Dancing Souls - Almas que Dançam
11 I'm gonna give all my secrets away
Notas iniciais
Caleb
Amália aperta o pause do aparelho de som em cima da mesa e olha com expectativa para sua mãe, enquanto eu estou no canto do outro lado da sala.
— E então? O que achou? – ela diz e Dona Lídia respira fundo, abaixando a cabeça.
— A música é legal, querida, mas você não acha muita coisa?
— Como assim? – ela franze a testa.
— Quer dizer, você sabe que eu sou fã de Grease e tudo mais, mas não acha essa música um pouco... como posso dizer... Sensual? – ela parecia cautelosa.
— Não. Porque acha isso?
— Não sei, eu estava pensando em algo mais suave. Que tal aquela música bonita do High School Musical? A que você me mostrou, lembra?
— Eu não vou dançar High School Musical na minha festa de dezoito anos, mãe! – ela diz indignada.
— E porque não? É tão bonito. – se volta para mim. – Quer ver, Caleb? Vou procurar. – ela começa a digitar alguma coisa no seu notebook.
— Não, mãe, ele não quer ver! – Amália coloca a mão em cima da de sua mãe impedindo ela de digitar.
— Acho que quem decide isso é ele! – as duas olham para mim com expectativa, numa sincronia quase assustadora.
— Bom, acho que não tem problema...
— Muito bem. – Dona Lídia volta a digitar.
— Caleb! – Amália faz uma voz irritantemente estridente.
— O que foi? – me faço de desentendido.
— Foi você que deu a ideia de dançar aquela música! O que há com você?
— Nada, só acho que nós devemos estar abertos a novas opções. – seu olhar agora é de ódio, mas logo ela se recompõe e volta a falar com sua mãe.
— Estou dizendo, eu não vou dançar música de filme de colegial. – ela diz e eu dou risada, definitivamente não posso perder a oportunidade de irritá-la.
— Ah, mas que contraditório! Grease é sobre o que, mesmo? – ela esconde o rosto e bufa de raiva. Ponto.
— Que saco! Tudo bem, tudo bem. Não vou dançar uma música tema de filme de colegial da Disney do casalzinho mais colorido de East High.
— Isso é uma coisa que a Sharpay falaria.
— Já assistiu High School Musical?
— Eu era obrigado. – admito.
— Achei! – Dona Lídia diz com uma voz animada e Can I have this dance (eu também fui obrigado a decorar as músicas) começa a repercutir sobre o escritório.
— Para, mãe! Eu já disse que eu me recuso a dançar essa música. – sua mãe para a música com um movimento brusco e um tanto violento, o que faz Amália recuar um passo.
— Dá para parar Amália? Acha que eu não sei o quanto você não quer fazer essa festa? Toda essa má vontade de fazer tudo? De sair comigo para procurar as coisas? Será que não dá para você fazer uma coisa que eu quero que você faça? – sua voz vai aumentando a cada frase, tornando-a um quase grito.
— Será que não dá para eu fazer alguma coisa que você quer? Sério que você perguntou isso, mãe? Essa festa toda é porque você quer e do jeito que você quer! A decoração, flores, salão, vestido, convidados, tudo! E tudo que eu estou tentando fazer é te deixar feliz, realizar o seu sonho de ter uma festa desse tamanho, mas isso você não reconhece não é mesmo? A culpa não é minha que você não teve condições de ter uma festa assim, mas eu só estou pedindo uma música. Só uma, para deixar a sua festa mais minha.
— Amália... – sua mãe tenta segurar seu braço, mas ela sai do escritório andando rápido, sem olhar para trás.
— Sra. Altenburg, o setor de moda está com alguns problemas com as matérias de outono, poderia ver? – um funcionário entra no escritório.
— Claro, mas...
— Pode ir, Dona Lídia, eu vou atrás dela. – ofereço.
— Obrigada, Caleb. – ela diz num tom agradecido e eu corro para o elevador, mas decido ir pela escada quando vejo que ele vai demorar para chegar no andar.
Passo pelo luxuoso hall do edifício da revista e saio para o céu extremamente nublado, olho para os lados procurando por ela. Vejo o cabelo brilhante atravessando a rua e corro em sua direção, esbarrando com algumas pessoas naquela rua lotada. Começo a chamar seu nome e tenho certeza que ela ouve, mas a peste não olha para trás. Estou quase chegando perto dela, quando ela para bruscamente, parecendo ficar em choque olhando para um ponto fixo a sua frente.
Depois de alguns segundos ela parece voltar para a realidade, pois começa a olhar para os lados freneticamente, até que para no edifício ao seu lado e entra. Chego até onde ela estava antes e tento ver o que a deixou petrificada, mas tudo que eu vejo são mais pessoas e um casal se beijando com um vigor exagerado, e eu imediatamente repreendo na minha mente com nojo. Na minha opinião existe hora e lugar para fazer essas coisas e definitivamente não é no meio da rua. Eu já imagino que eles não têm química e fazem isso para esquentar a relação; ou ele é broxa, também tem essa opção. De qualquer jeito, é totalmente repugnante e infantil.
Afasto esses pensamentos e entro no prédio. Os problemas deles não me dizem respeito. Posso ver o elevador se fechando com Amália dentro e chamo por ela, corro e coloco a mão entre as portas, antes delas fecharem. Ela finalmente olha para mim e revira os olhos.
— Não passou pela sua cabeça que se eu quisesse falar com você eu teria te respondido nas primeiras cinco vezes que você me chamou?
— Não passou pela sua cabeça que eu nunca faço o que você quer que eu faça? – respondo um tanto sínico. Eu corri atrás dela, por favor! Eu não corro atrás de ninguém, nunca precisei.
— Sempre tem uma primeira vez... – ela responde como se estivesse lendo meus pensamentos e eu franzo o cenho.
— O que deu em você?
— O que?
— Você sair correndo do escritório da sua mãe. Parece que você foge toda vez que te confrontam, não consegue aguentar o tranco. – falo olhando para ela, que só olha de volta com um olhar indignado quando eu termino a frase.
— Eu saí para não falar mais besteiras, das quais eu possa me arrepender depois! – ela fala totalmente na defensiva.
— É? Pois eu acho que você foge com medo do que as pessoas possam falar para você. Fala sério, Amália. Você não consegue reagir sobre pressão! Não consegue se defender sozinha, por isso sai correndo!
— Eu não admito que você fale assim comigo! – ela grita e me empurra com força, ou o que ela acha ser força. – Eu nunca pedi pra você vir aqui me acompanhar, nunca pedi pra você vir atrás de mim, caramba! O que você quer de mim?
— Eu só estou te dizendo a verda...
— Cala a boca! Cala a boca! – algumas lágrimas escorrem pelo seu rosto que ela limpa com raiva. Eu imediatamente me arrependo de ter falado o que eu falei, eu vim aqui ajuda-la, afinal. Mas eu não disse nenhuma grande coisa, não achei que chegaria a esse ponto.
Sinto meus braços se moverem sem o meu consentimento e me surpreendo quando eles envolvem o corpo encolhido de Amália, e me surpreendo mais ainda quando ela não recua. Sinto seu leve cheiro adocicado, que me instiga a me aproximar mais para pode-lo sentir melhor, mas não o faço.
— O que aconteceu, Amália? – ela respira fundo.
Naquele momento sentimos um tranco no elevador e num movimento rápido eu volto meu corpo para a parede levando Amália junto, minhas costas se chocam com força na parede, mas eu quase não sinto. As luzes do elevador piscam algumas vezes e depois param, mas eu fico as encarando até meu coração acalmar um pouco. Amália se mexe desconfortável e só nesse segundo eu lembro que ainda está em meus braços e a solto. Ela parece muito bem, apesar de estar assustada, já que meu corpo amorteceu o choque do corpo dela.
— O que foi isso? – ela diz num tom desesperado.
— Desculpe o transtorno, senhorita. A chuva está muito forte, por isso o gerador queimou. – uma terceira voz ressoa pelos auto falantes do elevador.
— Quando poderemos sair daqui?
— A chuva está muito forte. O técnico só poderá vir depois que ela passar, não temos um tempo estimado, mas possa ser que demore de uma a quatro horas.
— Uma a quatro horas? – ela eleva sua voz alguns oitavos mais altos que o recomendado e o cara parece ficar com receio, já que ele demora alguns segundos até voltar a falar.
— Sentimos muito mesmo, senhorita. A gerência promete recompensá-los por isso.
— Tudo bem, eu sinto muito ter gritado com você.
— Não tem problema, eu compreendo o desespero. – eu abafo uma risada e Amália lança um olhar feroz para mim. Qual é, o cara acabou de chama-la de desesperada. Ela suspira e encosta na parede, escorregando até o chão e eu faço o mesmo. Ficamos alguns bons minutos num silêncio desconfortável, até que ela resolve falar.
— Por um acaso você viu um casal se beijando quase na entrada desse prédio? – ah, o casal broxa.
— Quem não veria? Eles estavam quase se engolindo. – Amália dá uma risada de leve.
— Fico feliz que disse isso. – ela diz e eu franzo o cenho, sem entender. – Eu era apaixonada pelo cara. Na oitava série.
— Sério? – digo com desprezo só de imaginar Amália no lugar daquele garota, é nojento.
— Infelizmente...
Ela começa a me contar toda sua história e surpreendentemente eu escuto tudo com atenção. Como alguém pode ser tão idiota? Quer dizer, o cara a usou descaradamente, magoou seus sentimentos e agiu como se ele estivesse fazendo um favor para ela. Nem os piores canalhas que eu conheci fariam isso com uma pessoa. É simplesmente ridículo. Mas o que mais me surpreende é que ela continuou gostando dele até depois do fatídico acontecimento na formatura. A Amália que eu conheço hoje não continuaria vivendo desse jeito. O que é ótimo, quer dizer, ela aprendeu a lição e superou o broxa.
Isso tudo me permitiu enxergar partes dela que antes eu não enxergava, ou não queria enxergar. Desde o começo ela foi a riquinha metida para mim, nunca quis ver ela de verdade. Tudo bem, ela continua a ser insuportavelmente chata, irritante e difícil de lidar, mas eu já não a detesto mais, talvez só um pouco.
— Foi por isso que eu pedi um “deus grego”... – ela diz com o rosto ruborizado e não olha em meus olhos.
— O que?
— Eu queria mostrar para ele que eu consigo alguém melhor que ele, e que ele veja como eu mudei. – sorrio com essa informação.
— Me acha melhor que ele, Amália?
— Claro, Caleb! – eu a olho com uma sobrancelha erguida. Ela acabou de admitir que eu sou melhor que o ex-amor platônico dela? – Qualquer um é melhor que o Bernardo. – ela sorri largamente e eu reviro os olhos.
— Mas você me escolheu.
— Minha mãe te escolheu.
— Tudo bem, tudo bem, você está certa.
— Obrigada!
— Você acha que se você fizer isso você vai finalmente se libertar do passado? – ela parece pensar.
— Talvez... acho que é uma forma de não ter medo do futuro.
— Sabe de uma coisa? Você só pode ter um futuro quando esquece o passado. – finalmente olho para seus olhos. – Deixe esse passado para trás, Amália. O futuro é agora.
Ela sustenta meu olhar por alguns segundos como se pudesse ver a minha alma e tudo que tem nela, até que abre a boca para falar, mas não o faz, pois somos interrompidos por uns barulhos na porta do elevador, até que ela se abre e duas cabeças se voltam para dentro dele.
— Desculpem-nos pelo transtorno, senhores. – ele estende a mão para Amália que ainda está no chão e ela aceita. – Aqui está um vale cupom da Suíte Presidencial, onde podem se hospedar por uma semana. Venham quando quiserem e desfrutem dos nossos serviços, é o mínimo que podemos fazer, sentimos muito novamente. – agradecemos e eles viram para ir embora, mas o cara da recepção para antes. – Os senhores formam um belo casal.
— Nós não somos um... – Amália tentou, mas o cara e o técnico já estavam bem longe. — ... casal. – ela fica olhando por mais algum tempo para o lugar de onde o cara saiu, instaurando aquele silêncio desconfortável novamente, que eu resolvo quebrar.
— Então... ficamos sei lá quantas horas dentro de um elevador claustrofóbico, não sei você, mas eu estou com fome. Quer ir comer alguma coisa?
— Ah não! Não isso. – ela diz com uma voz cansada.
— O que? – digo estranhando.
— Toda história que existe tem um casal que vai um na casa do outro depois de acontecer alguma coisa e um diz que tem seus dotes culinários e depois cozinha macarrão. É totalmente clichê, não vamos tornar isso realidade.
— Quem disse que eu ia te convidar para ir para minha casa, hotel, na verdade?
— Não ia? – as bochechas dela começam a avermelhar.
— Não... na verdade eu ia te convidar para comer num trailer nada confiável na esquina do hotel. Sério, a qualquer momento aquilo vai ser pego pela vigilância sanitária. – digo isso e ela dá uma leve risada.
— Parece perfeito.
— Sério? – ela dá de ombros.
— Claro, quer dizer, se eu entrar em coma não vou ter que dançar no meu aniversário. Todo mundo ganha. – eu começo a rir.
— Boa.
— A verdade, apenas a verdade. – dá dois tapinhas leves em meus ombros e depois sai pela porta do hotel. Eu a sigo.
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