Da corte ao Altar
17 Capítulo 17
— Por mim? — ele a encarou e ela assentiu — por que?
— Bem… Você é praticamente o rei da Inglaterra. Temos que zelar por sua reputação.
— Está preocupada com a minha reputação? — ele perguntou incrédulo
— Ora, é claro. Não deveria?
— Deveria estar mais preocupada com a sua.
— Vamos nos casar. Eu não me importo.
— Lucy — ele suspirou — você não existe
No fim das contas, Anthony não sabia se sentia-se ofendido ou lisonjeado. Optou pela última opção. Mas Lucy tinha razão. Não seria bom para nenhum dos dois que eles fossem vistos naquela situação. Ele não teve a intenção de seduzir Lucy, mas ora… Ele era um homem. Não que isso fosse desculpas para alguma coisa, mas Anthony sabia que era difícil resistir, ainda mais que sua mente vivia lhe pregando peças e imaginando situações com Lucy.
Se ela se sentia da mesma forma, não deixava transparecer. Lucy era discreta e era inocente. Anthony sabia que ela não tinha muitos conhecimentos e provavelmente não entendia o que acontecia com ele em relação ao desejo. Provavelmente se ela nutria algum sentimento por ele neste departamento, ela certamente esconderia por 7 chaves. Esta era Lucy. Sua doce Lucy.
Eles decidiram reunir as coisas e voltar para a mansão. Estava quase tudo pronto. Lady Catherine realmente dominava a arte da organização e, com algumas moedas e alguns criados, logo colocou tudo no lugar pronto para a recepção. Os familiares de Lucy e Anthony chegaram e eles resolveram fazer um jantar mais intimista antes da celebração.
Lucy fez questão de organizar o cardápio, a música e cada detalhe da noite como a futura duquesa que seria. Conferiu tudo milhares de vezes para garantir que tudo estaria perfeito. Ela ainda estava com o orgulho ferido por seu sogro não achar que ela seria boa o suficiente para se tornar uma duquesa. Depois de se certificar pela milionésima vez que tudo estava correto, ela foi para a sala de estar, achando que ainda estaria cedo e que ninguém estaria lá. Mas se enganou.
— Lord Berkeley, que prazer vê-lo.
— O prazer é todo meu quase futura duquesa de Manchester — Lucy sorriu — Espero que Lord St.Clair não se importe, mas eu provei deste licor e me apaixonei perdidamente. Creio já estar na terceira dose.
— Bem, se é tão saboroso assim, acho que ele terá que me perdoar também se eu provar. — Lord Berkeley serviu uma dose para Lucy que bebeu e se surpreendeu com a mistura amarga e deliciosamente inebriante que provou. Ela umedeceu os lábios — acho que é a melhor coisa que já provei.
— Permita-me milady — Lord Berkeley puxou um lenço e limpou o canto da boca de Lucy que ficou levemente sujo. — essa gota de licor não estava combinando com seu belo rosto. — Lucy corou e ele lhe ofereceu mais uma dose, que ela recusou e delicadamente se afastou dele. — Senti falta de nossos passeios pela cidade. Se há alguém que se empenha em me ajudar a recuperar a memória é a milady.
— Queira me perdoar pela indisponibilidade, mas com tantos afazeres as coisas ficaram um pouco complicadas.
— Bem, creio que ficarão ainda mais. É o peso de se comprometer com um homem requisitado. Como se sente sendo uma das mulheres mais poderosas de Londres?
— Temerosa — Lucy assumiu.
— Uma mulher como você não parece ter medo de coisa alguma.
— Tenho medo de desapontar Anthony, digo… Lord St. Clair. Ele é um homem importante. A mulher que estiver a seu lado terá muitas responsabilidades e…
— Não acha que está preparada? — Lucy ficou em silêncio — Ora, esta é uma equação simples de resolver ao meu ver.
— Como?
— Não se case com ele.
Anthony estava começando a se sentir apreensivo. Enquanto se arrumava em seu quarto, percebeu que seria a primeira vez que seu pai se encontraria com Lucy depois que eles foram flagrados aos beijos. Ele obviamente não se arrependeu. Mas a verdade é que seu pai se tornou hostil e se mostrou muito esnobe no que se refere ao novo título de Anthony. Ele ainda estava incomodado com toda a conversa que seu futuro sogra havia lhe confidenciado sobre como seu o tal acordo que uniu a vida de Anthony e Lucy, mas o momento para discutir isso com seu pai nunca aparecia. O que mais incomodava Anthony era que, aparentemente, tudo o que o conde queria estava se realizando. Anthony estava cada vez mais próximo da coroa, não por intermédio de seu pai, mas pelas circunstâncias desastrosas que ocorreram na vida das majestades. Mas ainda assim, lhe parecia que ele estava realizando o que sei pai queria. E isso ele não queria.
Irritado, ele resolveu descer para tomar um licor antes do jantar que sua noiva ofereceria as duas famílias em sinal de paz. Lucy estava se empenhando em ser a melhor duquesa que a Inglaterra já viu e Anthony não tinha a menor dúvidas de que ela de fato seria. Entretanto, só de pensar que seu pai poderia menosprezá-la ou até mesmo envergonhá-la o sangue fervia. De fato, um licor vai cair bem, ele pensou. E ao descer as escadas ele encontrou Lucy e Lord Berkeley conversando, não pode entender o contexto do diálogo, mas ficou empacado na escada quando ouviu a seguinte frase:
— Não se case com ele.
— Como?
— Falo sério milady. Se não se sente apta ou preparada para a função de ser a futura duquesa, é mais justo para com Lord St. Clair que uma dama com os requisitos necessários preencha esse posto.
— Eu tenho me dedicado às aulas de etiqueta, tenho dado o meu melhor e sei que Anthony é de todos os homens, o mais compreensivo, mas…
— Perdoe-me interrompê-la milady, mas Anthony, se me permite a intimidade, não será apenas seu marido. Se acha que o que está em jogo é apenas um casamento é uma tola. Estamos falando de hierarquia. De poder. De sucessão real. De corte real. Anthony não é mais apenas o filho de um conde. Ele não vai herdar apenas um condado. Ele é um duque. Atualmente é o regente. Se o príncipe George não se casar e tiver filhos e viver a falecer, que Deus o proteja, Anthony será coroado rei da Inglaterra. Entende a responsabilidade? — Lucy ficou quieta — se acha que ser uma duquesa é uma grande responsabilidade, o que acha de se tornar uma rainha?
— Acho muito precoce essas insinuações. George tem planos de se casar para ser coroado como rei. Anthony me revelou isso.
— Eu imaginei que ele faria algo assim. Mas acidentes acontecem, sou prova viva disso. E mesmo que o príncipe se case, se ele morrer e não tiver filhos, o próximo na linha de sucessão real ainda é Lord St. Clair.
— Não quero imaginar tal coisa. Não vou me casar com Anthony pelo seu título.
— Ah não? — Lucy negou com a cabeça — Diga-me então por quê milady, despertou a minha curiosidade.
— Eu o amo. Como nunca amei ninguém.
— Você nem viveu o suficiente para amar minha cara Lucy.
— Você diz como se soubesse que é necessário ter experiência de vida para amar.
— Bem, como sabe eu não me lembro de nada da minha vida, mas não acho apropriado afirmar que nunca amou ninguém como ele porque nunca houve outro em sua vida. Você nunca se permitiu viver milady.
— Esse é um direito revogado a nós mulheres. Não escolhemos quem vamos amar e muito menos com quem vamos nos casar e eu tenho quase certeza que este não é o foco da discussão.
— Tudo bem, não vou importuná-la mais com este assunto. Peço que aceite minhas mais sinceras desculpas milady. Acho que com a perda de memória, acabei perdendo o tato.
— Tudo bem, não se preocupe.
— Só peço que pense seriamente no que conversamos. Acho que está apaixonada e a paixão não nos permite ver o que é óbvio. E no momento o que é óbvio é a posição que Lord St Clair ocupa. Ele pode ser de fato um homem bom e pode se tornar um bom marido, mas ainda seria um dos homens mais poderosos de Londres. E com o poder vem perigo.
— Perigo?
— Ora, não esqueça o que aconteceu com sua majestade. Homens da corte e da realeza sempre sofrem atentados. Sempre tem alguém querendo ocupar seus lugares. O poder tem um preço, que às vezes é muito caro, o rei, que descanse em paz, sabe bem. Bem, queira me dar licença. Manchester tem um céu noturno maravilhoso. Vou aproveitar alguns minutos antes do jantar.
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