. – sorriu ela.
…
Os três que estavam no andar de cima, finalmente desceram. Então, viram Emily com um sorriso fitando o velho jornal.
— Encontrou algo? – indagou Mei assim que percebera a expressão da esgrimista.
— Se eu estiver certa, sim.
Todos se aproximaram de Emily e olharam para o jornal como ela pediu.
— Vocês estão vendo todas essas palavras rabiscadas? Inicialmente, eu achei que era apenas para que não pudéssemos ler. Mas me perguntei o motivo das palavras e o jornal ter sido riscado em bolinhas, afinal seria muito mais fácil ter feito linhas. – contou Emily.
— Você está querendo dizer que as bolinhas significam algo? – questionou Lisa.
— Exato. – confirmou Emily. – Vocês sabem o que é Braille?
— É uma forma de escrita tátil utilizada por pessoas cegas. – informou Mei.
— No Braille cada letra é representada por um conjunto de bolinhas de três linhas e duas colunas. – continuou Emily. – Se separamos estas bolinhas do jornal na mesma forma que braille conseguimos um conjunto de letras.
— Você sabe ler braille? – indagou Anthony.
— Minha irmã é cega, por isso para ajudá-la quis aprender a escrita também. – respondeu a esgrimista.
— E então o que está escrito? – pergunto Kevin.
— DAMINHAMUSICAAPORTASEABRIRAPARASEUCORACAO. – respondeu Emily.
— “Da minha música a porta se abrirá para seu coração” – repetiu Mei ao separar as palavras.
— Uma música? Royal Flush! – exclamou Anthony.
— Royal Flush? Mas o que tem esta música? – indagou Lisa.
— Não acho que seja a música em si, mas o que seu título significa. – falou Kevin. – No poker, Royal Flush é a melhor mão possível, ou seja, uma sequência de Ás, Rei, Dama, Valete e Dez, tudo do mesmo naipe.
— Vocês não estão querendo dizer que estas cartas seriam a “chave” para abrir aquela porta? – perguntou Lisa.
— É uma grande possibilidade. – confirmou Mei. – A fechadura retangular bateria com o formato das cartas.
— Mas seria muito improvável ter uma fechadura assim. – contestou Lisa.
— Uma vez eliminado o impossível, o que restar, não importa o quão improvável, deve ser a verdade. – disse Emily.
— Não custa nada tentar, Lisa. – argumentou Anthony.
— Okay, mas qual seria o naipe?
— Copas. – respondeu Mei. – “Da minha música a porta se abrirá para seu coração”. No baralho o naipe que tem como símbolo o coração é o de copas.
— Vale a pena tentar. – concordou Emily. – Alguém achou algum baralho enquanto procurava a saída.
— Eu achei, vou pegá-lo – contou Lisa. – Me encontrem na porta metálica.
Todos assentiram.
…
Os quatro, que fitavam a porta, não tiveram que esperar muito, pois a polícia logo apareceu com o baralho. Eles pegaram as cartas necessárias e colocaram na cavidade ao lado da porta.
Uma luz se ascendeu e um som foi tocado. Tudo era o aviso, para o que eles já imaginavam, a porta começava a se abrir.
— Isso! Não vou morrer aqui dentro! – gritou Kevin de felicidade.
— Você está exagerando só ficamos preso algumas horas. – comentou Emily.
— De qualquer forma, ao sairmos poderemos procurar ajuda e entende o que está acontecendo. – sugeriu Anthony.
— Vocês deviam estar certos. Isto só devia ser um teste para o projeto Somnium. Agora vamos poder ter a vida dos sonhos! – exclamou Kevin eufórico.
A porta continuava a abrir lentamente. Enquanto a maioria a fitava, Emily desviou seu olhar e encarou a estátua dourada novamente. Mei percebeu seu ar de preocupação e se aproximou.
— Eu sei que é estranho eu prestar atenção nisto, mas não consigo me convencer que ela não serve para nada. – comentou Emily a ver Mei se aproximar.
— Consigo te compreender, mas não é bom fixar a mente em algo por muito tempo. – aconselhou Mei.
Emily assentiu, e as duas pararam de fitar o GoldenKuma para voltar o seu olhar a parto metálica.
— Sabe, Mei? O Kevin é realmente um babaca, mas eu acho que apesar de tudo ele é uma pessoa boa.
— Pode até ser, mas eu prefiro não lidar com pessoas desse tipo. – respondeu Mei.
A porta que até então abria-se lentamente, finalmente estava aberta.
— Vamos? – perguntou Emily aos outros que assentiram imediatamente.
Os cinco correram em direção a porta, conseguiam enxergar algum tipo de luz. Quando, finalmente, conseguiram atravessar a porte e sair do casino, a esperança, que sentiam em se libertar, foi transformada em o mais arrepiante dos desesperos.
— Mas que merda é essa!
O único som que ecou naquele momento foi o berro de Kevin. O resto era apenas um silencioso desespero. Não podíamos acreditar em o que víamos. Aquele tempo todo estávamos tentando sair do casino, e quando achávamos que tínhamos escapado, a realidade nos puxou de volta ao chão. Assim como os muros que bloqueavam nossa visão e liberdade, afinal o desespero que sentíamos naquele momento era apenas a fagulha que se transformaria numa labareda que queimaria até o último pingo de nossas esperanças.
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