Dalet
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Eu não queria falar e muito menos discutir com Idrian. A decisão dele já estava tomada e nada do que eu falasse iria mudar algo. Bem, a tenda estava uma bagunça e eu deveria arrumá-la. Comecei a pegar os lençóis e a dobrá-los, mas Idrian me impediu tirando-os da minha mão e os jogando novamente no chão.
–Isso não é justo. — Me assustei com o seu grito, mas tentei não mostrar isso.
–O que justiça tem a ver com isso? — Segurei o seu olhar irritado, exatamente como o meu. — Nada do que eu faça ou diga irá te fazer mudar de idéia... Então porque eu devo falar alguma coisa?
Sai da tenda antes que pudesse falar coisas que iriam nos magoar, geralmente é isso o que as pessoas fazem quando estão com raiva.
Eu não esperava que todos estivessem ali fora, mas os ignorei e corri o mais longe que eu podia.
Totalmente sem fôlego parei ao encontrar uma clareira, olhando rapidamente para o lugar encontrei alguns troncos posicionados no chão e sem me preocupar com o musgo, neve e insetos me sentei fechando os olhos e controlando a raiva e o choro.
Eu conseguia ouvir o som da floresta.
Batidas de asas, aves cantando e insetos zunindo. Era como se eu estivesse na campina da cabana novamente e estava dentro da minha bolha, só que sem o Idrian.
Eu estava sendo egoísta, porque a intenção dele, e também de Cassiz, era ajudar lutando contra Rhadas e contra o governo autoritário que nos escravizava, mas isso era fácil falar observando de fora. Dentro da minha bolha, era como se Maser estivesse fazendo de tudo para afastar de mim as pessoas importantes da minha vida.
Talvez eu devesse estourar essa bolha individual estúpida também.
Ouvi o barulho de folhas sendo pisadas e instintivamente levantei a cabeça na direção do som e não me assustei ao ver Maser andando até mim, mesmo com aquele lenço estranho balançando ao vento fazendo a cena toda parecer bizarra.
–Então, minhas suspeitas estão confirmadas, Idrian já te contou sobre a missão. — Ele se sentou ao meu lado, não muito perto, e sua voz parecia preocupada. Ouvi um pássaro cantando ao longe me distraindo e decidi que era melhor ignorar Maser. — Eu não queria que ele fosse... Ele se voluntariou e fiz o que pude para convencê-lo a ficar, mas... Tudo o que eu falar, sei que irá parecer uma desculpa... E é. — Houve um silêncio e achei que talvez Maser estivesse esperando por uma resposta, mas não tinha o que falar agora. — Idrian, como Cassiz, não vê isso aqui como uma reunião de Alefs até Hês, eles vêem mais longe... Como será no futuro e não querem medir esforços para isso. — Se eu pudesse falar algo agora, com certeza iria mandar Maser calar a boca, mas queria seguir com o meu plano de ficar calada. — Sabe qual o significado da palavra "sacrifício"? — Ele me esperou para responder, mas não queria admitir que apesar de saber sobre essa palavra, eu não sabia direito sobre o que ela expressava. — Bem, milhares de anos atrás as pessoas adoravam a deuses, que acreditavam terem poderes para protegê-las , sei que você não entende sobre os deuses, mas irei ser bem objetivo no ponto, essas pessoas para receberem bênçãos dos deuses sacrificavam alguma coisa... Animais, castidade ou pessoas. Imagine o quanto deveria ser assustador ser sacrificado, ou ser morto, para um deus... Isso requeria uma renúncia voluntária e abnegação, porque era visto como uma coisa digna de apreço e estima. — Ele tinha razão sobre não entender o que ele estava falando, talvez ele devesse desistir de me animar e parar com essa história de morte. — Sacrifício significa colocar em risco os próprios interesses para interesse de outras pessoas... Idrian e Cassiz entenderam o que significa sacrifício e além disso, entenderam que tudo o que fazemos no presente poderá mudar o nosso futuro. E você, June... Entende também? — Ele estava certo, eu não entendia e fazia o máximo de esforço para não querer entender. A única palavra que parecia que eu entendia o significado era "egoísmo". — Seu pai me disse uma vez que quando você estivesse entre nós, toda a nossa causa faria sentido... Não sei o que Micht pretendia dizer com isso, mas estou começando a duvidar de que ele falava da mesma garota que está ao meu lado agora.
Senti vontade de chorar, mas me segurei engolindo seco.
Parecia que Maser já havia transmitido sua mensagem e o vendo partir cabisbaixo me senti como uma criança tola que acabara de decepcionar a mãe e isso só fez aumentar minha raiva.
–Sabe... — Maser se virou no mesmo instante e era estranho não ver seu rosto, mas era como se eu pudesse ver através do lenço que ele estava surpreso por ter falado com ele finalmente. -... Concordo com você. Eu não sou essa garota.
Ele ficou me encarando por alguns segundos enquanto eu mantinha o meu olhar confiante e até pensei que ele iria rebater tentando me convencer a ser como Idrian e Cassiz, mas ele apenas se limitou a se virar para a frente e continuar andando em direção ao acampamento.
–Se eu fosse você voltava logo... — Sua voz alta ecoou pelo o lugar e até mesmo assustou alguns pássaros que saíram de dentre as árvores perto de nós e sumiram no céu cinza. -... Tem algumas crianças escondidas na tenda dos mantimentos esperando para serem encontradas.
*-*-*-*-*-*
Passei o dia evitando Idrian e Maser.
Todos os dois estavam irritados, e decepcionados, comigo e não era como se eu pudesse de repente perceber o quanto estava errada.
Eu não queria.
Passou pela minha cabeça voltar para a cabana escondida, mas a idéia de deixar Cassiz e Idrian causou em mim sentimentos ruins.
Eu sabia que não conseguiria,mesmo que minha teimosia gritasse para tentar.
O que me restou foi brincar com Dallas enquanto Sebastian ao longe nos fitava curioso consequentemente me irritando.
–Sebastian parece gostar muito de você. — Tentei soar indiferente, mas depois me lembrei que estava conversando com uma criança e não um adulto cheio de jogos.
–É. — Dallas tinha sua total atenção em uma tiara de folhas que estava fazendo enquanto estávamos sentadas em frente a minha tenda. — Desde que meus pais morreram, ele cuida de mim.
Me senti mal por isso.
Eu a conhecia por apenas um dia, mas deveria ter percebido que não havia visto ela chamar nenhuma mulher de mãe ou homem de pai pelo acampamento, ao contrário das outras crianças.
Agora entendia o instinto de proteção de Sebastian.
–Meus pais também morreram.
Por algum motivo eu queria que ela se identificasse comigo também, não apenas Sebastian, e encontrasse em mim uma pessoa amiga.
–E você tem Idrian para cuidar de você. — Deixando a tiara de lado, ela me encarou com seus olhos castanhos arregalados e uma vontade de pegá-la e acalentá-la me inundou.
–Mas eu não sei se ele quer cuidar de mim. — Tentei dar um sorriso torto, mas não saiu muito bom. Era Idrian que tinha o dom de encantar as pessoas e não eu.
Dallas deu de ombros pegando sua tiara e a colocando na cabeça e naquele momento para mim, era como se ela fosse uma princesa.
–Você só precisa deixar, June.
Uma resposta tão simples.
Mas esqueci de avisar a Dallas que a June não é tão simples. Ela pode ser calada e quieta, mas dentro da cabeça dela várias coisas estão a atormentando e ela não fala sobre isso. Se ela falasse ninguém entenderia.
–Vou mostrar a Sebastian minha tiara.
Enquanto ela se levantava, fiz uma reverência exagerada que teve como resultado gargalhadas estridentes. Me permiti sorrir um pouco, mas quando fitei Idrian me observando era como se tivesse perdido a graça e voltei a ficar séria.
Ele se afastou e logo depois entrou em sua tenda e me segurei para não ir atrás dele.
–Me desculpe por ontem. — Ouvi a voz de Sebastian próxima a mim e me surpreendi por ele estar tão perto e não ter percebido. — Você sabe que cada casta tem qualidades distintas... Além de soberbos, orgulhosos e fúteis, Alefs também são desconfiados.
Era interessante Sebastian ironizar sua casta, já que Alefs tem orgulho de serem Alefs. Mas Sebastian mostrava que era muito mais que uma casta estúpida.
–Dallas me disse que você cuida dela. — Encarei Dallas brincando com algumas crianças no centro do acampamento e por um instante queria eternizar aquela cena. — Isso é admirável.
–Só estou fazendo o que qualquer um deveria fazer. — Assisti-lo dar de ombros como se aquele fosse um assunto banal me fez rir. — Nós somos mais que... Essas castas estúpidas.
–"De Alefs a Dalets, todos são importantes para a Terra." — Imitei a voz robotizada que sempre fazia os anúncios de Rhadas, tentando nos convencer de que o governo queria o melhor para todos os distritos. Eram apenas anúncios estúpidos que debochávamos sempre que podíamos as escondidas. Sebastian riu com a minha imitação e tentou fazer a voz do homem robô, mas não saiu muito bem. — A melhor de todas é "Rhadas importa com você, não importa de qual casta você seja." Se fosse assim, eles não usariam Dalets para diversões depravadas e como escravos.
O olhar de Sebastian ficou sombrio e seus lábios se tornaram uma linha séria. Eu tinha tocado em algum ponto sem querer.
–Como fazem os anúncios no seu distrito? — Percebi que ele estava mudando de assunto, eu era boa naquilo e reconhecia quando alguém também era.
–Em Rety usam megafones, mas há outras cidades de Mawbey que possuem mais tecnologia. Já ouvi falar que em Dalm os anúncios são feitos por imagens que surgem nos prédios.
–Na Central eles fazem os anúncios assim também...
–Você é da Central? — O interrompi surpresa com aquela novidade.
Não há Dalets na Central e acho que em mais de quinhentos anos nenhum Dalet pisou lá. O serviço pesado era destinado aos Gimels, que aceitavam com prazer suas tarefas. Bem, são isso o que os anúncios dizem quando falam sobre trabalho.
Nunca sonhei em ir para lá, mas sempre fui curiosa por todo o mistério que colocamos nessa cidade. Só de conhecer alguém de lá, já era algo emocionante.
–Sou... Se não bastasse ser Alef, ainda sou da Central... "A principal cidade do maravilhoso distrito de Rhadas". — Eu estava admirada com o desdém dele ao imitar novamente os anúncios e isso com certeza o fez ganhar pontos. — Acredite, não é tão maravilhoso assim.
As historias diziam o contrário, mas não queria desmenti-lo, porque só tinha ele e Dallas para conversarem comigo.
–Os robôs existem ou é mais uma mentira? — De repente seus olhos castanhos tiveram um toque de atrevimento e percebi que ele estava debochando da minha pergunta. — Eu sempre ouvi histórias sobre eles... Só queria saber se eram verdadeiras.
–Eles existem e tenho certeza que você já viu alguns deles. — Arregalei os olhos surpresa e já ia questioná-lo quando o ouvi bufando. — A maioria dos repressores são robôs.
–Não acredito em você. — Estreitei meus olhos tentando não parecer infantil, mas tenho certeza que foi exatamente esse efeito que teve. — Eu já vi muitos repressores em minha vida e todos eles pareciam bem humanos.
–Vem comigo. — Sem esperar por uma resposta Sebastian pegou minha mão e me puxou pelo acampamento andando rápido o que me fazia tropeçar a cada passo que dava.
Eu tentei soltar minha mão da dele, com medo do que as pessoas pensariam... Principalmente Idrian, mas ele estava focado em me guiar até o ponto mais distante do acampamento onde se encontravam as tendas de armas e mantimentos.
–Sebastian... — Tentei não parecer rude, mas não era como se eu me esforçasse muito para isso. -... Eu quero que você me solte.
Ele não me ouviu, me irritando profundamente, e só paramos de andar quando ele estacou em frente a tenda das armas.
Olhei para trás temendo que Idrian estivesse presenciando aquilo, mas estávamos sozinhos.
–Por favor, não grite. — Puxei minha mão com força revirando os olhos e ele sorriu de um jeito debochado. — É sério, June.
Me assustei quando Sebastian me empurrou delicadamente em direção a tenda, mas me recompus para não parecer fraca.
Tomando a dianteira ele abriu a tenda e com minha expressão de indiferente o segui. Se ele estivesse pensando que iria me pregar uma peça, ele estaria muito enganado.
Ao adentrar a tenda, demorei a acostumar com o ambiente escuro, mas assim que percebi o que havia por todos os lados, segurei o grito que estava se formando.
–Não grite. — Eu não estava gritando, mas Sebastian sabia que aquilo era uma fachada e que a qualquer momento eu poderia agir histericamente. — Não são pessoas... São robôs.
Eles pareciam pessoas com olhos vidrados e rostos inanimados. Era triste, e assustador, de se ver.
Me agachei ao corpo mais próximo e toquei em sua face fria e dura.
Era um mero robô.
–O que esses robôs estão fazendo aqui?
Olhei ao redor e percebi alguns robôs com a vestimenta dos repressores e um calafrio surgiu em minha espinha. Todo esse tempo estávamos sendo mortos por robôs estúpidos.
–Os recolhemos nas missões que somos enviados. — Sebastian chutou um robô descontraído, mas me irritei com seu gesto. — Antes nós os destruíamos, mas Maser inventou de estudá-los e quem sabe de serem úteis para nós.
–Você acha que isso pode dar certo?
Sebastian deu de ombros.
–Eu não sei de nada.
Sebastian conseguia ser, na maioria das vezes, muito irritante, o que me fez lembrar que éramos parecidos.
E eu não estava nada feliz com isso.
*-*-*-*-*-*-*-*
–Você consegue ter uma conversa civilizada comigo agora?
Olhei automaticamente para a entrada da tenda e vi um Idrian tentando parecer irritado, mas na verdade parecia um receoso.
Me sentei na cama improvisada e cruzei os braços transmitindo uma clara mensagem de que, ao contrário dele, não deixaria meu orgulho de lado.
–Eu sei que você não entende... — Sem minha permissão Idrian se sentou ao meu lado, mas não tive coragem de me afastar. -... E não estou pedindo por isso, mas... Eu quero fazer parte disso. A libertação não é algo apenas imaginável é...
Enquanto Idrian falava, percebi seus olhos brilhando e um sorriso tímido presente. Eu só via essa expressão quando ele falava da causa de Maser e de como podemos ser livres.
Eu não podia tirar isso dele.
–Você está enganado. — Idrian interrompeu o que quer que ele estivesse falando e me deu um olhar abismado. — Eu te entendo.
–Entende?
Assenti com a cabeça evitando seu olhar curioso.
–Nós... Chegamos até aqui e... Estamos aqui pela causa. — Dei de ombros tentando não me atrapalhar nas palavras. — Sei o quanto ela é importante e não vou dificultar as coisas para você... Só quero que você volte caminhando e não carregado por alguém. Só isso.
Ele parecia estar esperando que eu dissesse algo mais, mas aquele era o meu pedido de desculpas, que foi doloroso dize-lo, e já era o bastante.
–Apenas isso? — Assenti novamente e evitando o seu olhar o ouvi bufando. — Nos evitamos o dia todo e... Quando finalmente diz algo, é apenas isso?
Eu não sabia o que ele queria que eu dissesse, e com certeza não daria a oportunidade para ele dizer o que era.
–Você irá para uma missão daqui a algumas horas e não acho que seria sábio passarmos esse tempo discutindo.
–Você tem razão.
O clima ficou estranho e ficamos um evitando o olhar do outro.
Não parecia conosco.
Colocando toda a minha indiferença de lado, peguei a mão de Idrian e a apertei forte, como se não pudesse mais se controlar ele se jogou para cima de mim e me deu um beijo desesperador.
–Idrian. — Envolvi minhas mãos em sua nuca e o fiz me encarar. — Não se despeça de mim amanhã. — Ele parecia estar considerando aquilo, mas eu tinha que ter uma certeza. — Por favor.
–Eu não o farei.
Estalei um beijo rápido em seus lábios e me deixei afogar naquele momento.
Cada casta tem suas qualidades. Nós Dalets somos obedientes, contidos e trabalhadores. Mas Dalets como Idrian superavam essas qualidades... Eram corajosos, altruístas e benignos.
Eu tinha mais certeza disso a cada beijo que ele me dava naquela despedida silenciosa e sofrida.
Mas, para mim, infelizmente era pedir muito que ele ficasse.
*-*-*-*-*-*-*-*-*
Ouvi um suspiro e logo depois senti Idrian se levantar. Me segurei para não abrir os olhos e revelar a ele que estava acordada quando o ouvi vestir sua roupa.
Como Maser havia dito, todos nós tínhamos que fazer algum sacrifício. E deixar Idrian ir era o meu.
–Eu vou voltar. — Quase o puxei para mim quando ele deu um beijo seco em minha testa, mas quando tive coragem em fazê-lo, ele já havia ido embora.
Essa foi a nossa despedida.
Eu estava relutante em tê-la já que seria a prova estabelecida em meus pensamentos que ele havia ido na missão e que não estava na verdade andando pela floresta e que a noite iria aparecer.
Sacrifício.
Decidi naquele momento que odiava essa palavra.
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