Dados Galáticos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Hei, se alguém estiver lendo (dúvido), espero que tenha uma boa leitura. Não sei se a postagem será frequente.
– Por que muda tantas vezes? Não é cansativo? Ou vocês conseguem fazer isso inconscientemente? – Quê? Hã... Inconscientemente, eu acho. – Fascinante! – Você quer parar de anotar toda vez que eu mudo minha maldita expressão?! – O tom da sua voz! Fascinante! – Pare com essa maldita palavra! – Suas capacidades cognitivas aumentam junto de seu nível de estresse? Que interessante. – Não foi isso que eu quis dizer quando disse pra... Ah! Isso tudo tem algum sentido? Por que eu tô aqui, afinal de contas? Pode me contar? – Você é a nossa Trigésima nona F descoberta. Nós do quinquagésimo nono Departamento de Proteção de Espécies Em Extinção do Setor ZZ Alfa Quadrante G Rômula, o encontramos há, aproximadamente, 25 mil anos luz do extremo oeste do nosso setor. O trouxemos para o Centro de Recuperação e Observação e o registramos em nosso sistema. Agora, você oficialmente faz parte de nosso amplo zoológico de espécies. – Zoológico...? Eu não sou um animal pra ficar enjaulado! – Creio que esteja equivocado. De acordo com os exames, você é de uma espécie desconhecida chamada Homo Sapiens, subespécie Homo Sapiens Sapiens. Correto? – Acho que sim, mas eu- – Não ficará em cativeiro, se é o que pensa. Isso é contra as leis da democracia galáctica há milênios. – Então... O que eu vou ou devo fazer aqui? – Fornecer informações será o suficiente, precisamos de mais dados sobre sua espécie, não conseguimos encontrar muita coisa, somente algumas parcas anedotas no Guia. E como você foi o último que conseguimos encontrar lá, é nossa única fonte confiável. – Espera... Você acabou de dizer que eu sou o único? Tá querendo dizer que eu sou o único ser humano existente no universo?! – De acordo com os registros, sim. – Eu preciso de um copo d’água... Vocês tem água? Sabe, aquela coisa transparente, feita de H²O? – Sim, nós temos água. Não imaginei que a consumisse, tem bastante em seu corpo, minha teoria era de que a produzisse. Vou precisar atualizar minhas anotações e revisar essa observação com- – Você poderia, por favor, me deixar um pouco... Poderia sair por um tempo? Eu realmente não estou muito à vontade com tanta atenção em mim. – Certo, sairei por 150 tiques. Fique à vontade para andar e conhecer seu quarto. – ... Não vou chorar... Não vou... Eventualmente acabei caindo no choro. As regras de masculinidade, força, coragem, ou qualquer coisa assim não existem mais, eu dito as regras agora, pelo menos de como a minha espécie age. Não consigo saber como me sentir sobre essa auto-instrução. Não quero pensar nisso agora. Observar o ambiente ao meu redor deve me ajudar nisso. Basicamente o quarto que me alojaram é... Frio. Não por sua temperatura ambiente, na verdade, calor ou frio não parecia algo que eu estava sentindo no momento. Frio no sentido apático da palavra; paredes frias, chão frio, cama fria, até o cobertor que cobre meu corpo é frio. Se você já viu algum quarto hospitalar terrestre, provavelmente sabe como estou me sentindo neste ambiente apático. A única coisa que quebra a apatia desse lugar é o barulho de fora, conversas acaloradas sobre qualquer tipo de coisa imaginável e inimaginável. Na verdade, eu não consigo entender a maioria das coisas que estão dizendo, talvez nem estejam falando na minha língua. Além das conversas acaloradas de coisas imagináveis e inimagináveis em diversas línguas que eu tenho certeza que não vieram do meu planeta, há uma pequena placa na parede à minha direita. Decidi levantar. Coloquei meus pés no chão. Corrigindo minha frase anterior: “coloquei um dos meus pés no chão”. Isso porque meu outro pé não conseguiu tocar no chão, a tala que o cobre não deixa. Quero dizer; acredito que seja uma tala. Não há outro nome que eu conheça, ou que existia no vocabulário da minha espécie, que descreva isso. Para a satisfação de todos, não irei enrolar na explicação: um corpo de algo que eu acredito ser silicone (ou algo muito parecido) cobre do joelho até o meu calcanhar, fechando por baixo do meu pé, protegido por um elemento um pouco mais duro. Na verdade, isso parece uma daquelas botas futurísticas que você pode ver em De Volta Pro Futuro II, só que muito mais realística e justa. Bem, eu realmente não preciso me incomodar com isso agora, nem mesmo consigo sentir que isso está na minha perna.
Ignorando algo que eu já consegui ignorar antes, me apoiei nas bordas da cama e levantei. Para cair de quatro no chão. Se eu devo me preocupar com o fato de que não consigo andar direito? Não. Não é minha primeira vez em algo parecido com um hospital, nem minha primeira vez acordando em algo parecido com um, nem minha primeira vez com uma tala, ou algo parecido com uma, no pé. Prefiro ver as coisas por esse ângulo comparativo, se não, sinto que vou enlouquecer, ou entrar em depressão profunda, o que vier primeiro. Apoiando-me nas paredes, com passos curtos e vigiados, cheguei até a plaquinha que conseguia quebrar a apatia do quarto. Não consigo entender nada escrito aqui, mas tem números e é nisso que vou me agarrar neste momento. “413420701-612”. Se é o número do meu quarto ou o meu número de identificação, isso não posso afirmar no presente momento. As letras gravadas parecem uma mistura bizarra de japonês, alemão, russo e alguma língua de uma tribo desconhecida das Filipinas. Que na minha voz parece algum feitiço mal feito do Harry Potter. – Olá. Arregalei os olhos, me surpreendendo por ainda me surpreender com um “olá” dito por uma placa que quebra o clima apático do meu quarto em uma língua estranha com números que não consigo decidir ao que se referem. Como estou no cumulo do absurdo, ou algo que acabei de declarar por toda a minha espécie como cumulo, decidi responder: – Olá. – Você é novo aqui? – Acho que sim... Pra falar a verdade, nem sei há quanto tempo estou aqui. – Estamos na mesma situação, então. – ... Como é ser uma placa? – Espera, quê? – Como é ser uma placa? – Eu não sou uma placa! – Então como eu estou falando com uma placa?! – E eu vou saber? Eu não sou você! Como você está falando com uma placa?! A não-placa tem um ponto! Como eu estou falando com uma placa? Na verdade, eu não estou falando com uma placa, já que a não-placa acabou de explicar que não é uma placa, então eu estou falando com uma não-placa? A palavra “placa” agora já não me parece certa na cabeça. Se não é... Essa barra, que acredito ser de metal, falando, quem é? Bem, a melhor solução para isso agora seria perguntar quem é, mas a ideia de a ficha cair e eu dar um ultimato no meu enlouquecimento precoce me é assustadora. Afinal, ninguém quer pegar a si mesmo falando sozinho com uma placa, ou uma não-placa nesse caso. – Você ainda existe? Por favor, me diz que eu não estou falando com uma parede branca! Resisti muito para enlouquecer agora! – Eu que pergunto se você ainda existe! Eu realmente não quero dar um ultimato no meu estado mental. – É claro que eu existo! Pra uma parede, você é bem estressada. – E para uma placa, você é muito confusa. – Podemos encerrar essa discussão de quem ou o que somos um para o outro? – Por favor. – Agradeço. – ... – Sua espécie... Ela também foi extinta? – Essa não é uma pergunta um pouco redundante? – Olha, eu não converso com ninguém sem ser meu médico supervisor há 21 dias, me dá um desconto. – Bem, eu não converso com ninguém sem ser aquela coisa que estava aqui há... Não faço ideia. – Amnésia pós pré-extinção, relaxa, isso é normal por aqui. Logo as memórias voltam, não são agradáveis, mas voltam. – Reconfortante. – Conhece o jogo “K’raarkan”? – Não faço a mínima ideia do que seja isso. – É do meu antigo planeta, é simples: Você pega uma palavra existente do seu vocabulário e troca suas letras de lugar. – Sério que quer brincar como se fossemos duas crianças? – Você prefere voltar para a nossa acalorada discussão sobre placas e paredes? – ... – ... – Você primeiro. E esse momento correu bem. Se você considerar que brincar de palavras emboladas com um alien não-placa que também teve a espécie extinta, enquanto encara o fato de estar com amnésia pós-extinção (e encara também o fato de algo assim existir) em um quarto quase totalmente apático e frio, não no sentido climático, escutando linguagens e conversas misturadas e esperando algo/alguém que aparentemente será seu médico por um bom tempo em um prédio alien. E também o fato de que sua própria espécie também foi extinta, como todos os pacientes/atrações/aliens/qualquer coisa daquele lugar também, mas isso você prefere deixar para si mesmo, entendeu? Você decidiu que não quer ficar devaneando sobre as coisas que perdeu. Você decidiu isso. Enfim, se considerar tudo isso como “bem”, então eu sou a própria Alice no meu País das Maravilhas!
Notas finais
Obrigada por ter lido. Se ver algum erro de português, me avisem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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