(Ruby Lucas POV)

Eu estava aflita. Histérica. Na verdade, sentia todas as sensações negativas que podia sentir, e um sentimento forte de decepção comigo mesma.

— Vó, o David já desceu? — perguntei pela terceira vez, ansiosa.

— Não, Ruby. ­Menina, vai lavar aquela louça que quando ele passar aqui eu chamo ele quando ele e você conversa com ele!

A pousada da minha vó nunca teve tantos hóspedes como agora. Antes geralmente aparecia um ou outro pra ficar alguns dias porque estava com a casa sendo reformada ou coisa do tipo, mas agora, estávamos cheios. Sem lembrar de onde vieram, não faria mais sentido os “homens alegres” morarem em acampamentos, então Regina fez com que pensassem que sempre moraram na pousada. Também tínhamos na pousada, gente que antes morava com pessoas das quais agora não podia lembrar de ter conhecido. Ah sim, tínhamos Maleficent (agora Agatha) que estava conosco antes da bagunça toda, e Lily, que agora acreditava ser sua sobrinha, já que a diferença de idade física não era tão grande pra parecerem mãe e filha. Sem falar na Ursula, nossa mais nova moradora. E todo mundo naquela manhã resolvia aparecer, menos David. O amigo dele que tinha dormido com ele, tinha saído bem cedo, mas não tive coragem de falar com ele pra passar recado pro xerife. Eu precisava falar diretamente com ele.

Eu já estava quase chorando de desespero. Ao que indicava, o que fiz poderia destruir a vida daquele homem. Tudo por causa de uma brincadeirinha “inocente”.

Então finalmente David apareceu. Eu tinha ficado o tempo todo vigiando a escadaria da pousada que dá acesso a uma das entradas do Granny’s porque não confiava que minha vó vigiaria. Na verdade tinha certeza que ele passaria despercebido por ela.

— David! David, espera, eu preciso falar com você! — ele tinha costume de tomar café todas as manhãs na lanchonete, mas pela pressa com que saía com Neal no colo, tinha outros programas para o dia.

— Seja o que for, Ruby, pode me falar depois. A Emma está me esperando, tenho que ir. — ele disse e continuou andando sem olhar pra trás.

— David, por favor, é muito importante! — gritei correndo atrás dele e segurando de leve seu braço.

— Para Ruby, que saco! Não tá vendo que estou segurando o Neal? Vai me fazer derrubar o moleque, caramba. Até depois.

Eu até entendia a fase “deprê” que ele estava passando, mas fiquei extremamente chateada com o descaso. Poxa, não era hora de bancar o anti-social e fugir. O que eu tinha a lhe falar era importantíssimo, sobre ele e estava me consumindo. E quanta bobeira me chamar a atenção por segurar seu braço. Como se o menino dele não pudesse andar sozinho. Era só ele deixar o Neal com a minha vó um minutinho pra gente conversar.

Mas eu não podia culpá-lo por tudo. Aliás, por nada. A culpa era exclusivamente minha. Fiquei com a consciência pesada a tarde toda. Mesmo atendendo os clientes, só conseguia pensar na minha culpa.

Ai Ruby, por quê diabos você tem que ser tão lerda de falar essas coisas na frente do Leroy?”, me perguntava em pensamento, as vezes alternando por “Ruby, você é burra” e “Epa, como era mesmo? Com chocolate ou baunilha? Por que eu não anotei? Lembra, Ruby, lembra!”. Sim, eu estava muito distraída.

Meu dia estava sendo um saco, justamente por pensar exclusivamente nos problemas que eu causara a “Charming”. Achava que não ia tirar isso de mente mais, até que alguém apareceu. Bom, tenho que confessar: eu estava tendo, por motivos desconhecidos, uma paixão platônica por August Booth. Mas ele nem sequer se lembrava de mim. O rapaz agora acreditava ter nascido e morado a vida toda em Storybrooke, mas não podia se lembrar da nossa conversa sobre os lêmures e a proposta de me mostrar o mundo, porque nessa época tinha consciência da nossa vida passada, e praticamente todos cidadãos agora, tinham memórias falsas de uma cidade comum onde sempre viveram. August ia ao Granny’s todos os dias, das 7:30hs às 8:20hs no máximo. Sim, eu havia decorado. Ele nunca chegou um minuto mais cedo nem um minuto mais tarde. Ele sempre comprava três rosquinhas feitas no dia e milk-shakes para ele e o pai. Quando não haviam rosquinhas, ele comprava bolo de chocolate. Mas sempre pedia pra raspar a cobertura que derramava dos lados porque não gostava que grudasse demais no papel. As vezes ele vinha também as 15hs e pouco. Aí ele comprava algo pro café da tarde, geralmente eram donuts. Pelo pouco que eu via ele falar, parecia ser o mesmo August de antes, com a mesma personalidade, mas ao mesmo tempo, não era aquele August porque nunca ficava na lanchonete mais do que o necessário e não falava comigo. Vivia uma vida totalmente automática e eu me sentia invisível pra ele.

— Olá. — ele disse com seu sorriso encantador que mesclava o contraste dos seus dentes brancos e a barba mal aparada. Mas ele não disse um “Olá” específico para mim, Ruby. Ele disse “Olá” para a eu-garçonete. — Por favor, três rosquinhas dessa aqui. E dois milkshakes de morango. — 8:18, eu vi em seu relógio de pulso. Eu sempre tentava ganhar as apostas que fazia com o relógio, torcendo pra que ele aparecesse um minuto mais cedo que de costume ou mais tarde, mas eu nunca consegui.

— É pra já. — resmunguei indignada de que não tivesse me olhado nos olhos.

Mas assim que eu lhe entreguei o pedido, me pagou e se sentou a uma mesinha. Eu não aguentei, tive que saciar minha curiosidade.

— Ué, você não vai levar pra comer em casa? — perguntei me aproximando indiscretamente.

— Hã, está falando comigo? — ele disse procurando outras pessoas ao seu redor, com uma carinha de assustado. — Ah, desculpe. Claro. Claro que está falando comigo. — ele sorriu nervoso. — Não, na verdade não. Vou comer aqui mesmo por hoje.

— Mas você não vai levar pro Marco, seu pai? — esperava que ele respondesse também qual dos dois comia duas rosquinhas ou se ambos comiam uma e dividiam a terceira.

— Como sabe que eu sou filho do Marco? Não lembro de te falado isso.

— Ah, cidade pequena. Sabe como é. — respondi sem graça.

— Não, eu não vou levar pra ele hoje. Ele saiu bem mais cedo pra consertar um problema na fiação de uma amiga nossa. Então ele me acordou e me deu bom dia com seu melhor sorriso, como se esse pudesse ser seu último bom dia pra mim. Não sei porquê, mas ele sempre faz isso. Enfim. Ele foi tomar café e me perguntou o que eu ia comprar pra comer. E eu respondi “o de sempre”, sem pensar muito. E bom, eu sempre compro o café dele também, e como não consigo mentir pra ele, eu literalmente tive que comprar “o de sempre”. É uma mania meio supersticiosa e boba né? Eu sei, deve me achar doido.

Ele nunca tinha falado comigo em tantos meses e agora tinha dito frases enormes. — Não, eu não te acho doido, acredite. — sorri de canto, um pouco tímida. — Na verdade, acho muito fofo.

— Eu não vou comer tudo isso. Sua vó ficaria brava se se sentasse comigo um pouquinho e me ajudasse?

— Como sabe que eu sou neta da dona? — eu lhe olhava profundamente.

— Tem razão, você também nunca me disse. — ele parecia rir com os olhos — Sei que ela tem uma neta mas tem várias outras moças aqui né? Acho que tenho uma dedução boa. Você é a mais bonita, aposto que herdou da sua vó. — sim, esse era August. Definitivamente.

Eu me sentei com ele rindo feito idiota e comemos juntos. Eu comi uma rosquinha, mas ele me ofereceu a segunda. Eu só agradeci. E ele me ofereceu metade. Como insistiu, dividimos. Ele era ainda mais lindo e fofo do que eu conseguia me lembrar. Conversamos por longos minutos até que minha vó me percebeu “moscando” e chamou minha atenção.

— August, passa aqui mais tarde. Eu te pago uma bebida e você ainda escolhe um doce. — falei brincando, mas realmente lhe daria um doce se quisesse.

Ele sorriu e agradecendo o convite, disse que viria mesmo. Combinei com ele para que viesse um pouco antes de fecharmos, pra sairmos logo em seguida para batermos um papo numa caminhada pela cidade.

Trabalhando a noite cai num segundo. O dia passou muito mais rápido que eu esperava. E isso me deixava empolgada para ver August logo. Mas David voltou, de mãos dadas com Neal e Emma ao seu lado. Eu tinha até me esquecido disso.

— Emma, fica com ele um pouco. Pode subir se quiser, vou falar com a Ruby. — ouvi ele dizer.

— Ok. — Emma respondeu fazendo um cafuné no menino. — Vamos, garoto!

— Pode falar Ruby. — ele disse sério, se aproximando de mim.

"P#ta que p@riu", eu me borrei toda. Instantaneamente comecei a tremer. Eu fiquei agitada e meus batimentos aceleraram, o que me atrapalhou a pensar e produzir sons de forma rápida. Respondi a ele gaguejando um pouco.

— D-David, eu e-e-eu... olha, o que eu vou te contar é muito sério, é que aconteceu uma coisa que... eu é...

— Fala Ruby, desembucha.

Eu respirei devagar, procurando me acalmar. — David. Ontem eu fiz uma idiotice sem tamanho. — comecei a dizer super nervosa. Ele não dizia nada, só me fitava, examinando cada movimento da minha boca. — Você sabe como sou desinibida com a minha vó né? Eu adoro brincar com ela de dizer coisas que a deixam embaraçada e tal. Então, ontem quando você subiu com o... qual o nome dele mesmo? Chris. Então, depois um pouco que você subiu com ele, eu brinquei com a minha vó pra deixar ela vermelha, já que não gosta de me ver falando coisas “safadas”. Eu disse, “Nossa vó, viu só que gato o boy que o David tá levando pra casa? Um desses até eu quero. O que será que os dois vão fazer hein?”. Ela me bateu com o pano de prato me mandando ficar quieta pros clientes não me ouvirem, mas eu nem me toquei. Ela tava falando por causa do Leroy que tava bem atrás da gente, foi logo que o tempo melhorou, o Leroy tinha chegado aqui pra tomar cerveja. E eu continuei zoando David, eu disse que imaginava vocês fazendo loucuras e... — David começou a tremer mais que eu. Uma gota de suor lhe correu de um canto da testa. Ele não dizia uma palavra. — Por tudo que é mais sagrado David, me perdoa, eu juro que tava só brincando, eu não imaginava que o Leroy fosse ouvir e entender tudo do jeito dele. Agora ele tá dizendo coisas sacanas horríveis pra cidade toda, e ainda afirmando que eu vi tudo, eu... eu não sei onde enfiar a cara, já desmenti pra um monte de gente, mas ele continua ofendendo você com nomes pejorativos e...

— Da licença Ruby. — ele disse me afastando pro lado, foi quando me dei conta de que Leroy justamente estava ali presente, numa rodinha com Jim, Sean, Clark e Walter. Os meninos pareciam até desconfortáveis com algo que Leroy dizia já bêbado e morrendo de rir.

David foi na direção dele em passos muito rápidos e eu comecei a passar mal.

Não, e vocês não sabem da pior! Essa bicha que é a mulherzinha da relação!” — pude ouvir da boca de Leroy, e desejei não ter nascido.

— Ih, olha ele aí, fala xerife! — o “anão” cumprimentou-o na maior cara de pau.

— "Mulherzinha da relação", não é Leroy? — David disse totalmente alterado, vermelho com as veias pulando do corpo.

Leroy mal teve tempo de desformar o sorriso que esboçava no rosto quando David segurou-o pela parte de trás da cabeça e a jogou contra a mesa várias vezes em segundos, com muita força enchendo a cara dele de sangue. Os companheiros de Leroy levantaram-se assustados e um monte de gente começou a se apavorar.

— Todo mundo da cidade agora já sabe que você é bichinha! Não adianta se esconder! — o bêbado dizia se acabando de rir.

— Agora você vai aprender uma coisa, Leroy. Você vai levar uma surra da “bichinha” aqui! — David gritava fora de si.

— ALGUÉM CHAMA A POLÍCIA! — comecei a gritar desesperada e só depois percebi que David era a única polícia da cidade.

Minha vó escondeu-se atrás do balcão e começou a orar, como se estivesse pedindo a Deus para não morrer em um assalto a mão armada.

— PARA COM ISSO DAVID! DAVID, PARA, POR FAVOR! — eu tentei pará-lo de todas as formas, puxei ele pela roupa, mas ele continuou batendo no bebum.

Com socos na face e na barriga, David parecia um animal insaciável por vingança.

— DAVID, POR FAVOR, NÃO FAZ ISSO! David! David, você tá estragando a imagem do estabelecimento da minha vó. Gente, por favor, alguém chama a Emma! A Emma vó, liga pra ela! — eu gritei finalmente tendo um fio de lucidez.

Minha vó pegou o telefone imediatamente, mas David continuava a pancadaria. Nenhum dos rapazes ali presentes tomou qualquer atitude, só se afastaram com medo de apanhar também. Eu fui pra cima tentar segurar David sozinha.

— Ruby? Ruby, o que está acontecendo!? — a voz de August me chamou. A essa altura o que já não lembrava mais era do nosso encontro. — O que você está fazendo!? — ele veio correndo na minha direção, meus olhos já estavam cheios de lágrimas. Grumpy era boa gente, mas como Leroy, o bêbado, ele era um babaca. Mesmo assim, não podia deixar de me importar com ele. Mais ainda me importava com David, que estava agindo irracionalmente. August me puxou num abraço e me arrastou pra quase um metro de distância e depois foi em direção aos rapazes.

— Bate mesmo, viado! Aproveita pra bater com força porque depois você vai chorar quando ter o que merece! — Leroy esbraveja quando August chegou perto deles e conseguiu puxar o xerife.

Ele foi atingido no nariz por um chute inesperado de Leroy. Ele saiu cambaleando com o nariz cheio de sangue, mas agarrando David pelo braço. Este estava realmente voltando a si e também estava com os olhos vermelhos de lágrimas, provavelmente arrependido do que fizera. August também chorava de dor, e eu de pânico.

— O QUE TÁ ACONTECENDO AQUI?! — gritou Emma desesperada quando chegou e viu toda aquela cena. Duas cadeiras tinham caído no chão, havia comida espalhada e tudo estava sujo do sangue de Leroy.

Eu abracei August, assutada, e David saiu tropeçando, sem dizer uma palavra.

— Pai! — Emma exclamou indo na direção dele.

— Isso sua sapata! Corre atrás do teu pai de mentirinha, seus doentes! Não duvido nada que você esteja no meio dessa indecência deles! Pervertidos! — berrava Leroy.

Emma só olhou para ele com desprezo e saiu atrás do pai.

Nesse momento Leroy limpando o sangue da boca decidiu de ímpeto correr atrás de David. Ele empurrou Emma que quase caiu no chão.

— Não! — eu gritei e então me escondi no peito de August, que me abraçava forte.