Dancing Souls - Almas que Dançam
5 I'm addicted and I don't know why
Notas iniciais
Respirei fundo e entrei no grande salão, para dar de cara com Caleb mais uma vez olhando para a grande janela de vidro, que dava um olhar privilegiado da cidade. Ele está na mesma posição da primeira vez que o vi, e isso me fez lembrar daqueles momentos nada agradáveis ao seu lado.
Mas nesse momento ele parece inofensivo, como se fosse um anjo sereno banhado pelos raios de sol que entram pelo vidro, fazendo seus cabelos amarrados em seu inseparável coque bagunçado brilharem em diferentes tons castanhos. Ele usa conjunto de moletom cinza e tênis incrivelmente brancos. Sinto uma pontada de inveja, porque meus tênis nunca ficam assim.
Ele parece não perceber que estou aqui, então limpo a garganta a fim dele me notar e tenho sucesso. Ele se vira e sorri para mim com o canto da boca.
— Bom dia. — ele diz.
— "Bom"...
— Estou vendo que não cumpriu sua promessa de nunca mais me ver. — ele abre seu sorriso, dessa vez irônico.
— Não é como se eu não tivesse tentado. E não é como se você não tivesse trapaceado.
— Trapaceado?
— Ligar para minha mãe para dizer que a aula foi incrível e fingir que está preocupado comigo é um golpe sujo, até mesmo para você.
— Bom, eu tento... – ele diz com um misto de ironia e falsa inocência.
— Podemos começar para eu sair daqui o mais rápido possível?
— Calma aí, criança. Nós temos duas lindas horas pela frente.
— Não me chame de criança. — avisei.
— Vamos começar fazendo uns alongamentos. — falou fazendo pouco caso de meu aviso.
Ele colocou uma música qualquer para tocar e começou a movimentar o pescoço e eu fiz o mesmo. Fizemos meia hora de alongamento e eu parei para tomar água, com ele me olhando com descrença em meu encalço. Eu já estava cansadíssima e quase o xinguei quando ele falou que nós não tínhamos feito quase nada para eu estar assim.
— Vem pra cá. — ele me chamou e eu me dirigi ao centro do salão. — Ok. Você não dança nada. — abri a boca para protestar, mas ele me impediu. — Então, eu vou usar outro método com você, já que você não sabe me acompanhar. — assenti concordando. Tudo bem, eu poderia reclamar mas ele só estava falando a verdade... nada mais que a verdade.
— Cruze os braços. — fiz o que pediu e ele se aproximou de mim, quase colando em meu corpo. Me afastei imediatamente.
— O que pensa que está fazendo?
— Sendo você! — quando me viu fazer uma cara de desentendida ele suspirou e continuou. — Sendo seus movimentos. Já que você é dura e não sabe se mexer, vou fazer isso por você até que consiga sozinha. — suspiro e reviro os olhos, mas concordo assentindo.
Depois que ele me vê concordando, se aproxima novamente e começa a falar quase sussurrando ao pé do meu ouvido.
E assim a mágica começa a acontecer.
Me sinto hipnotizada, como se ele tivesse criado uma bolha ao nosso redor.
"Esqueça.
Esqueça o que aconteceu com você na oitava série. Esqueça as pessoas, esqueça o lugar e foque em você, e apenas você. Aquilo não vai acontecer de novo. Eu não deixarei acontecer de novo. Eu vou te segurar.
É como se você estivesse submersa, alheia ao mundo de fora. Dentro da água, se concentre em você. Coloque cada célula de seu corpo em sintonia e sinta cada uma delas.
Sinta sua respiração. O ar entrando e saindo de seus pulmões. Deixe que eles comandem seus movimentos."
Ele segura em meus braços.
"Inspire." Enquanto eu puxo o ar para dentro dos meus pulmões, ele direciona meus braços antes cruzados para fora.
"Expire." Solto o ar e ele volta para onde estavam antes
"O ar puxado para dentro de si faz com que seu peito aumente e o resto do seu corpo acompanhe esse movimento. O ar colocado para fora também. De novo."
Dessa vez ele movimenta meus braços para cima de minha cabeça e depois pega em minha mão.
"Não deixe seus dedos tencionados, deixe eles abertos, livres para acompanhar os movimentos de seu braço, como se a água estivesse fluindo entre eles." Ele repete os movimentos mais uma vez e depois segura meu queixo e pescoço.
"Sua cabeça deve se movimentar como se estivesse acompanhando o movimento dos pássaros. Eles vêm de longe..." Ele segura minha cabeça um pouco inclinada para o lado. "Passam pela sua cabeça..." Inclina para cima. "E depois se despedem de você." Movimenta minha cabeça para o lado oposto que começou.
"Seu pés devem se movimentar com firmeza, mas ao mesmo tempo com leveza. Fique na ponta dos pés." Assim o fiz. "Movimente-os como se estivesse pisando na areia mais fina da praia mais bonita, ou como se estivesse pisando nas nuvens, leve como as pequenas gotas condensadas em seus pés. Ande."
Comecei a colocar um pé na frente do outro. Eu estava tão afundada nesse momento que tive medo de não conseguir voltar mais para a realidade. Sentia que sua promessa de não me deixar cair era mais verdadeira do que nunca. Estar em seus braços era como saltar de paraquedas. Você tem medo de cair, mas enquanto está no ar a sensação é incrível.
"Isso mesmo, está conseguindo. Vamos fazer tudo de novo." Repetimos os movimentos tantas vezes que perdi a conta. Percebi que as músicas que tocavam se repetiam, mas não vi a hora passar.
"Eu vou te soltar agora, está bem?". Não, não me solte. "Sim." Sinto suas mãos gentilmente largarem o meu corpo e começo a me movimentar sozinha. É fácil, mas me sinto insegura de não saber se estou fazendo certo, mesmo assim não ouso olhar em seus olhos.
"Você conseguiu." Ouço ele falar e pausar a música. "Você finalmente está conseguindo se soltar. “Ainda temos muito o que trabalhar, mas vejo que o novo método está funcionando." A bolha acabou estourando e eu voltei para a realidade rudemente. É claro, é um método.
"Então, eu ligo para sua mãe para marcar outra aula. A gente passou meia hora do horário marcado"
— O que? Ficamos duas horas e meia só naquilo?
— Sim, você precisa de muito mais trabalho do que eu imaginei. — e ele voltou a ser aquele cara rude da primeira aula. – Eu tenho que ir. — ele sai do salão, me deixando sozinha com meus pensamentos.
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