Dancing Souls - Almas que Dançam
10 Pool² - The one that I want
Notas iniciais
— O quê? Vamos treinar para fazer nado sincronizado? Por um acaso foi ideia da minha mãe? Olha, dessa vez ela se superou, hein? Só não sei como vão colocar uma piscina dentro do salão, porque tipo, não é como se tivesse...
— Amália! – Caleb interrompe meus questionamentos. E é claro que eles não têm nada a ver com a proximidade entre nós. Nem com o cheiro maravilhoso que ele emana mesmo dentro da água. Não, definitivamente não.
— O quê? – abraço meu corpo arrepiado de frio e olho para ele.
— Não vamos fazer nado sincronizado. Lembra na nossa segunda aula que eu disse para você se imaginar dentro da água? – ele abre os braços num gesto que abrange toda a piscina. – Pois então... agora temos uma piscina de verdade.
— Pra que isso? Achei que você tinha dito que eu estou “finalmente conseguindo me soltar”. – ele arqueia a sobrancelha com a menção exata de suas palavras.
— Não quer dizer que tenha conseguido. – ele dá um sorriso de escárnio e eu abro a boca indignada. – Olha só, na água, seus movimentos parecem ter mais leveza, mas você tem que fazer mais esforço para eles ficarem perfeitos.
— E como você vai saber que eles estão “perfeitos”? – ele sorri sem mostrar os dentes e afunda na água, e eu fico esperando sem entender nada. Depois de uns dez segundos (o que pareceu uma eternidade, porque eu fico com muita agonia quando as pessoas ficam debaixo d’água e aquelas bolinhas de ar não sobem), ele volta para a superfície e fica me encarando.
— O que foi? O que aconteceu? – eu falei com um tom meio desesperado, estava ficando estranho essa situação.
— Você tem um sinal de nascença em formato de coração na coxa. – ele sorri de um jeito tão bonito que eu até me esqueço que ele está falando da minha coxa. – Eu vou ver se você está fazendo direito, não se preocupe. – ele continua a me analisar e franze o cenho. – Está com frio? – eu aperto mais meus braços.
— Um pouco.
— Vou começar igual a outra aula, pode ser? Eu digo, controlando seus movimentos. Talvez te esquente, já que eu não estou sentindo frio.
— É, pode ser.
— Vamos? – ele me estende a mão. Eu não devia aceitar, nós não temos uma relação exatamente boa para isso, mas no momento não me importo nem um pouco, então aceito sua mão, grande, macia e imponente, como quase tudo que emana dele. Ele me guia até o centro da piscina, e me posiciona de costas para ele. Não estamos nos tocando, mas posso sentir o calor de sua pele descoberta e isso imediatamente me deixa mais confortável, me esquecendo completamente do frio. – Lembra do que eu te ensinei na aula passada?
— Lembro.
— Tudo bem, vamos fazer de novo. – ele começa a refazer todos os movimentos da aula passada, mas, por algum motivo que eu não sei qual, eu me sinto nervosa e Caleb parece perceber isso, já que para de se movimentar e, consequentemente, eu paro junto.
— Você precisa relaxar. – ele diz quando me vira para ficar cara a cara com ele. – O que está acontecendo?
— O que? Não, não está acontecendo nada!
— Está na defensiva.
— Não, não estou!
— Claro que não... Negar que está na defensiva só prova o contrário, Amália! – eu não respondo e ficamos alguns segundos em silêncio. – Já sei o que pode te fazer relaxar! – ele diz com um entusiasmo inédito.
— E o que é?
— Boiar!
— Boiar do tipo aqui e agora? Na piscina?
— E tem outro jeito?
— Não, é que... Bom... Eu meio que não sei boiar... Nem nadar. – solto uma risada nervosa. Por que exatamente eu disse isso para ele? Pode parecer bobagem, mas eu sinto vergonha de não saber. Todo mundo sabe nadar! Mas pelo jeito, eu sou uma exceção à regra. Não gosto de me sentir julgada por isso, principalmente porque o principal argumento das pessoas é “Mas você tem piscina em casa!”. E eu tenho certeza que isso é o que Caleb vai falar, porque é exatamente esse tipo de coisa que ele faz.
— Tudo bem, eu te ensino. – eu franzo o cenho, estranhando e ele sorri de um jeito encantador. Ele precisa parar de sorrir desse jeito, porque, que ele nunca saiba disso, eu me desarmo totalmente, deve ser por isso que ele está segurando na minha nuca nesse momento.
“Deita, eu te seguro. ”
Olho para ele meio desconfiada e ele faz um sinal com a cabeça em direção à água, me incentivando a fazer o que ele disse, bufo e começo a me inclinar de costas bem devagar, quase parando, e tenho certeza que ele está segurando bem forte em sua paciência, porque se fosse eu em seu lugar eu já teria desistido.
Sinto a água bater no restante das minhas costas, mas as pontas dos meus dedos dos pés ainda estão tocando o chão da piscina, pois não me sinto confiante em tirá-los de lá. Caleb me olha em questionamento, mas mesmo assim não me movo, então ele revira os olhos e, num movimento rápido demais para eu reagir, segura em minhas pernas e me levanta no colo.
Desesperada, fecho os olhos e me agarro com força em seu pescoço, enterrando meu rosto nele. Se eu morrer, ele morre junto, porque eu não solto.
— Amália... – ele diz num tom de súplica e eu o aperto ainda mais. Seus braços são tão confortáveis e quentes, eu me sinto protegida neles. – Amália, eu não vou te soltar, não se preocupa. – não mexo um músculo. – Ei, olha pra mim. – volto meu rosto para ele e encontro aqueles olhos lindos e brilhantes muito próximos. – Está tudo bem, não precisa ficar assim, eu não vou te soltar até você dizer que eu devo.
— Promete?
— Prometo. – dizendo isso eu estendo meu dedo mindinho para ele e ele dá risada. Não me julgue! Promessa de dedinho é muito séria e vale mais que contratos assinados.
Tudo bem... Talvez, mas só talvez, eu seja um pouco infantil.
Ao contrário das minhas expectativas, ele não debocha e envolve meu dedinho com o seu, selando nosso acordo. Começo pouco a pouco a afrouxar meu aperto e ele começa a fazer com que meu corpo fique ereto horizontalmente na água, me fazendo boiar.
— Pode deitar a cabeça na água. Pode parecer, mas a água não vai entrar no ouvido. – ele dá mais um de seus sorrisos encantadores, na verdade, acho que todos seus sorrisos são encantadores, mas isso não vem ao caso. Enfim, faço o que ele diz, porque se está na água é pra se molhar, não é?
Certo, isso é muito relaxante. Já perdi a conta de quanto tempo estamos assim, provavelmente mais do que o meu relógio biológico consegue cronometrar, e ele não me soltou nenhuma vez. Nem sequer pareceu impaciente, o que seria de se esperar.
Ele me carrega enquanto anda suavemente pela piscina. Começo a ficar sonolenta com a sensação maravilhosa. Não consigo ficar de olhos abertos, então os fecho, deixando meus outros sentidos me levarem. Sentir meus dedos se movendo contra a água num contraste de temperaturas é muito bom. Estendo os braços e as pontas dos meus dedos ficam fora da água. Me sinto nas nuvens. Nas nuvens com Caleb, quem diria.
É tudo tão calmo e tranquilo, é como se problemas não existissem e o que importa é relaxar. Começo a ouvir uma melodia cantada. O som é abafado pela água, mas posso ouvir que é a voz de Caleb e ela é linda. Não no nível cantor profissional, mas não deixa de ser bonita. Grave e rouca, mas suave, se possível. Começo a querer dormir mais ainda, mas saio dos seus braços em um pulo quando reconheço a música e quase me afogo. Caleb se assusta e tenta me segurar mais forte, mas é tarde demais, já estou em pé o encarando.
— O que aconteceu? Você está bem? – ele diz preocupado e eu reprimo um sorriso.
— Estava cantando The one that I want? De Grease?
— Não achei que estava ouvindo...
— Eu adorei!
— Hum, obrigado?
— Não, não é isso! – ele me olha com um pouco de... Frustração? Mas qualquer que seja o sentimento expresso naquele olhar, ele logo disfarça – Bom... tem uma versão dessa música com a Gisele que eu acho simplesmente incrível... É daquele comercial da Chanel, sabe?, é simplesmente maravilhosa... Podemos dança-la?
— Acho que sei de qual está falando – abro meu sorriso mais animado.
— Então? Podemos? – ele pensa um pouco e depois sorri.
— Claro.
— Isso! – quando vejo, estou abraçando Caleb e, surpreendentemente, ele está me abraçando de volta.
Fale com o autor