DEVIL MAY CRY 5-Devil Never give Up
16 Rheia
Notas iniciais
Uma balsa partiu do porto de Sommad rumo a Enuma. Nela embarcaram três pessoas um tanto peculiares. Dois homens e o que parecia uma mulher estavam parados junto à amurada da balsa, em silêncio. Um dos homens tinha o semblante fechado e tenso. Constantemente a mulher tocava seu ombro como se o confortasse, mas isso parecia não surtir efeito.
O outro homem se espreguiçou e falou, por fim:
—Três dias! Finalmente estamos indo pra Enuma! Como saber onde aquele maldito portal ia deixar a gente? Um pátio da polícia não é um lugar muito amigável pra surgir do nada!
A medicastra sorriu e olhou o mar:
—Há esperança para minha Inanna.
Dante voltou-se para o homem ao seu lado e suspirou:
—Ei, V...
—Ainda tentando justificar a escolha dele?
—Qual é! Isso foi altruísta pra caramba! Não é como da primeira vez! Você sabe que não, afinal, é a outra metade daquele turrão!
Rheia voltou sua face pálida para V:
—Vergil Sparda está seguindo os passos do pai. O submundo precisa de um guardião à altura para domar hostes que ambicionam o mundo dos homens. Ao contrário do que parece, ele não sacrificou sua humanidade para isso... Ele libertou-a.
V encarou a entidade. Dos olhos dourados da medicastra emanava um poder tranquilizador:
—O elo que existe entre vocês não foi rompido. Então receba a dádiva e viva plenamente. Por ele e por você...
Dante ouviu aquela conversa em silêncio. Ele observou V se afastar deles e seguir para um lugar mais solitário da balsa. O caçador podia ouvir os soluços roucos e murmurou para si:
—Oh, irmão! Somente assim para alguém como você colocar tudo pra fora...
Enuma surgiu ao longe quando já entardecia. Um grupo de pescadores amarrava seus barcos e guardava redes e remos após um dia de trabalho no mar. Quando viram a balsa, agitaram os braços e subiram pela trilha até o vilarejo, enquanto um deles correu até o farol para avisar Maud.
Nico e Kyrie estavam sentadas junto à van, observando Nero treinar com a nova devil breaker. Junto delas, três criaturas de um tamanho considerável descansavam. Quando viram o pescador correndo pela trilha, seguiram para a encosta e avistaram a balsa se aproximando.
Dante acenou e Nero desceu a encosta correndo até o ancoradouro. Ele viu a medicastra e o caçador, mas não viu seu pai. Quando a balsa atracou e lançou a prancha de desembarque, Nero atravessou-a e abraçou Dante:
—Tio!
—Ei, moleque!
Nero riu e olhou ao redor:
—Onde está meu...
Dante segurou-o pelos ombros e falou:
—Precisamos ter uma conversa. Nesse momento o V... Vergil precisa de um tempo, ok?
Nero franziu o cenho e balançou a cabeça, não muito certo do que aquilo tudo podia significar. Saiu com Dante para fora da balsa e seguiram para o farol. Rheia andou pelo convés da balsa até onde V estava sentado. Ele mirava o mar, imóvel, o vento fustigando os cabelos brancos. A luz do sol se afastava devagar, emprestando uma cor dourada que transformava a paisagem.
Ele não olhou pra ela quando se aproximou. A forma esguia e alta moveu-se até a amurada e analisou a paisagem. Sua voz era profunda e doce:
—Eu me permito sentir o calor desse sol e o gosto salgado do vento que vem do mar nessa forma física e limitada. Um prazer tão simples e algo poderoso para se apreciar...
Vergil baixou o olhar:
—Mas você é uma divindade.
—Sou parte de um equilíbrio universal... Minha condição é estar dividida entre todas as coisas vivas que habitam o que chamam de Terra. E também estou presente na transição de tudo. É tão raro que eu possa usufruir de momentos assim por mim mesma...
V olhou-a:
— Ver tudo passar... E então esperar pelo fim?
Ela suspirou:
—Não somente... Apesar disso, a vida continua avançando. Eu posso senti-la lutando para continuar, para prevalecer diante de toda adversidade, sempre buscando...
V observou o rosto da medicastra e percebeu lágrimas pela face dela. Espantado, ele se levantou e aproximou-se:
—Rheia! Deuses... Podem chorar?
A entidade sorriu e saiu dali, deixando V pensativo. Pouco tempo depois ele seguiu pelo ancoradouro e subiu rumo ao farol. Cada passo trazia uma estranha angústia e em seu coração, temia o olhar de desapontamento de Nero e por fim, o rosto inexpressivo de Inanna em seu estranho sono por culpa dele.
A noite caiu rápido e Nero estava sentado na escadaria do santuário. V entrou devagar e sentou-se ao lado dele. O rapaz balançou a cabeça:
—Por acaso ele pensou em mim quando decidiu por... Isso?
V suspirou:
—Sim. Apesar de não concordar com isso, agora entendo.
—Você vai morrer?
—Não. Ainda estamos conectados ou algo do tipo.
—Ele... Pode ver ou ouvir através de você?
—Possivelmente...
Nero abraçou V e o homem fica surpreso. Ele envolveu o rapaz nos braços e falou com carinho:
—Por mais estranho que pareça, sou metade seu pai. Vamos fazer o nosso melhor, ok?
Se separaram, rindo, e Nero falou:
—Nico vai ficar impossível quando souber disso!
—Bem, sobre isso não há muito o que ser feito.
Dante estava no pequeno quarto onde Inanna dormia. A medicastra estava ajoelhada ao lado da cama e tocava o rosto da jovem com carinho. Maud estava de pé e falava com voz cansada:
—Fizemos o que é possível para manter o corpo, mas sua alma não se conecta mais conosco... Eu temo pelo pior, senhora...
Rheia olhou o rosto da anciã:
—Sempre fez o melhor por minha criança, Maud. Se quiser, posso aliviar o peso do tempo em seu espírito por todos esses anos de dedicação e...
Maud faz que não com a cabeça:
—É muito generosa, Deusa, mas permita-me continuar até que o tempo venha por si.
A medicastra sorri e Dante perguntou:
—É possível que V possa fazer algo sobre isso?
—Vergil foi generoso. Vamos esperar os frutos desse sacrifício.
Enquanto isso, Nero levou V até a van da Devil May Cry e Nico surgiu na porta com Kyrie:
—Ora! Quem é vivo sempre pode aparecer! Salve, Poeta!
Com um sorriso no canto da boca, V acenou com a cabeça para a artesã armeira. Kyrie aproximou-se do homem:
—Senhor V!
—Olá, Kyrie.
Nico bateu palmas:
—Certo! Chega de reunião de família! Preciso saber o que vai fazer quanto a isso aqui...
Ela abriu a porta da van ainda mais e no fundo do veículo, deitados em uma colcha velha, os seres de sonho de V estavam deitados, ora se espreguiçando, ora brincando uns com os outros. O homem subiu na van e parou, analisando as criaturas. Elas voltaram sua atenção para ele e seguiram devagar, desconfiadas.
V agachou-se e ergueu os braços, fechando os olhos. Pouco a pouco, sentiu o roçar de pelos, penas e pele grossa em seu rosto, braços e pescoço. Os três seres emitiam ganidos baixos, guinchos e ronronados, demonstrando satisfação com aquele contato e V murmurou:
—Também senti falta de vocês...
Nero sorriu e kyrie perguntou:
—Quem são esses animais?
—Familiares... Uma mascote espiritual ou algo do tipo. Eles acompanhavam meu pai... V na época da Qliphoth. Dante os enfrentou e foram destruídos.
Nico espreguiçou:
—Agora são filhotes fofinhos e bonzinhos! Mas fazem muita bagunça na minha van! Ei, V! Dê o fora daqui com sua turma!
O homem riu. Apanhou o homúnculo e o felino no colo, tendo a ave em seu ombro e saiu da van. O grupo o seguiu até a entrada do santuário e V ergueu o olhar para a estrutura do farol:
—Nesse momento, minha parte demônio deve rir do medo que sinto por estar prestes a entrar ali.
Nero afagou as costas do homem e concordou. Nico e Kyrie seguiram na frente e subiram as escadas. V colocou os seres no chão e falou com voz suave:
—Fiquem aqui e comportem-se... Logo estarei com vocês. Entendido?
Os seres de acomodam no chão e permanecem quietos, vendo o homem se afastar e sumir pela porta de entrada do farol. O som baixo de vozes já podia ser ouvido das escadas e V respirou fundo. Não tinha a menor ideia do que dizer ou fazer quando visse a jovem.
Solidário, Dante sorriu ao irmão quando o viu cruzar a porta. Maud e Rheia voltaram seus olhares para o homem e ele acenou com a cabeça para os presentes ali. Ele aproximou-se devagar e olhou para a cama, estreitando os olhos ao perceber a palidez na face de Inanna onde antes havia um bronzeado saudável.
V falou:
—Estou aqui.
Rheia aproximou-se e tocou-o no ombro:
—Sim.
Dizendo isso, ela saiu e foi seguida pelos demais, deixando V sozinho no aposento. Ele ficou parado e sentiu-se estranho:
—Bem! Então é isso...
Ele foi até a cama e sentou-se ao lado da jovem. Tocou a mão dela:
—Eu...
Ele observou o peito dela subir e descer lentamente, evidenciando que estava mergulhada em um sono profundo. V mordeu o lábio:
—Perdoe-me. Eu fui descuidado e permiti que minha presença contaminasse seu santuário e magoasse você. Nunca fui muito articulado para certos assuntos. Eu sou um guerreiro... Ou pelo menos era a alguns dias atrás.
A face de Inanna não se alterou. V apertou a mão dela e fechou os olhos:
—O que posso fazer para trazer você de volta? Como posso me redimir?
Mas há apenas silêncio e o som do vento na copa da grande árvore do farol. V subiu na pequena cama e deitou-se ao lado da jovem, puxando-a devagar para si e aninhando o corpo dela ao seu. Ele aspirou o cheiro de seus cabelos e percebeu que aquele perfume que sentiu antes estava fraco, como se a luz dela estivesse se apagando aos poucos. Ele murmurou:
—Ouça minha voz. Abandone esse lugar escuro e volte para aqueles que amam você...
V recordou-se de um poema que sempre lia e recitou-o próximo ao ouvido da jovem:
“Amor e harmonia se combinam,
E em volta de nossas almas se entrelaçam
Enquanto teus ramos se misturam com os meus,
E nossas raízes se unem.
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"Alegrias sobre nossos galhos se assentam,
Chilreando alto e cantando docemente;
Como riachos suaves sob nossos pés
Inocência e virtude se encontram…”
O homem tinha as faces quentes e os olhos marejados. Jamais se sentiu responsável por alguém ou alguma coisa que não estivesse diretamente ligada à sua busca por poder. Apertou Inanna contra si e sussurrou:
—Volte pra mim...
Continua...
OBs* O trecho recitado por V pertence ao poema "Song", de William Blake. As obras desse escritor estão liberadas para domínio público e acessíveis na internet para consulta e download.
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