Da tua Retina
12 Analogias
Notas iniciais
"Muitos momentos acontecem agora, e você nem percebe. Nem percebe que as vezes você parece aquela mocinha ou mocinho das novelas, fazendo aquelas burradas, ou tendo aqueles momentos que nunca imaginou. Passando por ruas que parecem aqueles filmes da sessão da tarde, ou mesmo passando por temporadas, como os seriados de televisão.
O fato é que nada é certo, sério ou para sempre.
E isso é o melhor, ou o pior de tudo." L. Krsna
Sabe aquele momento na vida, que você se sente dentro de um filme?
Eu sei, vai lá que isso é clichê e tal, mas eu bem que estava me sentindo assim. Até mesmo a minha vontade de rir do rosto assustado de Neji, mesmo que ele tentasse disfarçar, o olhar maligno de Sasuke, piscando para mim enquanto fingia que não estava segurando o manche.
Aquela momento em que tem uma cega pilotando um avião, e um cara quase lá também ao lado. E você vê que seus melhores amigos ainda estão dentro do bimotor, a maior prova de amizade que existe.
Claro que Sasuke estava segurando os controles principais, mas eu nunca diria isso para Neji, que em seu instinto de super-irmão nunca mandaria Hinata sair de perto dos controles. Não quanto ela ficava ali sorrindo feito uma tonta.
Eu nunca iria esquecer da expressão no rosto dela quando aquele avião decolou. Da maneira como ela apertou a mão do irmão, e o sorriso, logo superado por uma risada clara. Até mesmo Neji que estava com a expressão fechada sorriu de lado. Era a primeira vez que ela saia de Konoha, sem ter que estar indo para um hospital. E assim como eu não podia não sorrir com ela daquela maneira, "pilotando" o avião.
Ok, vocês não estão entendendo. Vou voltar ao ponto, exatamente um dia atrás, quando nós saímos de Konoha em uma manhã fria de inverno. Nosso destino, uma ilha na costa do Japão, onde a mãe de Hinata nasceu, e ela sempre quis visitar. Um dia atrás, quando minha lista de desejos, virou a lista de desejos dela.E assim, uma garota que nunca havia saído da própria cidade, agora conhecia o gosto de voar, de se libertar. Eu estava ensinando a garota da raízes, o que era ter asas.
Eu nunca fui um cara muito esperto, mas isso eu podia ensinar a ela. Como ela me ensinou que perder a visão era se guiar por sensações, eu não queria lhe guiar apenas por projeções. Ela queria saber como era sentir o vento em seu rosto em Okinawa, a sensação do pôr-do-dol de dentro de uma cabine. Como era dormir em céu aberto, tendo como teto as estrelas.
Eu não queria dizer apenas, eu queria que ela sentisse.
Eu iria mostrar.
Eu podia ser cego até conhecer Hinata, mas ela também não era viva, até saber o que existia de fato além dos muros de Konoha. Não através de livros e histórias de outros.
Esse era meu presente para ela, não importando se fosse o último.
Eu iria ajudá-la a construir a sua história, a sua lembrança. Era a única coisa que eu poderia lhe dar.
Nós partimos, tendo Sakura como apoio caso fosse necessária alguma intervenção médica. Nos seguindo, haviam dois carros, com nossos novos amigos, e Shizune, uma médica do hospital de Konoha, e também amiga do pai de Hinata. Essa fora a condição para minha loucura poder ser concretizada. Isso, e o fato de termos que voltar em uma semana, que seria o mesmo prazo que eu teria para estar em Tokyo no dia 2 do mês, onde aconteceria minha operação.
Eu não sabia na época. Eu não tinha como saber esses três fatos que mudaram tudo, todos os planos:
1. Hinata nunca mais voltaria viva para Konoha. Ela morreria naquela mesma semana.
2. Eu não chegaria em Tokyo na data prevista, mas um mês depois, a beira da morte.
3. Não havia apenas dois carros seguindo nosso avião.
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O barulho do crepitar do fogo, o cheiro da maresia, o som dos violões e das risadas, das piadas. Não era como se eu não já tivesse visto tudo aquilo antes. Nunca houvesse acampado perto do mar. Muito menos com Sasuke, eu perdi as contas de quantas vezes meu avô nos levara para fazer aquilo. Muitas vezes com Itachi na fogueira, como Sasuke estava agora, uma panela no fogo, o som do acordeon dele, cantando as sonatas tristes de quando ele morara em Califórnia. Eu lembro até das letras. Do som de B.E. King, bem como agora, só que das cordas de uma violão pelas mãos de Sai.
E ainda a voz suave de Hinata recostada em meu ombro.
Isso nunca havia acontecido.
Ela recostava seu corpo em mim, relaxada, ambos em uma mesma coberta grossa, a manta quente cobrindo o chão, e ainda assim, usávamos tantas peças de roupa que eu me sentia sete quilos mais gordo. A sua toca de panda, o nariz vermelho de frio, o cachecol que a escondia. E a voz dela, cantando "Stand by me", no mesmo ritmo da voz de Sakura ao longe.
Estávamos recostados no avião, um pouco mais distante dos outros, e eu podia sentir o olhar de Neji em nós, assim como de Sasuke, que me lançava um de seus sorrisos fechados abraçado com Sakura perto do fogo. Aquela música parecia um prelúdio, ou eu queria que fosse. Não apenas sobre Hinata, mas sobre Sakura e Sasuke. Sobre eles estarem a meu lado, mesmo quando a noite literalmente estava vindo. Sakura de repente levantou a cabeça do colo dele e me olhou também, com um sorriso largo, e eu pude ler seus lábios, ficando na mesma hora encabulando quando claramente ela me mandou beijar Hinata.
Eu bem queria que fosse simples assim.
— O que foi? Você ficou tenso. — A voz suave me quebrou do contato visual com os meus amigos, que claramente estavam rindo de mim. Fitei Hinata que se ajeitara melhor contra mim, fitando seu eterno nada cheio de coisas.
— Nada não.
— Ok Uzumaki, um ensinamento útil de Hanabi, nunca diga que nada está acontecendo, ou fazendo nada. Principalmente se forem seus pais perguntando, responda qualquer coisa, que está construindo uma bomba ou algo assim, nunca nada. Eles não acreditam, e vão checar.
Dessa eu ri.
— Você ri como uma gaita de fole. — Ela zombou cantarolando.
—E sua irmã tem a mente maquiavélica. Gostei dela.
— Eu falei com ela antes de viajar. Ela falou, abro aspas, se vocês caírem em uma montanha, leve tempero para comer a carne dos outros passageiros, fecha aspas.
Ok, a irmã dela era assustadora também. Muito.
— Que bom que não tenho o gosto agradável. Coma o teme. Deve ser como comer Sushi.
— Essa era a hora que você falava que não tinha nenhuma chance do avião cair, e tudo mais, e não discutir o gosto do seu amigo. — Ela falou em tom de conspiração.
— Não terá outro destino, se dois cegos continuarem a pilotar amanhã.
— Como se eu não soubesse que Sasuke estava nos controles. — Ela retrucou e me engasguei. — Oh sim, Uzumaki, eu tenho "olhos" em tudo.
— Você é assustadora. — respondi, fitando seu rosto que olhava para cima, talvez procurando minha cara. Ela estava corada pelo frio, os olhos opacos me encarando, e era quase como se ela pudesse me ver. E talvez pudesse, de algum modo, ela podia me ver melhor que todos.
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Já devia ser alta madrugada quando eu acordei. Nem percebi quando cai no sono. A fogueira continuava acessa, ainda havia algumas pessoas por lá, mesmo que a maioria havia se recolhido nas barracas, alguns dentro dos carros. Pisquei os olhos, virando e vi Hinata deitada a meu lado, olhando para cima, acordada. Sasuke ainda estava perto da fogueira, com Sakura aninhada a si, conversando baixinho, e Lee estava perto do mar com Sai, eu não queria saber fazendo o quê.
Deitei de lado, a observando. De repente me lembrando que meu avô sempre me falava, que a gente se depara com alguns momentos da vida, que temos segundos para decidir algo, sem talvez, sem prorrogar. Um momento para decidir em que lado do muro vai ficar, antes que as coisas voltem a caminhar. E aquele, era um daqueles momentos, eu podia sentir.
Eu tive a certeza quando a voz suave retumbou enquanto eu fitava o rosto pálido em meio as cobertas, clareada apenas pela luz alaranjada da fogueira.
— Quando Hana me deu seu olho e eu consegui enxergar as estrelas, eu perguntei a meu pai o que elas eram. — Ela disse com um sorriso, virando o rosto para mim, e me assustando. Eu não fazia a minima ideia de como ela conseguia isso.
Estávamos cara a cara, eu podia sentir sua respiração na minha.
— Ele disse o quê? — perguntei baixinho.
— Que as estrelas eram pessoas boas, que quando morriam iam para o céu. E que minha mãe era uma estrela. Mas eu não conseguia entender, as estrelas pareciam tão longe...não devia ser bom ficar longe das pessoas que a gente ama. Então o céu não devia ser tão bom.
Ela esticou a mão e a peguei, as luvas quentes entre as minhas, brincando com meus dedos.
— É o que mais lembro de quando enxerguei. As estrelas. E então eu entendi uma coisa...Se eu não podia esquecer como eram as estrelas, não havia como eu esquecer da minha mãe. Então, devia ser por isso. A maneira que as coisas eram feitas, para a gente não esquecer, e da morte ser uma coisa mais bonita.
Fiquei absorvendo suas palavras.
— Meu pai é uma estrela. — sussurrei.
— Não, por que estrelas são bolas de fogo a bilhões de anos luz. — Ela riu e revirei os olhos. — Mas foi uma boa analogia do meu pai. Ele estava me falando da morte sem dor, de uma forma mais bonita.
— Como...borboletas. — Eu falei baixo, fitando seu rosto muito perto.
— Sim. Analogias. Metáforas. Como você me chamar para entrar em seu avião, você me dar minha liberdade. Eu falei da borboleta como algo breve, mas você a transformou em liberdade. Sua metáfora, foi bem mais bonita. — Ela riu.
— Então sou inteligente. — Repliquei orgulhoso.
— Touchê. — Ela cantarolou. — Merece um prêmio.
Ficamos em silêncio por um tempo, e foi naquele momento, que vi o muro.
Estávamos tão perto... Me aproximei ainda mais e ela parou de rir. Sua mão foi que buscou meu rosto. No fim, que eu dei aquela breve distancia, aquela breve pausa, não de expectativa, mas de reação. De permissão, e foi ela que me beijou.
E eu descobri, naquele momento, a razão pela qual as pessoas fecham os olhos quando se beijam. A escuridão, torna tudo muito mais intenso. Cada contato, tudo se torna sensação. Pura sensação. Hinata podia não estar apaixonada por mim, como eu estava por ela. Neji podia ter razão, e eu ser algo que ela queria manter nos eixos.
Hinata não me amava, como eu, que naquela época, nem sabia o quanto a amava também.
Mas no momento em que ela me beijou, eu soube que meu avô estava certo, e eu tinha pulado para o lado certo.
E não havia como voltar.
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