Dama Da Noite
38 Testando uma Habilidade
Notas iniciais
Acordei, mas ela estava dormindo. O que fazer? Eu não conseguiria dormir de novo e talvez fosse uma má ideia dar uma volta, visto que ela morava em um prédio e um monte de gente poderia me ver.
Levantei com cuidado e olhei o quanto Avery dormia tranquilamente; aquilo me fez sorrir. Decidi me livrar da minha camisa em farrapos e a joguei no lixo. Difícil seria arrumar uma nova sem poder ir para lugar nenhum. Então, tive uma ideia. “A Guardiã!”
Ressonando, encostada na porta do quarto, foi onde a encontrei. Com certeza postada ali para nos observar durante toda a noite e verificar se nada aconteceria. Sacodi ela levemente pelo ombro.
-Quem...?! –Acordou assustada, me acertando com um soco. “Porque isso me é tão familiar?” penso com uma ironia amarga, enquanto por precaução consto se ela não quebrou meu maxilar. -Ah, Sebastian. Desculpe.
-Tudo bem. –Tentei dizer, sem ressentimentos por começar o dia sendo agredido. –Pode me arranjar uma camisa?
A pequena olhou para mim, finalmente constando que eu só tinha minha jaqueta em um estado, digamos, que eu ainda pudesse usar sem levantar muitas suspeitas, e jeans. Ela começou a ficar vermelha, mas tentei ignorar.
-Então? Talvez um jeans também se puder. Os meus estão cheios de sangue. Que tal? –Propus.
-Er... Tá. –E desapareceu tão rápido que eu teria perdido isso se tivesse sequer piscado.
Uma missão cumprida, me dirigi á cozinha para vasculhar a geladeira e por em teste minhas habilidades culinárias. Por precaução, e porque aquela era minha melhor (e única) peça de roupa em um estado aceitável, tirei a jaqueta e a deixei sobre o balcão. Então, fui ver se conseguia fazer alguma coisa para matar a fome e o tempo.
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Andy cozinhando para mim? Isso era algo muito, mas muito raro de acontecer. Ou será que era Joey, que conseguira entrar aqui de novo sem minha permissão ou conhecimento? Eu ainda não podia ter certeza de nada.
Acordei no escuro com a estranha sensação de que estava me faltando algo, mas os cheiros logo dispersaram minhas preocupações e fui andando sonolenta rumo á cozinha para descobrir o que era aquilo e quem estava fazendo o jantar.
-Hey. –Me cumprimentou.
-Se...Sebastian. –Murmurei, em meio a um bocejo. –Que está fazendo?
Então, a sensação de algo que me faltava queria dizer que ele deveria estar ali. Meus pensamentos confusos ao acordar podem ser bem justificáveis. A coisa toda parecia um sonho louco e estranho. Ir para outros mundos, lutar, me ferrar, descobrir habilidades... matar ele.
-Fiquei com fome, então fiz macarrão. Quer um pouco?
-Ah... Quero, claro. Quero sim.
-Bem, não sei se o molho ficou muito bom. Não costumo cozinhar muito.
-Não, não. –Me apressei a exclamar, enfiando uma grande garfada na boca. –Está ótimo. Você cozinha muito bem. –“Melhor que eu, com toda certeza”.
Devia estar tentando ser modesto, porque estava bom mesmo. E aquele era um dos meus pratos favoritos. Mas não tinha como ele saber disso... Tinha? Mas de qualquer modo, comemos os dois até não sobrar nada.
Me achava muito estúpida por ficar tão acanhada perto dele, mas eu parecia ter 18 anos de novo e ele ainda era o Senhor da Terra das Sombras, misterioso e indecifrável, intrigante. De jeans e jaqueta na minha cozinha com os cabelos negros bagunçados de um jeito provocante...
Finalmente reuni coragem suficiente para levantar a cabeça e olhar para ele, e do jeito que sou estúpida, a primeira coisa que notei e disse foi:
-Hum... Você... tem uma mancha aqui. –Apontei.
-Ah, aqui?
-Não, aí não.
-Aqui?
-Não, ainda não saiu.
-E agora? –Balancei a cabeça em negativa e ele ficou frustrado. –Droga. Será que você não pode... fazer isso por mim?
Hesitei com a pergunta, mas me lembrei de minha covardia anterior ao evitar olhá-lo e decidi supera-la. Afinal, eu não era mais uma garotinha e tinha de saber lidar com qualquer tipo de problemas devido ao meu trabalho. Embora eu tenha certeza de que isso não esteja incluso entre eles.
Depois de uma pequena e breve guerra na minha cabeça, incrivelmente sem a participação de Andy, me inclinei para fazer o que ele pedira.
Mas minha maldita decisão foi com certeza muito errada. Tudo aconteceu tão rápido que nenhum de nós teve tempo para sequer registrar os fatos. Estou complicando as coisas. O que realmente aconteceu foi que eu, como sou idiota, me desequilibrei e caímos ambos. Olhei direto para ele e perguntei com um pouco de preocupação:
-Você está bem?
-Sim, eu acho. Só que... talvez eu fique com a marca da cadeira nas costas por um tempo.
Rolei para o chão e fiquei ao lado dele. Então começo a rir.
-Qual a graça?
-Não sei direito, apenas me faz rir. Mas... –Me levantei e estendi a mão para ajuda-lo a fazer o mesmo. –Deixe-me ver isso, pode ter machucado.
Ele abriu o zíper e tirou a jaqueta, então eu vi...
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Como ela me pediu, tirei minha jaqueta. A expressão dela começou a mudar e ela foi ficando vermelha. “Do mesmo modo que a Guardiã, só falta desaparecer também. Parece que só agora ela notou que destruiu minha camisa e é por isso que não estou a usando”.
Que droga. O humor dela era esquisito, mudava muito rápido. Uma hora calma, outra feliz, confusa, envergonhada e por aí vai. Será que tinha um padrão no meio daquilo tudo? Como é que eu ia poder entender com meu cérebro humano simples e devagar? Era tudo muito complexo e tantas possibilidades me ocorreram que pensei que fosse ter dor de cabeça.
-O que...? Avery?
Eu achava que tudo já estava ruim o bastante, mas para completar o negócio todo, apareceu a Guardiã trazendo minhas roupas novas. Então foi a vez dela começar a ficar vermelha e ficou nos olhando como se estivéssemos todos loucos e fazendo coisas indevidas.
“O que?! Qual é. Quando vamos conseguir quebrar esse gelo entre todos nós?” Antes que eu pudesse falar algo ou tomar uma atitude, a Guardiã falou primeiro, ainda com seu olhar estranho e censurador:
-Que é que vocês estão fazendo?! Acho que cheguei em uma má hora, não é?
“Ah, as possibilidades de poder fazer algo de errado como o que ela provavelmente estava pensando ainda nem tinham me ocorrido. Essa aí tem uma mente bem suja” penso, meio indignado e ofendido por ela ficar desconfiando tanto de nós.
-Não é o que você pensa, Andy! –Respondeu, tentando consertar as coisas.
Fui outra vez bem observado e vi um rosto ficar tão vermelho quanto podia, depois, sabe-se lá como ou porque, ela apagou.
-Avery! –A Guardiã se esquece de toda e qualquer bronca e discurso moralista, largou as roupas e mais que rápido correu para ajudar sua humana.
Eu a amparei antes que caísse e, com um suspiro, mas mesmo assim satisfeito com a oportunidade, a carreguei para o quarto.
Só espero que o próximo jantar termine melhor.
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Infelizmente eu consegui me lembrar de alguns detalhes bem desagradáveis da noite anterior e acordei furiosa pelas suposições de Andy. Aquela Guardiãzinha sacana que fica imaginando coisas.
Outra vez, alguém cozinhava para mim, só que agora era de manhã. Devia ser Sebastian de novo, mas pude constar que era minha Guardiã, certamente tentando reparar tudo.
-Me desculpe pelas ideias erradas. –Ela disse, me servindo meu café da manhã preferido.
Olhou para o meu agradável rosto matinal carrancudo cheia de receio, mas lhe dou um sorriso, cheio de sono, e ela relaxa quase que no mesmo instante.
-Tudo bem, Andy.
Sebastian chegou, se sentando ao meu lado. Parecia bem animado e me roubou um pão.
-Aí está você. Dorme mais tempo do que fica acordada, sabia? –Observou, sorrindo.
Comecei a corar, mas notei que ele estava com uma camisa preta nova. “Ainda bem” fico aliviada. Tenho de anotar: não destruir camisas durante as lutas. Lembro de um incidente com o pai dele, Drake, e começo a corar mais forte. “Pare de lembrar disso. Andy não pode saber dessas coisas” me repreendi.
-Hoje vamos sair. –Anunciei, acabando de decidir aquilo.
-Que? –Os dois se surpreenderam.
-Precisamos ver como você se sai como humano. –Justifico.
-Mas sei tudo sobre humanos.
-Sabe teoria. Vamos ver como vai na prática.
Terminei o café e arrastei Andy para o quarto comigo, dizendo para que ele esperasse até eu ficar pronta. Tranco a porta.
-Porque está me trazendo junto? –Perguntou, confusa.
-Me ajude a preparar tudo.
-O que? –Ela entendeu a indireta depois de me olhar. –Estava falando das...
-Consequências, sim. –Sussurrei. –Algo pode acontecer. Algo sério. É mais inteligente ficar preparada.
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