Notas iniciais
OIE GENTE!!!
Minha última fic foi um desastre, então passei um bom tempo tornando essa o melhor possível. Comecei escrevendo ela para um trabalho da escola, mas percebi que essa história merecia virar algo maior, daí quando eu vi 400 palavras se tornaram 4000. Estou muito feliz com o resultado. Espero que gostem.

Eu costumava ser a garotinha do papai, passava dias alternando entre estudar, ler e ver filmes do John Hughes. Há três meses, eu não sou mais a garotinha do papai; há três meses, eu namoro James; há três meses, vou mal na escola, não consigo terminar de ler um livro e Clube dos cinco ainda está dentro do meu DVD antigo, esperando ansiosamente para ser rodado.

Está frio demais para uma noite de agosto. Usar short com certeza não foi uma boa ideia. Escolher o sótão para ser meu quarto também não, mas quem poderia culpar a Lily de dez anos atrás? Eu só queria ficar perto do céu e ter a companhia da lua e suas estrelas.

— Anda logo, Lily — é o meu namorado lá embaixo, numa tentativa frustrada de gritar e sussurrar ao mesmo tempo. Nenhum de nós dois quer acordar meus pais.

Suspiro, não tenho tempo para pensar, faltam quinze minutos para o show da banda de James e exatos trinta segundos para a minha morte. Começo a descer pelo telhado, tentando não fazer nenhum barulho com meu coturno gasto. Meu pai tem sono leve, então o barulho de uma garota de aproximadamente 55kg caindo do segundo andar de sua casa provavelmente o acordará.

25, 24, 23, 22....

Já posso prever a reação do meu pai, ele vai pirar, tentar destruir meu namoro (de novo), em seguida, quando se acalmar, dirá o quanto está decepcionado e terá mais uma conversa de “Você não era assim...” e “Você não vê o quanto esse menino faz mal para você...”. Depois, eu vou gritar, me trancar no meu quarto e, no final, me sentir muito mal por tê-lo decepcionado; afinal, por mais que ela esteja desaparecendo aos poucos, ainda existe uma garotinha do papai dentro de mim. Mas todo o ressentimento acabará quando eu receber uma ligação de um número que meu celular conhece como “James ♥”.

4, 3,2...

Pulo do telhado da garagem num jeito silenciosamente desajeitado. 1. Eu consegui fugir de casa sem fazer barulho, sem nenhuma suspeita e sem morrer! Quer dizer, quase. Ainda estou no quintal de casa.

James está encostado no seu Chevette vermelho. Ele abre um sorriso quando percebe que sua rainha desajeitada conseguiu fugir de casa. Sim, ainda estou no quintal de casa, mas isso é o mais próximo de fugir que eu já cheguei. Até agora.

Paro em frente ao meu namorado, que não para de sorrir me olhando de baixo para cima.

— Para de me olhar desse jeito.

— Desculpa — ele levanta as mãos em sinal de rendição. — É só que você é muito linda.

Sorrio com a lembrança do dia em que James Potter passou de um encrenqueiro machista para um cara legal, leitor das histórias em quadrinho do The Walking Dead e meu primeiro amor, essas foram as exatas palavras que ele disse para mim. Chego perto dele e o beijo contra o carro. O beijo vai se tornando profundo, as mãos dele passam por todo o meu corpo e eu começo a bagunçar o cabelo dele quando ele troca de lado comigo, agora é ele quem me aperta contra o carro. Passo os beijos para o pescoço dele enquanto arranho suas costas por debaixo da camisa.

— Lily, eu te quero 24 horas por dia, mas… — me afasto dele. — Se eu não chegar em 20 minutos, Sirius vai me matar e tenho certeza que você não quer um namorado morto.

Ele tem razão, não o quero morto, porém conheço Sirius bem o suficiente para saber que ele nunca mataria o melhor amigo. Ele, com certeza, arrumaria uma desculpa para me culpar, sendo assim, seria Lily a morta da história.

Sirius é um típico odiador, mas há duas coisas que ele odeia mais que tudo: boybands e qualquer coisa relacionada a Marlene Mckinnon. Ele ainda não superou Marlene, Remus me contou que ele ainda pensa nela todos os dias, principalmente quando ele passa muito tempo perto de mim, a melhor amiga dela.

Mal sento no banco do carro, e James já está acelerando. Ele nem se preocupa em ligar o rádio, está mesmo com pressa. Talvez ele saiba que Sirius irá me matar. Abro o porta luvas procurando um CD de uma banda que eu goste. Vejamos, nós temos muitos de rock, muitas bandas que eu não faço a mínima ideia de quem são. Não sei como cabe tanto CD nesse porta-luvas e... O que é isso?

— Fala sério, James. One Direction?! Você não odiava o One Direction?

Estou rindo, muito, imaginando James depressivo dirigindo e cantando “Best song ever” bem alto.

— Ah Lilis, eles não são tão ruins e, o melhor, eles irritam Sirius. Já que o objetivo da vida dele é odiar boybands, não tem como odiar One Direction.

Coloco o CD no rádio, ainda rindo como se fosse perder os pulmões. A primeira música é tremendamente ruim, dá para sentir isso nos primeiros 15 segundos. É, tem como odiar One Direction. Troco a música.

— Fala sério, Lily! Aquela música era ótima! — Ele não fica chateado por muito tempo, logo já está cantarolando a introdução da próxima música. — SHE’S BEEN MY QUEEN SINCE WE WERE THE 16.

Estou rindo. Ele sabe a música de cor e salteado. No meio da música, começo a cantar junto com ele. James poderia entrar para uma boyband, ele tem tudo que é necessário: um rosto bonito, um corpo maravilhoso, a pinta de galã e o essencial, a voz de derreter corações.

Depois disso, começa a única música lenta da boyband inglesa (pelo menos que eu conheça), Little Things, escrita pelo Ed Sheeran, só para ressaltar. A música é simplesmente linda, ela me lembra Snape. Ah, Severus! Balanço a cabeça tentando afastar as amargas lembranças. James está cantando baixinho dessa vez, como se não quisesse que eu escutasse. Abaixo o som devagar até poder ouvi-lo cantar. Acho que ele percebe, porque passa a cantar mais alto. Fecho os olhos, ele canta tão bem.

Quatro músicas se passam até que finalmente avisto a festa. É em uma fazenda provavelmente abandonada, longe da grande Londres. Porém, mesmo longe, é impossível ela passar despercebida por qualquer pessoa que passar por perto. É uma espécie de celeiro, com luzes coloridas saindo por suas janelas. A música está muito alta, e o lugar parece vibrar de alegria, juventude e drogas.

Mal paramos o carro, e Sirius, magicamente, já consegue nos encontrar.

— PUTA QUE PARIU, JAMES! — Grita assim que nos vê.

Nós estacionamos entre dois ônibus. É, não tinha apenas um ônibus, tinha dois! Sinto que deveria ter ficado em casa fazendo maratona de Cake Boss até seis horas da manhã. Nunca fui ligada a festas, quero dizer, eu odeio festas. Muitas pessoas, perto demais, dançando, bebendo e se drogando no ritmo de músicas nem tão boas assim.

Acho que vou vomitar. Porra, Lily, lembra do porque você está aqui, isso é pelo James, só por ele, que precisa de apoio para o primeiro show. Não presto atenção na conversa entre James e Sirius. Infelizmente, meus pensamentos conseguem ser mais altos até mesmo que uma conversa que tenta ser mais alta que rock.

James grita alguma coisa bem perto de mim e pega no meu braço, me arrastando até a festa. Respiro fundo.

Dentro do celeiro, bem, não parece um celeiro; na verdade, parece uma boate chique lotada. A primeira coisa que vejo é um palco grande, incrível e espaçoso, os próprios Beatles poderiam se apresentar ali. Tem uns globos de luz no teto, máquinas de fumaça e muita, muita, gente dançando e cantando Guns N’ Roses. Também tem, mais para o canto, um bar, não tão grande quanto eu esperava depois de ver aquele enorme palco. James me arrasta até lá e abaixa para falar no meu ouvido.

— Promete que vai ficar lá na frente? E pirar por minha causa como se você fosse uma fangirl enlouquecida?

Sorrio e ele me olha apreensivo, não tinha percebido o quanto ele está nervoso até agora. Nervoso, suando e mexendo as mãos sem parar tentando fazer as mesmas pararem de tremer.

Fico na ponta dos pés e falo no ouvido dele.

— Já sou uma fangirl enlouquecida por você.

Ele me beija por um tempo antes de se virar para o barman e dizer que eu poderia colocar qualquer coisa na conta dele. Pergunto se ele não está super atrasado.

— Um astro do rock nunca se atrasa — diz sorrindo de lado e se aproximando.

Eu o beijo dessa vez. Um beijo quente e demorado, digno de cinema. Ele passa uma mão pela minha cintura me puxando para mais perto, mas isso não é mais possível. Faz círculos com os dedos nas minhas costas e encaixa a outra mão nos meus cabelos.

— James Potter? É você mesmo? — Me separo de James rapidamente. Na verdade, eu o empurro.

Mesmo sabendo que aquela boate estava infestada de pessoas antes e durante o nosso beijo, não imaginei que poderiam reparar na gente, sempre esqueço que quando se trata de James Potter, as pessoas vão sempre reparar.

James me olha pelo canto do olho antes de cumprimentar a garota que não deveria estar reparando em nós, é óbvio que nós não queríamos ser reparados.

— Oi, Mary.

É Mary McDonald, a ex dele e meia irmã de Marlene. Não vejo ela há uns quatro meses. Ela está tão diferente que não a reconheci imediatamente. Agora ela tem cabelos roxos muito fortes, menos na raiz, que é de um tom de castanho claro. O cabelo combina com seus olhos cor de mel e seu perfeito nariz. A maquiagem é fenomenal, nem mesmo minha irmã Petúnia, a pessoa mais vaidosa que conheço, se maquiaria tão perfeitamente. E o corpo, as suas perfeitas curvas parecem ter sido feitas para combinar com os seios enormes e o quadril. A garota é bonita demais.

Ela me olha de cima a baixo, me avaliando.

— Foi por isso que você me substituiu?

A ex de James me destrói quando o assunto é beleza. James levanta as sobrancelhas e seu rosto se transforma no mais irônico possível.

— Você terminou comigo, lembra?

Mary sorri falsamente.

— Bem, vou deixar os pombinhos a sós — ela olha diretamente nos olhos do meu namorado.

— Foi muito bom te ver de novo, Jay.

Pisca para ele e sai rebolando. Solto um suspiro de alívio quando percebo que a única reação de Potter ao flerte é de nojo.

Assim que ela desaparece de nossas vistas, James me puxa pela mão e volta a me beijar lentamente, passando a mão pelos meus cabelos extremamente ruivos. Sem se afastar, ele diz.

— Tenho que ir.

Ele beija minha testa e vejo o nervosismo tomando seu corpo novamente.

— Me deseje sorte.

Depois disso, ele sai andando em direção ao palco sem esperar pela minha resposta.

— Boa sorte — falo mais para mim mesma do que para ele, que agora já está longe.

Me encosto na mesa do bar, observando as pessoas se divertindo com seus amigos e sinto um grande arrependimento de não ter convidado Alice e Dorcas para virem comigo. Em geral, eu até chamaria, mas eu não viria nessa festa até duas horas atrás, e eu sei o quanto Dorcas odeia ser chamada de última hora e o quanto Alice deve estar ocupada com o Frank nesse momento.

Vejo Mary dançar e cantar até o chão com suas amigas não tão bonitas quanto ela. Quantas garotas James namorou antes de mim? Será que todas são parecidas com a Serena de Gossip Girl? Será que todas são destruidoras e vaidosas? Será que todas são muito mais bonitas que eu?

Balanço a cabeça tentando espantar toda a insegurança, mas não dá, é como se Mary a atraísse como um imã. Respiro fundo.

— Não vai beber nada, ruiva?

O barman está falando comigo. Olhando-me e sorrindo encostado no outro lado do balcão, ele espera minha resposta pacientemente, mesmo tendo um menino bêbado gritando por mais bebida perto da gente.

— Err... Eu não bebo.

— Ah, agora entendi porque você pode beber tudo de graça.

— De graça? Quer dizer, James não vai pagar por isso?

Ele sorri mais ainda.

— Achei que ele teria contado para namoradinha.

Encaro-o confusa.

— Ele é dono disso tudo. A fazenda é dos pais dele, que não vêm aqui há muito tempo, então James Potter transformou isso aqui numa das maiores baladas de Londres.

Dou uma risada sem graça, nervosa.

— Tá brincando comigo?

Pela primeira vez, ele parece sério.

— Conheço bem quem paga meu salário.

O barman finalmente resolve atender as pessoas desesperadas por bebida alcoólica, me deixando sozinha com um dos meus piores inimigos: os meus próprios pensamentos.

Sei que James é rico, durante anos ele era o primeiro a ter tudo. Sempre ganhava mais ovos de Páscoa, mais presentes de Natal, foi o primeiro a ter um carro e a ter um IPhone 6, mas nunca achei que era a ponto de ter seu próprio negócio. Esse lugar deve dar muito lucro, juntando o dinheiro das entradas e das bebidas. Ele, sem contar com sua herança, está milionário, e se não está, vai ficar em questão de meses. Estou namorando o Riquinho Rico e não sabia.

Não achei que ele voltaria para conversar comigo, mas ele volta, retornando ao primeiro assunto.

— Tem certeza que você vai ficar aqui parada a noite inteira só observando as pessoas se divertirem?

Minha cabeça ainda está processando o fato de James ser o Riquinho Rico britânico. Por isso, falo sem pensar.

— Nem saberia por onde começar.

— A beber?

— A me divertir.

— Bem, primeiro você tem que ir a uma festa.

— Já risquei esse item da minha lista — minha cabeça grita “James é o Riquinho Rico! James é o Riquinho Rico. ”

— Depois, você tem que agir antes de pensar, e não o contrário.

Talvez ele tenha razão e eu deva realmente parar de pensar. Talvez o álcool faça a minha cabeça parar de gritar.

— Argh! Chega, não quero mais bancar a santinha, me dá a melhor bebida desse bar.

— É esse o espírito.

Ele se vira para pegar minha bebida. Penso que irá demorar, mas em questão de segundos, uma taça com um líquido transparente e uma azeitona está na minha frente. É um Martini. Marlene sempre bebia Martini, dizia que era uma perfeita combinação de duas de suas coisas favoritas: vodka e azeitona.

De repente, sinto um enorme aperto no coração, meus olhos ficam embaçados e começo a lembrar de todos os momentos que passei com Marlene. Ainda dói pensar nela, mesmo depois de tanto tempo. Eu a amava tanto, queria ter dito para ela mais vezes.

Já estou na minha quinta dose quando percebo que não estou bebendo por causa de James, estou simplesmente afogando minhas lágrimas no álcool. É também na minha quinta dose que James sobe ao palco, e ainda estou brava por ele não ter me contado que é o Riquinho Rico. Por isso, não cumpro minha promessa, não grito ou dou uma de fã alucinada, mas infelizmente não posso evitar de me afastar do bar para tentar vê-lo um pouco melhor.

Estou bebendo minha sexta dose, nas pontas dos pés para tentar ver o palco com clareza. Ele está tocando uma de suas músicas favoritas do Oasis, “Whatever”. Não consigo enxergar, mas sei que Peter está na bateria, Remus no teclado, Sirius está tocando o baixo como ninguém, e James não arrasa só na guitarra, ele também tem uma voz de anjos celestiais. Quando eles se formaram, duvidava que The Marauders fosse um bom grupo, achava que era só mais uma banda de garagem, mas eles são melhores que muita banda que está lotando shows e vendendo milhares de discos.

Depois de inúmeras tentativas de aumentar 30 cm, consigo ver melhor o show. James está deslumbrante usando uma camisa do Nirvana com uma jaqueta de couro, botas e calça rasgada. Um perfeito roqueiro. Seu cabelo se movimenta de acordo com a música, e ele está suando, mas está muito feliz, dá para perceber de longe o quanto ele ama tudo isso.

Pela primeira vez, fico feliz por ter vindo, nunca o havia visto tão feliz. Quando a música acaba, ele começa a olhar para a plateia, para todos os lados, para as garotas histéricas. Está procurando alguma coisa. Está me procurando. Quando percebe que eu não cumpri minha promessa, parece ficar triste por alguns segundos até falar no microfone, enquanto volta a me procurar com os olhos.

— Eu quero dedicar essa música para alguém muito especial na minha vida. Essa é para você, Lily.

A histeria das garotas histéricas diminui consideravelmente enquanto a minha felicidade triplica de tamanho quando ele começa a cantar “Heart on Fire” do filme, que eu o obriguei a ver, Lola. É impossível ficar brava com o seu namorado enquanto ele está cantando uma de suas músicas românticas favoritas especialmente para você.

A música acaba e ele não me vê transbordando de felicidade; de repente, me sinto péssima por não ter cumprido a promessa, afinal, ele não fez nada de errado, fez?

Estou confusa, decido voltar para o bar e beber mais. Finalmente entendo porque Marlene amava tanto essa bebida.

Paro de contar o quanto estou bebendo na décima dose. Estou bêbada o suficiente para aceitar quando o barman me oferece um cigarro de maconha. Estou rindo à toa, vendo unicórnios, dançando igual a uma maluca no meio de todo mundo. Não estou raciocinando direito, por isso, quando vejo um menino de cabelo azul no meio da festa, corro atrás dele.

— Puta que pariu, eu via seu desenho! — falo animada para ele.

Ele parece confuso.

— Os Smurfs era o melhor desenho de todos, quero dizer, o Gargamel é muito burro, eu teria destruído vocês há muito tempo, vocês não passariam do primeiro episódio — grito euforicamente.

Ele ainda parece muito confuso, deve ter entendido em partes o que eu disse.

— Você tá bem? — pergunta me segurando pelo braço, talvez porque eu esteja tonta a ponto de cair.

— Eu tô ótima! Mas você deve ser o smurf abusado mesmo, sua vila lutando contra o safado do Gargamel e você aqui numa festa com um monte de humanos, vê se já se viu isso.

Ele larga meu braço e se afasta. Acredito que ele resolveu ouvir meu conselho de ajudar o papai Smurf a lutar contra essa grande ameaça, até que vejo o verdadeiro motivo. Potter.

— Meu Deus, Lily, o que aconteceu? Te deixo sozinha por três horas e você fica bêbada e chapada. Puta que pariu!

Lembro de que ele não me contou que é o Riquinho Rico.

— Seu mentiroso! — grito bem alto. — Filho da puta!

Ele suspira.

— Vem, vou te levar para casa.

— Não vou a lugar nenhum com você, seu imbecil!

— Lily, por favor, para de gritar — fala calmamente.

Começo a chorar.

— Por que você nunca me contou que era o Riquinho Rico? — Choramingo.

Ele não entende nada, mas não tem tempo de perguntar. Naquele momento, as portas da boate são rompidas por ninguém menos que a polícia de Londres. Eles gritam para todos ficarem imóveis, mas ninguém escuta, todo mundo está gritando e correndo, tentando sair, pois o lugar está cheio de drogas, bebidas e menores de idade, ninguém quer ser visto aqui dentro. Não consigo entender direito o que está acontecendo, está tudo muito rápido e embaçado.

James me arrasta contra a multidão até a saída dos fundos perto do palco. Conseguimos sair e agora que está tudo ficando mais claro, não quero ficar perto de James.

— Me solta, Potter — grito enquanto balanço minha mão freneticamente tentando me livrar do aperto da mão dele.

Ele se vira para mim com raiva e sussurra:

— Lily, no momento eu não tô nem aí por que você está com raiva de mim. Quando a gente sair daqui, você pode gritar o quanto quiser, mas agora, por favor, cala a boca.

Tenho vontade de gritar, porém o obedeço. Ele me arrasta pela mão e minha mente está muito confusa para prestar atenção em como ele se desvia dos muitos policiais ali presentes. Só sei que a gente consegue entrar no carro e sair do local sem sermos parados por ninguém.

Ainda quero gritar, mas toda vez que olho meu namorado, vejo o quanto ele está frustrado e irritado. Isso me assusta, por isso não grito. Falo bem baixo, quase num sussurro:

— Por que nunca me contou que tem a sua própria boate?

Ele parece relaxar quando ouve a minha voz. Porém, não me encara, está concentrado acelerando.

— Desculpa, não achei que era importante falar sobre isso.

James está correndo muito. Começo a chorar histericamente.

— Caraca, James, sabia que o meu pai me odeia? Que eu não falo com um dos meus melhores amigos? Por sua causa?

— Seu pai não te odeia — ele está na defensiva.

— Cala a boca, a minha melhor amiga morreu e Deus achou legal pôr você no lugar dela, mas porra, que merda.

Não completo a frase porque nem sei mais do que tô falando. Nada do que eu falei faz sentido. James suspira, ele sabe que a minha falação é tudo da boca para fora.

Quando ouço a sirene de polícia, tudo acontece muito rápido. O carro para, o policial pede para nós sairmos do carro e pergunta se eu estou drogada. James discorda e diz que eu tô apenas bêbada. Não consigo me concentrar nas palavras, mas entendo quando ele ofende o Potter, algo sobre ele ser um garotinho do papai, mimado. Grito com o policial e cuspo na cara dele. James grita enquanto ele me algema e me coloca no banco de trás do carro de polícia.

Estou sendo levada para prisão, onde ficarei para sempre.

— Vou ficar presa para sempre?

Estou grogue, tudo gira ao meu redor.

— Você tem o direito de permanecer calada — responde seco.

Seco demais para alguém que acabou de ser molhado com cuspe. Talvez eu deva cuspir novamente, porém estou extremamente cansada para isso.

Quando chegamos à delegacia, ele tenta me fazer andar, mas não consigo, então preciso ser carregada. Ele passa meu braço sobre seu ombro, caminhando comigo para dentro da delegacia, onde eles perguntam meu nome e idade, sobre meus pais e onde eu arrumei bebida. Só quero que eles me deixem em paz, então respondo tudo bem rápido sem pensar nas consequências. Eles me levam para uma sala onde tiram fotos minhas de todos os ângulos, mas não reparo na sala, pois estou com os olhos fechados dormindo em pé.

Em seguida, levam-me até minha cela e dizem que ficarei lá por pouco tempo, só poderia falar com meus pais no dia seguinte. Ouço James gritar meu nome perto da porta e me esforço para encontrar os olhos dele, que dizem “eu sinto muito”. Os meus dizem “isso não é sua culpa”.

***

A primeira coisa que faço ao acordar é vomitar. Muito. Minha dor de cabeça é tão forte que parece havia sido atingida por um meteoro. Não sei onde estou, ou como vim parar aqui; na verdade, a última coisa de que me lembro é ouvir James cantando para mim.

Sento no beliche de ferro, tentando focar meus pensamentos. Agradeço mentalmente por não ter um colega de quarto para utilizar a cama de cima. Estou dentro de uma cela, tem um vaso onde vomitei tudo o que comi nos últimos três dias, uma grade de ferro e uma pia. A prisão de “Orange is the New Black” é muito melhor que isso. Acredito que seja uma cela temporária até encontrarem uma vaga para mim numa prisão igual à da série. Devo ter feito alguma coisa muito terrível para estar presa aqui. Mereço passar minha vida na cadeia por algo que nem lembro o que é?

Respiro fundo e lavo o rosto, as mãos e a boca na pia extremamente pequena. Estou nervosa, não sei o que está acontecendo, só quero sentar e chorar. Respiro fundo novamente, fecho os olhos e conto até dez para me acalmar mas antes de pronunciar o dez, um policial aparece para abrir minha cela. Levanto-me rápido e ele me olha de cima a baixo, julgando-me e provavelmente pensando como uma garota como eu havia parado ali. Bem, eu também queria saber. Ainda estou parada no meio da cela esperando alguma reação dele, que me olha e diz:

— Pagaram sua fiança. Você pode ir, seu pai está aqui.

— Hum... Eu sei que parece estranho, mas você poderia me dizer o que eu fiz de errado para meus pais terem que pagar uma fiança?

Ele acha graça da situação e dá um sorriso Colgate.

— Você cuspiu na cara do velho Nick, o policial mais rabugento da cidade.

O tom de voz dele é o de alguém que conta uma boa e velha piada. Não acho graça, mas rio de nervoso.

Saio da cela e ele me acompanha até a saída.

— Acho que você deveria saber não foram seus pais que pagaram a fiança. Foi o seu namorado, ele passou a noite inteira aqui, tentaram fazê-lo sair, mas ele disse que só sairia com você. Quase prendemos ele, mas, infelizmente, não tem nenhuma lei proibindo o amor adolescente.

No final da sua frase, o corredor acaba. Estou livre. Meu coração bate muito rápido, passei um tempão me perguntando se ele me amava, mas agora ele nem precisa mais dizer que me ama. Estou sorrindo de orelha a orelha e transbordando de felicidade.

O policial me faz assinar alguns papéis e diz algo como “da próxima vez você vai direto para a cadeia. ”

Perto da saída, consigo ver as duas pessoas que mais me amam no mundo com clareza. Meu pai está encostado na parede esquerda e acho que nada no mundo poderia mudar a expressão carrancuda de meu pai. Na parede direita, está James Potter, com um café na mão e uma sacola da nossa lanchonete preferida. Ele está encostado nela e a única coisa que o sustenta é o café, seus olhos tem olheiras profundas. Quero abraça-lo e dizer o quanto eu o amo, mas e meu pai? Ele fez tudo por mim eu deveria falar com ele primeiro. Meu coração diz uma coisa e meu cérebro diz outra. Nenhum dos dois me viu ainda. Não penso muito quando decido ouvir meu coração.

— Oi.

James fala tudo muito rápido, embolando-se com as palavras.

— Lily, você saiu! Olha, eu trouxe donuts. Sirius apostou 50 libras com o Remus que você só sairia da prisão daqui a dez anos com tatuagens e uma namorada lésbica.

Sorrio, meu coração bate forte e meu estômago está cheio de borboletas. Beijo-o, mas ele não me beija de volta. Sei que ele está com medo da parede esquerda. Passo a mão em seu rosto e olho no fundo dos seus olhos quando digo.

— Eu te amo, James Potter.

Dou-lhe um selinho e viro para encarar meu pai. Ele não está com raiva, apenas decepcionado com a garotinha dele. Agora que percebo que não era uma briga entre meu cérebro e meu coração, muito menos entre a parede esquerda e a direita. Era uma briga entre a garotinha do papai e a namorada do Potter. No momento em que escolhi a namorada do Potter, acidentalmente matei a garotinha do papai.

Notas finais
Gostaram???
Digam o que vocês acharam.
Acham que merece uma continuação, ou quem sabe um prequel contando o que aconteceu com a Marlene???
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!