Dance again
1 Dance again — capítulo único
Tatara ainda não havia contado a seu pai o que fazia em seu tempo livre, quando não estava debruçado sobre os livros didáticos se preparando para as provas finais. Ele ainda não conseguira reunir a coragem necessária para explicar os motivos que o faziam chegar em casa tarde da noite e sair de manhã cedinho, ou de reclamar das bolhas que apareciam em seus pés. As vezes, ele era pego desprevenido, assistindo a gravações de competições antigas ou treinando sobre o assoalho velho, já marcado por seus treinos passados.
Ele só não sabia por onde começar.
Ou se deveria realmente começar por algum lugar.
Veja bem, não é que ele quisesse realmente esconder algo de sua família mas, ainda assim, ele acabava privando seu pai da verdade. Não era intencional, isso nunca. Mas a forma como ele entrara no mundo da dança fora tão inconveniente que, quando deu por si, a dança já estava dentro dele, moldando sua atenção e postura tal como sua personalidade. Quando colocava seus sapatos, Fugita assumia uma outra persona, uma que sempre esteve dentro de si mas a qual ele nunca teve a capacidade de reconhecer; alguém que sabia o que queria para si mesmo, alguém que esmurrava seu caminho para fora e aparecia sempre que ele colocava seus pés no salão.
E ele não sabia como, depois de já ter ido tão fundo, sair daquele lugar. Como faria seus passos um a um e encararia seu pai para dizer que finalmente — finalmente — encontrara aquilo que ele queria ser. Que ele enquanto pai, poderia dizer que seu filho era alguém incrível, que mesmo tendo sido criado apenas por ele, conseguira chegar em algum lugar. Que ele, enquanto pai, havia feito o melhor que podia e o quanto ele, enquanto filho, era grato por isso; grato por ter alguém que não desistisse dele, que visse o melhor nele quando ele não o via.
A verdade é que, quando a mente de Tatara não se ocupava em memorizar passos e rotinas ou em o quê ele deveria estar estudando, ele se sentia ansioso com o prospecto de seu pai saber o que ele fazia com o dinheiro que recebia no emprego de meio período.
Aulas de dança eram muito caras.
As aulas, as roupas, o custo para ir até o local de dada competição.
Sengoku nunca dissera sobre o quão custoso, para o bolso de um jovem colegial apenas dançar poderia ser, mas quando os olhos dele o observaram dançar pela primeira vez, era como se todo esse custo, todos esses cifrões desaparecessem. Em um e dois passos, sendo repetidos até que os dedos de seus pés doessem e os membros de seu corpo gritassem por excesso de uso.
O tempo que levara até que seus músculos se acostumassem a uma nova rotina de treinos, o cuidado que ele aprendera desde o primeiro dia a ter por sua parceira, tudo contava.
Quando Tatara tinha Chinatsu ao seu lado, eles eram um. Uma dupla. Uma só pessoa.
E a sensação de dividir um mesmo espaço com pessoas tão incríveis, que se dedicavam a dança tanto quanto ele, era quase indescritível. Quase.
Pois ele sabia como se sentia, sabia exatamente o quê e como fazer.
Depois de tantos erros era chegada a hora da leva de acertos e o par que levava seu nome conseguia aos poucos, marcar sua presença.
E quando essa euforia baixava, ele se lembrava que havia alguém que deveria saber como ele se sentia, alguém que merecia estar ali, na plateia, torcendo por ele.
Tatara mal conseguiu conter as lágrimas quando disse a seu pai que a dança competitiva era aquilo que ele faria pelo resto de sua vida. As palavras saíram tremidas e ele teve de se repetir algumas vezes até que fizesse sentido e seu pai também caísse em lágrimas, feliz por ele; preocupado por ele.
Sua avó estava contente, porém triste em perder seu grande narrador dos torneios de sumô para a dança competitiva.
Chinatsu riu quando soube da novidade.
Gaju bagunçou seus cabelos e Mako o felicitou, dizendo que seu pai era bondoso demais para ser deixado no escuro por tanto tempo.
E quando o objetivo maior de Tatara chegou, quando ele finalmente dividiria o salão de competição com seus amigos, lá do alto ele conseguia ouvir os assobios do pai, torcendo por ele.
Por ele, torcendo por ele.
Agora o seu amor pela dança estava mais que completo!
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