DOIS ESTRANHOS, UM DESTINO...

9 Capitulo 9 : AMAR, DÓI!


Notas iniciais
***A belíssima arte que abre o capítulo é da... adivinhem? Da Washu! Todos os créditos à ela.

Dentro do avião, a comissária de bordo sorria e se aproximava do assento de primeira classe onde o grego se encontrava. Ela já tinha visto Milo e comentara com uma colega que jamais tinha visto um homem tão lindo. As duas riram baixinho e assim que teve a chance, Lívia foi até ele, fantasiando mil situações envolvendo-a com aquele homem.

– Aceita uma bebida, senhor?

Milo balançou a cabeça negativamente e continuou a olhar pela janela, cansado demais para esboçar qualquer comentário ou reação.

A comissária sentiu o sorriso morrer em seus lábios, mas resolveu insistir:

– Um lanche, talvez?

O grego nem se dignou a responder. Continuou imerso em seus pensamentos, enquanto Lívia tratava de verificar se havia outro homem bonito com quem pudesse, pelo menos, trocar algumas palavras.

Horas depois, quando o avião pousou parecia que toda a população de Atenas tinha vindo recepcioná-lo. Sempre à vontade nos eventos sociais, Milo não conseguia sequer sorrir frente a tanta movimentação.

O corpo pesava, o barulho era ensurdecedor, tudo tão diferente dos sons da floresta... E o respeito, então... nem se podia comparar. Os índios não costumavam transpor limites de relacionamento e respeitavam o espaço alheio. Não era o caso dos ditos civilizados... As pessoas tentavam tocá-lo e, pela primeira vez, o grego sentiu-se invadido e incomodado com tanta atenção. Entretanto, em meio à cacofonia, uma voz familiar se dirigiu a ele.

– Milo!

– Saga...

O grego vestindo um Armani se aproximou de Milo, abraçando-o forte e emocionado. Era alto, belo e desenvolto.

– Deixe-me ver você. – Saga afastou-se um pouco.

Os repórteres fizeram um círculo na volta deles, as câmaras registrando cada momento. Milo olhou em volta, cada vez mais incomodado.

– Não se preocupe com nada. Sua perna será examinada e tratada imediatamente.- disse Saga.

– Eu estou bem, Saga. Camus costurou e depois Makawe me deu uma argila cicatrizante e...

Saga fez uma careta e um olhar surpreso com as palavras de Milo. Não sabia direito de quem o grego estava falando e nem tinha muito interesse em saber. O que importava era que Milo estava são e salvo. Ficara muito preocupado quando soubera do acidente e não medira esforços para encontrá-lo. Mesmo que pensassem que a sua preocupação era porque Milo era o seu piloto preferido, a verdade era que gostava muito do jovem e tinha por ele, uma admiração e afeto sem precedentes.

– Bem, vamos direto para o hospital. Já estão nos esperando.

Exausto e triste, Milo não colocou objeções e seguiu o protocolo criado pelo seu amigo e patrocinador. Uma hora depois, já se encontrava no hospital Attikonem em um quarto privado que mais parecia um pequeno apartamento de luxo do que um quarto de hospital.

Deitado na cama passava por uma série de exames e se sentia péssimo. A perna começara a doer e não gostara nada do exame minucioso do famoso cirurgião plástico que Saga contatara.

O homem alto e com óculos de grau usava uma lupa, analisando todos os rebordos da cicatriz na coxa do grego. De vez em quando parava e fazia algumas anotações.

– Não creio que vou fazer plástica nesta cicatriz. – disse Milo vendo que o médico franzia a testa ao examinar a sua coxa.

– Devo avisá-lo que essa costura rudimentar favorece a formação de um queloide e ficará ainda mais feio do que já está. Aconselho que façamos a cirurgia corretiva o mais breve possível.

– Obrigado pelo conselho, mas... não vai rolar. Agora, se não se importa, eu quero dormir um pouco.

– A decisão é sua. – disse o médico com um tom ofendido.

Milo não se importou com o visível descontentamento do cirurgião. De repente, sentia-se orgulhoso daquela cicatriz. Tinha sentido a real dimensão da coragem e da superação. E, além de tudo, aquela marca lembraria, para sempre de Camus. Ele nem se despediu... Por onde andaria, agora?Como dormiria sem sentir os braços dele em volta do seu corpo?

A noite avançou e o dia seguinte mostrou-se tão frustrante quanto o anterior. O sono agitado deixara-o ainda mais cansado e de mau humor e Milo queria sair logo daquele hospital, mas os exames continuavam para atestar seu bom estado de saúde.

– Meu Deus, Milo! Por que não quer tirar essa cicatriz? – disse Saga ao visitá-lo na primeira hora da manhã.

O grego ergueu o olhar do travesseiro da cama de hospital para o seu patrocinador que viera acompanhado do irmão gêmeo, Kanon. Mesmo gostando muito dos dois, desejou que não estivessem ali o interrogando sobre algo que era assunto seu.

Exalando uma colônia cara e discreta os dois se aproximaram de Milo, olhando-o com atenção como se buscassem compreender o porquê de certas atitudes. O grego era sempre tão expansivo e agora se mostrava hostil e irritadiço.

– Essa cicatriz é como um troféu. Quero deixá-la em meu corpo para me lembrar de tudo que passei. – disse Milo.

– Por que será que eu sinto um cheiro de algo mais? – falou Kanon.

– Porque você é metido, só por isso! – rebateu Milo.

– O homem que fez isso... o tal Camus...

– Que tem o Camus?

– Teve um caso com ele? – Kanon indagou sem reservas.

– Te interessa? – devolveu Milo.

– Sendo você o nosso principal piloto...

– Meus “casos” nunca interessaram, então esse... se é que aconteceu, diz respeito, apenas a mim.

Kanon riu e Saga franziu o cenho. Em seguida, buquês de flores foram chegando e os gêmeos sorriram orgulhosos.

– É até um pecado você ficar nesse mau humor, Milo. Veja como seus fãs se preocupam com você. – disse Kanon tocando uma bela orquídea que chegara em um vasinho estilo Lalique.

Antes que a conversa reiniciasse, o tópico principal do papo anterior à chegada das flores se materializou a porta do quarto.

O coração de Milo quase saltou pela boca. Os gêmeos giraram, ao mesmo tempo, fixando o olhar no ruivo que adentrava aquele espaço florido e fitava Milo.

O olhar eletrizante que o grego e o ruivo trocaram respondia a todas as perguntas feitas e não feitas sobre a existência de algo entre os dois. Pelo menos era assim que pensava Kanon...

– Camus... Bem, esses dois são Saga e Kanon, meus amigos e patrocinadores.

– Prazer. – disse o ruivo estendendo a mão para cumprimentar os dois.

– Sr. Camus, estou honrado em conhecê-lo- — disparou Kanon com um brilho interessado nos olhos verdes. — Os jornais publicaram que o senhor lutou na guerra do Golfo e possui um histórico interessante em pesquisas geográficas.

– Milo nos contou que sobreviveu graças aos seus cuidados. – disse Saga.

– Cuidamos um do outro. Minha experiência em situações de perigo ajudou, só isso.

– Que modéstia... – disse Kanon com aquele olhar intenso.

– Vocês poderiam nos deixar às sós? – pediu Milo um tanto impaciente.

– Claro! Eu e Kanon temos alguns assuntos para resolver. Voltamos no final da tarde. E... senhor Camus, mais uma vez, obrigado por cuidar do nosso melhor piloto. O que precisar, sabe que pode contar conosco. – disse Saga.

Camus agradeceu e os observou deixar o quarto. Em seguida, aproximou-se da cama.

– Você está bem? – perguntou fitando os olhos azuis naquele rosto cansado, mas que nunca perdia a beleza selvagem.

– Estou.

– Tem certeza?

– Lá vem você de novo com essa pergunta. Claro que estou! Por que está aí parado e longe de mim? – falou Milo estendendo a mão e tocando o braço do ruivo.

Camus sorriu com uma expressão triste, o corpo experimentando uma discreta tensão.

– Vim vê-lo para me despedir. Não consegui fazê-lo no aeroporto e não queria, simplesmente, sumir assim, sem dizer adeus.

– Dizer adeus... – repetiu Milo sentindo um nó na garganta.

Camus afastou-se da cama e andou pelo quarto como se estivesse confinado em uma jaula. Os movimentos sempre confiantes, agora demonstravam constrangimento.

– Ouça, minha visita é rápida. Eu só quero que saiba... Eu nunca fui feliz ao lado de uma pessoa como fui ao seu lado naquela aldeia.

– Então por que está indo embora? Você disse que é um pesquisador, por que não fica um tempo aqui em Atenas?

– Porque preciso voltar à Manaus. A verdade é que, após meu período no exército, eu decidi ajudar um amigo no Brasil que possui um trabalho voltado para a preservação da cultura indígena e também dos recursos naturais da Floresta Amazônica. A ONG que ele preside recruta cientistas e pesquisadores e eu pretendo me integrar à equipe. Sempre pretendi.

– Então... Você estava naquele avião para encontrá-lo?

– Sim, eu queria surpreendê-lo, mas aconteceu aquele acidente. Mas, após o nosso resgate, ele já sabe que estou à procura dele. Então... eu estou indo. Cuide-se, grego. – girando nos calcanhares, Camus esticou a mão em direção à maçaneta.

– Camus, espere!

O ruivo virou-se e Milo já descia da cama, ignorando as dores que vinha sentindo desde que chegara. O rosto alvo do ruivo se contraiu quando ele trincou os dentes e fechou os punhos nas laterais do corpo.

Tinha se mantido afastado, porque sabia que a proximidade com Milo afetaria todas as barreiras e discursos que havia criado para deixar claro que não havia nenhuma chance de uma relação entre eles. Por alguns segundos, travou uma batalha em seu íntimo até perdê-la ao sentir o corpo do grego junto ao seu.

Milo o abraçou com força, o olhar repleto de sentimento e angústia. Camus não conseguiu evitar e retribuiu ao ato, abraçando-o também. Ele fechou os olhos e passou os braços ao redor do grego, saboreando seu calor, cheirando os cabelos loiros e sedosos que, ao tocar em sua pele, faziam aflorar um misto de tesão e ternura...

Quando sentiu o retumbar do próprio coração unido aos batimentos do grego, soube que não poderia evitar a dor. O que sentia não era paixão, nem luxúria. Era amor, mesmo que evitasse dizer a si mesmo a palavra gravada em seu corpo e alma.

– Camus... Eu te...

O dedo do ruivo impediu-o de falar. Os rostos ficaram frente a frente, o desejo aumentando as pupilas e, em seguida, as bocas se unindo em um beijo desesperado, repleto de uma necessidade apaixonada, quase trágica. Quando se afastaram um do outro, ambos estavam afogueados.

– Eu preciso ir, agora.

– Já? Camus...

– Sim. Quanto mais tempo eu permanecer, mais difícil será. Adeus, Milo. – disse Camus, enquanto dava as costas ao grego e deixava o quarto.

– V-Você é... Você é um covarde, ruivo! É isso que você é! – gritou Milo.

Os olhos rubros acastanhados olharam-no bem no fundo dos olhos. Havia um sentimento explícito neles, uma dor quase tangível...

– Sim, eu sou. Eu soube desde o início que entre nós seria algo com começo, meio e fim. Somos diferentes, Milo. E não estou falando em personalidade, estou falando em padrão de vida. Sua vida é glamorosa, você é um astro. Logo, você estará na capa de revistas, indo a festas... Minha vida é diferente, meus valores são diferentes. Nenhum de nós dois se adaptaria ao tipo de vida um do outro.

– Você já amou alguém? Já tentou, pelo menos? Acho que está dando desculpas para a sua incapacidade de aceitar que existe algo mais na vida que as suas verdades absolutas!

– Não é nada disso.

– Não? Pois não é o que está parecendo!

– Logo... você vai esquecer tudo isso. O que está sentindo, o que acha ser um sentimento é apenas a atração que acontece entre duas pessoas que enfrentam uma crise juntas.

– Não ouse... Não ouse minimizar o que houve entre nós com essa besteira psicológica.

– É a verdade, Milo. Nós nos ligamos em um momento extremo, ficamos muito próximos e... o sexo aconteceu. Sentimos atração, um pelo outro, nos damos bem na cama, mas isso não é o suficiente. Nós acabaríamos nos magoando.

– Se quer mentir prá si mesmo, o problema é seu! Mas não me inclua nessa sua atitude covarde! Eu sei muito bem o que eu sinto e não é porcaria de síndrome nenhuma!

– Com o tempo, você vai esquecer e voltar à sua vida normal. Será melhor, acredite.

–Vá embora de uma vez, Camus! Não quero mais ouvir merda! – gritou Milo tentando refrear as lágrimas que começavam a queimar em seus olhos.

A face de Camus se destituiu de toda a emoção e se transformou em uma máscara impassível. O brilho nos olhos rubros se extinguiu, tornando-os implacáveis e duros.

– Adeus, grego.

Milo ficou parado, a garganta apertando. Sentiu um misto de dor e ira, enquanto as lágrimas escorriam quentes e silenciosas...

Assim que a porta do quarto se fechou, ele despedaçou as flores, deixando cair os vasos e causando uma confusão no quarto.

A enfermeira chefe foi chamada e a sua presença no quarto fez Milo perceber que ninguém tinha culpa de seu estado emocional. Pediu desculpas e, em seguida, aceitou receber uma dose de calmante.

Deitado na cama e sentindo uma dor dilacerante, Milo fechou os olhos, consciente que jamais sentiria o mesmo por outra pessoa. Já tinha se apaixonado, várias vezes e também se desapaixonado com a mesma facilidade. No entanto, o que sentia por Camus não era paixão, nem um simples desejo que esfriaria com o passar do tempo. O que sentia, pela primeira vez em sua vida, era amor. E amar doía, terrivelmente...

Notas finais
***♥*** Obrigada, de coração a todos que comentam, silenciam, acessam, favoritam, enfim, todos fazem parte dessa aventura!! Bjs♥