Dama Da Noite
25 Um Estranho Ataque
-Mãe! Vem rápido! –A loirinha gritou, me sobressaltando.
Ela, Kat e pequeno Rick aparentemente haviam ido me procurar no quarto, não me encontraram lá, mas sim na sala nesse estado. Agora me olhavam, horrorizados. Será que eu estava mesmo tão ruim assim?
-Quem fez isso? –Val disse, contendo por pouco um palavrão.
Passando por ali casualmente estava o Drake, o indiquei com a cabeça, muito incapaz para falar qualquer coisa. Me lembro de ver olhos azuis relampejarem com raiva e alguém correndo.
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-Como pode? –Fui acordada no meio da noite. –Minha própria filha tentou me matar!
-Você quase me matou. –Os olhos dele eu não via, apenas um reflexo de luz tênue nos cabelos loiros dele.
-Está viva, não é?
-Você também está, não é? –Ele ergueu uma sobrancelha. Bem, pelo menos ele podia fazer aquilo, ao contrário de mim, com um corte no rosto. –Se aproveitou de mim.
-O que?! –Agora ele estava zangado.
-Bem feito. Val devia ter te esfolado mais.
-Estou melhor que você.
-Já se olhou em um espelho? Acho que não, aproveitador.
-Você não sabe do que está me acusando. –Balançou a cabeça, meio cínico. –Ou será... que não se lembra?
-Não fiz nada, é por isso que não lembro. –Me defendi.
-Então, me diga o que é... –Ele, para meu espanto, abaixou a gola de sua camisa. –isso.
Se eu pudesse cair para trás e não morrer de dor por isso, eu teria caído. Mesmo com a luz muito fraca, pude ver a marca dos meus dedos no pescoço do cara. “Dedos traidores. Eu os arrancaria fora se não precisasse tanto deles.”
-Foi a Val, não eu. –Não era verdade, era evidente que fora eu. –Você... maldito.
Porque ele tinha que se parecer tanto com o Sebastian? Ou talvez, porque o Sebastian tinha de se parecer com ele? Era fácil ignorar a cor do cabelo? E porque eu tinha de me parecer com a esposa do Drake? Eu quis falar sobre aqueles detalhes e parar. Eu quis mesmo. Só que ele me beijava com certa fúria e doía, mas não uma dor ruim.
-Avery... –Suspirou, como que para saborear meu nome brevemente, e estremeci.
“Idiota, idiota, idiota...”. Se eu ficasse me demorando nesse mundo, o mataria ou morreria. Mas enquanto isso não acontecia, eu o beijava. “Sebastian... Drake...”
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-Não confia em mim?
-Sabe que... ahn... não.
Meus protestos eram válidos, depois do que acontecera ontem... e anteontem também. Discutíamos o lugar em que ele me ensinaria, eu preferia um lugar aberto e ele queria um espaço fechado onde não pudessem nos ver. Acordei melhor e decidi que já era mais que hora de começar.
-Está bem, faremos aqui. –Cedi.
Ele foi arrastando tudo para os cantos da sala. As crianças nos observavam da porta. Era bom que ficassem ali para que nada acontecesse.
-Vamos desde o básico.
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Olhar para aquilo era uma extrema desfeita á mim, a marca no pescoço. Foi conveniente que Val tenha batido nele, assim poderiam confundir com qualquer outra coisa. Eu não me orgulhava nem um pouco das coisas que andava fazendo, mas Drake bem que mereceu ter apanhado mesmo. Eu estava sendo uma garota muito má. Mas... mas... Sacudi a cabeça para me concentrar.
-Pedra! –Ele disse.
Isso, por mais inacreditável que fosse, não era uma brincadeira de pedra papel e tesoura, era um treino. Na verdade, um teste para meu aprendizado. Ele me dizia as coisas e eu tinha de fazê-las surgir o mais rápido possível.
-3...2 e... Ai! –Drake me olhou entre sério e divertido. –Não vai ganhar pontos se ficar acertando o professor. –Estreitou os olhos escuros e me preparei para a próxima. –Livro! Shakespeare?!
Dei de ombros em vista da confusão dele. Shakespeare era ótimo escrevendo dramas e romances, então e daí? Eu gosto bastante das obras dele.
-Fotografia!
Me surpreendi ao ver a imagem na maldita foto. Era a mesma que eu tinha no meu escritório. Peguei-a depressa e rasguei. Fui olhada com muita atenção.
-O que era isso? Quem...? –Ficou curioso.
-Não era nada. –Pude sentir o calor subindo ao meu rosto. –Continue.
Ele me disse algumas palavras. Só podia estar me testando com elas. Uma arma, uma flor, um caderno. Um punhal, uma rosa e meu diário (confiscado por mim, claro). Seguimos em um teste longo e chato, até eu perceber que a cada coisa que fazia surgir ele se irritava mais.
-O que é? –Pergunto, quase com inocência.
-Teste encerrado. –Disse, forçando as palavras a sair e se levantando em seguida com violência.
-Drake, espera! O que é?
-Você. Pensando nessas coisas. Shakespeare, rosas, punhal. Que diabos!
Entendi, ele estava reagindo de maneira muito ruim ao meu ataque de pensamentos românticos inexplicável, com tantas “coisas de garota”. Podia afirmar pelo modo com que ele disse “Shakespeare, rosas e punhal”, como se fossem algo totalmente repugnante. Mas ora, tenho apenas 22 anos, que se dane. Tudo está muito confuso... e a culpa disso nem é toda minha.
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No restante da (romântica) semana, Drake mandou Val me dar as aulas em seu lugar. Talvez ele não quisesse mais aguentar aquilo. Que bom para mim.
Fui bem aconselhada por ela. E pela loirinha Marguery e Kat também. Fornecendo o máximo de detalhes que podia, mas sem deixar que ao menos desconfiassem da situação real e das pessoas envolvidas.
Mas como eu andava alegando estar “curada”, Drake resolveu que reporíamos algumas aulas... no fim de semana. Temível, já que Gabe estaria em casa. Aliás, pra que diabos eles contavam os dias? O tempo ali era infinito. Muita coisa nesse Velho Mundo não faz sentido para mim. Quando eu disse isso para ele, respondeu que não faríamos a reposição aqui, o que era bom. E que seriam durante a noite. “Como em um encontro” pensei, estremecendo.
-Prefiro ficar com o Gabe. –Resmunguei baixo para que ele não ouvisse. Então, recitei um poema daqueles bem doces. –Viu? Ainda estou ruim, não vai querer me dar aulas, não é?
O sorrisinho dele queria dizer “Vou te dar essas ‘aulas’ de qualquer jeito, garota”. E eu até tentei fugir da casa várias vezes, mas ele sempre me impedia. Estava atento e disposto a fazer aquilo.
Achava melhor não correr o risco de ser... assediada ou mesmo de... assediar. A simples idéia me deixava vermelha. O risco de confundir a cor dos cabelos e, principalmente, o risco de não ligar para isso é perigoso.
“Sebastian... Drake... Sorriso fácil, postura desleixada, cara de tédio, roupas pretas, mandão.” Pensei apenas para não me esquecer dos detalhes.
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