Notas iniciais
Mil desculpas pela demora. Semana de prova, viagem, falta de inspiração, tudo. :S

Alícia entrou pela porta dos fundos da lanchonete, sendo guiada por um funcionário até onde os garotos estavam. Estavam todos em uma espécie de escritório pequeno, mexendo nos instrumentos, exceto Esqueleto por motivos óbvios. Estavam muito bem vestidos, provavelmente tiveram a mesma ideia que ela. Se era para tentar chamar a atenção novamente, teriam que ter uma excelente aparência. E era isso que ela havia tentado fazer.

Havia se vestido de preto, como sempre. Era uma blusa de manga comprida um pouco mais colada do que o habitual que possuía três rasgos no ombro esquerdo, deixando um pouco da pele clara à mostra. Usava uma calça jeans preta que conseguia dar formato ao seu corpo, e tinha detalhes prateados que lembravam pichação nos joelhos e nos bolsos. O pé estava coberto pela mesma botina de sempre, aquilo sempre foi sagrado para ela. Os cabelos jaziam soltos livremente ao lado do rosto, que estava pintado com maquiagem escura ao redor dos olhos, realçando a cor clara. Podia ser considerada uma roupa estranha, mas havia combinado perfeitamente com ela.

Mas, no fundo, a única coisa que ela realmente se importava era se demoraria muito para pegar na guitarra.

-Todos prontos? – Perguntou assim que entrou.

-Eu já nasci pronto. – Esqueleto disse, girando uma das baquetas entre os dedos. Aquilo era um dos sinais de que estava nervoso.

-Claro, claro. – Ela respondeu, com um sorriso torto. – Cadê o meu bebê?

-Ali. – Rob apontou para o canto, onde ela pode ver a capa da guitarra.

Ela foi direto para lá, sentando-se com a capa. Pegou o instrumento com cuidado, analisando-o. Rob havia limpado-a e sua superfície estava perfeitamente limpa. Ele sempre fora cuidadoso com esse tipo de coisa. Ela só teve que afinar, o que não deu trabalho. O uso constante de instrumentos de corda faz com que a necessidade de afinar torne-se mais rara. E. pelo visto, Rob a manteve afinada os dias que ficou por lá.

Ouviram uma batida na porta e o mesmo funcionário entrou, chamando-os para o palco. Alícia ajeitou a guitarra ao corpo e saiu, seguindo Rob e Fred, já com seus instrumentos preparados. Esperaram um pouco no backstage improvisado até serem anunciados. Com alguns aplausos tímidos, entraram e se posicionaram, conectando os instrumentos nos cabos. Alícia, muito simpaticamente, cumprimentou o público, como era padrão. Então, respirou fundo e os instrumentos começaram a tocar.

Tudo estava de volta. A indescritível sensação de adrenalina no corpo enquanto cada acorde fluía de sua guitarra e sua voz preenchia o ambiente com a letra. Para ela, não havia ninguém na platéia, não havia os meninos, nem ela mesma. Havia apenas som.

A recompensa veio quando a platéia pulou e cantou junto, a maioria com os braços levantados e os dedos formando o horn. Nada gerava sensação melhor do que a energia que uma platéia feliz passava. Mesmo que não fosse uma platéia grande, havia no máximo trezentas pessoas, o estabelecimento realizava eventos para poucos, era necessário chegar cedo para conseguir. Quando a casa lotava, as portas eram fechadas e ninguém mais entrava. Talvez fosse por isso que o clima parecia, de certa forma, familiar e agradável.

As músicas foram tocadas, uma a uma, e parecia que não havia passado tempo nenhum até que o último acorde soou e foi substituído por aplausos e gritos. Agradeceram ao público, os quatro satisfeitos com a própria performance. Desconectaram os instrumentos e saíram, voltando para o quarto de antes.

-Foi incrível! – Alícia disse, abraçando de uma vez só Esqueleto e Fred, que acabavam de entrar no quarto. – Vocês foram incríveis.

-É, eu sei. – Esqueleto disse, sorrindo.

-Não se ache. – Ela respondeu, fingindo seriedade, mas logo estava sorrindo de novo. – Rob, você nunca solou tão bem na sua vida!

-Ali, por favor, você também mandou bem. – Rob disse, passando um pano pelas cordas da guitarra. – Todos foram muito bem essa noite.

Alícia encapou a guitarra e se jogou no sofá com um sorriso bobo na cara. Porém, conforme a adrenalina baixava, começava a se sentir cansada. Havia sido um dia longo e a única coisa que queria agora era um banho e a sua cama.

Juntou suas coisas e se despediu dos rapazes, pronta para ir embora. Rob saiu junto com ela, era uma espécie de costume. Não moravam muito longe um do outro, a casa dela era caminho para a casa dele, então normalmente voltavam juntos.

-Eu vou dormir que nem uma pedra hoje. – Alícia disse quando alcançaram a rua.

-Eu não sei se vou conseguir pegar no sono. Estou elétrico demais pra isso.

-Você sempre quase surta quando está no palco, normal. – Ela disse, sorrindo.

Ela ia responder alguma coisa, mas ouviram alguém chamar por Alícia. Quando se viraram, Guilherme estava andando na direção deles.

-Quase que eu não consigo falar com você. – Ele disse quando se aproximou.

-Pensei que não tinha vindo, não te vi lá de cima. – Ela respondeu, seu tom de voz era mais agradável do que ele já tinha ouvido.

-Eu estava escondido, só analisando. – Ele respondeu, sorrindo torto.

-E então, passei nessa sua análise? – Alícia perguntou, cruzando os braços.

-É, até que não foi tão ruim quanto eu pensei. – Ele disse, dando de ombros.

-Curioso, até que sua voz está bem desgastada para quem assistiu a um show que foi apenas “não tão ruim”.

-Como você pode saber se minha voz está desgastada ou não?

-Porque eu já a ouvi antes e estou ouvindo agora. E não se esqueça que eu sou uma cantora. – Ela respondeu em claro tom de vitória.

Ele suspirou teatralmente e ergueu os braços.

-Tudo bem, tudo bem. Eu posso ter cantado uma música ou outra. – Ele deu de ombros e voltou a sorrir. Alícia se pegou sorrindo de volta, meio abestalhada. Então se lembrou que Rob estava do lado dela.

-Ah, antes que eu me esqueça. Guilherme, esse é Rob, meu amigo. O outro guitarrista. – Ela disse.

Os dois se cumprimentaram com acenos, Guilherme estava sorridente ainda, mas Rob ostentava uma expressão não muito acolhedora. Alícia achou estranho, ele estava bem instantes antes. Talvez fosse o cansaço que estivesse começando a bater. Rob sempre ficava de mal humor quando estava cansado ou com sono.

-Tocou muito bem, cara. Parabéns. – Guilherme disse.

-Valeu. – Rob respondeu, apesar da cara fechada, sua voz não era tão ruim assim. Era apenas sono mesmo.

-Bem, acho melhor eu ir indo. – Guilherme disse depois de uns instantes. – Ainda tem um pouco de trânsito para pegar.

-Vai voltar para lá à essa hora? – Alícia perguntou. – Não é perigoso?

-Bandido também dorme, Alícia. Além do mais, só alguém mais forte do que eu me derruba. – Ele disse, sorrindo com a piada interna. – Até mais.

-Isso não deve ser tão difícil assim de encontrar, se quer saber. – Ela disse, debochando dele, mesmo sabendo que alguém mais forte do que ele era quase que fisicamente impossível. – Até mais.

Guilherme foi para um lado e os outros dois para o contrário, seguindo seu caminho. Rob esperou que virassem a esquina para falar alguma coisa.

-Quem é ele? – Perguntou, meio que distraidamente.

-Guilherme? É só um conhecido, ele é legal, mas não conheço ele muito bem. Só convidei para vir, convidar não dói.

-Conheceu aonde?

-Ah... Ele é irmão de uma amiga da Duda, eles foram lá em casa um dia desses. – Mentiu. – Ele também não atura a irmã mais do que eu aturo a minha, então tínhamos uma coisa em comum. – A única verdade nisso tudo era que tinham alguma coisa em comum.

-Sei. Então, você e Duda ainda não se entenderam?

E a conversa correu para esse lado. Rob parecia bastante convencido com a história da amiga de Duda. Ele jamais poderia saber da verdade, nunca, nem poderia sequer desconfiar do que Guilherme realmente era. Do que ela própria era. Não gostava de mentir para ele, mas não havia outra forma.

Enquanto conversava, começou a se perguntar o que ele acharia se soubesse de tudo. Riria dela e diria que estava tudo bem, que ela sempre fora estranha? Ou diria que ela era uma aberração, o que era exatamente o que ela se sentia? O fato era que, desde que havia descoberto tudo aquilo, ficar perto de Rob se tornara algo um pouco estranho. Ele era tão normal, com problemas normais, pensamentos normais, e ela era uma experiência de laboratório. Pensar nisso fez com que fosse mais difícil continuar rindo e brincando com ele.

Talvez ela estivesse precisando mesmo é de uma boa noite de sono.

Chegaram em frente ao apartamento de Alícia e pararam em frente à porta. Lá dentro dava para ver o porteiro com uma televisão portátil e velha ligada, mas não assistia nada, apenas dormia.

-Fico impressionada com a segurança desse prédio. – Alícia disse, debochando.

-Quer que eu suba com você para te defender dos bandidos malignos? – Ele perguntou, rindo.

-Não, eu não quero que eles morram de tanto rir. – A única resposta dele para isso foi mostrar a língua. Ela não pode evitar rir disso. – Ok, superman, eu vou subir. Se Duda resolveu me esperar acordada, já sabe...

-Claro, boa sorte. – Ele disse e ela começou a ir para a porta. – Ali? – Ela girou nos calcanhares para encará-lo.

-Sim?

Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas mudou de ideia no meio do caminho. Coçou a nuca, como fazia sempre que ficava nervoso, e parecia pensar muito em alguma coisa. Alícia aguardou, paciente, mas não por muito tempo. Estava cansada e ele estava estranho.

-Você está bem, Rob? – Ela perguntou.

-Bem... é que... Sim, sim, eu estou bem. – Ele disse, ficando normal de novo. – Não é nada. Boa noite.

-Tem certeza? – Ela insistiu, era óbvio o desconforto dele.

-Sim, claro. Acho que só estou com sono. – Ele sorriu e ela deu de ombros.

Despediram-se de vez e ela entrou, passando desapercebida pelo porteiro apagado. Subiu as escadas, mesmo estando exausta. No caminho, só pensava no que diabos teria acontecido com Rob. Ele queria falar algo, mas mudou de ideia no meio do caminho. Era óbvio, até parecia que ela não conhecia ele direito. Mas, seja lá o que fosse, ele preferiu ficar quieto. Talvez devesse deixar aquilo para lá. Por enquanto, é claro.

Chegou ao apartamento e entrou, trancando a porta. Automaticamente ouviu o barulho da televisão, mesmo que estivesse em um volume baixo. Duda havia esperado e Alícia quase a xingou mentalmente por isso. Só queria um banho e cama, sem discussões. Mas, pelo visto, Duda não partilhava da mesma vontade.

Mesmo sabendo que não funcionaria, tentou andar de fininho para o quarto, com uma pequena esperança que Duda estivesse cochilando e não a visse. Mas é claro que ela viu.

-Alícia. – Ela disse, mas resolveu olhar para a irmã mais nova dessa vez. Normalmente, quando isso acontecia, ela ficava encarando a televisão. – Você pode se sentar aqui um pouco, por favor?

-Duda, eu estou morrendo de sono, cansada. – Alícia reclamou. – Acabei de vir de um show agora.

-Eu sei que veio. Eu fui nele.

Alícia a encarou, incrédula. Duda foi ao show? Maria Eduarda em um show de Rock? Ela se amaldiçoou por não ter identificado a irmã na platéia, devia estar uma cena no mínimo cômica. E o que diabos ela havia ido fazer lá?

-Você o que? – Alícia conferiu, provavelmente não havia ouvido direito.

-Eu fui ao show, vi vocês tocando. – Ela disse, aparentemente não entendendo a confusão. – Algum problema?

-Não, é que... Eu nem sabia que você gostava desse tipo de música.

-Eu vi um cartaz perto da lanchonete quando passei por lá e resolvi conferir como vocês eram. Quase não consigo entrar, mas consegui. – Duda deu de ombros. – Vocês são bons. Agora, pode se sentar aqui?

Depois dessa, Alícia teve que se sentar ao lado dela, mas manteve certa distância. Nem que fosse para conferir se haviam trocado a irmã por um clone, ou coisa parecida, agora ela estava curiosa. Encarava a mais velha em silêncio, ansiosa para saber o que poderia ser. Parecia que não ia ser a mesma conversa chata e sem fim de sempre.

-Eu não vou ocupar muito do seu tempo. Enquanto eu assistia lá, você no palco e tudo mais, eu percebi que talvez você soubesse o que estava fazendo com você mesma. E que eu estava exigindo que você fosse uma pessoa que não existe. Desculpa por isso.

-Tudo bem, não tem problema. – Alícia respondeu, mas não sabia muito bem o que responder.

-É que... desde que eles sem foram...

-Duda, por favor. – Alícia a cortou. Não queria falar da morte dos pais naquele momento.

-Desde que eles se foram – Duda a ignorou. – eu tenho tentado substituí-los, mas eu sei que eu não posso. – Sua voz ficou um pouco embargada. Alícia olhava para o chão, mas tinha certeza que a irmã estava prestes a chorar. Aquele assunto sempre fora um ponto sensível para as duas. – Acontece que, desde que nossos pais se foram, você é a única família que eu tenho.

Um silêncio pairou sobre a sala, o único som que se ouvia era o baixo volume da televisão. Alícia não sabia o que responder. Havia esperado por uma discussão, um sermão, mas não por aquilo. Nenhuma das duas era muito boa em falar dessas coisas, mas ela era a pior delas. Sabia que tinha que falar alguma coisa, mas não tinha nenhuma ideia que valesse a pena.

-Eu não tenho facilitado muito as coisas também, o erro não é só seu. – Ela acabou dizendo, sinceramente. – Eu vou tentar melhorar.

-Eu vou encher menos a sua paciência. – Duda disse, com o humor um pouco melhor, e Alícia sorriu.

-Vai ter que praticar bastante para conseguir fazer isso. – Ela respondeu, fazendo Duda rir.

-É, estou sabendo. Está tarde, acho que vou dormir agora.

-Isso é uma boa ideia. – Alícia disse, coçando os olhos e se levantando. – Boa noite.

-Boa noite. – Disse Duda enquanto a outra ia para o banheiro.

Tomou um banho quente e relaxante, percebendo como estava cansada. Sentiu-se quilos mais leve quando vestiu o pijama velho e se jogou na cama. Não demorou nada para dormir.

Era um dia de Sol, mas as árvores o bloqueavam. A luminosidade entrava pelas brechas das árvores, tornando a luz um pouco esverdeada. E ela caminhava sozinha naquele lugar agradável. Mas não ficou sozinha por muito tempo. Logo duas pessoas apareceram, um menino e uma menina, ambos de pele muito clara e cabelos ruivos. Os dois sorriam para ela e sinalizavam para que ela os seguisse. Então começavam a andar juntos. Os dois brincavam um com o outro e riam muito, mesmo que Alícia não entendesse muito bem o que eles falavam.

A trilha bifurcava e eles seguiam para a esquerda. Continuaram por um certo tempo, ela não sabia dizer ao certo se havia sido muito longo ou pouco. Só sabia que andaram bastante.

Então eles pararam e viraram para ela, com suas expressões simpáticas novamente. A encaravam com ansiedade.

-Nós estamos te esperando, Alícia. – Eles disseram, em uníssono. – Venha até nós. Estamos te esperando. Venha logo. Venha. Venha. Venha. Venha.

Alícia acordou sobressaltada com alguém balançando ela. Olhou para cima e viu que era Duda. O Sol entrava pela janela, sinal de que já havia amanhecido. Ela coçou os olhos, sem saber se matava a irmã por tê-la acordado ou se a beijava por isso.

-O que foi? – Perguntou, zonza de sono.

-Já são dez da manhã. – Duda respondeu e Alícia reparou que ela estava com roupa de caminhada, os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo e um boné.

-E... ?

-Está um dia lindo lá fora!

-E... ? – Alícia repetiu.

-É um excelente dia para uma caminhada!

Alícia olhou para ela, incrédula, e enfiou o rosto no travesseiro novamente.

-Aproveite bastante. – Ela falou, a voz abafada por estar contra o travesseiro.

-Sim, aproveitaremos muito! – Duda insistiu, mas Alícia nem sequer se moveu. – Vamos, preguiçosa, estamos perdendo tempo. Você precisa pegar um pouco de Sol de vez em quando.

-Odeio Sol. – Ela disse antes de cobrir uma orelha com o travesseiro, escondendo o rosto.

Duda botou as mãos na cintura e suspirou. Porém, não se deu por vencida. Afastou as cortinas, deixando o quarto mais claro. Então puxou as cobertas de cima de Alícia, fazendo-a se encolher toda.

-Tem certeza que não vai? – Duda perguntou, ainda calma.

-Tenho!

Meia hora depois, as duas estavam saindo de carro. Alícia sabia que, não importa o quanto você tentasse, Duda sempre conseguia o que queria. E, pelo visto, nada havia mudado.

-Para onde vamos? – Alícia disse, ainda sonolenta, mesmo depois de um banho.

-Floresta da Tijuca. – Duda disse, animada. Alícia ficou em um silêncio sepulcral ao ouvir isso. De tantos lugares que Duda poderia escolher, porque logo o lugar que vinha atormentando seus sonhos ultimamente? – Você já foi em passeio escolar para lá, uns anos atrás.

-É, eu lembro. – Ela respondeu, tentando parecer mais natural o possível.

Por mais que parecesse idiota, Alícia torceu para que o lugar não chegasse nunca. Mas, obviamente, chegou, mais rápido do que ela gostaria. Deixaram o carro e foram para a entrada do parque, Duda super animada com o programa. Alícia tentou parecer, ao menos, um pouco animada, sabia que a irmã estava tentando fazer aquilo para aproximar as duas. Seja lá o que houvesse acontecido com ela, era bom demais para ser verdade, e não podia ser estragado. As coisas ficariam mais fáceis para Alícia se elas se dessem bem, tinha que admitir que estava gostando da nova fase.

A trilha até que foi agradável. Conversar com Duda estava sendo agradável. Depois de um tempo, se convenceu de que aquela preocupação com o lugar era besteira e que não valia a pena. Decidiu aproveitar e pronto.

Andaram, calmamente, até mais ou menos duas da tarde. Já seguiam pelo último caminho quando chegou a uma bifurcação. O caminho indicava para a direita, mas Alícia parou no meio. Ela já tinha visto aquele lugar, naquela noite mesmo. Esse era o ponto que ela seguia com os irmãos Miranda. Parou uns instantes, sem saber o que fazer. Não, ela sabia o que fazer, ir para o mais longe o possível dali. Mas havia aquela parte dela, aquela teimosa e curiosa, que a impulsionava para entrar naquela trilha. Iria acabar de uma vez por todas com aquilo, não iria? Para bem ou para mal, chegaria ao fim do sonho.

-Er... Duda? Vai indo na frente que eu vou tirar umas fotos, já te encontro.

-Fotos? – Duda a olhou com estranhamento. – Aqui?

-É. Tem algumas coisas que ficariam bonitas. – Ela sorriu. – Eu sei o que estou fazendo.

-Tudo bem, eu te espero.

-Não, não precisa. Eu não vou demorar, pode ir indo. Não quero atrasar. – Alícia disse, com um pouco mais de vontade do que deveria.

Duda pensou um tempo, e olhou ao redor. Provavelmente procurando algo que valesse a pena bater foto. Então olhou para a irmã de novo, dando de ombros.

-Seja lá o que você viu, boa sorte batendo foto. – Ela sorriu. – A artista aqui é você.

Duda seguiu a trilha e Alícia enrolou até que ela estivesse a uma distância segura. Então começou a andar para a trilha da esquerda, que, a princípio, não tinha nada de fora do comum. Tentou andar rápido, não podia demorar ou Duda desconfiaria de alguma coisa. Mas não precisou andar muito. Encontrou uma pessoa descendo a trilha, alguém que estava passeando. Usava um boné e andava de cabeça baixa, escondendo o rosto. Mas foi o suficiente para ela ver uma penugem ruiva escapar um pouco para fora. Parou, sem saber o que fazer ou falar. Só podia ser um dos dois, provavelmente o garoto.

Porém, demorou tanto para falar alguma coisa que ele passou direto. Já se achava a pessoa mais idiota do universo quando sentiu ele colocar algo em sua mão. Olhou e era um papel dobrado. Virou-se rápido, ainda pronta para encará-lo. Ele havia, simplesmente, desaparecido. Isso a assustou tanto que ela conferiu se o papel estava lá, só para confirmar se não havia sido uma alucinação. Mas ele estava lá, perfeitamente dobrado.

Abriu o mais rápido que pôde. Uma letra um pouco torta e mal feita escrevia um endereço que ela não reconhecia. E, além disso, uma pequena adição no fim.

“Não conte a eles. Não deixarão que venha.”

Pensou um pouco no que faria. Sabia que deveria contar a Jonathan, a Guilherme, a qualquer um deles. Era algo importante e eles estavam ajudando. Tinham se comprometido a fazê-la dominar aquele dom que ela havia sido forçada a ter. Deveria confiar neles, não devia?

Mas ela não conhecia o outro lado da história. Eles podiam muito bem estar mentindo para ela, não conhecia nenhum deles. Aquela curiosidade continuava a crescer, incontrolável, e ela sabia que não ia conseguir reprimir isso. Estava decidido. Procuraria seja lá quem fosse o dono do endereço.

Começou a voltar pela trilha e seguiu pela outra para encontrar a irmã. Não demorou muito, Duda não era exatamente a pessoa mais rápido do universo.

-E aí, tirou as fotos? – Duda perguntou antes de pegar uma garrafa de água.

-Mudei de ideia no meio do caminho. Não era tão interessante assim.

Duda revirou os olhos com aquilo, e continuou conversando sobre qualquer coisa que Alícia não conseguia dar a devida atenção. Sua cabeça estava longe dali.