Dama Da Noite
48 O Que Vem a Seguir
Notas iniciais
Tudo que eu precisava estava devidamente organizado sobre a mesa. Rachel dormia ao meu lado, cansada. É bom ter uma advogada de prontidão para ajudar ás vezes. Eu fitava o teto, nervosa, esperando. As portas abertas, o quarto escuro, tudo parecia prender a respiração e aguardar comigo.
Uma sombra grande se movimenta no corredor. Ai meu Deus, como eu gostaria de estar errada. Vejo um objeto prateado refletir a luz da lua. Aquilo é uma faca, o que significa que Andy fizera como eu dissera. Ouço o sussurrar do ar ao meu lado e uma mão se estende para sufocar meu grito.
–Shh. Ele está aqui.
–Quer me matar? Estou aterrorizada. Parece um filme de terror então você ainda vem e...
–Shhh. Se concentre ou alguém pode realmente morrer hoje. E a culpa será sua.
–Tudo bem. Ele está vindo. Sei o que fazer.
O dono da sombra chega á porta do quarto. Estando escuro ou não eu não deixaria de reconhecer aquela silhueta. Se aproxima de modo muito silencioso. Vejo o lampejo da faca e... Com as duas mãos, seguro o pulso dele com firmeza e o forço a recuar.
Salto da cama e o prendo no chão. Ele é muito, muito forte, e eu não quero acordar Rachel, então decido acabar com isso o mais rápido que puder.
–Por que diabos está sorrindo? –Andy me censura.
–Faz tempo desde que lutei pela última vez. É uma sensação boa.
–Tem alguém correndo risco de vida aqui, não é hora de se divertir.
–Calma, ele está voltando á si.
Parou de tentar resistir e solta a faca, pouco a pouco ele me focaliza.
–Avery... o que... aconteceu?
–Sinto muito, mas você está louco. –Sorri. –E sabe o que faça com loucos?
E estava confuso. Claro, eu teria de explicar tudo. O que fazíamos ali? Porque ele estava segurando uma faca? Simples: Sebastian era um assassino.
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Para minha completa infelicidade, minha dedução se provara correta. Pessoas inocentes e desconhecidas morreram, Rachel não sabe mas quase foi morta também e meu namorado andou fazendo coisas enquanto eu não estava. “Ótimo, tudo está perfeito”, penso com uma ironia amarga.
Em casa, termino de escrever algumas coisas e entrego um papel para Andy.
–Que é isso?
–Dê para Mitchell, ele saberá o que fazer.
–Quando?
–Agora! Vá rápido e não se demore.
Mitchell certamente poderia providenciar todos os documentos humanos e até inventar alguma história para que Sebastian pudesse viver normalmente ou o quão normal conseguíssemos. Ele não devia estar a par do que seu irmão andava aprontando. Ele me ajudaria.
Eu me imaginava que as consequências da falta de um Guardião pudessem se manifestar daquela forma. E, por Deus, como alguém consegue matar tantas pessoas, não se lembrar e nem ser apanhando? Polícia estúpida, Sebastian idiota... Ele não deixava nenhuma pista.
Só mais alguns meses e poderíamos... o que? Eu escolhi lidar com uma coisa de cada vez. Primeiro transforma-lo em humano, depois esperar pelo Guardião e então... viver; um dia após o outro, apenas isso.
–Você irá para o trabalho comigo. –Digo, me sentando na cama.
–Eu tentei... matar você? –Pergunta, inseguro.
–Uma vez. Sim. –Admiti.
–Desculpe, desculpe. Eu sinto muito, muito mesmo...
–Tudo bem. –Tudo bem?! Foi assustador, porque diabos estou dizendo isso? –Deite aqui.
Ofereço-lhe meu colo, com um suspiro. Ele segura minha mão e se apoia no cotovelo, me fitando.
–Muita coisa mudou desde que nos conhecemos, não é?
–É.
Sebastian me beija de leve. Sinto algo se agitando bem no fundo, dentro de mim, e sorrio, corando de maneira involuntária. Deus, isso foi bom, mas...
–Nunca vou deixar isso mudar. Prometo.
Ele se deita. Me disponho a acariciar os cabelos negros e rebeldes dele, satisfeita, apesar da situação adversa. Um dia de cada vez... Fico presa aos meus pensamentos antes de dormir também.
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Tudo está escuro. É bem provável que ela já tenha ido para o trabalho, como de costume. Fecho os olhos novamente e estendo os braços, me esticando na cama. Toco algo macio, que subentendo como sendo o travesseiro, e corro minha mão por ele, apertando um pouco para amacia-lo, então me viro para deitar sobre ele e quem sabe dormir mais um pouco, sonolento.
Alguma coisa se desvencilha de mim e ouço passos. Sou acertado dolorosamente no estômago e me dobro de dor.
Andy está me encarando com fúria e vejo Avery na porta, de costas para mim, com os braços cruzados na altura do peito. Ela parecia meio corada.
–Mas que raios de coisa você pensa que está fazendo?! –A pequena Guardiã vocifera.
–Que foi que eu fiz?! –Exclamo, sem entender. –Ah, espera...
O sono estava afetando um bocado do meu raciocínio até aquele momento. Coisa macia, Avery corada, braços cruzados na altura do... do... Agora eu também fico um pouco envergonhado. Fito minha mão, a abrindo e fechando. Hum, parece que não era o travesseiro.
–Você entendeu, não é? Não tem amor pela vida?
Saltei da cama e passei pela porta, correndo.
–Pelo amor de Deus, não me mate! Acabei de me tornar humano! Quero continuar vivo! Andy, não! Avery... Ai. Me desculpe!
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Encostada na parede do quarto, lentamente escorreguei para o chão e apertei os joelhos contra o corpo. Meu rosto está pegando fogo. É difícil pensar. Ouço alguns barulhos, mas é como se tudo soasse abafado na minha cabeça. As coisas parecem estar girando um pouco...
Andy. É melhor impedi-la de matar Sebastian. Por fim, consigo pensar em algo coerente, então caminho, meio grogue, e observo minha sala totalmente bagunçada. Ele estava sendo espancado com... com... almofadas. Isso era muito estranho da parte da minha pequena Guardiã. Ela deveria estar realmente o espancando. Mas ao invés disso, por trás de sua fúria, ela estava tentando não o machucar. Não importava muito, ela sabia que hoje ele acabaria sendo muito mais ferido no emocional e psicológico do que fisicamente.
–Largue essas almofadas, Andy. Preciso ir trabalhar.
Ao som dessa última palavra, seu senso de responsabilidade a despertou. Com certa raiva, ela o deixou escapar. Ficamos sozinhas na sala enquanto ele ia se arrumar para me acompanhar.
–Mas Avery... –Choramingou, me olhando com súplica. –Ele... ele... Não posso permitir isso!
–Por favor, esqueça o que aconteceu. Você sabe o que vou fazer hoje...
–Argh, tudo bem. Por você. Agora vamos ao trabalho. É melhor acabar com isso de uma vez.
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