Dama da noite
1 prólogo
Notas iniciais
A lua cheia brilhava no céu noturno, é apenas impressão, ou está emanando luz vermelha para o jardim?
Na festa mais esperada do ano é o sangue do próprio anfitrião que jorra nas roseiras tingindo-as de vinho. Chorando, Charllot se perguntava o que haveria feito, o corpo de seu próprio marido estava imóvel, morto, a sua frente, seu sangue escorria pelo punhal em sua mão, e tinha sido ela mesma que o matara, debruçada sobre o corpo, implorando aos céus por perdão e vendo até onde seu erro estúpido a levou.
Enquanto isso, no grande salão, a festa da primavera contagiava toda a corte que com suas máscaras dançavam e conversavam alegres. Todos se divertiam muito, exceto uma jovem, ela era a dama de companhia mais próxima da princesa, e, como a muito não se viam, encontrava-se em grande preocupação.
Andando até a entrada principal a jovem olhou para o jardim que se estendia a sua frente e sentiu a leve brisa da noite soprar em seu rosto, levantando um pouco a saia do vestido desceu três degraus até o início do jardim e olhando para os lados, ainda com sua classe impecável, gritou por sua senhora, sem obter resposta já ia voltando ao salão quando, carregado pela brisa, ouviu o som de um choro que parecia vir de algum lugar distante no jardim, enchendo-se de curiosidade a menina caminhou apressada pelas trilhas de pedra para saber de quem e o motivo do lamento, quanto mais ao norte corria mais alto e claro ficava o choro podendo ser sentido a tristeza e o pesar que ele continha, estava tão focada em seu destino e ao mesmo tempo tão perdida em suas hipóteses que acabou tropeçando em uma das pedras do caminho e caiu ao chão sobre os joelhos e mãos, uma pontada de dor, sentou e suspirando sentiu o cansaço da corrida que a atingira, examinando as palmas das mãos notou leves arranhões que sangravam, gemeu baixinho, levantou a saia do vestido rasgada graças à queda, olhando os joelhos viu arranhões mais leves que os das mãos, resmungou e finalmente reparou que, ao seu redor, as árvores estavam mais altas e entrelaçadas, teria ela ido tão longe ao ponto de penetrar no bosque e nem ter percebido? Não! Impossível! Ainda estava andando no caminho de pedra que se estendia apenas pelo jardim, então... Onde estava? Desde pequena corria por aquele jardim e mesmo com sua grande extensão o conhecia como a palma de sua mão, mas nunca viu aquela parte... Na verdade, não reconhecia nem mais a noite que, antes, estava iluminada por diversas estrelas e uma luar radiante e agora possuía um ar frio e pesado com apenas o brilho pálido-avermelhado da lua formando sombras que pareciam dançar e caçoar dela, o vento que soprava assemelhava-se a gargalhadas estridentes e gritos agonizantes, percebeu-se mergulhada na escuridão. O que está acontecendo? Pensou a jovem sentindo o coração bater mais rápido e uma pontada de medo a atingir. Olhou
para trás e seu coração quase saiu pela boca, quando reparou que diversos galhos se estendiam e entrelaçavam-se tampando o caminho pelo qual viera, pouco a pouco ameaçando alcança-la, levantando desajeitada a jovem saiu correndo pelo caminho a sua frente temendo pelo próprio destino.
Ao norte do jardim, Charllot estava sem esperanças, soluçando de temor e angustia, a temperatura ao seu redor abaixou bruscamente, causando-lhe arrepios, uma melodia fúnebre começou a tocar espalhando-se pelo ar e a moça sentiu seu coração bater ameaçadoramente mais devagar, a neblina branca que havia dominado o chão agora envolvia o corpo morto de seu marido dando-lhe atrativo brilho nos lábios frios, e ela sabia..., com todo seu ódio e medo, que ele veio busca-lo. No mesmo instante uma figura encapuzada apareceu atrás dela, a melodia agora ficara mais forte quase que hipnotizando quem a pudesse ouvir, a capa negra arrastava-se pelo chão misturando-se a neblina e não permitindo ver um fim, cobria o ser exibindo manchas que se mexiam inquietas com formatos de rostos torturados tentando desesperadamente sair. A figura sussurrou algo como uma leve brisa fria no ouvido de Charllot que ouvia atenta ao seu pedido, quando passos apresados ressoaram pelo local, o ser parecia já esperar por aquilo, mas Charllot, surpresa, virou-se e viu, surgindo do caminho de pedra, uma jovem extremamente pálida. Levantando espantada indagou para a jovem sem poder crer:
- Emili?!
Emili, que encontrava-se em tamanho assombro com o vestido rasgado e sujo, o cabelo agora despenteado finalmente reparou na cena a sua frente e perplexa, imóvel gaguejou:
- Mi..minha senhora?!
Um barulho começa a tocar fazendo o local tremer e se desmoronar, as pessoas somem e a cena desaparece dando lugar a um quarto arrumado e um despertador irritante.
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