Dança das Lâminas
1 A noite do Luar de Sangue
As chamas já haviam consumido grande parte daquela vila, o suficiente para afogar qualquer sinal de vida em meio às cinzas das casas. Os poucos sobreviventes daquele massacre buscavam fugir das lâminas furiosas dos youkais que arrancaram muitas vidas inocentes àquela noite, alguns dos quais morreram tentando proteger seus entes queridos. O que era uma próspera vila de agricultores havia se tornado um caótico campo de batalha, youkais lutavam ferozmente entre si como se dependessem de sua violência para sobreviverem.
Inu no Taishou dançava sobre o campo de batalha ao som de sua lâmina cortando os corpos de seus inimigos, não demorou muito para o solo estar pintado de vermelho pelo sangue demoníaco. Um dos únicos inimigos em pé naquele campo de batalha era um youkai de aparência monstruosa, aparentemente um oni. Ele sabia que teria de lutar sozinho, não havia ninguém ali que pudesse lhe ajudar, não restava ninguém além de humanos desesperados por suas vidas.
— Agora somos só nós dois... – Sussurrou o homem, brandindo sua espada.
Aquele youkai não parecia racional, mas tinha uma aparente força e defesa que o tornava um oponente difícil de se derrotar com rapidez, este somente partiu em confronto contra o general. Inu no Taishou não fez muita reverência antes de avançar para matá-lo, mas em meio ao caminho que o levava até o único inimigo em pé, algo lhe arrancou a atenção: um inocente choro bradou ao longe, era a doce voz de uma criança recém nascida junto à melodia da voz de sua amada esposa, mas algo estava errado. Izayoi não tinha um tom harmônico em sua voz, seu grito havia saído de forma caótica ao ponto de ter arrancado a atenção do youkai que lhe amava, Izayoi certamente não estava bem.
Inu no Taishou abaixou sua espada e olhou na direção do oeste... sua esposa estava em uma vila em zona segura há 5 quilômetros daquele campo de batalha, ou pelo menos era o que ele acreditava. Havia algo acontecendo na vila em que Izayoi estava, o general conseguia sentir o cheiro de sangue vindo da direção em que olhava.
— Izayoi?... – O homem rapidamente olhou naquela direção, podia ouvir aquela voz se tornando cada vez mais fraca, a voz de sua esposa.
Inu no Taishou sentiu algo apertar seu peito naquele instante, sua voz soou como um lamento que apertava seu âmago. O urrar do oni tirou-o de seu sofrimento silencioso e o obrigou a lutar pela vida, aquele youkai erguia uma enorme katana quando rapidamente atacou seu oponente. Inu no Taishou rapidamente empunhou sua katana e usou-a para se proteger, teria de lutar caso desejasse viver. O youkai prestava minunciosamente sua atenção nos movimentos inimigos, qualquer erro lhe seria fatal naquele momento. Aquela batalha pela sobrevivência se prolongava pelo que pareciam mais séculos, os únicos sons que bradavam naquela noite eram os de ambas katanas se colidindo.... mas um desesperado grito infantil atraiu toda a atenção que Inu no Taishou tinha voltada ao seu oponente. Ele reconhecera aquela voz assim que a ouviu bradar ao distante, não havia como não reconhecê-la: era de InuYasha.
— PAI!!! PAPAI!!!!!!! – Gritara uma pequena criança, ao longe. Uma pequena criança vinha correndo em sua direção, coberta por cinzas e sangue, mas aquele não era seu sangue.
O homem desviou o olhar de seu inimigo por meros segundos e este foi seu maior erro: desviar seus olhos do oni em sua frente lhe causou um ferimento em seu peito, tão fundo que talvez tivesse lhe alcançado o coração. A lâmina de seu inimigo era realmente poderosa, nenhuma outra havia cortado a armadura de metal negro do general, seu sangue sujava suas roupas brancas de forma a mostrar que seu estado era crítico. Tudo parecia quieto em sua mente, Touga não ouvia nenhum dos sons que antes eram ensurdecedores, o cheiro do sangre se tornou inexistente e seu corpo estava leve como uma pena, parecia que a morte enfim lhe alcançou.
— ... Eu... falhei?... – Perguntou Touga, buscando uma resposta para seus medos, sentia seu coração imóvel em seu peito. Entendendo que aqueles eram seus últimos suspiros, o general cerrou os olhos e permitiu as sombras adentrarem em sua mente, porém, quando tudo estava em pleno silêncio, uma risada doce invadiu sua mente, não era a risada de InuYasha, mas pertencia à criança que Izayoi esperava. Naquele instante, Inu no Taishou despertou seus instintos e negou-se a aceitar a morte, agarrando sua katana com todas as forças que acreditava terem se esgotado. — ... Isso ainda NÃO acabou!
Com apenas um movimento simples de sua destra, ele decapitou o oni em sua frente. Um líquido grosso e marrom como a lama jorrou em um chafariz pela garganta sem cabeça do demônio, este permaneceu em pé por alguns segundos antes de cair ao chão e se debater sobre a poça de seu próprio sangue. Inu no Taishou caiu sobre seus próprios joelhos, ofegante pelo tempo em que forçou seu corpo para além de seus limites, recuperava o fôlego que deixou seu corpo por breves segundos quando percebeu a cabeça que havia em sua frente. Aquele oni possuía um pedaço de pano amarrado no pouco tufo de cabelo cinzento que tinha, um pano estranhamente negro e vermelho que lhe chamou a atenção.
O youkai agarrou aquele pano e puxou com a minúscula força que ainda residia em seu corpo, e logo que viu o símbolo adornando o centro do pano, percebeu que aquele oponente não passava de um mero atraso. O homem voltou a se levantar, agora caminhava em direção à voz de InuYasha, que lhe chamava desesperadamente.
Ele caminhara por incontáveis horas até alcançar uma vila, já em cinzas. Embora já estivesse exausto e quase sem forçar, encheu seu peito e gritou em busca de sua esposa, mas a mesma não lhe havia respondido. O pequeno havia corrido até uma pilha de madeira queimada, estava aparentemente desesperado, puxava os destroços da entrada da casa enquanto chorava. InuYasha dizia que sua mãe estava lá dentro ainda, afirmava que ela mesmo pedia-o para se acalmar e chamar pela ajuda, mas embora ele não quisesse se afastar, InuYasha havia saído para chamar por seu pai. Inu no Taishou pediu que InuYasha se afastasse e rapidamente entrou no local.
Touga não demorou para encontrá-la, mas talvez preferisse não ter a encontrado: Izayoi não estava morta, mas estava sofrendo muito, talvez por um momento antes de morrer, parecia muito ferida e sem chances de sobreviver. Izayoi estava deitada sobre o chão, um longo kimono florido cobria todo seu corpo, mas o mesmo estava quase completamente sujo por sangue e as flores brancas estavam todas cobertas pelo tom escarlate. A mulher estava deitada sobre a poça de seu sangue, misturados com os longos fios negros de seu cabelo.
— Izayoi!? – Bradara, o homem se atirou de joelhos ao chão, próximo ao corpo enfraquecido de sua esposa. A mulher abriu seus olhos lentamente e virou a cabeça, um caloroso sorriso se fez presente quando ela o viu. — Estou aqui, querida.. estou aqui. – Repetia o youkai, segurando-se para não deixar as lágrimas rolarem diante de sua esposa.
Izayoi pediu-lhe que lhe perdoasse por ser uma humana, aquele pedido de desculpas não poderia ter deixado Touga tão irritado, já estava enfurecido com o fato de não ter sido capaz de proteger sua esposa. A doce donzela dizia que desejava ter sido mais forte, algo que já estava aborrecendo demais seu marido, porém, assim que este tentou dizer que ela ficaria bem, Izayoi desenrolou-se de seu kimono e revelou duas surpresas, uma trágica e a outra alegre...
— Como... eu imaginava... – O youkai não conteve a profunda tristeza que o assolou, sua esposa tinha um terrível e grave corte em seu abdômen que resultaria em uma morte inescapável. — Eu não pude fazer nada por você, no final...
— .... Est....está errado.. querido... – Falou a jovem donzela, ainda sorrindo para seu marido. — Você deixou.... todos afastados..... graças a isso... eu pude ser forte...
O homem parecia não entender o que ela dizia em poder ter sido forte, mas Izayoi lhe mostrou: seus braços pareciam envolver um pequeno amontoado de pano em seu colo ao qual o youkai só pôde ver assim que ela revelou um pano branco sujo de sangue sobre seus seios, este enrolava um bebê prematuro, tão pequeno quanto um filhote de cão. Inu no Taishou não sabia como reagir, sua esposa pedia que ele a pegasse em seus braços fortes e carinhosos que ela sempre amou, Izayoi contava que não poderia morrer sem antes deixar aquela menininha em um local seguro, e não havia local mais seguro que os braços de seu próprio pai.
— ... Qual será.... o nome de... nossa princesinha?... – Perguntara Izayoi, ainda sorrindo em ver o rosto de sua filha nos braços de seu marido. Ele olhou para a menina e passou o polegar sobre sua bochecha, limpando a gota de sua lágrima que pingou no local.
— ... O que acha de Laura? – Perguntou o youkai, conseguindo sorrir mesmo com sua esposa morrendo ao seu lado. Izayoi sorriu ao ouvir o nome de sua filha, dizendo que nunca havia ouvido aquele nome antes, mas ainda sim, o achou realmente encantador.
— ... Que nome.... lindo..... Laura...... – Uma lágrima rolou por sua face, mas não era uma lágrima de tristeza: Izayoi estava feliz em poder ouvir o nome de sua filha antes de morrer.
Izayoi cerrou seus olhos lentamente, sentiu os lábios quentes de seu marido lhe beijar algum momento antes de partir. Touga não conseguiu suportar aquela dor, era ela a mulher de sua vida, como ele poderia resistir às lágrima após vê-la partir? Era insuportável, muito insuportável saber que você poderia fazer algo pela pessoa que ama, mas chegou tarde de mais e a perdeu.
No fim, mesmo após ter sofrido uma dor imensurável, ela morreu sorrindo, Inu no Taishou ergueu a cabeça e se orgulhou; sua esposa havia sido a mais encantadora mulher que ele poderia ter até o último segundo de sua vida.
Embora Inu no Taishou estivesse feliz, ele parecia extremamente triste aos olhos de InuYasha e o pequeno não parava de perguntar onde estava sua mãe, perguntava inúmeras vezes o que aconteceu com ela e o que era aquilo que seu pai estava segurando. O homem se ajoelhou e mostrou ao pequeno o que carregava em seus braços: InuYasha se surpreendeu em ver era uma outra criança, mas ao mesmo tempo, se espantou em ver que ela era muito pequenininha e frágil. Seu pai contou que aquela era sua nova irmãzinha e disse que era para ele ser um bom irmão mais velho. Inu no Taishou se levantou e disse que precisavam sair daquele local, estendeu sua mão e pediu que InuYasha pegasse e ele obedeceu.
— Para onde vamos, papai? – Perguntou o pequeno InuYasha, ainda olhando para a criança nos braços de seu pai.
— Para onde ninguém possa me encontrar. – Respondeu o homem.
— De quem você está se escondendo, papai? – Touga olhou para seu filho e sorriu.
— De seu vô. – Respondeu o homem.
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