Dando Uma Chace Para O Amor
1 Capítulo 1: Espelho - Agora.
New York — Apartamento da Sam.
Agora.
Nunca acreditara em paixão e no amor, esse descrédito talvez se devesse ao fato do casamento de seus pais não ter dado certo, isso sempre a marcou, mas fosse qual fosse o motivo, para ela a paixão sempre fora uma questão de química na sua forma mais literal: um estado fisiológico temporário, uma combinação de varias substâncias, como a endorfina e estrógeno, com áreas cerebrais ativadas. Paixão não existia.
Pela primeira vez admitiu que estava errada.
Enterrou o rosto cheio de lagrimas o mais forte que podia no travesseiro, dando gritos abafados, deixando tudo o que ela continha com tanta resistência transparecer. Ela não saberia dizer com exatidão se os gritos que dava eram de raiva, frustração ou os dois juntos, e muito menos era capaz de saber com clareza qual sentimento mais predominava – a raiva, o ódio, a tristeza, a decepção consigo mesma ou a culpa – os sentimentos, assim como os motivos dos gritos, eram tantos que, quando menos percebeu, mesclaram-se.
Cansada de gritar, ou simplesmente cansada de tudo aquilo, parou de pressionar o travesseiro ao rosto, levantou-se e fez o que ela sempre fazia em momentos difíceis.
Olhou-se no espelho.
Samantha Puckett não era uma mulher particularmente vaidosa, olhar-se no espelho em momentos como aquele era um dos poucos bons hábitos que pegara de seu pai. Lembrou-se da frase que seu pai sempre dizia a ela: “O espelho, Sammy, não reflete apenas o seu exterior, ele mostra quem você é, quem você escolheu ser. Quando você estiver em um momento ruim, com duvidas sobre quem você é ou sobre quem você quer escolher ser olhe-se no espelho, ele lhe mostrará a resposta”. Fez uma careta ao observar seu reflexo no grande espelho vitoriano cheio de papeis coláveis bilhetes coloridos inundados com frases que a marcaram.
Aquela não era ela.
Rosto inchado, olhos azuis avermelhados e cheio de olheiras, cabelo oleoso e vestindo o moletom velho e confortável. Aquela mulher digna de pena que encarava no espelho não podia ser ela.
Simplesmente não podia ser. Seria deprimente demais. Era deprimente demais.
Ignorando a repulsa por sua recém aparência decadente limpou as lagrimas do rosto alvo e leu alguns dos papeis colados no espelho.
“O importante não é quem você foi, mas quem você escolhe ser”.
“Nunca deixe ninguém dizer que você não pode fazer algo”.
“As pessoas vivem tanto em torno do presente e do passado que freqüentemente esquecem-se do mais importante, o presente”.
“O passado já foi, o futuro é um mistério, o presente uma dádiva”.
“Os seus julgamentos mostram o que você quer e o que não quer ser”.
Os lábios carnudos e vermelhos formaram um pequeno sorriso que mais se assemelhou a uma careta. Ela já sabia o que fazer. Ela já sabia quem queria ser. Não tinha certeza absoluta de que era o certo a fazer, só o tempo diria, mas ela sabia que tinha que fazer, não ficaria bem consigo mesma se não o fizesse, e era o que bastava.
Respirou fundo, pegou uma toalha e um roupão, entrou no boxe, se tinha que agir era melhor o fazer depois de um banho relaxante.
Foi então, ao entrar no boxe, que as lembranças daquele mês inundaram sua mente, como se tivesse tomando um soco.
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