Dança Com Ossos

1 Dança da morte


Notas iniciais
A inspiração veio ao ouvir as canções da banda Iron Maiden, a história não é longa e não deve passar de 4 ou 5 capítulos.

Amaldiçoado seja aquele que se esqueceu de me avisar quão dolorido seria a vida. Traçar letras sobre um papel é fácil, agora as letras serem aceitas pelas pessoas, ai sim é uma tarefa árdua. Meu amor pela literatura floriu em minha juventude, minha mãe me dizia sempre para não viver somente como escritor. A como deveria ter lhe dado ouvido, agora pago na miséria por minha falta de sabedoria. Há mais correspondência de cobranças sobre minha pequena mesa de madeira rústica, do que material para tentar uma publicação e render-me algum sustento. Idéias se solidificam na minha cabeça, mas como o gelo, elas derretem em pouco tempo.

Eu estava de bruços sobre a mesa girando uma caneta, ela rodopiava em meus dedos desviando minha concentração. Talvez se eu fosse artista de circo teria mais oportunidades do que me abrem agora. Como um relâmpago, a caneta disparou-se de minha mão, caindo no extenso tapete bege com ramos de flores vermelhas desenhado. Antes que eu me erguer-se para apanha-la, ossos descarnados a devolveram. Eu me arrepiei e engoli um grito seco. Um esqueleto em pé vestindo um longo manto preto com um capuz que lhe cobria a maior parte do rosto, sim, a personificação da morte perfeitamente em minha vanguarda exceto por um detalhe, sua foice. Diferente das estórias, ela era pequena e curva, uma foice para capinar.

– És inteligente rapaz, — Apesar de falar, suas mandíbulas não exerciam movimento, se pudessem seria supérfluo já que não possuía cordas vocais — deve ter inferido quem sou então dispenso apresentações. A morte sorri para todos e hoje eu sorrio a ti irmão, está pronto? A hora de partir chegou.

– Como pode! – Eu levantei — Não ainda, eu me recuso a morrer! – Apesar do pavor, a esperança de viver já não habitava em mim.

– A maior parte resiste, os tolos imploram e os sábios a aceitam. – Ela caminhou até uma poltrona vermelha, com pernas de carvalho escuro bem trabalhado. – Posso me assentar?

– Sim

– Uma janela enorme para uma sala tão pequena, abra as cortinas e deixe a luz entrar, que lugar morto! – sua voz soava com ironia.

Como me foi pedido, puxei as longas cortinas vermelhas com bordados de linha branca formando vários lírios. A luz ardeu em meus olhos e reluziu com força nos ossos velhos e trincados de meu convidado inesperado.

– Então – continuei – Não é justo que tenha esgotado meu tempo!

– Por quê?

– Minha vida foi terrível, não pude concluir um objetivo! – Ela parecia rir, apesar de caveiras não demonstrarem feições. – Tente entender...

– Meu jovem, vai precisar de muito mais que isto para argumentar.

– Você faz acordos, certo? Faça um comigo! – Eu me sentia um cachorro implorando por atenção.

– Eu não faço acordos. – Ela alisava a foice com o dedo indicador. – Pessoas me desafiam, e perdem... Quer me desafiar?

– Como poderia desafiar a morte? Não obrigado

– Sábia resposta. A oportunidade para tudo neste mundo, e a oportunidade de um humano fazer um acordo com a morte não é ao menos, interessante?

– Eu diria imprudência – Mil pensamentos corriam minha mente, estaria à morte brincando comigo? Ou me dando uma chance? – Por outro lado, eu sou um ser imprudente.

– Breve deixara de ser. Proponho um acordo então! – A morte levantou-se e estendeu sua foice. – O que faz para seu sustento? O que faz para viver?

– Escrevo...

– Bom, pois então escreva o resto de sua vida! Quanto mais palavras e sentimentos pintar no papel, mais eu estenderei seu prazo.

– Mas? – Sempre existe beneficio para ambos os lados em um contrato.

– Mas, de qualquer forma tu morres hoje, uma morte lenta que o enfraquecerá até que só possa erguer a caneta para continuar escrevendo e vivendo. Sua morte esta marcada hoje e é preciso que se cumpra meu dever, agora é a sua vez de entender.

– Eu entendo, então... – fui impedido de continuar

– Não acaba por ai! – A morte gritou. – Em troca desse ato de caridade por minha parte, eu o acompanharei onde for, serás sinônimo de meu nome e semeara a morte onde habitar.

– Não vejo de forma mais justa – concordei

– O anseio para evitar que tua existência seja apagada o suja, olhe a si mesmo por um momento – Ela inclinou um pouco a foice, que refletiu minha imagem em sua lamina. Eu estava suando, meu cabelo escuro estava marejado com meu suor, gotas corriam por minha pele caucasiana até minha barba rasteira e curta. O sabor que eu provava era a sopa do medo com pitadas de alegria, seria eu o primeiro homem a passar a perna na morte? Não, a morte entrou nessa porque quis. Estaria eu sendo trapaceado? – Se ainda estiver certo de sua decisão abrace seu destino e apanhe minha foice.

Eu fitei seu rosto sombrio e podre, e de forma estoica eu andei em sua direção e apanhei a foice brutalmente. Mas ao olhar de volta, a morte já não estava mais lá.

– Eu o farei implorar por mim novamente – exaltou uma voz detrás de minhas costas, ao me virar só havia o velho papel de parede amarelo e mortiço com listras pretas.

Após uma semana, eu começava achar o fatal encontro com a morte algo belíssimo e magnifico. A feérica morte era esplêndida. Tanto era meu hediondo amor e inspiração, que o volume de obras escrito por mim triplicou, e todos em homenagem a ela. Histórias e canções de excelente qualidade. E não demorou muito até uma editora me aceitar. “O amor de um querubim” seria meu primeiro livro a ser publicado, que euforia, que benção a morte pode me proporcionar. Eu estava apaixonado por minha própria obra, em especial por um soneto:

“Os loucos vêm mais demônios que o inferno pode contar
E os amorosos vêm anjos onde não há
Mas eu a vi, a morte em sua bravura e formosura.

E por esta jura, matrimoniamos nossas almas.
Não jure pela lua, que muda todas as noites.
Mas sim pela morte que nos torna reais

Pois esta jamais falha,
Assim como nosso amor
Que de nossa carne junto ao pó desabrochara uma flor.

Que viva este amor na tinta sombria
Na alegria da morte.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.