Dama Da Noite
43 Rachel e Daniel
Alguém estava me cutucando de maneira persistente. Sentei rápido e acabei batendo a cabeça em algo.
–Ai!
Eu abri os olhos para ver Avery esfregando a testa. Mesmo assim ela sorriu.
–Porque está dormindo aí?
–Não sei. Acho que porque é mais perto do seu quarto.
–Sei. Se apronte, e não demore muito.
–Logo agora? Ainda é de manhã.
–É, decidi acordar mais cedo. Quero te mostrar todos os lugares que eu gosto.
–Mas porque me acordar desse jeito?
–Prefere que eu faça como antigamente? Porque se quiser, posso chuta-lo sem problema.
–Ahn... Acho que não.
–Foi o que pensei. Levante, vamos lá. Não tenho tempo a perder.
Eu preferia mesmo ficar por ali, mas sair nunca vai ser má ideia, de modo que fiz o que ela pediu para tomarmos café fora de casa. Segurei a mão dela, me lembrando do beijo de ontem, e me preparei para ser arrastado por aí durante todo o dia.
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–Rachel! Rachel! Ei, Daniel! –Eu estava sendo puxado em direção á um casal sentado no fundo do restaurante.
Obviamente não parecia que eles queriam ser incomodados, levando em conta o lugar que escolheram para sentar. Mas Avery não se incomodava com esse pequeno detalhe. Na vida dela quase não existia a chamada privacidade, graças á Andy.
A noite estava bem bonita e ela me levara ali, dizendo ser o melhor restaurante da cidade. Realmente, o lugar estava cheio. Mas eu teria gostado mais de um local reservado e que não acabássemos fatalmente encontrando os amigos dela.
–Avery, o que está fazendo aqui? –A garota perguntou, em um tom agradável que escondia relativamente bem sua verdadeira irritação.
Ela riu, percebendo isso e parecendo satisfeita, como se quisesse mesmo irritar a outra.
–Foi só coincidência, garanto. –Respondeu, acenando para o garçom juntar duas mesas.
–E esse, quem é?
–Sebastian. –Disse vagamente, se concentrando em instruir o garçom confuso.
Mais tarde, Avery me disse que sabia que os dois estariam ali, então não era coincidência nenhuma. Era só outro plano dela para me apresentar aos amigos.
–Rachel, minha vizinha. E Daniel, ou Dan. –Me falou, se sentando.
Olhei para o cara alto e surpreso, só para verificar se ele não representava algum risco para mim. Ele parecia bem calmo. Ao contrário da garota ao seu lado. Lidar com ele não seria mais difícil do que foi com Jean.
Depois de um tempo, eles já sabiam algumas coisas mais ou menos verdadeiras sobre mim. Avery ainda irritava a colega quando viu as horas e decidiu que tínhamos de ir embora.
–Não chegue muito tarde, Rachel. Dan não pode passar tanto da hora.
–Cale a boca, Avery. Estou de férias, posso chegar quando quiser.
–Ah, está é? Milagre. Eu também estou, mas acho melhor continuar seguindo algumas regras. Não importa então. Até mais!
Saímos. Respirei o ar noturno aliviado por aquilo acabar.
–Está frio. E chuviscando. –Observo, entregando minha jaqueta para ela.
–Posso ficar mais feliz com você sempre vestido isso agora. Obrigada.
–Não... Não precisa agradecer. –Sussurrou bem baixo.
–Foi divertido, não? Rachel se irrita muito fácil. –Avery começou a caminhar na chuva. –Não me surpreende não tê-la encontrado ainda no prédio, deve estar passando cada segundo das férias com Dan. O que achou?
–Legal, mas da próxima vez preferia não achar nenhum amigo seu.
–Eles tem de se acostumar com você. –Ela riu. –Afinal, parece que vamos passar bastante tempo juntos, para a infelicidade de Andy.
–É. –Ouvimos a voz zangada da Guardiã.
–Não dá para evitar. –Ela se virou de súbito para me abraçar, encostando a cabeça em meu peito. –Acabei gostando desse idiota.
Ignorei o comentário sobre eu ser um idiota. Andy não estava atrapalhando, eu quis aproveitar aquele momento e senti-la junto de mim. Abracei-a forte.
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–Você está com febre. –Sebastian disse, pondo a mão na minha testa.
–Ela está gripada. –Andy completou.
–Desculpe. Não deveríamos ter voltado andando na chuva ontem á noite.
–A culpa não foi sua. Mas acho uma droga não podermos sair tanto quanto antes. Você vai ter de cuidar de mim, para que eu...
–Opa, vai parando com esse clima entre vocês dois, senhorita “Estou doente mais continuo maliciosa”. Como é que eu fico?
–Pode ajudar também, Andy. –Respondo, fazendo uma careta.
–Só precisa dormir e descansar, amanhã já vai estar melhor.
–Não quero dormir. Acabei de acordar!
–Tem que ficar quieta aí, então é melhor que consiga. Até amanhã de manhã.
–Andy, não! –Protestei.
Mas ela já havia empurrado Sebastian para fora e batido a porta. Arrumei minhas cobertas e afundei no travesseiro. Lá se foi um dia que poderia ter sido divertido. Pelo menos eles vão passar um tempo juntos. Isso pode ajudar Andy a superar essas desavenças.
O tempo estava nublado e escuro. Bocejei, começando a considerar a proposta de dormir de novo. Essa talvez não seja uma ideia tão ruim, só espero que quando eu acordar os dois estejam vivos.
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A Guardiã se sentou no chão, encostada na porta. A expressão dela não era nada amistosa. É, eu tinha de pelo menos tentar conquistar a confiança dela, mas não parecia que ia ser fácil.
–Você... Nós... Não devíamos fazer algo?
–Ela vai ficar bem. É só uma gripe leve.
–Podemos fazer algo para ela comer. Como uma sopa, ou coisa assim. Avery gosta disso?
Me olhou desconfiada, talvez se perguntando onde eu queria chegar com aquilo. Mas mesmo assim, ela concordou com a cabeça. Guardiões quase nunca hesitam em ajudar seus humanos.
–Ótimo.
Comecei a procurar tudo o que precisaríamos enquanto ela decidia se ia se levantar para me ajudar ou se me orientaria dali mesmo.
Andy levantou e caminhou ainda séria em minha direção. Foi me dizendo coisas do tipo “Coloque mais pimenta” e “Corte bem isso aí”. Fiz tudo com um sorriso discreto no rosto, ela me dando as instruções sentada no balcão, parando apenas para se inclinar e me repreender com um tapa na cabeça.
–Isso dói.
–Faça direito então. Agora me dê, eu vou levar.
–Tudo bem.
Ela empurrou a porta do quarto com cuidado e Avery olhou rápido para nós, sorrindo. Ela estava lendo um livro.
–Dormiu?
–Um pouco. Acho que tempo suficiente para me trazer isso.
–Bom, como está?
–Falta um pouco mais de pimenta. –Me surpreendi, porque eu já achava que estava picante demais. –Mas está tão bom quanto sempre esteve. Obrigada Andy.
Tentei pigarrear o mais discretamente possível para atrair a atenção dela.
–E Sebastian. –Completou com um sorriso, que devolvi.
–Descanse mais um pouco. –Andy me empurrou para fora do quarto outra vez, fechando a porta. Ela parecia bem satisfeita com o resultado dos nossos esforços. –Bom trabalho. –Disse para mim.
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Aquela cena de levar e trazer se repetiu muitas e muitas vezes durante o dia, com a pequena diferença de que aperfeiçoamos a sopa para ficar bem do jeito que Avery queria. Cheguei á conclusão de que só podia ter algo de estranho naquilo, afinal uma pessoa normal não poderia passar o dia acordando e dormindo, poderia?
Por outro lado, a única coisa que eu e a Guardiã fizemos foi discutir sobre quais os gostos de Avery. Ela me repreendendo e eu andando pela casa ansioso sem ter algo para me distrair.
–Muito bem. –Andy se desencostou da porta, ficando de pé. –Já me decidi.
Esperei, olhando para ela meio nervoso. Normalmente, não me vinham coisas boas dessas decisões dela.
–Vou te dar uma chance hoje. Mas... –Ela apontou um dedo acusador para mim. –É melhor não tentar nada.
Certo, esse é um monólogo meio esquisito. Fitei o céu noturno através da janela da sala, aguardando mais um pouco para ver o que ela queria me dizer com aquelas coisas.
–Pode dormir com a Avery.
–Ahn... –A informação é surreal demais para ser processada rapidamente. –É sério?
–Vai ficar aí parado, esperando que eu mude de ideia e me arrependa?
Devíamos trabalhar juntos mais vezes...
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