Da amizade ao amor
29 Capítulo 29
Eduarda:
Acordo e estou em um lugar que nunca vi na vida, tento me levantar mas estou cercada por agulhas e meu corpo todo dói. Onde estou? Que lugar é esse? E a pergunta que não quer se calar é: Quem sou eu?
Quando começo fazer movimentos para sair da cama, uma mulher entra correndo dentro do quarto, me olha e suspira aliviada.
" — A senhora finalmente acordou, senhora Du. A senhora está bem? Se lembra da última coisa que aconteceu?" — ela pergunta toda generosa.
Olho ao redor do quarto inteiro e nada me vem a lembrança de algo familiar nem nada disso.
" — Eu.. Eu não consigo me lembrar de nada!" — olho para a moça. Ela me olha assustada.
" — Espera, vou trazer o seu médico para você tirar dúvidas e essas coisas." — ela diz, já saindo do quarto.
Quando ela saí, olho para o quarto mais uma vez, tentando fazer minha memória trazer algum lapso. Olho para minhas mãos, minhas unhas estão pintadas de preto e um anel chama minha atenção na minha mão esquerda, o tiro e vejo um nome ali Lucas amor eterno. Quem é esse cara?
Fico pasma com o quanto consigo me lembrar de algumas coisas e outras não, como cheiro, fome, o fato de minha unha estar pintada ou não, coisas básicas, mas todo o resto não consigo me lembrar de nada, fico pensando tanto nisso, que minha cabeça chega a doer.
Um médico entra pela porta seguido pela mesma moça que estava aqui antes, dá para perceber que ambos estão aflitos e preocupados.
" — Olá senhora Eduarda, eu sou o doutor Marcos, sou o médico da família. Como está se sentindo?" — ele pergunta.
" — Bem, só estou com umas dores de cabeça, mas fora isso estou bem. Me desculpe, mas eu não consigo me lembrar de nada" — digo sinceramente.
" — Bom, provavelmente é um trauma após passar tanto tempo em coma. Mas esperamos que sua memória volte logo, por hora você consegue se lembrar de alguma coisa?" — pergunta ele. Nego com a cabeça. — "Bem isso vai dar o que falar, quando seu marido descobrir."
" — Marido? Eu sou casada?" — pergunto espantada.
" — Sim e em breve ele estará aqui, para ter notícias suas. Todos os dias desses últimos quatro meses em que você estava de coma, ele não saiu do seu lado. Nenhum momento perdeu as esperanças. Acho melhor você descansar um pouco agora, você vai ver, tudo dará certo." — diz.
" — Tudo bem, Doutor!" — digo me deitando e quando eles pensam que estou dormindo, escuto dizerem.
" — Coitada dela, esse casal não tem nenhum sossego quase. O marido dela vai ficar tão arrasado com essa notícia, Doutor Marcos." — diz a enfermeira e meu coração sente uma tristeza profunda, que não sei de onde vem.
" — Tenho que concordar com você Ana, esse casal já passou por cada uma e tem mais essa barra para enfrentar. Mas se você não percebeu Ana, esses dois se amam e quando se tem um amor que nem o deles, se pode enfrentar tudo." — diz Doutor Marcos, logo depois ouço a porta sendo fechada e o silêncio reina no quarto.
Casada? Eu? Tudo o que eu consigo me lembrar direito e sei que é com certeza o certo, é do meu nome: Eduarda, mas desde sempre me chamam de Du. Ai meu Deus, me ajude a enfrentar essa, é tudo o que penso antes de voltar a dormir.
Sinto uma pressão delicada em minha testa e é assim que eu acordo, quando abro meus olhos, me deparo com o homem mais lindo que já vi nessa vida, ou que eu me lembre. Puta que pariu, que homem maravilhoso é esse?
" — Finalmente você está de volta, sua marrenta!" — diz com lágrimas nos olhos e não sei se é pelo o que ele disse, ou se é só por causa de ele ser lindo mesmo, mas dou risada.
" — Me desculpe, mas eu não consigo me lembrar de você." — assim que essas palavras saem da minha boca, os olhos do moço lindo se enchem de tristeza. É uma tristeza que chega a ser palpável e meu coração se aperta. — "Olha realmente desculpa, quero muito lembrar, mas não consigo." — digo.
" — Tudo bem, eu sei que você vai superar tudo isso e eu estarei aqui, pode acreditar nisso" — diz sorrindo. É inevitável, toda vez que ele sorri para mim, não consigo não retribuir.
" — Você poderia começar me ajudando, sabia? Como você se chama?" — pergunto. O cara pega uma cadeira que está próxima da minha cama e senta-se perto de mim.
" — Me chamo João Lucas." — diz. Assim que esse nome saí dos seus lábios um formigamento começa no meu corpo, percebo as suas mãos em cima da cama e noto uma aliança, que é muito parecida com a minha.
" — Posso ver a sua aliança?" — pergunto de supetão. Ele me olha, consigo ver a incerteza nos seus olhos.
" — Eu prometi a uma pessoa muito especial, que eu nunca iria tirá-la." — diz olhando fixamente nos meus olhos e percebo, com aquelas poucas palavras, que a pessoa para quem ele prometeu sou eu e que nós dois somos casados. O impacto dessa revelação me atinge em cheio.
" — Acho que a sua pessoa especial não iria se importar, se for por uma causa muito boa" — digo sorrindo para ele.
João Lucas finalmente cede e tira sua aliança me entregando, olho dentro dela e percebo uma inscrição, quase a que está na minha Eduarda amor eterno sempre, quando leio essas palavras, lágrimas vem mais uma vez aos meus olhos.
" — Eu sinto muito mesmo por tudo o que está acontecendo, João Lucas. Sinto tanto por não me lembrar de nada disso, de não me lembrar de você!" — digo chorando.
" — Calma Du, você vai conseguir se lembrar de mim, de nós, dos nossos lekinhos, quero dizer, dos nossos filhos, de tudo o que já passamos. Eu tenho fé que você irá conseguir se lembrar o mais rápido possível" — diz ele tentando meio que me abraçar.
" — Filhos? Meu Deus, eu já tenho filhos?" — quando é que as surpresas iam parar?
" — Ah meu Deus, o doutor Marcos pediu que eu não despejasse tudo assim, de uma hora para outra, mas é que é incontrolável. Sim, nós temos um casal de gêmeos que são duas crianças lindas e maravilhosas, Marta e Alfredo, fizeram dois anos recentemente." — assim que ele diz aquela frase, os seus olhos mais uma vez se enchem de lágrimas.
" — O que foi? Aconteceu algo com eles?" — pergunto já preocupada, por mais que eu não me lembre de nada do que ele está falando, meu coração se enche de pânico e quando um coração fica assim, é que ele sente tudo. — "Por favor, Lucas, me diz que nada aconteceu à eles!" — digo.
" — Não, eles estão bem graças à Deus, perguntando de você, eles sentem a sua falta lek. Só fiquei assim, pois no segundo aniversário de nossos filhos, você estava aqui, em coma. Du, você está em coma á quatro meses!" — Lucas diz.
O doutor Marcos já tinha me dito que passei quatro meses em coma, mas só agora, com o Lucas me dizendo o quanto perdi e eu realmente perdi mesmo, é que esse peso caí sobre mim.
" — Mas o que aconteceu? Por que eu fiquei em coma? O que aconteceu Lucas?" — pergunto desesperada.
" — Nós estávamos voltando para nossa casa, quando você percebeu que o carro não tinha freio e foi aí que nós batemos." — diz.
" — Um acidente de carro?" — é tudo o que eu pergunto, Lucas confirma com a cabeça.
Com o passar do tempo, conversamos muito, quero dizer, ele mais do que eu. Lucas me contou como nos conhecemos, no show de uma tal banda do Charlie Brown, que nos tornamos melhores amigos logo no ensino médio e desde então não nos separamos mais. Conta o quanto ele aprontava e o quanto eu o tirava de todas as enrascadas, e é nessa hora que eu interrompo.
" — Sério lek!" — com o passar do dia, ficou fácil chamá-lo assim, parecia até normal — "Não acredito que te tirei de tanta enrascada assim, tu era muito irresponsável meu!" — digo rindo.
" — Eu era, mas você me fez mudar e eu percebi que minha vida, assim com você nela, era muito melhor" — diz ele me dando um sorriso de lado, e eu percebo mais uma vez o quanto ele é lindo. Lucas tinha pele bronzeada, provavelmente do Sol, cabelo curtinho, olhos castanhos, uma barba por fazer e lábios que me fazia delirar para beijar. Lábios beijáveis ele tinha, um corpo que causaria inveja em algumas pessoas, ele não era nem tão musculoso e muito menos magrinho, diria que era na medida certa.
Percebo o quanto estamos nos aproximando, meu coração parou de bater normalmente, está em uma marcha, que só ele conhece, não sei se eu sentia o que estou sentindo agora, mas meu sangue está fervendo e o quer próximo à mim. Quando estamos perto o bastante para nos beijarmos, uma batida na porta nos interrompe. Ambos olhamos um para o outro e sorrimos.
O que esse cara está fazendo comigo? Estou pensando quando o Doutor Marcos entra mais uma vez no quarto, ele nos olha e dá um sorriso, ainda estamos muito próximos e sinto meu rosto esquentar.
" — Eu tenho uma notícia para dar ao casal" — diz o doutor Marcos — "Você Eduarda, irá ter alta daqui à dois dias. Você ficara aqui nesse tempo, para vermos se tudo ocorre bem, e se tudo der certo, você poderá ir pra casa" — diz doutor Marcos. A alegria é tão grande que acabo beijando o Lucas.
Ele fica paralisado, pois não esperava essa minha atitude, nem eu mesma esperava que poderia fazer uma coisa dessas. Foi natural. Não pensei, só reagi. Logo soltei o Lucas, toda envergonhada.
" — Err, bem, me desculpe. Não sei o que me deu!" — digo sem jeito. Lucas continua paralisado me olhando, percebo o doutor Marcos saindo de fininho. — "Sério João Lucas, me desculpe!" — digo tentando ter alguma reação dele.
João Lucas enfim se recupera da sua paralisação e se aproxima de mim, o movimento me pega totalmente desprevenida e por isso não consigo reagir, ele me beija. O beijo é delicado no inicio, exitante é a palavra certa, mas com o fogo que corre pelas minhas vidas, parece que meus braços ganham vida e o puxo para mais perto. O beijo se torna mais intenso, voraz, apaixonante, Lucas solta um gemido baixinho quando arranho de leve seu pescoço.
Paramos de nos beijar para recobrar o fôlego e estou desnorteada com o turbilhão de sentimentos que cresce dentro de mim, logo depois desse beijo. Eu quero mais. Olho para o João Lucas e ele está com os olhos nos meus lábios, depois se dirigi para me olhar.
" — Você não precisa se desculpar com nada, sempre que quiser me beijar, eu estarei aqui!" — diz rindo.
Começo a rir também e dou um tapa nele. A cena é tão familiar que me deixa zonza.
" — Você é um idiota convencido, sabia?" — digo
" — Acho que já me chamaram assim, uma ou duas vezes!" — diz.
E quando ele vai embora, pois precisa cuidar dos nossos filhos, que estou morta de curiosidade para conhecê-los e ver se os reconheço ainda consigo sentir os lábios de João Lucas em mim.
O quanto aquele beijo me deixou querendo mais, o quanto meu coração disparou quando ele ficou perto de mim. Posso não me lembrar de nada, mas posso confiar em mim que existia mesmo algo entre nós dois.
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