Era uma dama elegante. Alta e pálida, de movimentos sutis, feições delicadas. Os lábios brancos. Cílios longos e negros que guardavam olhos profundos, capazes de abraçar o universo e suas constelações por inteiro. As vestes cobrem todo o seu corpo, de modo que o azul quase negro a segue incessantemente. Os fios de cabelo se perdem nas costas, confundindo-se com o tecido pesado e macio, ganhando assim o seu brilho azulado, de um tom tão negro quanto o oceano no seu mais baixo nível. Por fim, havia um diadema de estrelas, enfeitando o topo de sua cabeça, completando o belo da criatura. Pois sim, era uma bela, ainda que profunda e sombria. Pois sim, era gentil e acolhedora, no entanto, perigosa e desconhecida. Era complexa.

Então havia mais outra. Esta trajava calças, camisas frouxas e, muito frequentemente, encontrava-se descalça. A capa curta de barra retalhada, caia-lhe sobre apenas um dos ombros. Pele negra de traços dourados, refletindo o esplendor do brilho amarelo que acendia suas vestes. Usava de cachos curtíssimos, mas bem definidos, com um ou dois fios alaranjados aqui e ali. Pulava, corria e voava, mas quase nunca andava. É desconhecido o tempo em que seus olhos foram vistos pelas ultimas vez, portanto, a cor de suas íris é imprecisa, pois as pálpebras que as guardam nunca se abrem. Todavia, de algum modo, tudo ela consegue ver, a tudo ela toca. O sorriso de fileiras brancas, pertinente nos lábios fartos, aquecia e fortalecia os demais. Contudo, a diversão e o viver eram tamanhos que a sensibilidade em si lhe era escarçar.

Há quem diga que são irmãs, já outros as julgam rivais, embora mais alguns afirmem que são amantes. Particularmente, as vejo como uma coisa só, ainda que eu mesma seja apenas uma espectadora que vive em meio a elas e entre milhões, sem muita importância nos resultados.

Mas, afinal, por que são uma só? Se é o que quer saber.

Tudo que uma não tem, a outra o faz. Não andam no mesma linha do espaço e do tempo, admito, mas andam lado a lado, de mãos dadas, embora quase ninguém note. Gostam de tomar chá no crepúsculo sobre as montanhas da Noruega, é onde estão mais próximas, mais sensíveis para com a outra. São eternas. Uma vive dentro da outra, pois caso uma diminua e desapareça, a outra tirará o pedaço que guardou dentro dela e a resgatará. Pois ainda que a lua pareça reinar numa plena noite de inverno mais ao norte ou ao sul, a certeza da aurora jamais se abalará. É como um coração partido. A casa que guarda o amor já não goza de bons pilares, portanto o expulsa e se recusa a abriga-lo. No entanto, o amor se recusa a abandonar sua morada, nem mesmo poderia se quisesse. Mal sabe a casa que seus pilares estarão fortes mais uma vez, ainda que ela seja impaciente e prefira ruir a se recuperar, mas ainda há alguém a abrigar e este é persistente. E é como a chuva que lava a terra seca. A última, embora mal tratada, explorada e abandonada, ainda que negue, jamais deixará de esperar a água que lhe banhará. Não importa o quanto demore, a terra sabe que seu descanso virá. Nada importa.

Pois sim, é como Noite e Dia.

Duas de uma só.

Damas que regem o mundo num só compasso.

Que no seu infinito ciclo, nos fazem acreditar. Pois sim, quando Noite vem, por mais demorada e preguiçosa, não deixamos de esperar Dia com ansiedade. Quando Dia vem, por mais longo e quente, não deixamos de pensar em Noite como o alívio pleno do que virá.

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