Dados Viciados
2 Você Gosta de Apostas?
Era uma noite fria de outono e meus melhores amigos inventaram de nos encontrarmos na praça perto da escola. Devia ser, mais ou menos, 22:30h. O que um bando de recém-adolescentes iria fazer numa praça a essa hora da noite?
Bem, havia boatos estranhos na escola sobre um senhor que fazia apostas com quem passava pela praça a partir das onze da noite. Diziam que ele usava dados vermelhos com os números brancos. Histórias de pessoas que desapareciam ou morriam logo depois de apostar com ele corriam soltas, apesar de ninguém realmente conhecer as supostas vítimas.
E, claro, como nós éramos curiosos e enxeridos o bastante, combinamos de investigar aquilo a fundo, da pior maneira possível.
Nossos pais não eram problema, tínhamos dito para eles que íamos todos no cinema e que voltaríamos todos juntos á pé mais ou menos umas onze horas.A cidade era pequena, tudo era perto, eles deixaram.
Portanto, lá estávamos nós. Tiago, o mais corajoso que, na verdade, devia estar ali porque seus outros amigos o deixaram de fora de alguma balada, alto magro, estilo bem atlético, cabelos e olhos castanho-escuros. Kiara, a apaixonada pelo Tiago, totalmente louca por ele, uma das minhas melhores amigas, baixinha e super ativa, não queira vê-la estressada (!).
Gabriel, cabelos castanhos e olhos verdes, altura mediana, estava falando alguma merda (nosso grupo não falava nada útil) com seu melhor amigo, Bruno. Este, baixinho, mais ou menos gordo, cabelos castanho-claros e olhos da mesma cor, sempre falando ou de Justin Bieber ou de “The Big Bang Theory”, mais especificamente “Bazzinga”.
Então tínhamos Carolina, altura mediana, estava ouvindo Vitor e Leo no Ipod, cantando alto. Na verdade, ela estava pouco se lixando para o que íamos fazer aqui. Havia, também, Isabela, minha outra melhor amiga, alta, cabelos negros e olhos verdes, para variar, seus dentes batiam incontrolavelmente de frio, ou de medo, sei lá. Ela agarrava firme meu braço, morrendo de medo.
Todos formávamos o grupo daqueles alunos que, ou falavam muito durante a aula, ou eram muito nerds. É, eu sei, mistura estranha e incomum, mas esse era nosso grupo.
A praça tinha formato circular, era toda coberta por uma grama mal-cortada e árvores bem espaçadas. Do lado direito, havia um caminho de paralelepípedos que serpenteava entre mesas com tabuleiros de damas e bancos de pedra. Do lado esquerdo, havia um parquinho com os brinquedos tradicionais, balanço, escorregador... Essa área tinha o chão coberto de areia. A rua que circulava a praça estava totalmente deserta, postes de luz piscavam aqui e ali, e o padrão se repetia em todas as travessas.
A área da praça em si era bem mal-iluminada, se houvessem duas àrvores muito perto uma da outra, a penumbra causada era de um breu tremendo.
- Por que, exatamente, nós combinamos uma hora tão cedo? – Tiago perguntou, quase rindo.
- Por que achamos que algumas pessoas chegariam atrasadas... – disse Kiara, olhando acusadoramente para mim.
- Eu posso ser pontual quando eu quero, viu?! – repliquei.
- Diz isso para a professora de história. – ela devolveu, não com ruindade, afinal a gente sempre brincava com o assunto.
Olha, eu e a professora de história, uma matéria, que, aliás, eu amo, não nos dávamos muito bem. Eu era totalmente contra os métodos de ensino que ela usava e tinha entrado em um tipo de greve de lições desde o começo do ano. Ou entregava lição atrasada ou simplesmente não a fazia, ponto.
- Então... – disse Isa, morrendo de medo. – já que ninguém quer esperar, vamos embora?
- Ah, nem vem, Isabela. – replicou Carolina. Medo... ela tava ouvindo a conversa mesmo cantando com o Ipod... – Agora que a gente está aqui, vamos ficar até o fim!
- É isso aí! – disse Bruno, imitando a cara de decidida de Carol e fazendo uma voz ridícula, cruzando os braços.
Ela o olhou com desdém e apenas disse:
- Cabeçudo...
De repente, um galho estalou à direita. Fomos pegos desprevenidos, Kiara gritou, abraçando Tiago. Carolina deixou o aparelho de som cair no chão e Bruno ficou completamente branco. Isa apertou ainda mais (se é que aquilo era possível) meu braço.
- Hey! – gritei.
- Desculpa. – ela pediu.
Todos olhamos intrigados para a direção de onde o som tinha vindo, eu não posso negar, também estava com medo. Porém era apenas Gabriel xeretando onde não devia. Ele olhou para nossa direção com um ar de “o que aconteceu”, alarmado, porém, quando entendeu que era ele o causador do tumulto, sua expressão relaxou.
- Wow! Vocês são muito medrosos!
- Besta. – xinguei baixinho.
- Bom, depois dessa... vocês não querem mesmo ir embora? – perguntou Isa, com uma pontinha de esperança na voz.
- Não. – respondemos juntos, em coro.
- Tá bom... – ela disse, simplesmente.
- Hã... – comecei. – Olha, eu não ligo se eu perder o meu braço e tals...
- Desculpa. – Isa disse, largando o meu braço, rindo.
Carolina pegou seu Ipod do chão, apenas para o encontrar coberto com alguma coisa (não quero imaginar o que realmente era aquilo) marrom, fedorenta.
- Ah, mano!!! – ela resmungou, com a cara fechada.
Nem eu nem Gabriel conseguimos nos conter e, a beira das gargalhadas, apontamos para o aparelho eletrônico recém pintado de Carol.
- Acho que você achou um brinde! – disse Kiara, rindo também.
Tiago apenas cobria a boca, dando umas risadas muito estranhas. Bruno só faltava rolar no chão de tanto rir. Isabela fazia o máximo para controlar o riso, sem muito sucesso.
- Vão se ferrar! Não tem graça. – Carolina replicou.
- Ah, tem, sim, acredite! – eu disse entre gargalhadas.
Então, ouvi outro estalo de galhos, mas, desta vez, não dei atenção. Devia ser um dos garotos rindo que saiu da parte coberta com areia e quebrou um galho.
Levantei os olhos, enxugando as lágrimas que desciam descontrolavelmente. Olhei para todos, que também estavam chorando de rir, menos, é claro, Carol.
Mas, então, algo chamou minha atenção. Olhei para os pés de todos e ninguém estava fora da área de areia. Então... o que foi aquele barulho?
- Ou! – eu chamei a atenção do povo, realmente preocupada agora. – ouviram isso?
Imediatamente, as risadas deram lugar ao medo e meus amigos esquadrinhavam a praça em busca de algo suspeito. Meus olhos corriam pelas árvores, tentando encontrar alguém ou algo que pudesse ter feito aquele som.
- Hã... ali. – disse Gabriel. – É uma pessoa?
Olhei para a direção que ele apontava. Tinha, sim, uma espécie de sombra negra sentada em um dos bancos e mesas de pedra. Mas eu não conseguia enxergar direito, estava sem os óculos.
- Não consigo ver. – eu anunciei.
- Mas, você é cega, hein, flor? – Kiara disse.
Normalmente, ela dizia isso com humor na voz, porém, naquele instante, o som formado por suas cordas vocais ameaçava falhar... de medo. Apertei os olhos para ver se aquilo dava algum resultado contra minha miopia. Entretanto, não consegui distinguir o vulto.
- É um cara. – Tiago esclareceu.
- Valeu. – eu disse.
- E... ele está brincando com dados... – acrescentou (desnecessária ou necessariamente) Bruno.
- Decidindo se eu queria ou não saber disso. – comentou Isabela.
- É... – apoiei.
Carolina não parecia nem um pouco afetada, tentava limpar o ipod. Ou ela era corajosa demais, ou não tinha visto o cara.
- Caramba, mas vocês são idiotas mesmo! Deve ser só um maconheiro.
- Só um maconheiro... – eu disse, imitando o tom sereno de Carol com muito sarcasmo.
- Um maconheiro de, pelo menos, cinqüenta anos de idade? – perguntou Gabriel, descrente.
- Ah, sei lá. – ela replicou.
- Vai lá então. – provocou Tiago.
- É, se você está tão confiante assim, vai lá ver quem é. – Kiara aproveitou o embalo de Tiago... pra variar...
- Eu não. – falou Carol.
Seria aquele o velho sobre o qual os boatos falavam? Eu estava morrendo de medo, só que, também, estava morrendo de curiosidade. E, ainda por cima, uma dor aguda se fazia sentir em meu braço... novamente.
- Isabela!
- Força do hábito! Mas, dessa vez, eu não solto! – ela replicou.
- Então, você está pretendendo ir até lá comigo? – tomei a decisão repentinamente.
- Você vai lá? – ela arregalou os olhos. – Você sabe muito bem que pode ser um pedófilo ou coisa parecida, né?
- Sei... – eu disse.
Dei o primeiro passo em direção ao cara.
- Na boa, isso tá passando dos limites. A gente combinou que viria aqui mas todos sabiam que os boatos não eram verdadeiros, certo? – Kiara replicou.
- É mesmo, Ver. – Isa acompanhou. – Aquele não é o cara que os boatos falavam, ele pode ser muitas outras coisas, ele pode ser um cara perigoso de verdade.
- Mesmo assim, eu quero ver. – teimei.
Depois daqueles comentários, a coragem desapareceu do rosto de todos. Tudo bem, aquilo era mesmo perigoso, mas a curiosidade estava me matando.
- Olha, não estou pedindo que venham comigo. – eu disse.
Um minuto de silêncio se prosseguiu enquanto meus amigos ponderavam se iriam ou não atrás de mim. É claro que eu não iria forçar ninguém a ir comigo, mas que eu estava com medo de ir até lá sozinha, eu estava. Entretanto, meu exterior parecia determinado e sereno.
- Eu vou também. – disse Isabela. – Você vai precisar de alguém para te puxar e sair correndo ou arrancar seu braço pra você se tocar do perigo que estará correndo.
Modelei um “obrigada” com os lábios, ela sorriu. No fundo, eu sabia que ela estava se cagando de medo.
- Vamos trocar idéias com um uns velhinhos drogados! – disse Gabriel, no tom brincalhão de sempre.
Senti meu rosto ficar quente, o sangue estava subindo até minhas bochechas. Aquilo não costumava a acontecer antes, ainda bem que estava escuro. Não, não que eu gostasse de Gabriel, quero dizer... Talvez tivesse uma queda...
- É isso aí, Pinto! – Tiago disse, animado. (Pinto é o sobrenome do Gabriel, tá? Sem comentários...) – E como o mocinho não pode ficar de fora, eu vou também.
Modesto, não? Ah, e você já adivinhou o que vem a seguir?
- Então, eu vou junto. – Kiara disse rapidamente.
Não consegui esconder um risinho malicioso e ela se tocou que tinha dado a maior bandeira (é, eu sei, gíria antiga).
- Afinal, a Verity é uma das minhas melhores amigas! – Kiara tentou corrigir.
- Aham... – Carol “concordou”, sua boca também dava uma curvinha maliciosa.
- Vocês tão ligados que o velho já deve ter ouvido tudo, né? – Bruno cortou a graça.
Isabela deu de ombros.
- Eu não vou. – ele disse, erguendo as mãos como se quizesse se livrar de algo.
Carolina também não queria ir.
- Uhhhh... Eles querem ter uns momentinhos sozinhos... – eu sussurrei.
- É o que? – Carol, perguntou, começando a ficar furiosa.
- Nada não.
Não consegui disfarçar o sorriso, e tenho certeza de que ela tinha me ouvido bem, só que não estava a fim de discutir naquele momento, então preferiu fingir que não tinha ouvido palavra alguma.
Em seguida, me virei na direção do homem, eu podia jurar que ele estava olhando diretamente para mim e sorrindo, mas não tinha como eu ter certeza. Inspirei fundo e dei um passo à frente. E os passos se tornaram uma caminhada lenta.
Meus amigos me acompanhavam de perto. Peguei Kiara olhando de relance para Tiago, depois para si mesma. Sorri quando me toquei que ela deveria estar pensando se segurava a mão dele ou não.
Isabela e eu andávamos de braços dados. Percebi que seus dentes começaram a bater novamente. Uma brisa gelada cruzou o ar à nossa volta. Ali estava muito mais frio.
As árvores ficaram assustadoras, as sombrias davam a impressão de esconder milhares de perigos. E para ajudar, não havia iluminação nenhuma.
Gabriel era o único que parecia calmo e descontraído. Com as mãos acomodando a nuca, andava da mesma maneira que andava num shopping ou parque. Mesmo assim, as piadas que fizemos alguns momentos atrás estavam muito distantes agora...
“Ah, por favor, Verity!” minha parte aventureira e curiosa, idiota e corajosa dizia “É apenas um senhor brincando com dados! O que um velhinho poderia fazer contra cinco jovens?”. Pena que aquela parte de mim tinha ficado para trás, junto com Carolina e Bruno.
Não demorou nem três minutos para chegarmos perto das mesas e bancos de pedra, mas, naquele silêncio, pareceu uma eternidade.
Realmente, quem estava lá era um velho de, no mínimo, cinqüenta e cinco anos, vestia roupas comuns de idosos comuns. O cabelo grisalho estava espalhado generosamente pela sua cabeça. Os únicos elementos estranhos ou suspeitos na sua imagem eram óculos escuros e os dados vermelhos com números brancos.
Pelo amor de Deus, quem estaria usando óculos escuros no meio da noite? Não dava para saber se o velho estava olhando para nós ou para os dados, que chacoalhava e deixava cair sobre o tabuleiro de damas pintado na mesa. Eu odiava insul-filmes e óculos espelhados por, exclusivamente, isso. Eu gosto de saber se estão me encarando.
Nos entreolhamos, o medo e suspeita tomavam o olhar de todos. Mas engolimos a seco e fitamos o homem, que estava vidrado no resultado dos dados.
- Será que crianças como vocês estariam dispostas a um joguinho de apostas?
Sua voz parecia raspar a garganta para sair. O frio ao nosso redor pareceu se tornar quase sólido, opressivo. A proposta pairava no ar enquanto o velho continuava a fitar os dados.
Tiago limpou a garganta e disse:
- Como? Não temos nada com a gente para apostar...
O velho levantou a cabeça da mesa e, com um sorriso sinistro, replicou:
- Ah, quer jogar para descobrir?
Gabriel deu um passo à frente.
- Eu gostaria. – ele disse, com a voz determinada, quase como uma provocação.
NÃO, não gostaria merda nenhuma!!! Eu queria satisfazer a curiosidade, mas os cochichos estavam se mostrando verdadeiros até agora. E se algo terrível acontecesse com Gabriel?!
Abri a boca para protestar.
- Muito bem. – o velho me cortou, batendo as mãos, animado. – Sente-se, jovem.
Gabriel puxou o banco e se sentou de frente para o homem.
- O jogo é bem simples. Aqui eu tenho dois dados, sim? – ele mostrou os dados vermelhos. – Cada um irá jogá-los três vezes. A primeira aposta ocorre antes da primeira jogada. Quem chegar mais perto do resultado dos próprios dados ganha.
Meu amigo assentiu, ele estava claramente nervoso.
- Quem ganhar da primeira vez, além de ficar com tudo que foi apostado na rodada anterior, pode fazer o primeiro lance. Então, a segunda rodada fica um pouco mais complicada. – o velho continuou. – Faremos uma aposta paralela ao resultado da segunda jogada de dados. Apostaremos quantos pontos teremos feito no final da terceira rodada. Tudo isso antes de jogar os dados. E essa rodada ocorre igual à outra, quem chegar mais perto blá blá blá... Só que, quem ganhá-la, pode refazer a aposta da terceira rodada. Entendeu, rapaz?
- Acho que sim. – Gabriel respondeu, mal dava para ouvir sua voz.
- Anime-se! – o velho gritou. – Afinal de contas, eu já estou um pouco enferrujado, minha sorte não está mais como era antes.
Aquele foi um comentário muito cruel. Ele estava claramente dizendo “Pode tentar, não vai adiantar mesmo. Nem é preciso alimentar esperanças”. Cerrei meus dentes com aquilo. Eu desprezava pessoas que agiam daquele jeito, humilhando os outros.
- Isso vai dar merda... – ouvi Kiara murmurando.
Dei um tapa em seu braço.
- Não fala essas coisas que dá azar! – eu a repreendi.
Todo mundo parecia vidrado nos dados, imaginando quem venceria a aposta. Eu não queria deixar Gabriel ou ninguém apostar com aquele cara. Mas, apesar de meu interior querer explodir palavras de protesto, meu exterior continuava frio e quieto.
Olhei para os outros à minha volta e vi a mesma aflição nos seus olhares. Mas isso não mudava situação. Aquilo era aterrorizante e perigoso, e, apesar de sabermos disso, nossos corpos pareciam desligados.
Estávamos em perigo. As chances de Gabriel ganhar eram mínimas, se é que existiam, e o pior de tudo era sentir aquele medo sem saber exatamente qual era a sua fonte. O que Gabriel estaria perdendo se perdesse essa aposta?
- E se houver empate?
- Então, ganhará aquele que deu o menor lance. E... Oh, sim! – o velho disse com um estalo dedos. – Ora, quase me esqueci do mais importante.
Ele tirou do bolso da calça um monte de pedrinhas azuis cintilantes. As olhou com.. admiração? E as dividiu entre si próprio e meu amigo.
- Estaremos apostando essas “fichas”, eu as chamo de ciclos. Cada um começa com 60 ciclos. Preparado?
Gabriel engoliu a seco e assentiu silenciosamente.
O rosto do velho se preencheu com um sorriso que ia de orelha a orelha.
- Então, que o jogo comece!
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