Daddy

1 Capítulo Único


27

Como se fosse a primeira vez, ele sequer sabia pegar o bebê no colo.

Tinha medo de que qualquer movimento pudesse fazer a pequena Lílian Luna Potter se desfazer em pedaços. Harry Potter fitou a criança em seus braços, completamente encantado. Perguntou-se se já teve imagem mais bonita que aquela, aquela criatura minúscula em seus braços, completamente fascinado.

Sentia-se excluído por Albus e James terem uma preferência gritante por Ginny, chegando até mesmo ao ponto de se machucarem ao lado de Harry e saírem correndo, desesperados, para o lado da mãe, como se só ela pudesse protege-los.

Mas Lílian... O centro do mundo para Lílian era ele.

Ginny olhava o bebê com inveja. Ela tomou seu posto assim, da noite para o dia, ela era a mulher por quem Harry mataria e morreria. Às vezes, a odiava. E então, se apaixonava novamente.

Um ciclo vicioso.

31

— O que é isso na sua testa, papai?

— É uma cicatriz, meu amor. — os olhos castanhos idênticos aos de Ginny o fitam sob a iluminação baixa da sala de estar. Ele sorri de forma fraternal para a pequena garotinha de cinco anos, curiosa. Ela já tinha feito aquela pergunta um milhão de vezes, mas ele estava disposto a responder duas milhões de vezes caso necessário.

— Quando machucou?

— Faz muito tempo, Lily.

— E dói?

— Não mais. — ele tocou levemente o local, sentindo vontade de rir. Entretanto, Lily parecia preocupada. Sacou sua varinha de brinquedo apontou para a testa de Harry, soltando purpurina em todo canto.

— Ashalabum boooom, a cicatriz do papai vai sarar. Agora! — Harry ergueu as sobrancelhas, aguardando. Lily parecia decepcionada.

— Funcionou?

— Não... Acho que precisa de uma poção! Vamos! — Lílian saiu correndo pela casa, e Harry deu um breve gemido, pensando na bagunça que teria que limpar. Seguiu-a a garotinha ruiva até o jardim da casa, arrancou alguns montinhos das plantinhas da horta e guardou na bainha de sua blusa, levando para dentro da casa de forma furtiva. Harry sentou-se na cadeira, aguardando.

— O que vai preparar para mim, doutora Potter? — indagou Harry, risonho, gostando da brincadeira.

— Uma poção de cura! — Lily ficou na ponta dos pés para encher um copo de água. Pegou a colher de madeira e sentou-se na mesa de frente para o pai, colocando todas as plantinhas dentro do copo, socando com a colher em seguida. O sorriso de Harry se desfez brutalmente quando ele percebeu que teria que tomar aquilo. A terra misturou-se a coloração verde da água e Harry ajeitou os óculos, tenso.

— Acho que não preciso de poção... Minha cicatriz não dói mais.

— Mas papai, eu quero te curar! — ela ticou a colher de dentro do copo e o levou até o homem, que olhou para a filha, temeroso. Lily sorriu enormemente com seus dentes de leite e sem a presença dos dois principais e empurrou a perna de seu pai, para que pudesse sentar em seu colo. — Vamos, beba!

— Eu acho melhor não...

— Papai, bebe, você tem que beber para que sua cicatriz suma! — Harry achou que conseguiria enganá-la e então pegou o copo e garantiu que sua boca ficaria fechava então encostava na borda do copo, molhando seu buço enquanto fingia tomar um pequeno gole. A garotinha sorriu, orgulhosa.

— Hummm. — sorriu Harry, traumatizado. — Muito gostoso.

— Vai sumir em breve! — disse levando alguns tapinhas da pequena mãozinha de sua filha sob a cicatriz. — Eu vou fazer ela sumir, papai.

— Eu tenho certeza que sim. — ele olhou seus olhos castanhos, completamente apaixonado.

35

— PAPAI, PAPAI, VAMOS MORRER! — Harry teve certeza que infartou no exato minuto em que Lílian o sacudiu ferozmente na madrugada de Agosto para Setembro. A trovoadas extremamente violentas do lado de fora da casa eram apenas um cenário macabro para a forma como Harry fora acordado. Ele arregalou os olhos e sentou-se em um pulo enquanto a garota pulava, parecendo que tinha levado um choque elétrico.

— Lílian! — estrilou Ginny, também assustada.

— Vamos morrer, que barulho é esse??? — choramingou, aos berros. Não demorou muito para James aparecer na porta, apavorado, com uma mochila nas costas e uma vassoura na mão, a usando como arma.

— O que aconteceu??? — questionou, olhando para os lados, pronto para atingir alguém com a vassoura. Deu um chute para atrás que nem um cavalo. — Sai pra lá, Albus!

— OH MERLIN, VAMOS MORRER! — urrou Lílian, pulando em cima de seu pai como se o céu fosse desabar sobre ela, abraçou o pescoço de Harry com tanta força que ele ficou sem ar. Ginny levantou-se, visivelmente irritada por ter sido acordada e apertou a orelha de James, que berrou mais que Lily.

— Quantas vezes eu já te falei para não... — ela arrastou o menino pelo corredor e Albus provavelmente a seguiu, já que ela também começou a gritar com ele alguns minutos depois. Harry conseguiu tirar os braços congelados de Lily ao redor de seu pescoço e respirou, tentando acalmar a garotinha chorosa.

— Ei... Calma, eu já te expliquei que o mundo não está acabando quando chove. — Harry ficava preocupado com os excessos de dúvidas de Lily e suas convicções. Ela fez xixi na cama até os sete e sempre ia dormir as três da madrugada, vencida pelo cansaço, pois pensava que dormir era morrer por algumas horas e ela não gostava nem um pouco da ideia.

E George Weasley não ajudou nada dizendo que ela podia dormir para sempre caso não tomasse cuidado.

O mundo estava acabando sempre que chovia e trovejava, o xixi é o choro de nosso coração e outras diversas coisas da lista absurda das coisas que sua filha acreditava fielmente.

— Eu quero ficar aqui... Você não vai me deixar morrer, vai? Você salvou o mundo uma vez, pode fazer isso de novo! — ela encolhia-se toda, não soltando Harry até o dia seguinte. Ele sequer tinha a chance de pensar sobre o assunto, apenas se deitava novamente e cobria os dois, aguardando Ginny retornar ao quarto.

A mulher ruiva chega e olha a garotinha tomando seu espaço e gira os olhos, irritada, indo para o quarto de hóspedes. Harry sorriu para a garotinha sonolenta, ainda soluçando.

— Não se preocupe, eu vou ficar aqui com você. — sussurrou.

37

— Tia, tia, teve uma vez que Lily enfiou um monte de pó de flu na boca e ela ficou muito louca e... AI! MÃE!

— Cala a boca! — ela deu um tapa na cabeça de James, o fazendo ficar vermelho perto de sua tia Luna, que segurou o riso, impressionada com a falta de paciência de Ginny. Mas então a mulher se arrependia e enchia seu filho de beijos, mostrando que aquilo era algo habitual.

O natal na casa dos Potter estava animado pois Lily Luna era a grande atração do momento, relatando cada segundo e detalhe de como é Hogwarts por mais que todos ali presentes já tenham passado por lá.

Harry ouvia com muita paciência, às vezes gargalhando com as perguntas de George, como se ele não fizesse ideia de como entrava na sala comunal da Grifinória e riu mais ainda com a ótima atuação que ele fez ao Lily explicar detalhadamente onde era a cozinha de Hogwarts e como entrava nela.

Então ela cansava e ia brincar um pouco com suas primas, mas sempre acabava indo para perto de seu pai, entretido com alguma conversa séria sobre o Ministério com alguém relativamente importante, como Kingsley:

— Papai, papai, tem uma piada muito boa para te contar!

— Filha, agora não...

— Qual o contrário de paixão? — Harry e Kingsley ainda olhavam para baixo, fitando a garota ruiva, extremamente sorridente. Provavelmente não tinha noção de que estava prestes a contar mais uma de suas piadas zero graça para o Ministro da Magia. Harry engoliu seco e sorriu para a filha, preparando-se para forçar uma gargalhada:

— Não sei, filha...

— É mãe teto! — gargalhou Lílian. Kingsley semicerrou os olhos para um Harry Potter que gargalhava exageradamente como se tivesse ouvido a melhor piada que já pisou na terra. Sentiu um pouco de constrangimento, mas então riu sozinho, mais tarde, se lembrando da série de momentos em que Lily o “constrangeu”.

Filhos não é pra qualquer um.

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— Harry, como você sabia que tinha algo errado com você? — Desde o segundo ano de Lílian, ela estava começando a ficar cada vez mais estranha. Afastou-se de forma significativa de todas as suas primas e principalmente de Harry. Agora ele não era mais o papai, e sim Harry.

A estranha fase da adolescência, Harry já tinha passado por aquilo com James, estava entrando na onda de Lily e Albus agora, nada para se alarmar... Mas a tristeza era quase inconcebível. Ele queria sua princesinha de volta, mas ela parecia decidida a parecer tudo menos uma princesa. Odiava seu cabelo ruivo, então cortou em um corte idêntico ao de Albus.

Tudo a irritava, desde um olhar muito longo a um sermão de Ginny. Seus maiores inimigos eram James e Ginny, o primeiro ela descontava sua raiva aos socos e pontapés, Harry perdeu a noção de quantas vezes ele mesmo levou socos e chutes ao tentar separar os dois em mais uma briga corporal no meio da sala de estar. A segunda ela descontava sua raiva verbalmente. Qualquer coisa era motivo para que Ginny e Lily brigassem a ponto de quase se agredirem. Ginevra também não dava um desconto, provocando a adolescente sem dó.

— Bem, eu nem tive que descobrir, me avisaram. — riu Harry. Uma Lily mais jovem rolaria de rir, mas a Lílian de dezesseis anos não achou a menor graça. O homem apenas voltou para seu café, com medo de irritar a garota, que parecia pacífica naquela manhã de domingo, pronta para voltar para seu sétimo ano letivo no dia seguinte.

— Eu... — Harry pousou sua xícara na mesa, pronto para ouvir Lílian. Assustou-se com a expressão profunda de agonia no rosto de Lily e na tristeza em seus olhos. Parecia ter medo de algo. O homem ficou tenso, aguardando, mas ela apenas deu-lhe um sorriso quebradiço e melancólico. — Nada.

Ele ficou sabendo por outras línguas – vulgo Hugo Weasley – que Lily estava namorando uma menina. Ginny começou a rir de nervosismo, não acreditando na carta, mas Harry sentiu mais um infarto imaginário, mal conseguindo se situar. Tinha perdido a noção do tempo e do espaço, não saberia nem o que era uma árvore caso alguém o perguntasse naquele momento.

Harry aguardou o Natal com uma raiva que ele nunca sentiu antes. Esperou pelos dois dias como esperou por Lily por longos nove meses. Ela chegou toda sorridente e cheia de novidades, mas logo notou a frieza do pai e nem insistiu. Ele queria que ela falasse, mas Lily veio e foi, sem falar nada.

— Ela não vai falar. — disse Ginny, olhando seu marido, como se ele fosse um tolo. — Ela vai chegar aqui com essa garota e agir com a maior naturalidade. Você vai ver só. Eu conheço a peça.

E foi o que aconteceu no fim do ano letivo.

45

— SAI DE PERTO DE MIM! — berrou Lily. Harry estava pronto para mais uma manhã comum quando viu a varinha de Lílian abrir um estrago negro na parede assim que entrou na cozinha. James estava gargalhando, ainda atazanando a irmã, e não notou quando todos se posicionaram, sorridentes.

— Feliz aniversário! — gritaram, batendo palmas. Na mesa, um bolo caindo aos pedaços e visivelmente cru. Harry sorriu, não entendendo nada.

— Céus, eu...

— Nos desculpe por isso. — Albus apontou para o “bolo”. — Confiamos em Lily, mas só nos decepcionamos, como de costume.

— Eu tentei! — ela socou o braço do irmão, irritada. Então correu para seu pai, o enchendo de beijos e abraços. — Me desculpe, papai, mamãe foi preparar a...

— Lílian, caralho! — cortou James.

— Ei! — estrilou Harry.

— Parece estar... Ok. — disse Ted, com uma expressão de nojo para a massa estranha no centro da mesa. Todos os filhos de Harry se sentaram, assim como o homem. Serviram o prato dele com um interessante café da manhã. Ovos mexidos com casca, preparados por James, frutas ainda com casca e torradas queimadas feitas por Albus. E um suco de rabanete feito por Ted.

— É bom para emagrecimento. — sorriu ele, batendo na barriga de Harry.

— Vamos, papai. — sorriu Lílian, ansiosa. Em seu dedo, um anel de compromisso. Ela estava completando naquele mesmo dia quatro anos de namoro com Florence Welch, e anunciou seu noivado também no aniversário retrasado do pai, o que causou um infarto no mesmo, e desta vez não fora imaginário. Ele sabia que Lily iria lhe causar um infarto de verdade cedo ou tarde.

Harry deu um sorriso falho, traumatizado, e pegou um pouco de ovo com o garfo, quando ia colocar na boca, todos começaram a gritar e tentar impedi-lo.

— Merlin, estávamos apenas brincando, não queremos te matar intoxicado! — riu James. — Esse café saiu uma bagunça, vamos te levar para um café decente.

Os quatro esperaram o homem se arrumar e partiram para um café bruxo no centro de Londres, onde todos tomaram café entre brigas e desavenças, onde Lily, como a única mulher de três irmãos, tinha que lidar com a brincadeiras e implicâncias. Harry assistia a tudo com uma súbita vontade de chorar e um sentimento puro de agradecimento.

Não sabia explicar.

53

Lucy Rose — Don't You Worry

Ginny Weasley esforçou-se para levantar, mesmo com suas dores nas costas, foi quase as pressas em direção de sua porta principal. Agarrou-se a seu robe, temerosa em abrir a porta, caia um temporal arrebatador do lado de fora. Olhou sua filha Lily tremer sob os trovões, completamente encharcada. Abriu a porta rapidamente:

— Lily! — assustou-se mais ainda ao vê-la chorar. — Filha, o que foi...

— Eu... — ela engoliu o choro. — Eu quero dormir aqui. Só isso.

A senhora Weasley concluiu sabiamente que ela provavelmente brigou com a esposa, então a deixou entrar e deu-lhe roupas secas para vestir. Foi até a lavanderia e colocou as roupas de Lily para lavar e preparou um chá, subindo as escadas em direção do antigo quarto da garota, mas o encontrou vazio. Ginny girou os olhos, irritada, e foi até seu quarto, não se surpreendendo ao ver Lily chorando em sua cama, com um velho e sonolento Harry a consolando.

— Bem, eu já me acostumei em ser trocada mesmo... — resmungou Ginny, migrando para o quarto de hospedes e fechando a porta.

O homem acariciou as madeixas ruivas de Lily enquanto ela chorava para o travesseiro, afastando o pai com os pés. Ele estava tão sonolento que chegou a um ponto de cochilar, apenas acordando quando Lily chorava um pouco mais alto que os trovões do lado de fora.

— Tudo bem... Está tudo bem... — murmurou ele, sonolento.

— Não está não! — gemeu ela, inconsolável. Harry não ficou acordado para ouvir o resto, mas acordou algumas horas mais tarde, sendo empurrado pelos pés de Lily como em todas as vezes que ela dormia no mesmo espaço que ele. Sorriu levemente para a mulher adormecida, babando no travesseiro da mãe e não conseguia ver diferença entre a garotinha de cinco anos que corria apavorada por qualquer coisa para os braços dele, para a mulher de vinte e sete anos, que continuava a fazer o mesmo.

— Não se preocupe, eu vou ficar aqui com você. — sussurrou.

Notas finais
Os números é a idade do Harry conforme os anos.

Nunca pensei que uma imagem (capa) pudesse me inspirar tanto!

Espero que gostem! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!