Dakota, Kool-Aid e Alguns Conselhos
1 Uma conversa... nada convencional
Notas iniciais
Sentado numa pedra próxima a linha da fronteira de Términus estava eu, sem sono, esperando o dia amanhecer pra: Enfrentar um exército de gigantes que não podemos vencer, a garota que eu gosto quase morreu e logo depois abandonou a nossa coorte e eu estou aqui sozinho enquanto converso com uma garrafa de suco!
Na verdade eu já havia tomado tanto dessa coisa que logo essa mancha vermelha ao redor da minha boca vai se tornar permanente, e mais um motivo de vergonha para a quinta coorte. Aliás, deveria ter sido eu a morrer, eu a deixar a coorte e não a Gwen, sério, todo mundo gosta dela, ela sabe como animar e controlar as pessoas mesmo em batalha e era realmente útil enquanto eu não consegui nem defendê-la.
E juro que se um dia eu descobrir que quase a matou com aquela pilo eu vou pegar e... então notei que apertava a garrafinha que estava em minha mãe e sujava toda minha roupa com os respingos que saiam dela. — Não Kool, não estou bravo com você eu só... estou me sentindo frustrado e inútil.
Muito inútil, na verdade, principalmente porque aqueles três tinham ido em missão pro Alaska, incluindo nosso novo centurião Frank, que mais tinha cara de bebê e corpo de urso, e que provavelmente morreriam e não conseguiriam voltar pra festa da Fortuna que, além de tudo, é hoje! Mais azar pro acampamento, mais um derrota da quinta e tudo por culpa de uma maldição idiota.
Levantei e comecei a andar de um lado pro outro, resmungando entre goladas de suco e chutes em pedras. – Gwen, porque foi nos deixar? Me deixar? – Pensava melancolicamente enquanto lembrava-me da linda centúria que ficou ao meu lado nos últimos anos, enfrentando com bom humor, sutileza e perseverança toda a nossa maré de azar.
– Calma, tudo vai se ajeitar e você precisa se concentrar em salvar o acampamento... Não, definitivamente eu tinha pirado pois aquela voz estava vindo da minha garrafa de suco! Joguei meio derrubando a garrafa no chão, me benzendo e murmurando algo como — CreinBacomeudeuspai que porra é essa?
– Olha, se eu tivesse um corpo diria que isso deve ter doído, não sou nada além de um produto da sua imaginação hiperativa.
– Oi, como é que é, peraí que eu não entendi nada, porque tem uma garrafa falando comigo?
– Semideuses, sempre tão lerdos... se eu tivesse mãos e testa me daria um a facepalm agora. Eu não sou nada, sua cabeça que está me imaginando e imaginando esse diálogo, foi o excesso de açúcar. E, aliás, você não está conversando com a garrafa, mas sim comigo, o suco dentro dela.
Deuses, alguém misturou vinho no meu suco, só pode, então peguei a garrafa e num gesto automático ia colocando-a na boca, mas parei bem na hora, – Er, desculpa. Eu realmente estava pedindo desculpa pro suco? – Não, sem problemas, vá em frente, estou aqui pra isso. – Aquilo definitivamente estava passando os limites do bizarro e olha que já muitas coisas bizarras afinal o deus protetor da cidade era uma estatua em braços com transtorno obsessivo compulsivo!
– Sinceramente melhor não, senhor Kool, vai que você tentasse conversar comigo de dentro do meu estômago, melhor não. Enfim, por qual motivo meu cérebro quer que eu fale com você? Disse enquanto descia em direção ao dormitório, logo amanheceria e o ataque iria começar e eu não poderia deixar minha coorte sem liderança – apesar de eu ser um líder que descobriu agora ter sérios problemas mentais, melhor isso que nada, né?
– Uhnn, bom, a parte hiperativa faz você me ver e ouvir e a parte (pequena) que ainda está sã, gostaria de te dizer que você precisa parar de se martirizar, o que aconteceu com a Gwen não foi sua culpa e que você é um bom líder pra quinta coorte. Claro, um líder perdedor pra uma corte amaldiçoada, fora que se aquelas três conseguirem livrar a Morte, ela vai ser levada embora! Como quer que eu enfrente esse dia bem, Kool?
– Enfrentando oras, você é um soldado romano! Não é pra você não ter sentimentos mas você tem de enfrentar seu destino com coragem, como um homem e, se for a última vez que você verá a Gwen – ignorando a hipótese dos dois morrerem e se encontrarem n Submundo – faça valer a pena, droga rapaz, você é um legionário, aja como um!
É, eu tava tendo a orelha puxada por um suco, apesar disso ele também tinha me incentivado é, era isso que eu faria! Sim, você tem razão eu vou...
– Dakota? Ahn, por que você está falando sozinho? – Fui surpreendido por aquela voz inconfundivelmente simpática, mas ela tinha me dado um susto, tanto que derrubei a garrafa no chão. – Er, nada, só... não consegui dormir, aliás, que faz aqui, achei que estaria dentro da cidade e segura. Pelo menos até Tânatos vir te buscar, completei mentalmente. Olhei pro chão, pro suco e ele tinha se derramado todo e estava sendo absorvido pela terra, pelo jeito não era tão cedo que eu conversaria com o Senhor kool.
– Nada disso, seu bobo, posso estar me aposentando mas enquanto Frank não voltar – se voltar – eu fico de centuriã interina e vou lutar ao lado da quinta, pelo menos uma última vez. – Acrescentou com um toque de tristeza, sim, ela tinha aceitado que ia morrer, mas sorriu e com a ponta da minha blusa começou a limpar a mancha vermelha em volta da minha boca.
Ela estava linda, de frente pro nascer do sol. Peguei suas mãos entre as minhas – Gwen, saiba que eu...eu – quando tomei o último fôlego e coragem pra dizer o que tinha de dizer uma trombeta soou e um grito de alerta avisando que os inimigos estavam próximos – vou guardar suas costas enquanto você acerta uns monstros, okay?
– Claro! Vamos? – E me puxou correndo pro arsenal, tínhamos que pegar nossas armas e vestir as armaduras me odiei por não ter conseguido dizer nada, mas ela estava agora ao meu lado e eu aproveitaria muito, mesmo que fossemos morrer daqui a pouco. No caminho peguei outra garrafa de Kool-Aid vermelha, afinal tinha que ficar abastecido pra batalha, mas o Senhor Kool não estava lá e eu podia beber sem culpa.
...
Bem longe dali, no Acampamento meio sangue, Baco – não Dionísio – sorria orgulhoso enquanto via o filho correr pra batalha, ele assistia a tudo aquilo através de uma grande superfície espelhada em uma bacia cheia de um líquido avermelhado, vinho, você presumiria. Então ele pegou uma taça, mergulhou na bacia e levou a boca, provando o sabor. – Senhor Kool, gostei, aliás filho, Kool-Aid vermelho também sempre foi meu preferido. Disse com a boca pintada pelo líquido.
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