Dalet
4 Capítulo 3
Notas iniciais
A nossa regra absoluta, acima de todas as outras é que não devemos nos relacionar com pessoas de outras castas. Se você nasceu Dalet irá casar com um Dalet e ter filhos Dalets, simples desse jeito. Claro que no começo algumas pessoas burlaram essa regra, mas todas acabaram mortas. Essa lei existe apenas para um propósito... Para pessoas de castas inferiores não subirem de casta. Se você é um Dalet, ou um Gimel, não pode se casar, ou se relacionar, com alguém Alef ou Bet porque isso, além de impróprio, faria você se tornar obrigatoriamente um Alef ou Bet. E a única maneira possível e que logicamente foi proibida.
Mas isso nunca acontecia. O que um Alef, uma pessoa da corte, ou um Bet, uma pessoa famosa e de prestígio, iria querer com um Dalet? O contraste entre nossas castas é gritante, a começar que uma é a escória da humanidade e a outra onde toda a riqueza estava concentrada.
Não sei o que minha mãe estava pensando quando se envolveu com um Alef, mas isso não acabou bem... Mas não era como se isso importasse muito agora, minha mãe já havia recebido sua pena de morte.
–Eu não irei contar para ninguém se é isso o que você está pensando.
Tirei meus olhos do fogo queimando a madeira na lareira, foi idéia de Cassiz usar como combustível uma das poltronas para não morrermos de frio, e fitei Idrian sentado ao meu lado e depois encarei Cassiz que dormia um pouco afastado de nós.
–Não há o que contar. — Afastei meus longos cabelos do rosto e voltei a fitar a chama consumindo a madeira. — Não sei se percebeu, mas minha mãe já está morta... Não é como se pudesse ser condenada por isso.
Idrian bufou e o ignorei.
–Agora entendo alguma coisas... Sua mãe sabia ler e escrever tanto Hebrain quanto a inglês que é uma língua morta, apenas os Alefs tem o privilegio de saberem ler e escrever e aprender o inglês. Nós somos a exceção e você sabe disso, graças a sua mãe. — Ele parou para tomar fôlego e eu queria que ele parasse de respirar e me deixasse em paz, como sempre pedi quando ele me irritava. — Mas o que estou pensando é que a Hundrix abriu para você... Claro que o Alef pode ter configurado para sua mãe abrir... Mas é confuso e estranho.
Idrian não precisava me dizer nada daquilo para me convencer de tudo estava "confuso e estranho", eu só queria que esse dia terminasse em paz e que pudesse dormir sem ter um flesh de pessoas morrendo ou ouvir nitidamente minha mãe agonizar enquanto morre.
–Você sabe o que pode acontecer se Cassiz souber...
–E é por isso que o seu segredo está seguro comigo.
Tirei meus olhos da chama quente e o fitei. Atrás dele a chama fazia um jogo de sombras na parede empoeirada e dava a ele um ar divertido.
E era como se eu visse pela primeira vez aqueles olhos azuis brilhantes me fitando de volta. Ele não era mais o Reycliff irritante, mas era só o Idrian.
Ele lentamente se aproximou de mim e eu fiquei estática, eu não sabia o que ele pretendia fazer e me assustei quando seu rosto estava tão próximo do meu que eu podia sentir o seu hálito quente. E então ele encostou seus lábios nos meus e enquanto ele os movia eu continuava parada com os olhos arregalados tentando entender porque ele fazia aquilo.
Quando ele finalmente se afastou de mim pude soltar o ar que estava prendendo e me senti uma estúpida por não entender aquela situação.
–O que foi isso? Porque tocou os seus lábios nos meus?
–Isso se chama beijo. — Ele logo me interrompeu sem graça tratando de se explicar.
Toquei meus dedos em minha boca e senti um formigamento estranho. Era como se eu quisesse mais daquilo... Mas ao mesmo tempo estava com medo do quão intimo aquilo parecia ser.
–Nos lábios?
Meus olhos eram acusadores e por mais que eu sentisse ser uma situação constrangedora, era como se eu não pudesse ficar sem uma explicação. E eu a teria.
–Eu via os meus pais fazendo isso... E sempre me perguntei qual seria a sensação de beijar a pessoa que você ama.
Eu nunca vi meus pais se "beijando", nem ao menos meu pai e a mãe de Cassiz já que o suposto era que eles se casaram apaixonados... Mas sei que meu pai amava minha mãe, só não agia de acordo com seus sentimentos porque não era recíproco.
Beijo era algo dado pela mãe na sua testa ou no topo de sua cabeça... Não nos lábios. Isso parecia invasivo e estranho.
–Eu nunca vi ninguém fazer isso. — Balancei a cabeça me afastando da memória de meus pais porque a verdade que eu nunca mais os veria bateu em cheio como um tapa em meu rosto. — Talvez beijar alguém seja algo que se precisa pedir permissão.
Meu tom de voz "Odeio você, Reycliff" voltou com toda a irritação que eu poderia reunir e ao invés de se afastar dando uma risada debochada, ele se permaneceu imóvel ao meu lado fitando a madeira queimando e estalando.
–Então estarei ansioso esperando você pedir a minha permissão.
Era para ter um tom divertido ali, mas apenas a sinceridade ecoava através daquelas palavras.
Queria dizer a ele que morreria esperando por isso, mas pelos eventos que nos antecederam até chegarmos aqui eu só iria piorar tudo. Aquilo tudo estava mexendo de uma forma estranha com a minha cabeça.
–Qual foi a sensação?
Quando dei por mim as palavras já haviam sido pronunciadas e minha mente nem sequer havia pensado nelas antes. Acho que é isso que significa ser espontâneo.
Idrian não ficou confuso com a minha pergunta, ele sabia muito bem do que se tratava.
–Você saberá quando pedir minha permissão.
*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*
Alguns dias eram longos e outros eram curtos, mas igualmente tediosos.
Como uma boa garota Dalet, eu ficava na cabana tentando limpá-la, na maior parte do tempo matando todos os insetos que apareciam entre as frestas das paredes, enquanto Idrian e Casiz caçavam trazendo alimento e não precisávamos nos preocupar com a água já que tínhamos um fonte que parecia inesgotável em frente a cabana.
A paz era até mesmo palpável e não havia vestígios daquele terror que vivemos semanas atrás... Somente lembranças que aterrorizavam nossos sonhos as vezes.
Por alguma razão, além obviamente do beijo da primeira noite, eu e Idrian nos aproximamos enquanto Cassiz se afastava lentamente de nós. Enquanto eu e Idrian nos alimentávamos juntos, conversávamos sobre trivialidades e até mesmo passávamos horas de silêncio um ao lado do outro, Cassiz se limitava a estar perto de nós quando era apenas necessário e sumia por horas na floresta. Isso me preocupava, mas Idrian disse que era apenas a forma dele mostrar o seu luto... Se fechando para dentro de si mesmo.
Eu o ouvia gritar em seu sono nas primeiras noites e eu até corria para ajudá-lo a se acalmar, mas isso só piorava as coisas. Ele não queria parecer fraco. Então, aos berros ele me mandava de volta para o meu quarto.
Outra mudança, eu tinha um quarto. O que sempre dividi com Cassiz em toda a minha vida.
A cabana era pequena, mas bem dividida. Logo que se entrava pela porta da frente havia a mistura de sala e escritório, uma porta centralmente que levava a um pequeno corredor com quatro portas, a esquerda um quarto que logo percebemos a grande cama de casal e o armário cheio de roupas de Alefs, tecidos das mais variadas cores e tipos, a direita outro quarto que revelou mais uma lareira, mais poltronas e uma pequena mesa com quatro cadeira, a porta aos fundos é onde descobrirmos ser a cozinha, só suspeitei que fosse pelos grandes armários e um forno, muito superior do que tínhamos em casa. Eu só não o usava porque a fumaça poderia revelar nossa localização aos rebeldes, e isso obviamente não queríamos.
Eu estava com o quarto Cassiz ficou com a sala da mesa de jantar e Idrian alternava entre a sala principal e a sala de Cassiz.
Tínhamos um banheiro também, com luxos que eu nem poderia sonhar. A água do chuveiro era quente e tínhamos uma privada... Muito melhor que o buraco que tínhamos no nosso quintal.
A eletricidade foi algo que descobrimos no segundo dia, quando brincando comigo Cassiz bateu palmas e o teto se acendeu na sala e quando Idrian investigou como tínhamos dado tanta sorte, ele descobriu placas de energia solar no teto da cabana, camuflado entre as copas das árvores, que alimentavam a eletricidade e nos davam a tão incrível luz no teto.
E por algum motivo, acho que por estar vivo em uma ótima cabana com regalias que nunca sonhou, Cassis parou de culpar minha mãe sobre qualquer coisa.
A paz era até mesmo palpável.
Palpável até demais.
–Olhar pensativo e está silenciosa... — Me virei para Idrian, sentado ao meu lado na campina atrás da cabana, que brincava com algumas folhas molhadas pela neve. — ...Mil anterês por seus pensamentos.
–Você não tem esse dinheiro todo. — Sorri pegando um pequeno pedaço de folha da sua mão e o esfarelando no vento gelado. — E se tivesse não estaria o desperdiçando comigo.
–Pode apostar que estaria.
Eu não duvidava.
Depois do beijo percebi que todas as formas de Idrian me irritar ao longo dos anos foram tentativas de chamar a minha atenção para ele.
Funcionou, mas não do jeito que ele queria... Até o nosso beijo.
Eu sentia algo, mas não na mesma intensidade que ele... Acho que eu nunca chegaria a esse sentimento tão nobre. E isso fazia dele uma pessoa melhor do que eu. Idrian, agora enxergo, me colocou em um pedestal que eu não podia descer, mesmo que eu fizesse algo muito ruim com ele... Eu sei que ele tentaria superar isso e sempre me manteria lá no alto.
–Você não acha que Cassiz está mais estranho que o normal? — Optei por mudar de assunto, seria o mais sensato a se fazer. — Acho que não deveríamos deixá-lo sozinho...
–Cassiz só não está sabendo lidar com isso tudo. — Eu odiava quando Idrian me interrompia e ele sabia disso, mas depois desses dias se tornou algo que eu passei a não me importar. — Ele não é como nós... Ele não conversa sobre o quanto sente falta dos pais ou de casa... Aparentar fraqueza é a última coisa que ele quer.
Eu descobri isso quando ele passou a dormir trancado na sala, nos impedindo de ajudá-lo assim que seus gritos começassem.
–Você não grita a noite.
Idrian desviou o meu olhar e quase revirei os olhos para ele... Quem não queria mostrar fraqueza agora?
–Mas isso não significa que eu não tenha pesadelos.
Ele estava certo. Como sempre.
E eu o subestimando... Como sempre.
–Posso te fazer uma pergunta? — Assenti o encarando tentando adivinhar o que viria por ali e ele voltou sua atenção para as folhas despreocupado tentando parecer indiferente. — Quando eu pedia a benção de seu pai para me casar com você, porque nem ao menos teve a coragem de responder, já que "sim" e "não" são palavras bem fáceis? Ouvi-lo dizer vez após vez que você sentia que ainda não estava pronta é muito pior do que ouvir uma negativa... É que... Era como uma tortura.
Eu estava em choque.
Talvez não em choque, mas confusa.
–Eu não sabia. — Minha voz saiu como um sussurro o que atraiu novamente a atenção de Idrian para mim. — Eu nunca soube disso.
–Está explicado porque você me olhava no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. — Ele deu uma gargalhada alta que assustou alguns pássaros, acho que eram Crians pelo seu piado estridente e irritante. — Porque para você nada aconteceu. — Ficamos em silêncio por alguns segundos, enquanto eu digeria tudo aquilo. — Por isso você ficou confusa com o beijo... Você nunca percebeu que...
–Só depois do beijo. — Ouvi um som de reprovação vindo de sua garganta, mas ignorei. — Você me deu muito o que pensar... Eu sei que você me irritava para chamar minha atenção.
–E também para me vingar da sua não rejeição, mas também não aceitação. — Parecíamos estar pisando em um terreno perigo, mas Idrian parecia não querer ser cauteloso. — Acho que agora posso trocar meu nome para estúpido.
–Só eu posso te chamar assim. — Tentei parecer divertida, e não desesperada para novamente mudar de assunto, quando bati o meu ombro no dele rindo.
E então ficamos em silêncio novamente.
Estávamos ali novamente encarando um ao outro, enquanto uma pergunta não dita esperava ser respondida.
"Sim e não são palavras bem fáceis."
Mas por algum motivo para mim não. Se ele estivesse me fazendo essa pergunta antes de tudo... Antes do dia fatídico, eu iria dizer não obviamente. Mas hoje... Eu só queria voltar para a cabana e não pensar nisso.
No momento que eu iria abrir a boca, para dizer qualquer coisa que me levasse para longe daquela situação, ouvi algo se mexendo pela floresta.
Em seu modo guardião Idrian se levantou de imediato e me puxou junto com ele.
Pânico se alastrou dentro de mim. Talvez fosse apenas o vento, eu queria me agarrar a isso, mas algo em minha mente me alertava que possivelmente eram os rebeldes.
Começamos a correr pela campina aberta com Idrian esbravejando o quanto foi tolo por deixar sua espada na cabana. Mas eu sabia que ele a tivesse, não iria lutar... Morreria antes disso.
–Parem. — A voz estava longe, mas isso não nos fez correr até os arbustos próximos que nos levariam a floresta fechada.
Paramos estacados pelo comando.
Isso é o que Dalets fazem... Apenas obedecem a comandos cegamente. Até porque se alguém gritou um comando possivelmente é um Alef ou um rebelde. Mas não fazia diferença, nenhum dos dois significavam algo bom obviamente.
Eu podia sentir a mão de Idrian apertada na minha e sabia que ele estava pensando em algo para me livrar. Eu pressenti pela maneira como ele olhava para mim e sugeria que eu saísse correndo até os arbustos.
Eu poderia fazer isso e sumir entre as árvores, mas eu não o deixaria ali sozinho.
Apertei minha mão mais fortemente e ouvi um silvo de reclamação vindo dele, mas ignorei.
–Virem-se lentamente erguendo seus braços.
Era um Alef afinal.
Rebeldes não perdem tempo querendo saber de que casta você é, vi em primeira mão que eles apenas querem matar e dominar a área.
Um Alef sim se preocuparia em saber com quem está lidando e nenhuma maneira mais humilhante do que te fazer erguer seu braço e mostrar a marca, a tatuagem que recebemos assim que nascemos, de sua casta.
Nos viramos com os braços erguidos e nos deparamos com cinco pessoas totalmente armadas e um mais a frente com um arco e flecha apontado para nós.
Eles pareciam cansados e maltrapilhos. Era como se eles fossem Dalets e não nós.
Olhei mais atentadamente para a marca do arqueiro e me deparei com um Bet e não um Alef como suspeitava, porém continuei confusa... O que um artista famoso estaria fazendo com um arco e o mais surpreendente é ele saber como usar o arco.
–Interessante. — Um homem escondendo o seu rosto com um lenço saiu por trás do arqueiro e eu podia sentir que ele estava sorrindo por debaixo daquele pano. — Dalets usando roupas de Alefs... Há algo que não consigo compreender.
Isso havia sido idéia minha. Estávamos somente com a roupa do corpo e com o armário cheio de vestidos, calças, camisas e ternos e era a coisa mais lógica em se fazer. Comecei a me arrepender, com certeza não era algo fácil de se explicar. Roupas de Dalets eram apenas pedaços de panos sujos e rasgados, não esse vestido de veludo me protegendo do frio ou a calça oxford de Idrian.
–Vocês tem um minuto para me explicar.
Eu não sabia quem eles eram, mas não estava disposta a morrer por tão pouco... O sacrifício de minha mãe não podia ser em vão.
–Rebeldes atacaram nossa cidade e corremos para a floresta. — Assim que comecei a falar as palavras foram cuspidas para fora e nem me importei com a regra de ficar calada e deixar Idrian se explicar, submissão não iria nos manter vivos agora. Me lancei a frente de Idrian tentando fazer meu corpo de escudo, como se isso de alguma forma fosse protegê-lo. — Ficamos dias vagueando até que encontramos um abrigo... Ninguém morava lá por anos e achamos roupas... E... E... Nós só não queremos morrer.
Eu estava cansada por jogar aquilo tudo para fora e foi a pior explicação que eu dei para salvar minha vida e a de Idrian.
–Acho que alguém não sabe o que significa a palavra submissão. — O homem de lenço riu enquanto foi seguido pelos outros e eu estaria com raiva se não tivesse uma flecha mirando em mim e Idrian. — Ela sempre toma a dianteira das coisas meu jovem Reycliff?
–Só quando ela acha que está ajudando alguém.
Depois que Idrian falou foi que percebi que a pergunta foi dirigida a ele.
Eu sentia uma pulsação em meu ouvido e o medo estava instalado de tal maneira que para mim era impossível entender qualquer coisa.
–Meu nome é Maser Buhatti. — Eu estava perdida em meus pensamentos quando percebi que ele estava agora perto de nós em uma distância segura. Mas então ele estendeu sua mão e esperou que eu a apertasse de volta. Foi quando vi que a marca dele era de um Dalet também. Isso não me fez sentir mais segura.
Eu já havia ouvido sobre ele em algum lugar, mas a adrenalina em minhas veias me impedia de pensar em qualquer outra coisa que não fosse tentar fugir.
–Ele não é uma ameaça. — Idrian se posicionou ao meu lado e seus sorriso era confiante e estranho. Para mim ele gritava ameaça e o que mais me incomodava era não saber qual a expressão do rosto de Maser Buhatti. — Ele é um amigo, June.
Eu pensei em questionar aquilo tudo, mas era como se houvesse um som de estática em minha mente e por mais que eu quisesse falar, eu simplesmente não conseguia.
Idrian estendeu minha mão para Maser e eu automaticamente apertei a mão dele.
Mulheres não cumprimentavam outros homens, éramos inferiores e sabíamos que eles não deveriam se rebaixar ao nível de darem sua atenção para nós.
Mas parecia que Maser Buhatti não se importava com isso.
–Finalmente conheço June Brabourne. — Poderia adivinhar que agora ele estava sorrindo para mim tentando ser amistoso. — Desculpe se nós a assustamos. — Continuei em silêncio esperando por mais explicações e pelo jeito que eu encarava os outros atrás de Maser, todos nos fitando, mas sem as flechas miradas, eu a queria antes de ter uma síncope. — Não é intenção dos Ignorados assustar as pessoas, mas ajudá-las.
–Ignorados? — Parecia que eu havia descoberto como falar novamente. — Vocês fazem parte dos Ignorados?
–Parece que já ouviu falar sobre nós... Quais as más notícias?
–Eu não entendo. — O ignorando sem querer sussurrei mais para mim mesma, mas ninguém havia ouvido. -Desde quando você virou um Ignorado? — Foi a primeira pergunta a se fazer que tinha algum sentido. Ele só podia ser um deles falando com toda aquela convicção de que Maser era um amigo.
–O jovem Reycliff é um dos nossos guardiões espiões há meses. — Maser deu batidinhas de leve no ombro de Idrian o que fez sorrir orgulhoso e eu quase revirei os olhos pateticamente. — Temos espiões em todos os lugares que se possa imaginar... Não estamos brincando minha cara Brabourne.
Eu não confiava nele.
Decidi isso no momento que fitei aquele lenço escondendo o seu rosto.
Mas ele me fez lembrar sobre eles, os Ignorados, em raras ocasiões ouvi conversas sussurradas entre meu pai e minha mãe e outras entre ele e Cassiz.
O governo nunca deixava as notícias sobres os ataques propagarem, todos sabiam que a Central não queria um tumulto causado por mais um grupo rebelde, já bastava os que já haviam. Por isso o nome, além da menção da Terceira Guerra, pois não só a Central, mas Rhadas inteira resolveram ignorá-los e atribuir todos seus ataques aos rebeldes.
Mas nenhum rebelde ajuda outras pessoas... Nem misturam castas, desde Alefs a Hês.
E mesmo calada ainda pensando sobre eles, Maser me considerou digna de sua confiança e não só explicou sua causa como também explicou que iria tomar Rhadas e matar o rei. Reuni toda a minha força para não gargalhar na frente dele.
Ninguém simplesmente reuni algumas pessoas e partem para o distrito ao norte para matar o rei. Se fosse tão fácil, essa coisa toda não teria durado mais de quinhentos anos.
Mas como uma boa Dalet submissa, me mantive calada.
Enquanto Maser falava sem tomar fôlego.
Rapidamente ele contou que conheceu o meu pai através de recrutamentos, como eles chamam a abordagem de fazerem outros se unirem a causa e ele tinha informações úteis contra Rhadas, que são confidenciais, pois as conseguiu persuadindo o senhor Querz, um Bet que havia afundado no vicio da bebida e para quem nós trabalhávamos enquanto ainda estava vivo, a contar-lhe em suas crises de bebedeira. Meu pai os apresentou Cassiz e a Idrian e seu pai, visto que ele era útil sendo guardião e desde então eles são amigos e companheiros de causa.
Para eles tudo era sólido e definido.
Os Ignorados eram bem mais do que a pequena ameaça que Rhadas havia os taxado.
Eles tinham campos de treinamento, quartéis por toda Klewy e muitos espiões... Espiões até na Central.
Talvez eles não devessem ser tão ignorados assim.
–Nós temos uma grande batalha pela frente, minha jovem Brabourne. — Eu já estava quase surtando com a voz de Maser em meu ouvidos, mas era como se ele não pudesse se calar. — E...
– É por isso que nós precisamos de todos que encontrarmos pelo caminho. — Ouvi a voz de Cassiz atrás de mim e o fitei se juntar rapidamente a Maser em minha frente. E eu não havia gostado de como ele se referiu ao "nós". — Eu disse a eles que se você fosse abordada iria aceitar ser recrutada. — Não era como se eles fossem me deixar partir sendo que contaram tudo sobre eles. — Não podia contar antes porque Maser precisava vê-la primeiro... Se vocês era digna de ser uma dos Ignorados. — Ele abriu um sorriso, de um tipo que eu nunca havia visto em minha vida. Um sorriso de verdade. — E você é... Nós podemos lutar juntos por essa causa.
Aquela com certeza era uma péssima maneira de recrutar alguém.
Mirar uma flecha e dar apenas um minuto para me explicar não causou uma boa impressão.
–Eu sei que exageramos, mas precisava saber como reagiria... Não é fácil encontrar recrutas por ai. Eu posso enumerar as qualidades que vi em você nos primeiros minutos de nossa abordagem. — Ele apontou para mim e eu o encarei carrancuda me arrependendo de ter ignorado a submissão. Se tivesse ficado calada, não estaria sendo recrutada nesse momento. — Se mostrou corajosa em tentar proteger Idrian, até mesmo deixou de lado a lei de que mulheres não podem falar na presença de outros homens além dos de sua casa... Proteger o companheiro é mais importante entre nós do que saber usar uma arma. — Ele pareceu se lembrar de algo, mas balançou a cabeça rapidamente. — Seu pai sempre quis que você fosse uma de nós, se ele estivesse aqui com certeza estaria orgulhoso de ver o quanto é corajosa. Claro que pretendíamos abordá-la com ele presente, mas ocorreu o ataque rebelde e... Imprevistos acontecem... Enfim, Cassiz nos encontrou e isso pode terminar bem de qualquer maneira.
Se isso era suposto para terminar bem, porque eu estava sentindo que estava me vendendo como escrava para ele?
Ele poderia ter citado que meu pai ficaria orgulhoso , o que me deixou ainda mais desconfiada deles, mas eu sentia que deveria correr o mais longe deles.
Eu não confio em você.
Minha mente estava repetindo essa frase várias vezes, como se em algum momento ele iria ouvir isso e ir embora.
Mas ele não iria.
–Então June... — Maser se virou para mim com uma voz que parecia que ele estava sorrindo e com os olhos ansiosos e aquilo um pouco que me assustou. -... Está conosco?
Ele havia se dado o trabalho de criar uma situação para mim e meu pai queria que eu fosse um deles. Bem, eu poderia realmente dizer não, mas com certeza não seria uma boa idéia... Idrian e Cassiz iriam me levar a força.
Assenti afirmativamente com a minha cabeça.
Não falei porque sabia que minhas palavras poderiam dizer a verdade de vez mentir.
Não falei porque se eu abrisse a boca iria usar a pior linguagem possível para cima de Cassiz e Idrian.
Mas era uma boa Dalet. Uma boa submissa.
E é isso que Dalets fazem... Apenas obedecem a comandos.
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