Dancing Souls - Almas que Dançam
2 You came into my crazy world
Notas iniciais
— Querida, acorde... Temos que sair.
— O que? – pergunto sonolenta.
— Levante! Temos que sair agora cedo. – dito isso ela abre as cortinas da janela e eu resmungo.
— Mãe! – cubro minha cabeça com o cobertor. – Que horas são?
— São nove da manhã.
— Argh, ainda é madrugada! Me acorde quando for um horário decente. – ela não fala nada. Foi fácil assim? Ela simplesmente me deixou em paz? De repente sinto minhas cobertas serem bruscamente puxadas de cima de mim eu encolho com o ar gelado que passa pelo meu corpo.
— Só vou falar mais uma vez: levante-se e coloque uma roupa decente. É do seu interesse essa nossa saída. – Ela simplesmente sai do meu quarto me deixando no frio. Essa é a dona Lídia que eu conheço.
Suspiro alto me espreguiçando e saio da cama em direção ao banheiro. Faço uma careta ao me ver no espelho. As olheiras indesejáveis denunciam a minha madrugada assistindo séries no Netflix. Lavo o rosto, escovo os dentes e passo um pouco de corretivo ao redor dos olhos. Eu detesto maquiagem. Sinto que elas deixam o rosto sujo e parecem reboque, mas dessa vez era necessário. Volto para o quarto. Não vou tomar banho, sinto muito. Coloco uma roupa apresentável e desço para tomar café.
Minha mãe e meu pai já estão sentados à mesa, como sempre. Confesso que mamãe falar que a nossa saída é do meu interesse me deixou curiosa. Torço para que não seja nada do aniversário. Depois de ser acordada daquele jeito duvido que vou conseguir sorrir para qualquer coisa que ela me mostrar, mas ela está resolvendo todas as coisas praticamente sozinha, então não acho que seja isso. Eu espero que não seja isso.
— Bom dia, família! – tento soar animada.
— Bom dia, filha! – os dois disseram. Eu admiro muito meus pais. Mesmo depois de vinte anos de casados eles continuam apaixonados, os olhares que eles trocam são de puro amor. Acho que são alma gêmeas.
— Eu tenho uma surpresinha para você hoje, querida. – minha mãe soa animada demais e isso me assusta.
— Espero que seja uma surpresa boa. – sorrio.
— Depende de seu ponto de vista. – ela pisca para mim e eu franzo o cenho.
Termino de comer meu Froot Loops com leite e minha mãe me apressa para sair de casa. Despeço de meu pai e corro para o carro que já está ligado com minha mãe impaciente esperando dentro. Saímos pelo portão da frente em direção ao centro da cidade. Minha cidade é um lugar maravilhoso no interior do estado São Paulo. Pequena, poucas pessoas e tranquila, mas a desvantagem é que todo mundo sabe da vida de todo mundo. Ou seja, nada de privacidade.
Percebo que minha mãe está indo em direção ao salão que vai ser meu aniversário. Não, definitivamente não estou no humor de ver decoração, flores e etc, porque pra mim é um grande tanto faz. Quero que ela só me chame na hora que for para experimentar os bolos, doces e salgados, porque aí sim eu vou, com muito gosto. Se bem que ela falou que é do meu interesse, e isso é definitivamente do meu interesse.
Mamãe, eu te amo.
Ela me olha impaciente enquanto eu não desço do carro e percebo que fiquei pensando demais. Saio do mesmo muito mais animada, com meu estômago dando pulos de alegria com a possibilidade de experimentar aquelas comidas deliciosas (já esqueci faz tempo que comi uma tigela de cereal agora a pouco). Entro no salão e me decepciono. Não tem nada, nenhuma mesa, nenhum doce, nada. Só um cara que está virado para a janela, de costas para nós. Dá para perceber que ele está com os braços cruzados, o que só evidencia suas costas incrivelmente musculosas e bonitas. Ele usa uma jaqueta de couro preta e uma calça jeans larga e clara, com coturnos pretos. Bem estiloso, gostei.
— Caleb? – minha mãe chama e ele se vira e sorri.
Dizer que meu queixo caiu é eufemismo. Ele despencou. Mas eu me recompus rápido a ponto de ninguém perceber, eu acho. O cara é maravilhoso com todas as letras. O cabelo é de um castanho escuro, quase preto, preso num coque estilo samurai, mas bagunçado e a barba por fazer. A medida que ele se aproximava pude ver seus olhos castanhos esverdeados penetrantes, aqueles olhos profundos de tirar o fôlego de qualquer um. O nariz perfeitamente desenhado, a boca avermelhada, que percebi que ele passou a língua por ela enquanto caminhava, como uma mania, e o maxilar marcado. Realmente, maravilhoso.
Foi aí que minha ficha caiu.
— Tudo bem, mãe. Eu danço. – seus olhos se iluminaram e eu sorri – Com uma condição. O cara que eu for dançar tem que ser maravilhoso, lindo, um verdadeiro deus grego. Se você conseguir achar e se eu o aprovar, eu faço essa dança idiota. – ela me repreendeu com o olhar quando eu falei idiota.
— Por que exatamente você quer isso?
— Tenho meus motivos. – ela suspirou, mas sorriu.
— Então nós temos um trato, filha? – ela estendeu a mão e pareceu muito confiante pro meu gosto.
— Trato feito, mãe. – apertei sua mão.
Não... Ela não podia ter feito isso, podia? Eu fiz esse “contrato” há dois dias, como ela conseguiu um cara em dois dias? Eu achava que era praticamente impossível, mas parece que essa palavra não existe no vocabulário da minha mãe. Ela realmente quer que eu dance e essa determinação dela me assusta um pouco, imagina quando ela quiser que eu case.
O pior é que eu não posso dizer que não aprovo o cara, porque, nossa, eu aprovo sim, qualquer um aprovaria. Mas eu definitivamente não sei dançar. A última vez que eu tentei foi na minha formatura da oitava série e foi um desastre, e olha que eu estava dançando com meu pai. Chegou uma hora que nós dois caímos e todos começaram a rir da gente... foi terrível e eu ainda tenho pesadelos de noite com isso, minha mãe sabe e viu tudo, ela quer que eu passe por isso de novo? Na minha própria festa?
— Olá, prazer, meu nome é Caleb. – ele sorriu sedutoramente, pegou minha mão e a beijou e eu derreti por dentro.
— O nome dela é Amália. – minha mãe falou e eu percebi que não tinha falado até agora, meu rosto esquentou imediatamente.
— Mãe? – finalmente falo e ela olha para mim. – Posso falar com a senhora um pouquinho? – ela me olha curiosa, mas assente e vamos para um canto, deixando Caleb sozinho. – O que é isso?
— O que é o que?
— Isso tudo, esse cara...
— Querida, não se lembra? Há dois dias nós fizemos um trato, e eu cumpri.
— Claro que eu lembro, mãe, mas como a senhora disse, faz dois dias... como achou alguém em dois dias? – ela riu e passou a mão carinhosamente pelo meu rosto, como se estivesse falando com uma criança.
— Ah, meu amor... Até parece que não conhece a mamãe. – apertou minhas bochechas e eu afastei suas mãos. Por favor, temos um cara aqui.
— Não vou dançar.
— Por que? Sei que você o aprova, dá para ver em seus olhos e, sinceramente, quem não aprovaria? – revirei os olhos com esse momento tiete de minha mãe, apesar de eu ter pensado o mesmo agora há pouco.
— Não se lembra do que aconteceu na oitava série? Eu peguei trauma, mãe!
— Isso porque você estava dançando com seu pai e não tinha tido aula nenhuma, agora você vai ter três meses para aprender.
— Não!
— Vamos fazer o seguinte, eu tenho uns assuntos para resolver agora. Um ensaio. Um ensaio e se você não gostar... bom, a gente resolve depois. – eu sei que ela vai me obrigar a dançar então eu bufei.
— Um ensaio. – ela sorriu largamente e se dirigiu ao cara muito entretido com seu colar de plaquinha de identificação militar. Eu amo esses colares.
— Caleb, eu tenho que resolver umas coisinhas, então a Amália vai fazer um ensaio com você e daqui umas duas horas eu volto, pode ser?
— Claro, Senhora Altenburg.
Ela sorriu e se virou para mim dando um beijo em minha testa, depois saiu do salão.
— Então... foi você que pediu um deus grego? – ele diz irônico e eu sinto todo meu sangue concentrado em meu rosto. Como é que ele... mãe! Não era para ela ter falado isso para o cara! Era só para achar um e pronto. Agora ele deve achar que eu sou uma psicopata viciada em caras maravilhosos que dançam e que fica filmando escondido seus movimentos para depois juntá-los em um filme e postar no YouTube. Eu pelo menos acharia.
— Não é o que está pensando... – digo com uma risadinha nervosa.
— Tudo bem, estou acostumado com essas riquinhas mimadas exigentes. – ele diz e eu abro a boca indignada.
Como assim riquinha mimada exigente?
Eu devo ter externado meu pensamento porque ele começou a falar.
— Esse tipo de garota superficial que quer um cara bonito para fingir que está super apaixonada e fazer inveja para as amigas. – ele diz a última parte com uma voz afetada e eu o olho indignada (de novo).
Retiro todos os elogios que eu fiz para esse cara em pensamento. Ele é simplesmente um nojento. De onde ele tirou tudo isso? Só porque minha família tem dinheiro não quer dizer que eu seja superficial como ele diz.
— Você é um troglodita! Eu não sei de onde você tirou tudo isso, mas fique sabendo que se você julga uma pessoa dessa maneira sem ao menos a conhecer é porque você é realmente um babaca sem tamanho. Não tenho que ficar escutando esses seus insultos, minha mãe pode arranjar outro cara tão bom quanto você. Passar bem. – eu sigo em direção a porta me xingando por dentro por ter falado que o cara é bom. De repente sinto sua mão segurar a minha e me virar.
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