Dando Voltas no Ponteiro
12 Capítulo XII – PERDIDO NO MEU ELEMENTO
Notas iniciais
Tem gente que é idiota; outras que são mais estúpidas; Tem gente que é simplesmente imbecil... E tem o Luke. A primeira regra pra se ter uma viagem no tempo saudável é: não solte a merda da minha mão. Tem uma razão específica pra eu dizer isso, não tem? E o que é? Você some!
E esse é o problema. Ele sumiu. Assim, gradativamente e bem rápido. Sumiu. Eu não sei o que dizer, mas tenho gesticulado com muita frequência há cinco minutos mais ou menos desde que ele não está ali. Seria uma cena até cômica, se o garoto que eu gosto não tivesse desaparecido pra sempre num universo paralelo. Quer dizer, o que foi isso? O que eu faço? Nunca fiquei tanto tempo viajando no meu Elemento. Nem sei como estou no presente neste momento, mas aqui, eu estou muito, muito assustada.
– Que porra foi essa?! – eu estive gritando coisas como essa por um tempo, andando de um lado pro outro, tentando não mudar alguma coisa naquele passado – Garoto estúpido, você não pode simplesmente soltar a minha mão quando se está na minha imaginação!
Foi quando parei pra realmente dar uma olhada no local e vi que não tinha nenhum sinal do Luke. Não nesse sentido. Quero dizer: era como se ele nunca tivesse existido. Eu nadava sozinha, boiando. E nas pegadas até o mar, só tinham as minhas. Na casa da praia, estava tudo meio vazio e com coisas minhas jogadas em todos os cantos. Nada, absolutamente nada, de Luke.
– Ah não. – franzi o cenho pensando que no mundo real, ele provavelmente desapareceu também.
O que eu vou fazer agora? Eu sequer tenho um plano pra consertar isso. Estive perambulando no meu Elemento há muito e estou começando a ficar realmente aflita. Não é realmente odioso quando você não consegue achar uma solução pra algo? E não como se eu estivesse triste porque Luke me soltou, na verdade, eu estou muito brava. E desesperada. Sem Luke, sem destino pra mim também. Sem ele, também não tenho motivos pra continuar a missão. Pra falar a verdade, ele é minha missão. Sem ele, não tenho escolha a não ser morrer consumida pelo meu Elemento.
Depois de tanto reclamar, voltei ao presente e estava meio chorosa. Saí chutando tudo, pensando no que ia fazer. Lembrei que da última vez em que fiquei frustrada, saí chutando tudo também e isso me fez conhecer um Luke doente. De olhos cansados e corpo magro. O que eu não daria pra ver os mesmos olhos agora mesmo. Mas já é tarde. Ele foi estúpido e largou minha mão. Filho da mãe! Não consigo ficar calma.
Cheguei em casa, numa velocidade mínima com a Scooter, recebendo inúmeros xingamentos no trânsito. Entrei e a minha avó, como sempre, tinha uma resposta.
– Eu realmente não me lembro desse garoto que você tá falando, mas pode ser da idade. – a encarei, séria, porque eu realmente estou sem paciência pra brincadeiras – Fayel, eu não sei! Ele soltou sua mão, o que espera que eu faça? Acabou.
Massageei as têmporas e a olhei suplicante:
– Por favor, você é a minha única guia. Você é minha última esperança pra entender esse Elemento idiota que tenho em mãos.
– Eu não sei. – ela balançou a cabeça e deu um sorrisinho.
Apoiei a cabeça nas mãos e pensei no quanto eu estava fodida. Esse bosta retardado, pensei. Que tipo de débil mental solta a mão quando você diz claramente que não pode solt...
“Ei.” Uma voz ecoou em minha cabeça “Não fale assim. Magoa”.
Aquela voz. Eu conhecia muito bem aquela voz.
– Luke? – vovó e Kat que estava descendo as escadas com uma caixa de esmaltes me olharam com uma cara interrogativa – Vovó, eu acho que eu estou ficando louca.
“Então você me ouve agora?” quase consigo ver Luke levantando as sobrancelhas “Estive te chamando por horas. Se bem que parecem anos desde que estive aqui”.
– Ai meu Deus, eu não estou louca – arregalei os olhos, espantada – O que você tá fazendo aí? Quer dizer, aqui.
“Eu sinceramente não sei. Quando soltei minha mão eu simplesmente não vi nada. Acho que eu estou morto, porém vivo.” Era difícil de entender tais palavras, mas tentei associar com um nome que li na internet daquela vez que pesquisei sobre os Elementos.
– Se chama “coma cósmico”, ou coisa parecida. – arqueei as sobrancelhas e falei o que eu estava querendo falar desde que ele me soltou – SEU IMBECIL! VOCÊ É UM OTÁRIO! EU DISSE PRA NÃO SOLTAR!
“Olha as ofensas. Você não me disse o que podia acontecer se eu soltasse.”
Então abri a boca e franzi o cenho, fazendo uma careta de indignação porque só palavras não eram o bastante pra o que eu estava sentindo.
– Você não me deu a chance de dizer! – joguei os braços pro ar, completamente exasperada.
“Olha, eu não estou realmente a fim de argumentar então, por favor, me tira daqui.” Ele pediu e continuou, com muitas pausas: “É realmente escuro pra caralho”.
Revirei os olhos e revidei:
– Eu não sei como te tirar daí. Se eu soubesse já teria o feito. – apoiei o queixo em minhas mãos e suspirei forte.
“Arruma um médium, satanista, um pai de santo do Brasil...” novamente ouve-se uma pausa, como se ele estivesse pensando no que ia dizer “Qualquer coisa! Eu não posso ficar conversando com você por telepatia pra sempre”.
– É, realmente não pode. – olhei pra Kat que me olhava enquanto lixava as unhas, com aquela expressão de julgamento que só ela sabia fazer – Você é uma consciência muito irritante, sabia?
Ouvir aquela risada realmente foi reconfortante. Minha avó, que parecia se divertir com a cena, finalmente disse:
– Na verdade, Fayth, eu conheço alguém que pode te ajudar.
Espremi os olhos, incrédula:
– Eu não acredito que você esteve fazendo graça de mim esse tempo todo.
– É que eu não estava me lembrando – ela deu um risinho – Você sabe, coisa da idade.
– É. Sei. – fiz um gesto com as mãos pra que ela prosseguisse e disse: – Vai, fala.
– Quando eu tinha sua idade, ouvi falar que existiam Cosmos no mundo. Uma espécie rara e linda e cuidam do universo inteiro, para que as coisas aqui continuem fazendo sentido. – a olhei interessante, cerrando os olhos – Quase um “conserta-tudo” pra o que os Elementos fazem. Ou coisa assim. Enfim, assim como nós, houve uma guerra e eles foram extintos. Duvido muito que ainda existam, mas você pode tentar.
Fiquei a olhando, processando a informação.
– Ah sim, claro. Rastreá-la. Você acha que ela pode trazer Luke de volta?
“É bom que tire, não aguento mais não ser lembrado.” A voz ecoante de Luke me fez dar um pulo no sofá, devido ao susto. Nem me lembrava mais que ele estava ali, escutando todos os meus pensamentos. Isso é bem desconfortável.
– Quase esqueci que o garoto estava aí, preso. – minha avó rolou os olhos – Vai ser um pouco mais difícil agora. O que sua amiga aqui sabe fazer além de cuidar do cabelo e das unhas? – ela apontou pra Kat, que estava concentrada fazendo um desenho na unha do polegar.
Ela olhou por baixo e franziu o cenho.
– Um pouco mais de respeito, por favor. – ela mostrou o dedo que estava pintando e cerrou os olhos azuis pra minha vó – Isso aqui exige muita concentração e talento.
Tive que rir da cara que minha avó fez quando voltou a olhar pra mim, e então disse:
– Kat conseguiu sentir a aura de uma criança, certa vez.
– Isso é bom. Pode rastrear um Cosmo, Kat? – vovó voltou a olhar para a garota de cabelos coloridos.
– Não sei. Posso tentar. – comecei a esboçar um sorriso, quando ela continuou – Mas só depois que secar. E ainda falta a outra mão.
Alguns minutos depois, Kat tentou de todas as maneiras se concentrar nesse Cosmo, mas ela nem fazia ideia de como seria isso. No momento em que a olhei nos olhos fui tomada por uma série de imagens que levavam a uma cidadezinha nos Estados Unidos, o Maine. A cidade localizada no extremo norte da Nova Inglaterra, que fora disputada por ingleses e britânicos nos primórdios de sua história. Um sotaque bonito, devido à mistura. Por que eu sei que era lá? Já viajei pra a cidade com os meus pais uma vez, com onze anos de idade. Bons tempos eram aqueles.
Mas isso já é passado agora, não tem mais nada que eu possa guardar. E enquanto estive comentando a minha trágica história de vida, eu estava ficando cada vez mais perto desse tal de “Cosmo”. Depois de observar a Kat tentar por tanto tempo, desconsiderei a existência. Mas agora, é como se eu estivesse sentindo isso, digo o Cosmo. É revigorante, e não pesado como o meu. Pelo contrário, é leve e rápido. Eu não sei como explicar, mas é uma sensação muito boa.
Então parei em um lugar. Uma escola, cheia de adolescentes feios e espinhentos. Fiquei imaginando coisas como “deve ser o pai de alguma aluna, ou alguma professora”, mas foi ficando esquisito demais pensar nisso quando toda essa energia que eu estava sentindo emitia de uma adolescente de 17 anos de cabelos escuros e olhos azuis muito escuros. Ela andava com um moletom e um jeans surrado, fones nos ouvidos e as mãos enterradas nos bolsos. O olhar convencido e o sorrisinho de escárnio combinavam com alguém que tem o universo nas mãos. E ao contrário do tempo, é muito mais fácil de se manusear. Foi só olhar pra ela que eu já sabia sua vida inteira: Carter Lancaster, órfã do pai, tem um espelho mágico que armazena todo o resto de seu poder (agora tá explicado), fez aniversário na semana passada.
Quando voltei a mim, gritei:
– Achei! O nome é Carter, é uma adolescente de 17 anos! – dei um pulo e isso assustou Kat que ainda estava tentando se concentrar.
– Caramba. Você descobriu isso tão rápido assim? – ouvi uma pitada de inveja na voz de Kat, que se esforçara tanto para achar a garota.
– É coisa do meu Elemento. Quer dizer... Deve ser. – dei de ombros e voltei ao assunto inicial – Ela mora no Maine. Vou comprar as passagens.
Minha vó me puxou e ponderou:
– Só depois das aulas. Você quer reprovar?
– Vó, eu sou o Tempo. Eu não preciso ficar uma semana. Pra mim, ela já passou. – pisquei e fui correndo pra o site comprar as passagens.
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