Dalet

2 Capítulo 1


Notas iniciais
Boa leitura...

23 de Cyh 3742

Eu estava correndo pela densa floresta com o solo escorregadio e lamacento, os gritos das pessoas não era mais ouvido agora, mas aquilo não me confortava pois o som da minha respiração e dos galhos se quebrando a cada passo que eu dava eram bem assustadores. Eu estava me obrigando a correr sem pensar na possibilidade de cair ao chão, pois quando sua vida depende disso... Problemas de equilíbrio deveriam ser ignorados.
Ouvi passos atrás de mim, o que me fez agilizar minha corrida desajeitada. Olhei para os meus braços e vi minha pele morena dando a impressão que algum chicote dançou por ali deixando um rastro de sangue e pequenos arranhões, mas eram apenas os arbustos densos e espinhosos de algumas plantas. Olhei para o meu vestido e percebi que ele também havia sido prejudicado com leves rasgos por sua extensão. Minha mãe ficaria triste ao ver que o meu único vestido intacto estava aos trapos e rasgos como os outros três. Senti uma lufada de ar escapar por meus pulmões quando me lembrei que minha mãe não ficaria mais triste e automaticamente minha mente se prendeu a memória dela caída ao chão ensanguentada e entre suas últimas palavras disse "Corra, June... Corra."
E eu corri.

Senti que os passos que vinham logo atrás de mim estavam mais próximos, e que não era apenas uma pessoa, com certeza mais que uma.
E então como se bastasse está sendo perseguida, de repente fui arremessada ao chão e quando finalmente o meu cérebro registrou o ocorrido percebi que estava com o meu rosto ao chão com algum tipo de planta em minha boca e logo depois senti uma dor forte em meu tornozelo.
Fiquei imóvel ao chão desejando que os arbustos estivessem me escondendo, mas me apavorei ao ouvir passos que estavam vindo em minha direção cada vez mais fortes e decididos. Me virei lentamente e quase me bati ao ver que o motivo de minha queda ser o meu pé preso em uma raiz protuberante. Pela minha visão periférica vi alguns arbustos se mexendo e peguei o primeiro galho que apareceu em minha frente, mas estar caída ao chão não ajudaria nem um pouco na luta.

–O que você está fazendo com esse galho em suas mãos? — Ouvi uma voz conhecida, e odiada, atrás de mim. Levantei minha cabeça para cima e lá estava Idrian Reycliff me encarando com um sorriso sarcástico em seu rosto, que logo depois desapareceu quando ele tirou a atenção de mim e olhou para outro lugar mais a frente. — Cassiz eu a encontrei.

Eu estava confusa.
Na hora do ataque haviam poucos guardiões, e esses dois não estavam lá, e se estivessem deveriam estar lutando contra os rebeldes. Cassiz e Idrian eram guardiões, bem eram soldadinhos de brinquedo do Lincan para usá-los em ataques de rebeldes de vez usarem seus preciosos Alefs guardiões de alta patente, o que os obriga a defender as pessoas e não virem atrás de mim.

–Acho que perdi uma bela oportunidade de rir sem precisar recorrer aos encantos do álcool. — Eu estava tentando me levantar e odiando o fato de Reycliff estar usando o máximo de palavras que seu vocabulário permitia. Por esse motivo, e alguns outros, que nunca perdoarei Cassiz por ter ensinado Idrian a ler e a escrever. Minha mãe havia ensinado isso a nós em segredo e era para ter morrido em nós, mas Cassiz nunca ouve minha mãe e o que ela pede para ele fazer. — Eu te ajudo a...

–Não precisa. — O interrompi rudemente quando ele fez a menção de me segurar pelo braço. Idrian deu de ombros carrancudo enquanto eu me levantava tentando mostrar dignidade. — Não era para vocês estarem... Defendendo as pessoas do ataque ou algo assim?

–Estávamos na muralha, assim que chegamos ao centro o ataque dos rebeldes havia terminado. — O rosto de Reycliff estava obscuro e sério demais. — Muitas pessoas morreram e...

Ele não estava chorando, na verdade não parecia que Idrian Reycliff chorava com aquele tamanho e com todos aqueles músculos que havia adquirido no treinamento de guardiões, mas apesar de o odiar desde que me conhecia por pessoa eu não poderia ignorar o fato de que as pessoas mortas no ataque foram nossos pais. A primeira pessoa que vi morta foi o pai dele e logo depois sua mãe, que ao debruçar no corpo falecido do marido, o enchendo de beijos, recebeu uma machadada nas costas de um velho um pouco corcunda que ria feito um cavalo relinchando. Eu poderia dizer isso a ele, mas seria muita maldade da minha parte. E Idrian não mereceria isso hoje.

–Eu sei. — Pela proximidade e talvez pelo sentimento mútuo de perda, pela primeira vez na minha vida abracei Idrian. O senti hesitar pelo primeiro momento, mas depois ele envolveu seus braços em minha volta.

–Calma, June. — Eu não o havia entendido por me dizer aquelas palavras, até que percebi que eu estava chorando aos soluços. Ele me apertou mais ainda em seu abraço e começou a passar a mão em minha cabeça. — Calma.

Quando alguém te aconselha a se acalmar em uma situação extrema, você é capaz de fazer qualquer coisa, mas nunca irá ficar calmo. Aprendi isso com as crises de raiva de Cassiz e de como a mãe dele tentava acalmá-lo e nunca conseguia.

De repente me senti sendo passada para outros braços. Esses são menos musculosos e mais compridos. Senti o cheiro inconfundível de Cassiz e inalei o máximo que o meu pulmão podia aguentar em apenas uma inspiração.

–Cassiz... Nosso pai e... Nossas mães...

–Tudo bem. — Ele tentou me reconfortar, mas a imagem de várias flechas acertando o peito de nosso pai e da mãe de Cassiz tendo a garganta cortada por um rapaz a cavalo enquanto tentava se esconder nunca iria desaparecer de minha mente. Mas a pior de todas será a memória da minha mãe levando uma flecha que era direcionada a mim. Não era para ela estar morta agora... Deveria ser eu caída naquele chão. — Nós estamos com você agora, e juntos.

–Como me encontraram?

–Quando chegamos ao centro vimos você correr em direção a floresta. — Idrian respondeu com o tom de voz de guardião dele, enquanto eu ainda estava sendo acalentada pelo meu irmão. — Então decidimos vir atrás de você.

–Minha mãe mandou que eu viesse para cá. — Tirei gentilmente os braços de Cassiz em volta de mim e encarei os dois. — Ela disse que há uma cabana no meio da floresta perto de uma cachoeira e que está escondida entre as árvores... Depois disso ela me mandou correr.

–Não temos cabana no meio da floresta. — Cassiz contestou com a voz desconfiada. — Nosso pai nunca mencionou isso.

–Eu não sei. — Dei de ombros secando minhas lágrimas do rosto. — A única coisa racional que eu estava pensando era correr e chegar lá... Eu só queria não ver pessoas morrendo. Sei que deveria ter ido atrás de vocês.

–Você fez o que achou certo. — Cassiz concordou com a fala de Idrian acenando a cabeça. — Salvar sua vida... Não iremos te julgar por isso.

–Voltar é...

–Eu não quero voltar, Cassiz. — Eu estava tentando soar séria, mas minha voz saiu em um tom nítido de desespero. — Por favor, não me obrigue a voltar.

O que eu mais queria era esquecer aquelas imagens e o lugar onde tudo se passou. Eu não aguentaria voltar para a casa onde eu morava com meus pais, Cassiz e sua mãe. Dalets deveriam encarar a morte como uma amiga, visto que muitos de nós morrem diariamente por falta de saúde, fome e escravidão, mas quando é alguém da sua família tudo fica mais difícil de aceitar.

–Eu iria dizer que voltar é um pouco arriscado. — Ele deu de ombros passando a mão pelos cabelos loiros nervosamente parecendo não querer admitir o que iria falar. — O condado de Rety não tem muitos guardiões, e sinceramente acho que todos estão mortos agora.

–Provavelmente tudo está tomado pelos rebeldes. — Idrian continuou o raciocínio de Cassiz. — A cabana será a nossa melhor saída... Lá decidimos o que faremos.

E com essa palavra final começamos a caminhar em direção ao meio da floresta, que eu nunca havia entrado e me aventurado nela, diferente de Cassiz e Idrian que acampavam por aqui, mas acho que nunca foram longe a ponto de chegar ao meio dela. Eles sabiam pelo treinamento como achar lugares através da observação, mas não acreditava que isso era algo fácil. Eles estava duvidando da existência de uma cabana perdida pela floresta. Mas se minha mãe disse que existe esse lugar e que é seguro não há motivos para duvidar.

Notas finais
Até o próximo capítulo.