Dakota Lessons

7 Capítulo 5


Notas iniciais
I AM ALIVE.
Nao tenho desculpas dessa vez. Eu realmente tive preguica, se bem os últimos dias de escola + primeiros dias de férias foram movimentados pra caramba @_@

O sol intenso do dia seguinte queimava a pele dos que ousavam sair da proteção da sombra, ao mesmo tempo que torturava-os por baixo do pano de suas roupas, aquela incômoda sensação de sentir o corpo todo como uma grande estufa.

Sim, era um dia quente, e a procura por água na cidade era intensa. Tanto que, bem de manhã, um grupo de homens já havia saído com cantis e vasos vazios. Deveriam retornar do rio com tudo cheio em pouco tempo, prontos para vender a preços absurdamente caros para a população desesperada.

Arthur estava com sede e seu pai não se importara em deixar-lhe dinheiro. Pensava se se encontrar com Alfred no deserto era uma boa ideia... Se não morresse desidratado antes. Por outro lado, ele poderia saber com ele se havia algum rio próximo onde pudesse beber água de graça.

Mas também havia a possibilidade de ele resolver não sair ao calor extremo daquele dia. Maldito fosse o calor daquelas terras. Ele sabia que, do outro lado do oceano, em sua terra natal, provavelmente fazia frio. Quem sabe até estivesse chovendo. Mas também sabia que quem sabe nunca retornasse. E amaldiçoou novamente a existência do continente americano.

Com um suspiro, levantou-se da cama e foi olhar pela janela. O clima seco deixava o solo mais arenoso ainda, e o vidro estava levemente amarronzado por causa do pó proveniente do deserto, trazido pelo vento. Sua casa era uma das maiores vítimas dessa sujeira, afinal, era uma das últimas da cidade, com excelente vista para o mais completo e entediante nada. Mas oferecia ótimas opções de... Fuga, por outro lado.

Ficou tempo o suficiente ali, perdido em pensamentos, para o sol se mover alguns centímetros.

E ainda estava mergulhado na mais profunda meditação e tédio quando um repentino “baque” na janela arrancou-o brutalmente de suas reflexões, fazendo-o sobressaltar-se. Ele olhou para baixo, para onde provavelmente o “agressor” estaria. E qual foi sua surpresa ao deparar-se com a figura musculosa, loira e de olhos azuis vestida de índio com sua coroa de penas parada ali, de pé, exposta a praticamente tudo e todos.

Não que houvesse alguém ali, era o deserto, afinal. Mas se alguém por algum acaso decidisse ir para lá ou simplesmente olhar para aquela direção enquanto entrava ou saía da cidade, como a caravana que saíra em busca de água, o acharia.

Arthur levantou a janela, colocando a cabeça para fora.

“ Que está fazendo aqui?! Vá embora ou pelo menos se esconda!”, ele tentava achar um equilíbrio entre um tom de voz alto e um sussurro, esperando que o outro ouvisse, por que se gritasse naquele silêncio do deserto todos poderiam ouví-lo falar uma língua que mais parecia invocar o Diabo, e ele não queria nenhum padre ou caçador de índios arrombando sua casa.

“ Tacando pedras na sua janela!”, o outro gritou de volta, com um sorriso idiota no rosto.

Arthur fechou os olhos e bateu na própria testa com a mão. Provavelmente não havia quem não tivesse ouvido sua voz estridente. Honestamente. Sua voz era uma das coisas que mais lhe irritava no índio.

Deixou a janela aberta mesmo e voou escada abaixo, saindo de casa e dando a volta. Agarrou os braços de Alfred e chacoalhou-o para ver se acordava.

“ Quer morrer ou o quê?! Vamos sair daqui!”

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“ Você está bravo comigo porque taquei uma pedra na sua janela?”, Alfred andava cabisbaixo ao lado do outro, fazendo beicinho em falsa melancolia.

“ Não. Estou bravo com você porque não consigo entender como foi burro o bastante para se aproximar da minha cidade sem se esconder e berrar em Dakota para meio mundo ouvir.”

Alfred riu.

“ Mas não aconteceu nada, aconteceu?!”

“ Não dessa vez. Não faça mais isso.”

“ Tudo bem, pai...”, respondeu em tom de deboche.

Arthur deu-lhe um soco forte no ombro; Alfred riu mais ainda.

“ Além disso, está quente demais. Não sei como você aguenta...”

“ Você é que tem frescura de vestir sempre uma camisa! Tire ela!”

“ Como assim, frescura?!”, ele olhou-o abismado, “ Ninguém tira a camisa na minha cidade!”

“ Você não está na sua cidade.”, Alfred deu um sorriso maroto e repetiu, “ Tire ela!”

Sem esperar resposta, agarrou a parte de baixo da camisa do inglês e puxou para cima, tirando em um único puxão que quase decapitou-o.

“ Seu idiota! Você vai me devolver!”, Arthur pulava para tentar alcançar a roupa que Alfred segurava alto, com a vantagem de ser alguns centímetros mais alto. Ria em contraste com o outro, que tinha a face avermelhada de raiva.

“ Promete que não coloca e eu te dou!”

“ Me dá, fuck!”

“ Promete!”

“ Bloody hell! Prometo!”

Alfred entregou-lhe a camisa, que foi arrancada de sua mão com um puxão brusco.

“ Confessa que se sente melhor agora!”

“ Não.”, Arthur foi curto e grosso. Na verdade, realmente sentia uma leve brisa que antes não o tocava, e o sol parecia agir mais dócil contra sua pele nua. Mas não admitiria. Claro.

“ Então eu sei de algo que vai ajudar!”

Pegou o pulso do outro e puxou-o correndo pelo deserto, sem se importar com o meio palmo de língua que o inglês sedento mostrava enquanto tentava acompanhá-lo.

Poucos minutos se passaram até que Arthur começasse a ouvir o barulho de água fluindo, e apenas alguns segundos até que um pequeno riacho de água cristalina aparecesse diante de ambos. Alçfred largou seu braço e pulou na água, que foi espirrada para todo o lado e acabou atingindo o outro. Percebeu este como ela estava fria, apesar do calor escaldante. Recusou-se ainda assim a entrar; apenas ajoelhou-se perto da borda e fez uma concha com a mão para beber. Alfred se apoiava na borda e olhava para algum ponto invisível na paisagem.

O outro seguiu seu olhar.

“ O que é aquilo?”, apontou para a silhueta de um pilar grande, alto e deformado que parecia ter duas imensas orelhas.

“ Um totem!”, respondeu o índio.

“ Totem?”

“ Totem! Aquele ali acho que é um brasão...”

“ Uh.”

“ Eu te explico. Vem cá!”, Alfred saiu da água e andou até o totem, deixando um rastro úmido na terra por onde passava, da água que escorria de seu corpo molhado.

Arthur seguiu-o e, ao aproximar-se, conseguiu ver as cors e formas certas do brasão. O que ele julgava serem orelhas na verdade se revelou ser um par de asas.

“ É, esse aqui é um brasão. Registra a história de uma tribo que pelo jeito não existe mais...”, o de olhos azuis sentou-se de pernas cruzadas em frente ao monumento de madeira e tinta gasta. Arthur imitou-o. Ao redor de ambos, realmente não havia nada.

“ ... Mas eles normalmente servem de proteção. Cada bicho tem um significado.”, continuou.

O inglês examinava o tótem com atenção. De cima para baixo, havia: um pássaro azul, algo que deveria ser um urso vermelho bem desbotado pelo sol, um provável sapo branco e, na base, um lobo sem qualquer pintura aparente.

Era o pássaro quem abria as “orelhas”.

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“ Estranho...”, foi seu único comentário.

“ Minha tribo também fas tótens!”, disse alegre o índio.

“ Faz?”

“ É! Tem um na entrada, acho que você não viu. O Wakinyan representa o meu pai!”, sorriu com orgulho.

“ O Wakinyan...?”

“ É, ele-“, parou de repente, e passou a fitar pensativo um buraco no ar, Arthur olhando-o confuso.

“ Ai, eu preciso ir! A gente se vê amanhã, ohan? Ou outro dia, sei lá!”, levantou-se e saiu correndo, o inglês a fitá-lo um tanto aborrecido.

Ainda não percebeu que havia gostado da companhia dele.

Quem sabe até seja tarde demais quando o fizer.

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Alfred chegou ofegante em sua aldeia, dirigindo-se a passos rápidos para sua cabana. Porém, foi impedido pelo pai no caminho, que puxou-o pelo braço.

“ Onde você esteve?”

“ Caminhando!”, não era exatamente uma mentira.

“ Faz dias que você está caminhando.”

“ É que está chato aqui...”

O mais velho continuou a olhá-lo com dureza. Sua desconfiança era óbvia.

“ Então vá trabalhar como todos os outros. Você não é mais uma criança, Alfred.”

Alfred grunhiu.

“ Entenda que não posso mais te considerar uma exceção.”

Ele meneou a cabeça em resposta.

O pai suspirou.

“ Volte a fazer o que ia fazer.”

O mais novo logo voltou a correr para a cabana.

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Arthur havia acabado de terminar seu registro sobre os tótens quando ouviu a porta se abrir. Pela janela, ainda via o sol alto no céu. Seu pai chegara cedo.

Largou o caderno na cama e saiu do quarto. Do andar de cima podia ver o pai, vermelho de raiva – ou quem sabe por causa do sol – gritando com o mesmo pobre homem que vira outrora em casa, semanas atrás, quando ainda começava a interagir com Alfred.

“ Seu prazo está acabando e ainda não fizemos nenhum maldito progresso!”, ele berrava, “ Eu disse que queria aqueles índios na nossa mão até o fim desse ano! E agora? Estamos em novembro e perdemos todas as batalhas! Todas! Isso é vergonhoso!”

O homenzinho ainda tentou replicar, mas o maior interrompeu-o.

“ Eu quero que se retire agora e trabalhe, idiota!”

Ele obedeceu-o imediatamente.

Vendo-se enfim sozinho, o homem bateu forte com a palma de uma mão na mesa, enquanto a outra limpava o suor que escorria de sua testa.

Arthur mordeu os lábios enquanto refletia.

A informação em seu caderno era valiosa, ele sabia, mas ele sabia que, antes de entregar, precisava penetrar novamente na aldeia para conseguir preencher algumas lacunas como organização, localização, função de cada tenda e da aldeia em si. Não sabia se conseguiria até o final de dezembro; sua primeira tentativa fora frustrada.

Mas quem sabe não fosse problema para seu pai consegui-las... Ou quem sabe ele conseguiria se virar com aquilo, apenas. Poderia entregar-lhe o caderno agora e continuar a enriquecê-lo de informações mesmo assim.

Desceu as escadas. O barulho de seus pés contra a madeira chamou a atenção do pai, que lançou a ele um olhar raivoso, logo notando o objeto que o filho segurava.

“ O que é isso?”, perguntou assim que o outro se aproximou, carrancudo.

“ Informações que eu cosnsegui.”

“ Me passe isso.”, tomou-o das mãos do menor, folheando as páginas sem se demorar nem ao menos meio minuto em cada uma delas. Mesmo assim, sob o olhar cheio de expectativas do filho, quanto mais avançava, mais abria os olhos em admiração.

Por fim, fechou o caderno e retomou sua expressão severa.

“ Onde encontrou isso?”

“ Eu mesmo escrevi.”, respondeu, tentando manter uma expressão neutra, “ Consegui me infiltrar no meio deles.”

“ Você interagiu com aqueles selvagens?!”, brandiu o pai de repente, fazendo Arthur dar um passo para trás com o susto.

“ Deu resultado! Está dando, aliás! Ainda faltam algumas partes, mas o essencial está aí!”

“ Essa horda de subdesenvolvidos poderia te cortar ao meio! Por Deus, será que você não raciocina?! Eles não são como nós! São assassinos violentos que matam a sangue frio e quero que você bote isso na cabeça!”

“ Está funcionando!”, levantou a voz em resposta, “ A confiança dele em mim é quase total! Só preciso conseguir os últimos detalhes...”

O pai cruzou os braços, não se importando em perguntar quem seria “le”, e bateu na mão do menos quando este tentou pegar o caderno de volta.

“ Isso vai ficar comigo, para que possamos analizar melhor. Você, então, continue com o seu trabalho e passe tudo o que conseguir para mim. Chega por hoje.”

Arthur apenas assentiu e nada respondeu. Retirou-se subindo as escadas, mas parou no terceiro degrau.

“ Pai...”

“ O quê?”

“ Não existem índios ‘bons‘?“

“ Existem...“, respondeu ele depois de alguns segundos, “ … Os índios mortos.“

Arthur sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.

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O barulho de algum objeto raspando na madeira foi o primeiro som que o líder da tribo ouviu ao acordar. E a primeira imagem foi a de seu filho – naturalmente ilegítimo; as diferenças físicas eram gritantes – sentado em um canto da tenda, uma pequena faca em mãos que usava para tirar pequenas lascas de um toco de madeira. Estava aparentemente bastante concentrado em sua atividade.

“ O que você está fazendo?”, foi sua pergunta óbvia.

“ Uma coisa...”, repetiu vagamente o outro.

“ Por quê?”

Alfred deu de ombros.

“ Acho legal...”

Se a desconfiança do pai já havia surgido na primeira resposta, na segunda atingira seu ápice.

“ Para alguém em especial?”

“ Não, para mim mesmo...”

“ Não minta para mim.”

“ Não estou mentindo.”

“ Mentiu de novo.”

“ Pai!”, lançou-lhe um olhar impaciente.

“ Você é péssimo em esconder segredos, Alfred. Acha que não é motivo de boatos você sair todo o dia da aldeia e retornar apenas ao anoitecer?”

Alfred ficou mudo.

O pai suspirou.

“ Eu sei que você vai achar um jeito de continuar interagindo com o garoto branco não importa o quanto eu te proíba.”

“ Ele não é mau, pai...”

Ele respirou fundo.

“ Acho que posso deixar você o trazer aqui.”

O mais novo abriu um grande sorriso.

“ Sério mesmo?!”

“ Sim. Só o traga para mim antes.”

Alfred jogou os braços para cima em sinal de vitória e gritou:

“ Ah-í-í-í-í-í!”


Não saiu de casa naquele dia; ficou a trabalhar em sua escultura.

E foi melhor assim, porque se tivesse saído não encontraria Arthur, porque este também decidiu ficar em seu quarto, ocupado demais tentando não se desesperar enquanto tentava organizar suas opniões e pensamentos.

No dia seguinte lhe foi dado um prazo para coletar as últimas informações requisitadas por seu pai. O exército atacaria na quarta-feira da semana seguinte.

Era segunda-feira.


Arthur não teve coragem de ve Alfred nos dias que se seguiram.

Alfred começou a se preocupar com Arthur.

Notas finais
Wakinyan - Pássaro-Trovão da mitologia Dakota. Vou falar dele mais tarde~
Ohan? - Okay?
Ah-í-í-í-í-í: Expressão de euforia