Dama Da Noite
21 Velho Mundo
Notas iniciais
–Não, não, não! Ah, merda! Não!!
Continuava caindo, só que agora eu podia ver. E não gostei nada do que vi. Eu estava em queda livre, iria me ferrar quando chegasse ao chão. Ia doer, ia doer muito.
Fechei os olhos e me preparei para o impacto. “Não acredito que vou morrer desse jeito estúpido.” penso num segundo. No segundo seguinte noto que parei de cair.
–Morri? –Sussurro para mim mesma, ainda sem abrir os olhos. –Ou será que não? Até que morrer nem dói tanto assim.
–Você não morreu. –Diz uma voz grave, seguida por um risinho conhecido e familiar.
Quando tive coragem de olhar, duvidei seriamente. Podia muito bem ter morrido e ido para o céu. Um cara alto e forte me observava com olhos extremamente negros. Só precisei vê-lo para saber quem era.
–Drake.
–Ora, ora, sabe meu nome é? Ou o ouviu por aí?
–Conheci seu... seu filho.
–Ah, Sebastian. Deve ter notado que somos quase iguais. Suponho que tenha notado que por acaso sou loiro e ele não.
–Notei...senhor. –Eu me senti uma garotinha fraca enquanto era levada por ele. Agradeci aos céus por ter sido pega, a queda não seria nada agradável.
–Não me chame de senhor. Não sou tão velho assim. –Caçoou da própria idade. –Sabe, meus irmãos acharam que o garoto Mitchell tinha mais chances de ser meu filho. – “Ele é maluco. Porque está me dizendo tudo isso?” –Mas bastou que vissem a mãe dele para a verdade surgir. Os cabelos dela eram longos e negros, como os seus.
Uma lembrança invadiu de súbito minha mente. Eu quando criança e meu pai me dizendo aquela mesma frase. “Os cabelos dela eram longos e negros, como os seus.” A expulsei olhando para as asas brancas dele. Aquilo sim eram asas de verdade, os Guardiões de Mitchell as tinham, mas não serviam para muita coisa. E também não eram nem de longe tão grandes e majestosas quanto às dele.
–E o que aconteceu com seus irmãos?
–Ah, estão com certeza naquela metrópole idiota. Ganhei de todos e assim mesmo me atormentam. Malditos sejam.
–Estão vivos?!
–Não sei, estou pensando seriamente em mata-los. Todos os quatro me irritam. Peter, Devon, Steffon e Ben. Deviam respeitar mais seu irmão mais velho, ao invés disso zombam de mim.
–Não foi isso que me disseram.
–E que mentiras lhe contaram, garota?
–Que você é o último Cônsul e...
Drake riu gloriosamente.
–Nossos filhos não sabem de nada. Aquele negócio de que nos trucidamos pelo poder ou coisa assim é pura invenção. Não precisamos lutar, mas podemos se quiser. O vencedor fica com os poderes dos outros. E também, sempre que mandamos mensageiros, enviam os velhotes, para que não notem as semelhanças. Conselheiros idiotas, somos todos meio parecidos mesmo, então que diferença faz?
–Quantas gerações têm nessa metrópole de que você falou? –Perguntei com certa curiosidade.
–Milhares, mas nunca me preocupei em saber o número certo. –Ele tentou dar de ombros, depois percebeu que isso poderia me fazer cair dos braços dele, caindo para uma queda mortal... de novo. Me segurou com mais firmeza e seguiu com o voo.
–E de onde vocês todos vieram?
–Fala dos cinco Originais. O conselho tem várias divisões e elas aumentam á medida que nos dividimos em grupos. Só os mais poderosos podem ver os Originais e a lei dos Cinco manda nesse lugar.
–Vamos demorar chegar? –Digo de repente.
–Sim, por quê?
–Me conte tudo o que sabe.
–Ora, eis uma humana que quer desvendar nossos mistérios. — Brincou. –Vou dizer, então.
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–E como faço para chegar até eles?
–Ah, não faz ideia de como é difícil, Avery.
–Difícil, mas não impossível, não é?
–Também não sei. O castelo deles parece infinitamente maior que qualquer outro que já existiu. E só tenho acesso a uma pequena parte dele.
Em algumas horas, descobri como falar com Drake era fácil. A maior parte do caminho foi percorrida no céu, outra parte andamos. Mas em todas as partes, conversamos.
Agora eu poderia jogar toda a estante de teorias de Mitchell no lixo e atear fogo a elas. Podia ensina-los a criar coisas e seres, a desenvolver seus poderes, abrir portais para qualquer lugar. Podia ensina-los a serem invencíveis e imortais.
Do mesmo modo que eu agora podia mata-los todos apesar das minhas fraquezas humanas. Podia domina-los e os expor para toda a humanidade. Confirmar cada mito, dos deuses gregos aos egípcios, da pedra filosofal aos dragões. Só que não poderia fazer isso. Envolvia coisas como o equilíbrio do mundo e blá blá blá.
–Meus parabéns, você é a primeira da raça humana e de qualquer outra a chegar aqui com vida. –“Como assim qualquer outra raça?!” — Bem-vinda ao que eu chamo de Velho Mundo.
–Incrível.
Se algum dia nós humanos avançarmos ao nosso máximo, não estaremos nem aos pés deles. Nossa maior cidade pareceria uma vilazinha simplória perto disso. Era tão grande que se estende até perder de vista.
Não era nenhum molde de como poderiam vir a serem nossas cidades. Nosso passado era o presente deles. Grandes castelos se agrupavam, em estilos variados. Casas europeias, outras russas, japonesas, gregas e incas.
Aqui e ali eu via edifícios modernos e monumentos aperfeiçoados. Vi o Coliseu, o Big Bang, o arco do Triunfo e a London Eye, a muralha que cercava tudo era a Muralha da China. Todos em tamanhos maiores e intocados pelo tempo.
Uma avenida principal se ramificava quatro, depois em várias ruas menores e nos conduzia para o centro. Olhando para lá pude entender o que Drake dizia. “Infinitamente maior que qualquer outro.”
–Meu Deus, isso é real mesmo?
Ele fez que sim. Podia estar rindo da minha surpresa, mas estava sério. Ali podiam matar com um simples estalo de dedos. E nem ele era forte o bastante para me proteger.
Perto do castelo, as ruas estavam vazias e silenciosas. Exceto por uma pessoa.
–É o Peter. –Disse. Eu teria dito Nick, só que em uma versão menor e mais séria. Com olhos verdes e escuros, ao invés de castanhos e vivos. –Vou te deixar aqui, se esconda.
–Drake. –O irmão cumprimenta rigidamente ao vê-lo se aproximar.
Tudo aconteceu muito rápido e fiquei observando de uma distância segura. Drake avançou para socar o rosto do outro, que não teve tempo de se defender devido á surpresa do golpe.
O Peter/Nick caiu no chão com um barulho abafado que ressoou pelo lugar e foi arrastado até onde eu estava de uma maneira não muito gentil. Drake fez surgir uma grande lata cheia de lixo, onde colocou o irmão com uma expressão de imensa satisfação.
–Nossa. –O soco devia ter sido muito forte para deixa-lo desacordado. Eu esperava que o Peter/Nick não ficasse com alguma sequela daquilo.
–Se não me respeitar mais, vai ganhar bem pior que isso, seu nanico. –Ele disse para o irmão desacordado. E para mim: -Venha.
Era loucura o que eu estava fazendo. Confiar minha vida e meu futuro, qualquer que seja, àquele cara. Mesmo que o cara tivesse me impedido de estatelar no chão. Ele não sabia o que eu procurava e eu não sabia porque ele me ajudava.
Iríamos entrar no castelo dos Cinco sem saber se voltaríamos vivos.
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