D.N.A

1 Prólogo - Projeto Evolução


Uma proposta de emprego perfeita, mesmo que seja em um país distante e com uma língua estranha, é imperdível. Ainda mais quando se é jovem, inteligente e sozinho. Foi isso que Sean Cosgrove levou em conta antes de embarcar da Irlanda direto ao Rio de Janeiro. Seu mestrado em Genética Humana teria permitido que ele desse aula em diversas faculdades irlandesas, onde teria uma vida calma, com situação financeira estável e uma linda casa com lareira para se aquecer nos dias frios e um belo gramado.

Mas nada disso era para ele. Em meio ao mestrado, descobriu que seu lugar não era em uma sala de aula e sim em um laboratório. Infelizmente os projetos de laboratório de seu país nunca pareceram o suficiente. Então ele buscou pesquisas em diversos países, Inglaterra, Estados Unidos, França, até mesmo Israel, e nada que realmente chamasse sua atenção. Foi encontrar algo de forma inesperada, em um dos últimos países na lista de procura.

Brasil, país emergente da América do Sul, nada famoso por inovações no ramo das pesquisas. Porém, algo no artigo traduzido encontrado aleatoriamente em uma página na internet o chamou atenção. Em primeiro lugar, era um artigo escondido, como se não fosse para qualquer um achar. Na verdade, o caminho que ele fez até ele, mesmo que sem querer, foi bem grande. Era como se estivesse destinado a ler aquilo. Lá dizia que um renomeado doutor no ramo da genética estava estudando em laboratório um modo de melhorar os genes de ratos. Na teoria, o projeto chamado sugestivamente de “Projeto Evolução” propunha misturar partes do D.N.A de outros animais com o de ratos de laboratório para que eles melhorassem suas características físicas e genéticas, ficando mais fortes e menos propensos a doenças. Segundo o cientista, Doutor Arthur Fremder, a intenção da pesquisa era tornar algumas espécies de animais mais resistentes e com vidas mais duradouras. Para Sean o objetivo apresentado era nada mais do que uma explicação politicamente correta para encobertar um objetivo superiormente interessante, o que era comum de acontecer quando se tratava de pesquisas do ramo. Mas, houvesse outra razão ou não, o potencial daquilo era gigantesco. Alteração de D.N.A para forçar uma evolução. Isso soava como um prêmio Nobel em sua cabeça. As chances que ele teria caso isso se concretizasse. Não demorou nem um dia inteiro ate que ele entrasse em contato com o laboratório e oferecesse seu trabalho.

Foi assim que ele chegou ao quente país tropical. Ele não era exatamente um tipo comum no local, por isso foi logo ganhando o apelido comum da região, “gringo”. Tinha os cabelos de um raro castanho claro, que, por vezes, parecia ser loiro, por outras apenas castanho, cortados bem curtos para não se dar ao trabalho de ter que pentear toda manhã. Sua pele era clara e sem a agressão do Sol, fora os anos preso estudando, o que o deixava muito pálido. Era magricela e um pouco desajeitado, vestido sempre com uma camisa de botão discreta e um jeans, de preferência azul. Seu rosto era um pouco redondo, mas melhorava quando ele deixava a barba crescer um pouco. O problema era que isso nunca acontecia. Seus olhos eram muito negros, a ponto de ser muito difícil distinguir a íris da pupila, e sempre estavam escondidos por trás de óculos quadrados e cor de prata. Olhando para ele, se imaginava um jovem universitário no primeiro período do curso, e não um homem que já trabalhava em laboratório, mas isso não abalava sua convicção.

E convicção foi tudo que ele precisou quando chegou e teve que se acostumar com a língua local. Nos primeiros meses só andava com o dicionário debaixo do braço, mas com o tempo foi tudo ficando mais fácil. Ele conversava com os vizinhos do prédio, com o porteiro, com o balconista, com qualquer um que pudesse se socializar. Podia não dominar bem a língua, mas era, definitivamente, uma pessoa simpática.

Mas nada estava tão bom quanto no laboratório. Dr. Arthur era simplesmente genial e, assim que começaram a trabalhar juntos, houve um avanço inquestionável. As duas mentes haviam entrado em conexão perfeitamente e Sean não poderia estar mais satisfeito com o próprio rendimento. A cada filhote de rato que nascia mais forte, mais rápido e mais resistente, era uma nova vitória. Os dois quase não conversavam, era a verdade, mas Sean já via em Arthur um modelo científico a ser seguido. O cara era tudo que a ciência e a humanidade precisavam. Se tudo desse certo, eles poderiam começar a aplicar em animais maiores. Vacas, cabras, porcos, qualquer coisa que o ser humano precisasse para se alimentar. Os animais viveriam por mais tempo, reproduziriam por mais tempo, haveria mais. Isso poderia resolver a fome no mundo. E se a mesma coisa fosse reproduzida em vegetais, poderia haver plantações mais resistentes e que produzissem mais. Não, definitivamente não haveria mais fome no mundo.

Sean sonhava, cada vez mais alto. Dinheiro, prestígio, prêmios, tudo que qualquer cientista deseja. Porém nem tudo é perfeito. Aliás, parece que piora quando há grande expectativa envolvida.

Em uma das experiências, Fremder fez três tipos de misturas diferentes. Em um rato, priorizou a força, em outro, a velocidade, e no último a resistência. Era a primeira vez que colocariam as características separadas, portanto estava um clima de ansiedade para que os ratinhos nascessem. Sean esperou, pacientemente.

Manhã de sol no verão do Rio. Sean tinha uma rotina diária que não gostava muito de descumprir. Não podia negar, era uma pessoa sistemática. Acordava todo dia seis da manhã, tomava banho, um café rápido e saía para correr. Dava algumas voltas no quarteirão e retornava. Apesar de ser um homem da ciência, preso horas a fio em um laboratório, gostava de cuidar da própria saúde. Depois, tomava outro banho, se arrumava e ia para o trabalho.


–Bom dia, senhor João. – Ele disse ao porteiro, com seu sotaque enrolado, porém simpático.

–Bom dia, Sean. – O porteiro respondeu, lendo distraidamente o jornal da manhã.


Ele foi até a garagem e entrou em seu carro. Não era o melhor carro do mundo, mas era o suficiente para que ele pudesse chegar ao trabalho. Ele partia da filosofia de que, para o carro ser bom, só precisava andar e tocar música. E, desde que se mudara, precisava ter ar-condicionado também. Achava que nunca se acostumaria com a temperatura de verão.

Dirigiu calmamente pelas ruas, porém empolgado. Os ratos haviam nascido havia cinco dias, portanto deveriam começar a demonstrar os primeiros sinais de qualquer alteração naquele dia. Ele torcia muito para que desse tudo certo, mais do que poderia explicar. Se eles conseguissem isolar ainda mais as características dos genes, poderiam fazer qualquer coisa. Talvez inventar novas espécies, qualquer coisa mesmo. Já imaginava as manchetes nos jornais: “Projeto Evolução substitui Deus”, ou qualquer coisa igualmente sensacionalista. Os ideais de fama e riqueza voltaram automaticamente, e ele não poderia estar mais feliz.

Estacionou o carro em frente ao laboratório e, rapidamente, colocou seu jaleco e foi até seu local de trabalho.


–Bom dia, rapaz. – Dr. Arthur disse, com sua voz rouca de quem fumou muitos anos, mal Sean entrara na sala. Estranhamente não havia assistentes hoje.

–Bom dia. – Ele olhou ao redor, conferindo. – Onde estão todos?

–Dei a eles uma folga. Hoje seremos só nós dois mesmo. – O doutor olhava uma espécie de incubadora, que Sean já sabia do que se tratava.


Aproximou-se em silêncio do homem, olhando o que ele olhava. Havia três ratos lá dentro, que dormiam, ou ao menos pareciam dormir. Sean esperou, assim como o outro, por algo que nem mesmo ele sabia o que era. Começou a ficar inquieto, mas tentou não se mover.


–Já está quase. – O doutor disse, os olhos castanhos vidrados.


Sean aguardou, e aguardou, até que viu. Os animais começaram a se mover, despertando do sono. Primeiro um, depois os outros dois. Não fizeram nada demais por um bom tempo, mas ambos continuavam observando. Sean se perguntou se não estariam perdendo tempo, se não poderiam estar fazendo qualquer outra coisa de maior utilidade enquanto esperavam, mas preferiu não falar nada, o outro deveria saber o que estava fazendo.

Foi quando um dos ratos começou a andar com maior ligeireza. E essa velocidade foi aumentando, absurdamente, até ser difícil vê-lo bem. Um outro começou a ficar irritado e, sem querer, bateu a cabeça no vidro da caixa. O vidro trincou, de leve, mas trincou. Isso era impossível. O outro ficava apenas parado e, quando o rápido inquieto esbarrava nele, nem parecia perceber. O médico sorriu e Sean viu em seus olhos algo diferente, que não conseguiu identificar.


–Está pronto. – Ele disse, sem deixar claro ao mais jovem o que estava pronto.

–Sim, os ratos foram bons. – Sean disse. – Podemos ser mais... – Pensou em qual palavra deveria usar, ainda se confundia. – específicos.

–Sim, seremos muito mais específicos agora. – O doutor o encarou, ainda com o mesmo brilho estranho nos olhos. – Não precisaremos mais dos ratos.

–Então como faremos? Cavalo? Cachorro?

–Não, Sean. Iremos além. Além de onde qualquer um já imaginou ir. Vamos revolucionar nossa espécie.

–Não entendo, senhor. – Sean disse, realmente confuso. Aonde ele queria chegar?

–Humanos, rapaz. Humanos. – Ele sorriu e, pela primeira vez na vida, Sean sentiu medo dele. Ficou tão surpreso que, por alguns segundos, não soube como agir. Será que havia entendido certo?

–Mas não podemos, não temos como. – O rapaz respondeu, soando mais nervoso do que pretendia.


O médico o encarou, pensou um pouco e suspirou. Fechou a caixa de vidro, prendendo completamente os animais. Então, sem dizer uma palavra, acenou para que Sean o seguisse, e este o fez, ainda um pouco nervoso. Enquanto o seguia, sua mente girava. Não poderia utilizar humanos, nunca. Além de ter mais chances de dar errado do que certo, eles teriam que buscar isso em uma clínica de Inseminação Artificial, e nenhum casal iria querer que o filho passasse por experiências do tipo. Ele mesmo não permitiria isso, que dirá alguém de fora. Então, como? A resposta veio mais rápido do que ele imaginava, enquanto entrava na sala do Dr. Arthur.

Ele tinha dois empregos, um era naquele laboratório, e o outro era como diretor de uma aclamada clínica da região, especializada exatamente nesse tipo de fertilização. Era muito fácil para ele, portanto. Mas que tipo de pais deixariam que isso acontecesse? A não ser que eles não soubessem de nada.

Dr. Arthur acenou para que se sentasse em uma confortável cadeira, enquanto sentava-se em outra, do outro lado, ligeiramente mais confortável. Cruzou os dedos, as mãos apoiadas sobre a mesa e encarou Sean longamente, antes de falar alguma coisa.


–Você lembra o que me disse quando chegou aqui? – Perguntou, a voz calma.

–Sim. Queria aprender, ajudar. – Sean respondeu, deixando que o outro conduzisse a conversa.

–Isso. E também me disse que sempre sonhou com uma carreira no ramo da ciência. Várias vezes me falou do sonho que tinha de ganhar prêmios e colher muitos louros.

–Certo.

–Eu sempre admirei isso em você, mas acho que agora você está ligeiramente equivocado. Você sabe que alguns sacrifícios devem ser feitos para que os louros possam ser colhidos. É impossível fazer omelete sem quebrar alguns ovos.

–Mas não podemos usar humanos. Nenhum pai vai deixar que façam isso com um filho.

–Não se perguntarmos. – Arthur respondeu, recostando-se na cadeira. – Algumas coisas precisam ser feitas em sigilo.

–Isso é ilegal.

–Se a ciência se pautasse na legalidade de suas ações, ainda estaríamos na Idade Média. Sean, imagine só os humanos que nascerão se formos bem sucedidos. É a evolução da nossa espécie. Iremos corrigir os erros de Deus!

–Eu não vou fazer parte disso. – Ele disse, perplexo, com o coração apertado. O doutor suspirou novamente, passou a mão pelos cabelos grisalhos.

–Você tem certeza disso, garoto? – Ele perguntou, o tom de voz anormalmente sombrio.

–Sim. – Ele respondeu, sem pensar duas vezes. – Não ajudarei.

–Então não há mais nada para você fazer aqui. Se retire, por favor. – O doutor disse, com o rosto irritado, virando o rosto.

–Estou...

–Sim, demitido. – Cortou antes que o rapaz pudesse terminar a frase. – Não posso permitir que você atrase o desenvolvimento dessa pesquisa.


O rapaz levantou-se, irado, e saiu como um trovão pela porta. Quando Dr. Arthur viu que ele estava longe o suficiente, levou a mão até o telefone e discou.

Sean entrou no carro irado e saiu dirigindo agressivamente. Aquele doutor não podia fazer aquilo, era um crime, era terrível. E pensar que, menos de uma hora antes, aquele homem era quase um herói para ele. Nunca, em momento nenhum, poderia imaginar que ele se transformaria em uma mente daquelas. Humanos não. Crianças não.

Decidiu o que iria fazer. Iria parar na primeira delegacia e denunciar. Tanto fazia, ele faria de tudo para impedir. Parou em um sinal vermelho, decidido. Olhou pelo retrovisor aleatoriamente e viu dois homens em um carro preto. Tudo normal, até que um botou a mão para fora, e na mão havia um revolver, direto na sua direção. Sean pensou rápido, arrancando com o carro e quase batendo no que vinha no cruzamento, que conseguiu parar por sorte. Ouviu o tiro sair, mas não atingiu o seu carro. Porém, eles o perseguiram de forma habilidosa. Começava então a caçada.

Sean mal sabia por onde entrava, onde estava, mas sabia que tinha que sair daquilo. O carro que o seguia, porém, não parecia se abalar. Começou a suar, as mãos ficando úmidas ao volante. Quem eles eram? Entrava em uma rua, saía em outra, quase batia, mas nada fazia com que eles tomassem distância. Até que o inesperado aconteceu.

Mais um som de tiro. Não certou dentro da cabine, mas o carro perdeu o controle. Um pneu fora atingido e o carro, após girar algumas vezes, bateu de lado em um poste. Por sorte, não o mesmo lado em que Sean estava. Agindo rápido, se livrou do cinto de segurança, saiu do carro e correu, sem direção. O carro preto, porém, continuou seguindo-o, cada vez mais de perto. Em um momento de desespero, buscou uma rota de busca desesperada.

No Rio de Janeiro, principalmente nas regiões menos valorizadas, é comum encontrar rios que, de tanta poluição, viram valas. E foi exatamente para onde Sean correu e praticamente se jogou. Mas não antes de sentir uma forte ardência no alto da cabeça.

Quando caiu na água, sentiu algo quente escorrer pela sua cabeça. Levou a mão até lá e sentiu o líquido quente e, quando olhou, era avermelhado. Tudo começou a girar e, então, perdeu o equilíbrio.

Percebeu que estava sendo arrastado enquanto tudo se tornava escuro.