DOIS ESTRANHOS, UM DESTINO...
12 Epílogo!
Notas iniciais
O xamã olhava o céu claro, observando o bailado das aves contra o azul intenso. A floresta continuava a sussurrar segredos, a vida pulsava na vida e na morte entre as espécies.
Treze luas já havia se passado. O ciclo das coisas mudara um pouco, mas apenas aquilo que devia ser mudado. Uma das vantagens de ser velho e cego era que a impermanência, longe de trazer conflitos, podia ser uma benção e uma libertação.
Quando as crianças vieram gritando para contar-lhe a novidade, ele já sabia do que se tratava. Há muitas luas atrás, conversara com o caburé e ele lhe contara que teriam visitas. Ah, como era esperto aquele pássaro... Gostava de conversar com ele e dar boas risadas, enquanto o observava saborear os vermes dos troncos apodrecidos...
A habilidade ou poder de um xamã despertava cedo. Geralmente, após uma enfermidade ou contato íntimo com a possibilidade da morte. Os poderes se revelavam de acordo com o dom de cada um. O seu, após vivenciar a cegueira, era conversar com os animais, especialmente os pássaros e as onças...
Alheio às divagações do xamã, o chefe Pakui foi postar-se na entrada da aldeia e recebia os visitantes com um sorriso largo.
— Sejam bem-vindos! – disse ele a Camus e Milo.
O grego sorriu olhando em volta, enquanto Camus se desvencilhava da mochila e sinalizava que havia mais encomendas.
Graças à ONG em que estava trabalhando, Camus, Shion e Mu conseguiram mover as autoridades para fechar duas madeireiras ilegais próximas da aldeia dos Kuparanãs e agora, apesar de introduzir algumas melhorias entre os índios, incentivavam a preservação dos costumes e aprendiam muito com eles.
— Obrigado por nos receber, chefe. Voltamos aqui para retribuir o cuidado e a gentileza com que sua tribo nos recebeu. Tomamos a liberdade de trazer alguns presentes para as crianças e também para os idosos. – disse Camus.
— Nós agradecemos, cabelo de fogo. Quando o xamã previu que teríamos visitas, todos pediram à floresta que fossem vocês!
Milo há essa hora, já estava cercado pelas crianças e distribuía alguns brinquedos e livrinhos ilustrados, mas o que todos queriam eram as revistas onde ele aparecia ao lado da sua moto e também ouvir as histórias encenadas que ele costumava contar.
Quando todos já haviam ganhado o seu presente, o grego foi até Makawe que o recebeu com um amplo sorriso.
— Cabelo de sol voltou para os amigos. – disse ele, cumprimentando o grego em sua língua.
— Sim, voltei e trouxe algo para você também. – falou Milo.
— Para mim?
— Onde está o seu tesouro?— perguntou Milo.
— Está guardado na choupana.
— Então vamos lá, eu trouxe alguém comigo que vai deixar o seu tesouro novinho em folha e você, finalmente, vai poder cavalgar seu cavalo de aço.
Makawe não entendeu direito, mas estava feliz com a presença de Milo ali. Em seguida, Seiya entrou na choupana trazendo uma mala contendo ferramentas e um galão de gasolina. Três horas depois, a moto que Makawe havia encontrado se encontrava com tanque cheio, lubrificada, e pronta para correr.
O índio ficou um tanto desconfiado, apesar de feliz. Não sabia manobrá-la e tinha medo até de tocá-la. Milo adiantou-se, pedindo permissão ao filho do chefe para subir na moto.
— Suba na garupa, vou ensiná-lo a manobrar. – disse o grego.
Camus olhou para o namorado e para Makawe. O índio parecia uma criança com um sorriso que ia de orelha a orelha e Milo também estava feliz em proporcionar aquela alegria ao homem que o ajudara.
O xamã se aproximou do ruivo e ofereceu-lhe o cachimbo.
— Bom ver que aceitou a felicidade, cabelo de fogo.
O ruivo sorriu, aceitando o cachimbo que lhe era oferecido. Aos poucos, sua vida ia entrando nos eixos e Milo tinha tudo a ver com a grande mudança que acontecera em seus sentimentos e visão de mundo. Continuava a trabalhar no projeto social que protegia as comunidades indígenas da Amazônia e, ao mesmo tempo, apoiava Milo nas temporadas de corridas quando Shion e Mu se encarregavam de manter a ONG em movimento.
Acatando o pedido de Milo, os dois passaram a morar juntos em Atenas e Camus resolveu alugar sua casa em Paris para um sobrinho que viera da Rússia, o jovem chamado Hyoga que logo seguiria as suas inclinações e se tornaria um pesquisador também, com o diferencial de desejar atuar na Antártida.
Quando o grego tirava férias, os dois permaneciam um bom tempo no Brasil usufruindo da beleza e dos prazeres daquela terra maravilhosa. Assim, Camus aproveitava para unir o útil ao agradável e trabalhava um pouco indo a campo, ajudando a desbaratar madeireiras clandestinas e levando remédios e utensílios aos índios.
Era isso que fazia ali, buscava retribuir a hospitalidade e a ajuda dos Kuparanãs quando permanecera na aldeia com Milo.
Quando a noite chegou, a magia da floresta retornou em cada som e sombra. A aldeia estava em festa, comemorando a visita de seus amigos queridos.
Camus e Milo foram convidados a permanecer ali por alguns dias, haveria, novamente, a cerimônia de troca e mais uma vez os tambores ecoariam, ligando cada homem, mulher e criança ao ventre da mãe Terra. Os dois já eram considerados da família e Milo que antes se comunicava, apenas com gestos, agora já sabia falar o básico da língua.
A choupana que os acolhera na primeira vez, fora preparada para hospedá-los, novamente. As mulheres tomaram o cuidado de deixar duas esteiras esperando-os no mesmo lugar que, segundo a tradição, dava muita sorte aos amantes.
O luar projetava sua luz pálida no chão batido e, em seguida, também nos corpos que se encontravam nus e entregues um ao outro. O ruivo tomou o rosto do grego entre as mãos e sorriu, antes de beijá-lo de forma ardente. Depois, puxou-o para cima do seu corpo, sentindo que era o momento... O momento da entrega total que selaria aquele amor em um patamar forte e indestrutível.
— Venha cá... – sussurrou ele afastando as pernas e acolhendo Milo entre elas.
— Tem certeza, ruivo? – perguntou Milo.
— Tenho... Foi aqui que tudo começou e você foi meu. Agora é a minha vez... – respondeu Camus.
O grego sorriu, umedecendo os lábios com a língua, o olhar queimando de desejo.
— Deixamos de ser “virgens” um com o outro...
O ruivo sorriu, acariciando o rosto do amante com uma devoção amorosa.
— Sim, de corpo e... alma.
Milo fitou aqueles olhos e depois percorreu o corpo do amado. O luar deixava a pele de Camus da cor da pedra da lua, pálido e quase transparente e a cena fazia o grego querer unir seu corpo àquela nudez pagã, como se o ruivo fosse uma das inúmeras entidades míticas que os índios acreditavam percorrer a noite e adentrar as choupanas trazendo alegria e muito prazer...
Camus se excitou ao ver o ardor explícito nos olhos de Milo, a cor aprofundada dos lábios carnudos que o faziam desejar devorá-lo. Sempre soubera dar prazer, porém a luxúria nunca o tinha preenchido com aquela emoção inebriante enchendo o seu peito. Uma emoção tão forte que suspendia a sua respiração e acelerava, ainda mais, as batidas do seu coração, como se, em todo o corpo houvesse dezenas de corações e, em todos eles, a certeza do amor que sentia por Milo.
Riu enrouquecido, oferecendo a boca para Milo que o beijou de uma forma faminta, demonstrando todo o desejo que sentia. O francês ficou lânguido, a pele em chamas, as mãos acariciando Milo com a paixão intensa que o tomara desde que conhecera o grego.
Ficaram um longo tempo explorando o corpo um do outro até chegar ao limite daquela tensão que crescia, inundando os sexos e pedindo para ser saciada.
Milo sentia o gosto do seu amor ao tomar seu membro entre os lábios e sugá-lo com avidez. Camus já não mais gemia, gritava rouco enquanto todas as fibras do seu corpo pareciam receber descargas de eletricidade. Gozou dentro da boca de Milo e sentiu como era o seu gosto quando ele o beijou.
O cheiro de Milo, o cheiro da terra úmida e luxuriosa inundava seus sentidos, enquanto o grego introduzia os dedos em seu interior, preparando-o para a penetração.
Quando sentiu que era o momento, Milo aprofundou-se dentro do ruivo, sentindo tanto prazer que achou que ia morrer... Ficou parado, olhando no rosto do francês, o acolhimento quente no interior aveludado e estreito, o rosto afogueado de Camus que gemia, sentindo dor e prazer, acolhendo-o mais fundo e mais enérgico dentro de si. Ambos sincrônicos na expressão do desejo.
Camus movia-se de encontro ao corpo do amante. Sua carne, seu corpo e seus sentidos físicos buscavam aquela união plena, o gozo, o descontrole. Com Milo se permitia arder e amar numa deliciosa dicotomia...
A luz prateada acentuou a fina camada de suor dos corpos, revelando o movimento dos músculos, acolhendo os ofegos... E então, ambos gritaram, chegando ao orgasmo, juntos. Estremecendo e arfando até tudo terminar.
Milo ainda movia-se para dentro de Camus, sentindo verter seu sêmen no corpo do amado quando ele o puxou para um beijo permeado de ofegos trêmulos.
— Eu te amo, Camus... Amo, amo e amo... – murmurou Milo beijando-o nos lábios, nos olhos e fazendo cócegas embaixo das axilas.
O ruivo gargalhou, coisa que fazia frequentemente, agora, e sussurrou que também o amava e sempre iria amar desde que o grego parasse com aqueles dedos provocativos.
Trocaram carícias ternas e se deixaram embalar pela gostosa sonolência que o forte orgasmo provocara. O clima de felicidade e completude abençoado pela lua mágica que os cobria com sua luz.
Enquanto o sono acolhia os amantes, lá fora, sentado sobre uma pedra, o xamã sorria e fumava o seu cachimbo, sentindo a fumaça espiralar até os céus indo encontrar-se com a deusa Lua, enquanto o orvalho se depositava nas folhas e arbustos.
Vagalumes esvoaçavam brilhantes ante os olhos cegos, mas ele parecia enxergá-los e estendia a mão para senti-los dançar perto de si. Os pequenos insetos criavam as suas coreografias, enquanto o velho relembrava o passado, quando se tornara o visionário da tribo.
Cada coisa em seu lugar e o lugar em todas as coisas. Ouvia os pequenos escorpiões rastejando e as aranhas tecendo... Presente, passado e futuro se mesclavam em suas visões e, quando era jovem, ele desejava saber o que era mais importante na vida de um homem. Por muito tempo buscou a resposta em suas visões e ações na tribo.
Mas, a verdadeira resposta veio com a maturidade e agora ele sabia... A coisa mais importante, a lei maior, seria sempre o amor.
Um amor que não dependia de nada além de dois corações dispostos a bater juntos.
Um amor que se fortaleceria, apesar das diferenças, criando uma realidade de crescimento e compreensão.
Um amor que não importava ser entre dois homens ou entre um homem e uma mulher.
Um amor que uniria dois estranhos em um mesmo destino, como era o amor de cabelos de fogo e cabelos de sol...

FIM
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