Dando Voltas no Ponteiro
9 Capítulo IX - IRRITANTE, LOUCA, MIMADA E MINHA NOVA AMIGA
Notas iniciais
Kat estava inconsolável. Chorava sem parar no meu ombro e murmurava coisas como “Minha mãe é malvada”, “Eu tenho irmãos?”, “Eu queria ser Fogo” e etc. Pelo jeito não sou só eu que acho que Fogo é o Elemento mais legal.
– Acalme-se. Vai ficar tudo bem... – passei a mão nos cabelos coloridos dela.
Kat fungou.
– Você já encontrou algum dos meus irmãos?
– Não. – suspirei – Você é a primeira.
– Você é a minha irmã?
– Não mesmo. Sou um Elemento roubado, perdido. Portanto não tive que ser protegido. Não sou semideusa como você e o restante.
– Foi muito difícil pra você ter me encontrado?
– Certamente. – respondi, pensando nas noites em que ficara acordada pensando em como encontrá-la – Gastei bastante energia canalizando suas dores. Sem nem mesmo saber quem você era ou onde estava.
Kat parou e me encarou por alguns longos segundos e logo depois arregalou os olhos.
– Fayel. – ela me soltou e enrubesceu – Meu Deus.
Rolei os olhos e falei:
– Kat, eu sei que o a gente passou não foi nada bom, mas eu...
– Vadia! Lupin me deixou aqui pra ficar em Londres com você! – ouvi um ruído vindo dos canos nas paredes e na pia da cozinha. Naquele momento eu percebi que estava encrencada.
– Katherine eu...
– Eu o amo tanto e você faz isso comigo?! Você só pode ter vindo aqui pra mentir pra mim! Que Rainha dos Elementos coisa alguma! Que Hercília, que nada! É tudo mentira! – os olhos azuis de Kat ondularam, como ondas furiosas. Ela estava completamente vermelha de raiva, falava entre os dentes e gesticulava insanamente.
– Se acalma! A gente pode conversar sobre isso...
– ME ACALMAR?! Depois de tudo que você me fez?! Quando você saiu daquele maldito colégio, o Lupin ficava sozinho e quem ficou com ele? Eu! Por que eu sempre o amei! Quando ele começou a ganhar corpo e beleza, todas as garotas começaram a ir atrás dele! E sabe o que tive que fazer pra chamar a atenção dele, Fayel Idiota Lynch? Eu fiz isso aqui com o meu cabelo – Kat pegou nos cabelos coloridos da cor do arco-íris e os sacudiu com tanta brutalidade que chegou a ser cômico – Eu o amei mais que qualquer pessoa! Nós namoramos e ele me traiu! Por causa de você!
– Kat... – ela continuou gritando coisas inaudíveis – Kat ele não te ama!
Ela deu um berro e então as paredes se quebraram jorrando água para todos os lados, a pia havia explodido e quando ela estava indo pular em cima de mim, me esquivei e caí na mesa de centro de vidro e cortei meus braços e costas. A água foi pintada de sangue em apenas alguns segundos. Kat levantava os braços fazendo uma parede d’água atrás dela.
– Você vai finalmente pagar por tudo o que fez.
Arregalei os olhos.
– Não! — mergulhei na água indo em direção a cozinha, mas fui sentindo uma forte correnteza me puxando para mais perto dela.
Lutei contra o Elemento de Kat e pensei no quanto a água podia ser mortal. Se eu pudesse ao menos parar o que ela estava fazendo...
Foi então que eu me toquei. Eu sou o Tempo. Eu posso parar essa droga quando eu quiser. E então tudo ficou preto e branco. Vi meu reflexo no fogão e meus olhos estavam negros. Soltei minha respiração. Estava tudo bem, pois aqui eu não sofro danos. Este é o meu mundo, o meu Elemento. Saí andando na água, subindo cada vez mais, como se houvesse uma escada sólida ali. Cheguei até Kat e a desarmei: Deixei sua expressão facial suavizada e até pus um sorriso em seu rosto. Logo depois abaixei seus braços e a fiz pensar que estava tudo bem. Parei em sua frente e então desejei que tudo voltasse. Lentamente as cores estavam voltando aos seus respectivos lugares e a água ia diminuindo, voltando para os canos.
– O que eu acabei de fazer? – disse Kat. Quando vi que meu plano havia dado certo sorri, satisfeita – Seu braço! Oh céus, me desculpe. Venha que eu vou cuidar disso pra você.
Após longos e dolorosos 20 minutos, Kat já tinha tirado os cacos de vidro restantes e posto uma faixa. Ela me perguntou:
– Você usou o seu Elemento não é? – eu a olhei por baixo – Pra me parar. Não é possível que em apenas um milésimo de segundos, você tivesse saído do fundo da água e ido parar na minha frente. Ou pior que isso, eu tivesse suavizado tão rápido.
Suspirei e respondi, calmamente:
– Você tinha saído de controle. Seus olhos ondularam e escureceram. Eu tive que recorrer ao meu Elemento. Sorte a minha que quando eu voltei não estava desmaiada. Geralmente isso acontece quando eu... – minhas palavras foram interrompidas por um longo bocejo – Como você pode ver, eu preciso de uma soneca rápida. Será que...?
Apontei para o seu quarto cor-de-rosa do outro lado.
– Oh! Claro. Venha comigo. – ela me puxou pro quarto dela e me deu algumas roupas emprestadas já que as minhas estavam encharcadas. Me vi usando um vestido acinturado rosinha com muitas flores. Vinha acompanhado com um cardigã rosa claro meigo. Penteei os cabelos e os sequei no secador, e então desmaiei de sono. Senti Kat me puxando para sua cama e pondo uma coberta sobre mim. Após isso só me lembro de acordar naquele mesmo lugar e já estava muito escuro. Por volta de três da manhã praticamente.
A casa estava limpa, os móveis no lugar, cacos de vidro jogados fora e a mesa de centro encostada em outro canto da parede. Me levantei e fui à procura de Kat. Estava tudo escuro e frio, cada passo que eu dava levantava um pavor dentro de mim. Mas então vi Kat dormindo no sofá, tremendo de frio. Peguei a coberta no quarto e a cobri. Peguei minhas roupas quase secas no varal e as agarrei com força. Abri a porta do apartamento e saí. Já havia tido demasiada aventura por hoje.
Subi na minha Scooter e acelerei. E acelerei, e acelerei...
Tudo ficou preto e branco e me vi avançando absurdamente rápido para Londres, numa casinha rústica nas ruas populares, e eu paro de repente, me fazendo pular da moto e machucando minhas costas e pescoço brutalmente. Nossa, pensei que aqui, no meu Elemento, eu não pudesse me machucar.
Ao menos que...
“Avance.” Disse a voz sombria da Rainha Hercília. Sem questioná-la, entrei na casa. Os móveis eram simples e meigos. Tinham brinquedos espalhados por todos os lados. Subi as escadas lentamente e virei à direita, entrei na primeira porta. Era branca, com uma plaquinha escrita: “Quarto do Príncipe”. Tinha um berço, um baú delicado, cadeira de ninar e estantes com muitos brinquedos... Enfim, era um quarto de bebê. Na cadeira de ninar estava uma mulher de cabelos longos e ondulados, que faziam cachinhos perfeitos só nas pontas. Tinha o rosto fino, o nariz empinado e uma boca inexpressiva. Seus olhos eram enormes e intensos. Aquela mulher era eu, segurando meu filho.
Ela balançava a cadeira solenemente, enquanto fazia carinho na cabeça do neném. Uma lágrima caía de seu (meu) rosto.
– Eu sei que tem alguém aqui... – ela falou – Eu tive essa visão quando era mais jovem. Quando eu ainda tinha poder. Quando eu tinha alguém para amar. – começou a soluçar e o bebê chorou junto a ela.
O telefone toca. Fayel do futuro põe o bebê no berço e atende o aparelho.
– Oi? Mamãe? Sim, pode vir... Está tudo certo. Sim. Sim, Luke está bem. Tomou todos os remédios. Não quero que traga ninguém, muito menos um homem. – Fayel fez a cara mais carrancuda que eu já imaginei que poderia ter e então falou, um pouco mais alto do que deveria – Não, mãe! Não quero que ninguém substitua o meu Luke! Eu nunca vou amar um homem tanto quanto eu o amei!
Meu eu do futuro saiu do quarto batendo a porta, deixando o bebê descontrolado, fui atrás dela enquanto a ouvia gritar pela casa:
– Não dá, não sei! Não quero e não posso! Eu tenho uma dívida eterna comigo mesma pelo o que eu fiz. Eu não pude salvar os dois. Lamento. – e ela desligou.
Fayel jogou o telefone longe e saiu correndo para fora de casa. Foi andando até uma rua movimentada. “O que ela está fazendo?”, pensei. Só fui entender quando ela parou no meio da rua e deixou um caminhão de construção acertá-la em cheio. Minha visão acabou. E eu acordei no meio de uma calçada, envolta de uma multidão desesperada tentando me socorrer e me despertar compulsivamente. Meu braço esquerdo sangrava, o casaquinho rosa havia se rasgado no meio e estava ensanguentado. Meu joelho estava ralado e escorria sangue do meu nariz. Senti o gosto metálico do sangue da minha boca, mas mesmo com todos aqueles ferimentos, eu estava entorpecida. Eu estava no meu mundo alguns segundos atrás então nada me machucaria fora dali. Uma das vantagens de ser eu. Mas dessa vez, além do meu corpo, meu coração também estava se partindo. Eu não ligava para todos aqueles machucados tolos, eu estava preocupada com aquilo que Hercília havia me mostrado. E infelizmente, dessa vez era uma situação hipotética verdadeira.
Por que eu sei que isso aconteceria caso eu escolhesse salvar meus pais. Mas também sei que parte da visão foi manipulada. Lembro-me de ter ouvido uns “nerds” falando no corredor da escola que mortos não podem voltar à vida.
Ou seja, mesmo se eu escolhesse salvar a vida dos meus pais, eu estaria fazendo a escolha errada. Mortos não podem voltar à vida, elas vagariam sem memórias, sem rumo. Iriam se alimentar de tristeza e o resultado seria nada. Sendo assim, a minha escolha sempre será Luke. Não tenho certeza do que sinto por ele agora, mas eu sei que é intenso e sei que estamos pré-destinados a ficar juntos. Ele é um em seis bilhões. E eu não posso deixar ele me escapar assim. Minha conclusão final? Luke é a minha primeira, segunda, terceira e última opção.
Então, meus pensamentos foram interrompidos por uma dor incessante nas minhas costas. Um homem de meia-idade, calvo e magro, que usava uns óculos quadrados com uma barba enorme – eu estaria rindo se não estivesse sentindo uma dor tão absurda –, tentando acalmar a multidão, mesmo ajoelhado e me chacoalhando como uma boneca. Ele disse:
– Garota, você está bem? Já chamaram a ambulância! Estão vindo lhe socorrer em breve.
Me dei conta do quanto minha garganta estava seca mas quando fui pedir água, minha voz não saiu. Engoli em seco e repeti:
– Á... gua. Pre... ciso de água.
– Oh sim, claro! – o homem virou o rosto para a multidão – Água! Andem, alguém tem água?!
Uma mulher por volta de seus trinta e poucos anos, de cabelos escuros e curtos e lhe entregou uma garrafinha de plástica e o homem calvo agradeceu.
– Aqui, tome.
Assenti com a cabeça de forma agradecida e bebi a água. Senti a garganta queimar por conta da minha ansiedade. Mas ao mesmo tempo me rejuvenesceu. É como se Kat soubesse que eu estava em apuros. É como se ela estivesse abençoando seu Elemento. A agradeci mentalmente, pois as dores cessaram, embora os machucados continuassem ali. Esvaziei a garrafa e a soltei no chão quente.
– Qual é o seu nome garota?
– Fayel Lynch.
– Onde estão seus pais?
– Eu sou órfã. – o olhei com piedade transbordando dos meus olhos – Dos dois pais.
– Oh, meus pêsames. – ele parecia sincero – Tem parentes por aqui?
– Eu moro em Londres, vim aqui pra encontrar alguém.
Ele parecia perdido. Estava mais do que claro que ele queria me ajudar. Mas eu não quero esse tipo de ajuda. Eu só quero terminar a minha missão na Terra com todos os membros do corpo em seus devidos lugares. Mas do jeito que as coisas tem ido desde que descobri que sou um Elemento, duvido que eu um dia chegue a completá-la...
Então o som da ambulância soou quase milagroso nos meus ouvidos. Eu mal conseguia me mexer, mal conseguia falar. Quando finalmente abriram espaço para os médicos, eu sorri fraco. Dentes sujos de sangue e uma mandíbula completamente dolorida. Eles me pegaram de uma vez para me por na maca e eu gritei de dor. Eles pediram perdão e me levaram para dentro do transporte. Colocaram vários aparelhos sobre mim enquanto eu soluçava de tanto chorar. Mesmo depois de tanto tempo relutando em ficar consciente e acordada, eu finalmente caio no sono. Graças a Deus não tive pesadelos.
Quando eu acordei, estava num quarto branco com duas enfermeiras, uma ajustando um aparelho no meu nariz e outra anotando alguma coisa. Quando uma delas percebeu que eu estava acordada, falou:
– Olá. Meu nome é Cindy. Está se sentindo melhor?
Cindy tinha os cabelos ruivos presos num coque, escondidos num chapeuzinho engraçado. A boca era fina e vermelha, tinha um nariz reto e fino. Os olhos eram redondos e médios, da cor castanho claro. Era bonita.
– Dói menos. Eu... Não consigo respirar muito bem... – pus a mão no meu estômago e senti um tecido duro.
– Enfaixamos você. Suas costas eram carne viva.
A outra mulher, que não parava de anotar em sua palheta, me olhou e disse:
– Oh, eu não me apresentei. Mil perdões, senhorita. Meu nome é Alana. – Alana sorriu docemente para mim.
Ela tinha enormes olhos verdes claros, nariz fino e empinado e uma boca fina e rosa. Seus cabelos eram encaracolados e tinha uma cor louro-mel e estavam presos de lado, onde podia notar seus cachos caindo suavemente sobre seu ombro. Era alta e magra, tão bonita que devia ser modelo.
– Ah, prazer. Eu posso ter alta quando?
Alana deu uma risadinha.
– Pelo seu estado, eu diria que daqui a um mês. – arregalei os olhos – Com muita sorte, daqui a duas semanas.
– Ah não! Como eu posso completar a missão assim? – pensei alto. Cindy virou o rosto para mim, curiosa. Arqueou as sobrancelhas e apertou a boca.
– O que disse?
– Nada. Ainda devo estar meio grogue.
Cindy olhou para Alana que sorriu compreensível. Acenou com a cabeça e Cindy disse:
– Você tem visitas, a propósito.
– Visita?
– Sim. Uma garota esquisita de cabelo colorido. O nome dela é... – Cindy tentou se lembrar do nome da garota então Alana respondeu:
– Katherine Warm.
– Woods. – respondi.
– Sim! – Alana e Cindy exclamaram ao mesmo tempo.
– Podem chamá-la? Preciso falar algo com ela.
– Ah, claro. – Alana saiu e Cindy continuou lá, ajustando os aparelhos.
A olhei atentamente. Deixei escapar uma pergunta:
– Todas as enfermeiras nessa cidade são bonitas assim como você e Alana?
Cindy riu docemente.
– Oh, obrigada! Na verdade, Alana e eu somos primas e não somos daqui. Viemos do Canadá. Quando chegamos aqui disseram que iriam arrumar uma boa gravadora para nós... Nosso sonho é ser cantora! Queríamos que, no futuro, fizéssemos parte de uma girlband e talvez namorar algum dos garotos do McFly! – ela deu uma risadinha e seus olhos brilharam esperançosos.
– E estão há quanto tempo aqui?
– Três anos... Já conseguimos superar. Não vamos conseguir realizar nosso sonho, afinal dois dos garotos do McFly já se casaram...
Fiquei com vontade de rir, mas não pude. Tudo bem que os garotos são lindos e tudo mais... Só que casar com um deles era um sonho distante.
Então a porta é aberta e vejo Kat com uma cara de poucos amigos esperando pra ir falar comigo.
– Entra.
– Que saco. Eu não posso dormir um minuto que você já dorme no trânsito de scooter e fica assim... Toda feia.
– Eu já sou feia.
Kat deu uma risada estrondosa e entrou.
– Com esses olhos enormes e essas sardas eu não diria isso.
Apontei pra o sofá que tinha do lado da cama e ela sentou.
– Explique-se. – ponderou ela, com os braços cruzados.
– Acabamos de nos conhecer, não lhe devo satisfações. – virei o rosto pra frente e fechei os olhos.
Ela deu um suspiro.
– Eu sei que você teve uma visão. De novo, explique-se.
Contei o que eu tinha visto e Kat me olhou com os olhos verdes-mar arregalados. Eu já disse que criei uma obsessão por aqueles olhos exageradamente maquiados?
– Mas... Você não vai deixar de salvar seus pais não é?
– Não tem como eu considerar isso como uma opção. Mortos não podem voltar à vida.
Quando me dei conta de que sabia pouca coisa sobre Kat, perguntei:
– Mas me fale sobre você.
– Eu?
– É, sua vida. Infância, adolescência e... Eu descubro o seu fim.
– Oh. Então... Minha madrasta é atriz. Nunca tá em casa. E meu pai é o empresário dela, então eu os vejo raramente. Fui criada praticamente pela empregada. Eu nunca tive muitos amigos na escola, então eu tentava chamar atenção cortando o cabelo ou me machucando no meio da aula. Por conta disso, acabei ganhando o apelido de “Kat-louca”, é esquisito. Meio bobo, mas quando as pessoas começam a escrever isso no seu armário constantemente, deixa de ser infantilidade. Eu tive anorexia dos meus 12 aos 14 anos. Fui parar no hospital diversas vezes até que consegui me recuperar. Aos 15 comecei a ficar bonita. Chamava atenção por conta dos olhos e da minha boca, eu aproveitei essa época ao máximo até que você apareceu e eu sumi. Criei um ódio secreto por você até que você foi embora da cidade eu estive com ele... Mas o resto você já sabe. Satisfeita?
Olhei nos fundo de seus olhos, vasculhando informações. Havia mais alguma coisa e ela não queria me contar.
– Qual é sua missão na Terra?
A expressão de Kat endureceu.
– Nenhuma.
Peguei na mão de Kat e olhei nos seus olhos dizendo:
– Se você não quer me contar, – ela arregalou os olhos, espantada, e tentou inutilmente tirar sua mão da minha – então eu vou ter que descobrir.
Foi assim que eu viajei numa praia vazia e aberta, com um mar à frente, lindo. Avancei contra minha vontade para uma grande rocha e me olhei no reflexo da água. Eu havia incorporado Kat.
Uma luz branca surgiu das águas cristalinas formando um corpo feminino. Seu vestido era longo e apertado contra o corpo e estava em constante movimento, como marés. Sua pele era transparente, porém visível, como água de um rio. Seus cabelos ondulavam e respigavam no meu – rosto da Kat – rosto. As feições eram completamente familiares. Hercília, pensei.
A Rainha sorriu gentilmente e disse com sua voz aveludada:
– Olá, minha jovem guerreira.
– Quem diabos é você?
– Rainha Hercília, sua mãe.
– Minha mãe?
– Sim, minha querida. Eu sou dona dos cin... Quatro Elementos da natureza.
– Hm. Eu estou sonhando?
– Não mesmo. Sei que é difícil de acreditar, mas você controla a água não é mesmo? Deve ter um motivo para que você faça isso.
– E o motivo é...?
– Eu. Eu lhe trouxe ao mundo para lutar por mim. Mas, terá uma missão na Terra.
– Missão?
– Claro. Não há como você viver em harmonia com os astros se você não tiver uma coisa a oferecê-los.
– Mas... Você é minha mãe, não podia me poupar disso? – alguma coisa na voz de Kat me dizia que ela ainda não acreditava no fato da Rainha Hercília ser sua mãe, mas a ideia era melhor do que ter dois pais que não lhe davam a mínima.
– Não, querida. Infelizmente, eu não posso.
– Oh.
Kat brincou com a água um instante e então disse:
– Qual é a minha missão, enfim?
– É bem simples, na verdade.
– Bom.
– Há uma líder e uma guerra terrível. Um amor, perdido contra o tempo. Há traição e uma morte. Um Tratado de Paz e Ruínas.
– Eu não consigo entender, eu...
– Você entenderá com o tempo, minha jovem. – e a imagem da Rainha desmanchou no mar.
Quando eu voltei, Kat havia largado a minha mão e fechou os olhos. Me vi pelo reflexo da janela e eu estava pálida, os olhos sem cor.
– Eu entendi sua missão.
– Fayel. – a olhei, atônita – Eu não havia entendido a missão por muito tempo. Mas, quando você me apareceu falando da tal guerra eu tentei realizar a missão e trazer Lupin de volta, tentando te afogar com o meu Elemento, mas... Você é mais poderosa do que eu pensei.
– Kat, o amor que a Rainha mencionara, não é Lupin.
– O quê? Claro que é!
Neguei com a cabeça.
– Você e esse tal garoto se amaram por muitas vidas e ainda estão tentando se encontrar. Eu tenho uma certeza agonizante de que vamos encontrá-lo em breve e que eu vou me dar muito mal quando encontrarmos ele.
A olhei com tristeza.
“Há uma líder e uma guerra terrível” a líder seria eu e a guerra está para acontecer. “Um amor, perdido contra o tempo” o verdadeiro amor de Kat. “Há traição e uma morte” e isso ecoava na minha cabeça... Kat irá me trair para salvar o seu amor? Matando-me? Me recuso a pensar dessa forma.
– Não vou lhe matar, se é isso que te aflige.
– Obrigada. Não quero morrer jovem. – bem, na verdade, eu queria antes de conhecer o meu futuro.
Houve uma pequena pausa desconfortável, então Kat anunciou:
– Falei com os médicos e você recebe alta daqui a uma semana.
– Uma semana?! Eu vou perder temp...
Ela revirou os olhos.
– Tempo? Você é dona do tempo.
– Então... Topa viajar uma semana no tempo comigo?
– Agora.
– Segura a minha mão e não a solte em hipótese alguma. Caso faça isso, você se perderá no infinito e morrerá. Eu nunca mais te acho e nem você me acha.
– Certo.
Ela secou as mãos úmidas e eu as minhas então apertamos as mãos. Concentrei-me e então estávamos vivendo o futuro.
Tudo estava em preto e branco, as cores sobrepondo-se em azul e vermelho. Lindo e confuso. Kat sorriu então olhou pra mim, deu um grito abafado e quase soltou minha mão, mas eu a apertei.
– Seus olhos também estão assim.
– Meus olhos também ficam todo azuis ou...?
– Você fica normal.
– Ah. – ela soltou em um ar desapontado.
Caminhei com ela até sua casa. Era longe, mas foi ficando mais rápido, nossos passos ficaram mais longos, maiores até que chegamos a sua casa. Abrimos a porta e nos vimos dormindo uma cima da outra no sofá, como um efeito dominó, de mãos dadas. Sentamos-nos naquele sofá e falei:
– Pronta pra acordar exausta?
Quando eu me levantei, ouvi o corpo de Kat desabando no chão. A arrastei de volta pra o sofá e trouxe uma coberta, apoiei sua cabeça nas almofadas e fiz um chá pra esperar o tempo passar. Passei a mão em volta do tronco à procura das minhas ataduras, mas não havia nada, só estava um pouco dolorido e cicatrizado. “É, tá feio”, pensei. “O que Luke vai achar disso?”.
Ah, chega de pensar nele. Ele deve estar bem... Bem mal, eu acho. O que era aquilo em seu peito? Agora que me dou conta de que é a primeira vez em que tenho tempo pra pensar no que está acontecendo. Eu saí de Londres há apenas 8 dias (2 se contar a viagem do tempo como algumas horas), já encontrei o Elemento da água, dormi no transito devido a uma visão, fui pra um hospital, conheci enfermeiras loucas, viajei no tempo e agora estou sentada no banco da cozinha da casa da Kat enquanto bebo chá de camomila e ouço Green Day nos meus fones de ouvidos. A letra da música diz: “O tempo te agarra pelo pulso e te diz aonde ir”, eu quem o diga. Eu quem o diga...
Vejo Kat se mexer, sonolenta. Espero ela acordar, mas ela apenas ronca. Sinto pena dela. Ela foi muito iludida na vida... Pelos pais, amigos e seu amor. Que amor chinfrim. Pensei que ela fosse esperta. Na verdade eu a acho louca e mesquinha. Olha esse apartamento! Até o tampo da privada é rosa. Ela é uma daquelas patricinhas frustradas na vida, então tentam pagar uma punk pintando o cabelo e sendo vulgar. Eu a encontrei só de sutiã de renda e short curto. Preciso falar que Kat tem a sensualidade brasileira. E não é pra todo mundo não. Aquele cabelo dá seu toque de rebeldia, mesmo eu sabendo que de rebelde ela não tem nada. Sua boca apoiava aquele cigarro, fazendo-a parecer irresponsável. A conheço tempo suficiente para saber que ela nunca deixaria um trabalho por fazer. Será fácil treiná-la pra lutar... Assim que eu conseguir. Fiz um lembrete na minha cabeça dizendo para treiná-la assim que acordar e estiver mais disposta. Ou seja, quando eu manipular a mente dela tempo o suficiente para fazê-la ficar realmente disposta.
Mas o que me preocupa mesmo é o fim da missão. O que acontece depois que eu a cumpro? Eu vivo minha vida em paz com ou sem meus poderes? Não, eu ainda tenho que matar Hercília, mas se eu o fizer eu me torno a nova Rainha dos Elementos. Por que tudo gira em torno de caos e destruição? Por que o mundo é movido a corações partidos? Por quê? Por que a minha vida depende da morte das outras pessoas? Eu não merecia isso. Deus, se Tu se existes, não deixais que minha vida acabe por isso. Eu só tenho dezessete anos, eu quero uma vida normal. Tenho medo, insegurança e vontade de fugir dessa missão, dessa vida. Como eu posso salvar Luke se sua doença é incurável? Eu preciso de mais pistas, Deus. Eu preciso salvá-lo, eu... Eu acho que estou apaixonada. Não estou apaixonada só pela noite na praia, não estou apaixonada só pelo bilhete escondido no meio da aula, não estou apaixonada só pela mensagem de texto, eu estou apaixonada por inteiro. Cada pedacinho dele, tudo aquilo que faz dele quem ele é. Eu quase não durmo à noite, eu espero as notícias dele. Eu preciso de uma luz. Preciso de alguém que guie minha alma. Seria ele, Deus? Você o trouxe pra mim? Para eu ficar mais segura? Eu preciso de alguém pra conversar, diálogos comigo mesma não tem fim. Eu preciso que meu Deus me ajude. Deus me traga paz, me traga alegria, me traga amor, me traga ele. Eu sinto esse vazio no peito não é de hoje. Esse vazio vem de dois anos atrás. Dois anos atrás eu era feliz. Dois anos depois eu mudei. Dois anos mais a frente eu não sei quem serei. Eu não sei se quero saber, na verdade. Eu posso escolher, é verdade. Mas quanto mais eu puder evitar, eu evito. Tudo sobre o meu futuro é uma mentira. Tudo névoa, não foi nada que eu vi. Sempre fora a Rainha, me manipulando. Ela não é nada, mas uma grande mentirosa. E mesmo sabendo que é tudo mentira, ainda insisto em ficar confusa. Eu não devia me sentir assim, eu mereço felicidade. Eu lutei pra sobreviver até aqui, eu não vou deixar aquela Rainha me maltratar nunca mais. Eu não sei se um dia vou ser a mesma que eu fui dois anos antes. Serei? Não acho que vou. Quem assumiria a culpa? Mas eu vou correr atrás de quem fez isso com os meus pais, eu vou. Se eu não posso trazê-los de volta, talvez eu possa pelo menos... Vingá-los. Não é algo que eu faria, não é algo que eles queriam que eu fizesse.
Depois de muito tempo perdida em meus pensamentos, vejo Kat se mexendo, espreguiçando-se e finalmente dizendo a com a voz rouca:
– Olá. – e sorriu engraçado.
– Dormiu bem?
– Não muito. Assim que saí da nossa viagem tive um sonho estranho.
– Que sonho? – me inclinei pra frente, intrigada.
– Não me sinto confortável te contando...
– É preciso. Eu posso aprofundar o seu sonho e descobrir o que quer dizer. Eu só quero te ajudar.
– Sei disso. – ela suspirou – Tinha uma floresta. Estava claro e úmido, embora a temperatura estivesse alta... Era um acampamento de poucas pessoas. Tinha casinhas de madeira que formam um círculo ao redor de um campo com armas... Eram chalés e um campo de treinamento muito adorável. Eu estava pegando uma espada e então você chega com uma aljava de flechas e grita “Ei, pega isso aqui” e jogava as coisas em cima de mim. Segurei a aljava e...
– E o quê?
– Eu não consigo mais me lembrar. – ela levantou os olhos e me encarou com medo – Pode aprofundar se quiser.
Levantei-me e fui até ela e toquei sua mão, olhando em seus olhos.
Estávamos neste acampamento que Kat descreveu. Dessa vez eu não estava incorporada na Kat, na verdade eu estava parada olhando tudo. Kat foi pegar a espada quando eu chego de preto com uma aljava de flechas e um arco.
– Ei, pega isso aqui. – e arremessei a aljava pra ela, Kat pega as flechas com um reflexo incrível – Quero você treinando como uma caçadora hoje.
– Não posso ser uma caçadora com espada?
– Não. – caminhei até um alvo gigante que tinha a uns dez metros de distancia de Kat e apontei pra ele – Quero ver você acertando nesse pontinho preto aqui.
– Que ponto preto?
Peguei um pincel preto e marquei um pontinho dentro da bola vermelha.
– Esse.
– Mal dá pra vê-lo!
– Você tem uma boa visão.
E então saio. Kat suspira e pega o arco, praguejando. Pôs a flecha no arco e se preparou para soltar. Mirou bem e quando finalmente está indo soltar, eu apareço magicamente atrás dela e grito, fazendo-a errar.
– Ah! Por que você fez isso, Fayel?!
– Eu quero você preparada. Se na hora da guerra você não estiver com uma espada e só tiver um arco para lutar, seu desempenho seria terrível.
Kat grunhiu. Ouço um barulho vindo dos arbustos e então aparece um garoto por volta de seus dezoito anos, alto e musculoso. Cabelos loiros e olhos castanhos da cor da terra fresca. Tinha traços gregos, tão bonito que podia ser chamado de Narciso. Seu cabelo era cacheado e levemente virado pro lado. O garoto sorriu e quando ele sorriu, eu quase perdi meu fôlego. Ele vinha se aproximando e falou comigo:
– Como vai o treinamento da figura?
– Começou agora. E você? Ainda não te vi lançando aquelas lanças na floresta.
Kat deu uma risada estrondosa quando a flecha caiu na área vermelha, mas não no pontinho preto.
– Consegui!
– Não está no pontinho preto. E a cada erro, são 10 flexões. – Kat sorriu como se entendesse que aquilo fora uma piada – Anda! Eu não estou pra brincadeira hoje, 10 flexões, anda!
Kat caiu no chão instantaneamente e começou as dez flexões.
– Devagar, não quero ver você arfando até as sete horas! E esteja craque no arco e flecha.
– Tá de brincadeira né? Sete horas é o jantar.
– Não quero saber! E caso tente me enganar, lembre-se de que meu elemento é o tempo e eu posso estar te vigiando agora mesmo sem você saber.
O garoto louro pegou uma lança e atirou na floresta. Virei-me para ele e falei:
– Vou conferir onde ela foi parar. Se não estiver no alvo, já sabe.
Ele engoliu seco e esperou. Quando saí ouvi Kat dizendo:
– Sei o que ela está tentando fazer, Cory.
– O que? O que ela tá tentando fazer?
– Ela tá tentando descontar a raiva na gente. Como ela não pode jogar tudo no seu Elemento, pois não há absolutamente NADA a se fazer com ele.
– Hm...
– Ela bem queria ser um de nós. Por exemplo, quando estou exaltada eu posso causar um tsunami. Ou você pode fazer crescer uma árvore de 400 anos ou mais em questão de segundos, a Lily pode fazer um furacão. E ela? Nada. Pode parar o tempo. Mas o que dá pra fazer com o tempo parado? Socar as pessoas e só. E isso não é tão legal quanto um tsunami.
– Verdade... Olha, lá vem ela com a lança.
Cheguei furiosa perto deles e cravei a lança no chão.
– Querem falar de mim? Ótimo! Mas fale olhando pra mim! – Kat que já estava de pé recebera outra ordem para mais dez flexões.
Então saí bufando e soluçando.
E é aí que eu acordo. A primeira coisa que eu digo a Kat é um “Uau”.
– O que foi?
– Não é a toa que eu fui a escolhida pra liderar essa missão.
Kat deu um sorrisinho.
– É... Deve ser. – ela mudou seu tom de voz – Então, o que era?
– Eu estava treinando você e um garoto absurdamente lindo.
– Luke?
A olhei pasma.
– Como você sabe?
– Ah, qual é. Além de você sussurrar o nome dele enquanto dorme, eu sei do quanto ele gostou de você. Ou gosta.
– Ama.
– Oi?
– Ele me ama.
Kat sorriu, suspirou e levantou.
– Eu preciso... Preciso ver uma roupa. Parece que temos uma viagem longa pela frente.
– Claro, te espero aqui.
– Sim... É.
Ela parecia cabisbaixa. Esperei uns 20 minutos quando Kat apareceu com uma mala de mão cor-de-rosa da Hello Kitty cheia de sacolas. Os cabelos coloridos de Kat estavam molhados, fazendo-a parecer uma tempestade colorida do mundo mágico dos unicórnios. Quando eu era criança devo ter assistido algo parecido com isso. Kat usava uma bata rosa claro, um blazer pérola, legging preta e um salto alto lanboutine. Usava um chapeuzinho preto engraçado na cabeça e estava passando um batom vermelho nos lábios quando ela virou e falou:
– Vamos?
– Kat, estamos indo montar um exército. Não um desfile de moda.
– Quer que eu troque de roupa?
– Não! Você vai demorar mais e minhas roupas ainda devem estar no hotel. Só se segura bem na minha Scooter.
– Scooter?
– Eu acho que tenho espaço pra a mala.
Kat parou em frente a minha Scooter e eu perguntei:
– O que? Não gostou da cor? Azul é a sua cara. – e dei uma risada.
– Não é isso! Como vamos fazer uma viagem com essa moto?
– Eu não sei bem ainda... Posso alugar rum carro ou... – Kat me interrompeu.
– Alugar?! Vamos passar meses fora! Você quer alugar um carro? Oh não, eu não tenho dinheiro pra isso.
Cocei a cabeça, nervosa.
– Me dá essa mala e cala a boca. Eu penso num jeito depois.
Levantei o assento comprido do veículo e calculei o espaço. Joguei a mala lá dentro, e como num passe de mágica, coube! Realmente coube. Fechei o assento e me sentei. A encarei esperando uma resposta.
– Vem logo!
– Ah. – Kat sentou atrás de mim, com os braços entrelaçados na minha cintura.
Liguei o veículo e disparei na rua deserta.
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