Dando Voltas no Ponteiro
22 Capítulo XXI – DE VOLTA PARA CASA
Notas iniciais
Acordei num lugar escuro e apertado, no colo de alguém. Ouvi as vozes de Cory e Anna, falando sobre alguma coisa que envolvia “chegar a tempo”, eu estar “morrendo” e “Lily estar exausta”. Lentamente, fui abrindo os olhos e ouvi Anna dizendo:
– Ela está acordando, graças a Deus.
Percebi que estávamos na tal esfera de madeira que Cory havia feito e eu havia perdido de ajudar meu último Elemento em sua primeira batalha. Levantei-me de uma vez e bati a cabeça no teto.
– Vai com calma, moça. – Cory me segurou, rindo.
– Como... Como vocês acabaram com aquele monstro? – disse eu, afagando minha própria cabeça onde eu tinha a acertado.
– Bem, – começou Anna – depois que vimos você desmaiar, Cory e eu combinamos de fechá-lo debaixo da terra e eu o faria queimar de dentro pra fora. Assim não haveria estragos para... Ahn, o mundo humano.
Fiquei desapontada por eles terem se dado tão bem sem mim. De repente, me lembrei de uma pergunta importante:
– Como eu ainda estou viva?
– O veneno do monstro não era exatamente mortal. – disse Cory – Você só ficou com uma inflamação muito feia na barriga.
Droga. Eu nem quero ver. Deve estar tão feio que se a Kat ou a Leah virem vão querer me encher de maquiagem.
Nossa. E que saudade que eu estou dessas duas. As deixei em Londres sem mais delongas tem uns meses e não dei notícias. E é claro, o Luke. Eu tenho muitas coisas para conversar com ele quando chegar. A ansiedade já estava me matando. Não conseguia ficar quieta e constantemente resmungava que Lily estava indo muito devagar. Cory e Anna conversavam entre si, mas eu mal prestava atenção, pois estava imersa em meus próprios pensamentos. Mas logo Cory chamou a minha atenção, estalando os dedos na minha frente:
– Terra pra Fayel. Literalmente. – Anna riu de sua piada e eu me virei para olhá-lo.
– Perdão. Não consigo pensar em outra coisa a não ser a minha casa. Cama macia, cobertor quentinho e tudo o mais. – sorri e segurei as mãos de Anna, que estava no banco na minha frente – Você vai adorar lá.
– Eu tenho certeza que sim. Qualquer coisa é melhor do que aquele manicômio horrível.
Sentimos a grande esfera despencar do ar abruptamente e então rolando no chão. E isso, é claro, nos fez chocarmos uns com os outros várias vezes de forma absurdamente dolorosa. Quando finalmente paramos, estavam os dois em cima de mim. Grunhi para que saíssem e então Cory empurrou a portinha que estava em cima de nossas cabeças e saiu. Depois ele puxou Anna e depois eu. Olhei para a Lily com uma cara feia e ela disse com um sorriso amarelo:
– Chegamos!
– Percebi. – mas quando olhei em volta, o acampamento já estava bem vazio. Vi um pontinho rosa arrumando as armas que estavam no chão perto do chalé feminino e gritei pelo seu nome: — Kat!
Ela se virou, jogou tudo o que tinha nos braços e veio correndo para um abraço forte e dolorido. Ela dizia que sentia minha falta várias vezes enquanto eu resmungava que ela estava apertando o corte que eu havia levado recentemente. Cory então a cutucou pelo ombro e ela o abraçou três vezes mais forte. Ele, é claro, retribuiu.
– O que aconteceu aqui? Chegamos tarde demais? – perguntei o óbvio.
– A Rainha Hercília apareceu do nada na hora do treinamento com lanças e então fez um discurso patético sobre lealdade, amor e esperança. Faz todo o sentido biológico vindo dela, realmente. – ela revirou os olhos.
– Quantos sobraram? – foi a vez de Cory se pronunciar.
– Não muitos, na verdade. – ela fez uma careta.
– Quantos? – ele repetiu.
– Onze. – prendi a respiração. Já não tínhamos muito antes, agora que seis dos meus soldados me abandonaram, vai ficar bem mais difícil de guerrear.
– Ainda estamos em vantagem. – disse Lily, friamente.
– São nossos amigos! Não podemos mata-los. – Cory esbraveou.
– E também não podemos não mata-los. – ela rebateu e infelizmente, com toda a razão.
Um silêncio estabeleceu-se até o momento em que ouvimos o barulho de Anna caindo em uma pilha de escudos de metal. Cory correu para ajudá-la que tinha torcido o pé.
– Eu sou uma desastrada estúpida. – ela disse.
– Claro que não. Você só estava distraída, é normal. – Cory disse de forma gentil e ela enrubesceu – Precisa de ajuda para andar? Parece estar doendo.
– Ah não, não se incom... – ela foi interrompida pelo ato de Cory que a levou em seus braços até o chalé feminino.
Todos nós estávamos assistindo a cena que estava acontecendo não muito longe dali. Olhei Kat pelo canto do olho que estava de braços cruzados, olhando pra tudo aquilo. Ela virou o rosto e perguntou um tanto irritada:
– Quem é essa daí mesmo?
– Ahn, a Anna Carolina. Do Elemento fogo. – respondi.
– Hm. Entendo. – ela enfim deu um sorriso e mudou o assunto – Mas então... Temos que tomar cuidado com a Rainha agora que sabemos que ela fará de tudo para nos desarmar. Tenho tido sonhos distorcidos há muito tempo, mas tenho em plena consciência de que não são reais.
– Que tipos de sonhos? – perguntou Lily.
– Os piores. Pessoas morrendo. Pessoas importantes. – ela olhou para mim com pesar – Mas eu sei que é mentira.
Aquilo me deixou com medo. A Rainha está mandando imagens de amigos mortos para enfraquecer o psicológico dos meus soldados. Para deixá-los cada vez mais fracos. Isso de fato, é preocupante. Pensando nisso, pedi para Kat avisar a todos que terá uma reunião no centro do acampamento em dentro de dez minutos e queria todos prontos. Ela então saiu correndo para fazer o que pedi, gritava os nomes dos soldados várias vezes e entrava nos chalés.
Nesses dez minutos que estive sozinha, pensei sobre as coisas que deixei aqui. Basicamente, meus amigos e minha família. E Luke. Eu preciso falar com ele. Mas só depois que eu arrumar as coisas por aqui. Que por sinal precisa de minha total atenção. Eu ainda não consigo acreditar em como as coisas ficaram assim. O mundo está ficando em total desordem desde que eu tomei conhecimento da guerra. O Brasil deve estar lidando com custos altíssimos naquele hospital. Pessoas inocentes devem ter morrido e eu não as salvei. Eu fui inútil.
Senti uma mão tocando meu ombro. Era Kat com o pessoal atrás dela, esperando por mim. Subi em cima de um tronco cortado e pedi pela atenção de todos. Com a voz falhando, comecei:
– Então estamos de volta. Queria que vocês soubessem que não fui embora porque precisava de um tempo pra mim, ou o que quer que seja que Hercília pôs em suas cabeças. Eu estava recrutando duas novas soldadas poderosíssimas para a nossa guerra. Seus nomes são Lily e Anna. – apontei para elas na multidão e todos se viraram para olhá-las – Lily é australiana e controla o Elemento Ar. Já Anna é nacionalizada como brasileira e controla o Fogo. Assim como vocês, elas escolheram ficar e lutar ao nosso lado: o lado da justiça. O lado que não consegue mais viver como fantoche de uma Rainha louca. Nós não iremos cair sem vencer. Não admito que uma gota de sangue inocente seja derramada em vão. Nos noticiários, vocês podem ver: A guerra já começou. Uma guerra com lados invisíveis. Então, Rainha, se esse é teu modo de reinar por toda a eternidade, eu serei obrigada a tomar teu trono. – falei dessa vez olhando pro céu, para que onde quer que ela esteja, tivesse plena consciência de que estou falando com ela – Aos que continuaram comigo e continuarão, eu não os decepcionarei. Irmãos, amigos e namorados foram separados de vocês. Eu vou vingar isso. Porque eu sei que vamos vencer. – dei um sorriso – Eu vi isso.
Desci do tronco e fiz uma reverência. Me aplaudiram. Eu não mereço essas palmas. Eu não sei o que fazer, na verdade. Eu só falei algo que eles queriam ouvir. Algo que eu quero que seja verdade. Claro que sei que vamos vencer esta guerra. Porém eu também sei das consequências.
– Fay! – ouvi a voz de Kat gritando meu nome e me virei para olhá-la – Isso foi incrível, muito bem.
– Obrigada.
– Então... Você não pretende ir pra lugar algum não é?
Franzi o cenho, questionando sua pergunta silenciosamente.
– Por quê? Algum problema se eu for?
– Ah... – ela deu um sorriso amarelo, tentando arrumar uma desculpa – É só que vamos precisar de você pra muitas coisas por aqui. Não seria formal sair assim que acabou de chegar. – ela parou na minha frente.
– Bem, também não seria formal acabar de chegar e não falar com a minha família. – a empurrei para o lado e continuei andando – Não vou dormir aqui essa noite. Volto amanhã às 15h.
– Ok então. – ela deu uma risada fraca e foi andando de volta pra cabine.
Ela estava agindo estranho demais. Uma voz bem alta me diz que tem alguma coisa a ver com Luke. Na verdade, tá mais que óbvio. Ignoro minha ansiedade e corro pra van que há muito tempo não a vejo. Pego a chave reserva que eu escondi na terra e entro. Quando dou por mim, estou virando a esquina da minha casa e olho para o meu lado esquerdo.
Deparo-me então com Leah e Luke se beijando enquanto caminham no sentido oposto da minha casa.
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